f-4-idfAo final da Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, os israelenses esperavam que a afirmação de sua superioridade militar e a conquista de territórios sírios, jordanianos e egípcios, facilmente defensáveis, obrigasse os países árabes vizinhos a abrir negociações de paz e a reconhecer o Estado de Israel.

Por isso, não estavam dispostos a fazer concessões. Três meses depois, em Cartum, no Sudão, uma conferência dos Estados árabes tomava a resolução de não reconhecer, não firmar a paz, nem sequer negociar com Israel. A intransigência de ambos os lados preparava o terreno para novos conflitos.

Após a Conferência de Cartum, Nasser afirmou que a calmaria era temporária e duraria enquanto interessasse aos egípcios. Sua estratégia previa o desgaste dos israelenses numa guerra de atrito, de posições, fogueira a consumir os recursos humanos e a economia de Israel. Seu projeto foi desenvolvido do outono de 1967 a agosto de 1970, intensificando-se a partir da primavera de 1969.

mig-21_egitoOs combates recomeçaram em julho de 1967, três semanas após o término da Guerra dos Seis Dias, e reafirmaram a superioridade israelense. Em setembro de 1967, teve início a fase de “reabilitação defensiva”, que envolveu combates de artilharia pesada através do canal de Suez. As cidades de El Qantara, Ismaília e Suez foram virtualmente destruídas; cerca de 750.000 refugiados deslocaram-se para o interior do Egito. Em 21 de outubro, o contratorpedeiro israelense Eilat foi afundado por mísseis terra-terra lançados de um submarino ancorado em Port Said, a 24 km de distância do alvo. A resposta israelense veio quatro dias depois, com o bombardeio das refinarias de petróleo de Suez, acarretando um prejuízo avaliado (por fontes egípcias) em US$ 54 milhões. Somada aos prejuízos com o fechamento do canal de Suez e ao colapso da indústria turística, a perda levou o Egito à beira da falência, de que foi salvo pela injeção de capitais árabes e soviéticos.

Em novembro, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 242, segundo a qual Israel se retiraria dos territórios ocupados em 1967, em troca do reconhecimento de sua soberania pelos Estados árabes. Todos os interessados aceitaram “em princípio” a resolução — e nada fizeram para efetivá-la.

ga-10Em setembro de 1968, quando desencadeou as operações de “defesa ofensiva”, Nasser dispunha de 150.000 homens bem adestrados na área do canal, além de farto material soviético: armamento antiaéreo, aviões MiG-21 e carros de combate T-55. Os bombardeios foram intensificados e patrulhas passaram a cruzar o canal e a minar o Sinai. Em represália, os israelenses decidiram atacar o interior do Egito. Em 31 de janeiro de 1969, foram explodidas pontes sobre o Nilo em Qena e Nag Hammadi, a 480 km ao sul do Cairo, e bombardeada uma hidrelétrica da região. Desnorteados, os egípcios diminuíram o ritmo de suas operações; os israelenses aproveitaram a pausa para reforçar suas defesas, construindo postos de observação à prova de bombas na área do canal, destinados a abrigar quinze fortes guarnições.

A luta recobrou intensidade em março de 1969. Pouco depois, em 1° de maio, Nasser rejeitou publicamente o cessar-fogo que terminara com a Guerra dos Seis Dias. Exasperados com as baixas cada vez mais numerosas, os israelenses decidiram empreender seus próprios ataques-surpresa. Utilizariam, além disso, sua aviação como “artilharia aérea”, numa espécie de duelo com a artilharia terrestre do inimigo.

Em 19 de julho, comandos israelenses atacaram o aparentemente inexpugnável forte de artilharia costeira da ilha Verde, no golfo de Suez, infligindo sérios danos à guarnição e retirando-se após explodir suas armas e instalações defensivas. Em dezembro, um espetacular ataque de helicópteros destruiu o complexo de radares em Ras Ghareb. Os israelenses apoderaram-se de sofisticados aparelhos de controle e acompanhamento de alvo para os mísseis terra-ar (SAM) P12 e P15, recém fornecidos pela União Soviética. Esse equipamento altamente sigiloso foi encaminhado aos pesquisadores dos exércitos da OTAN, empenhados no desenvolvimento das chamadas contramedidas eletrônicas para a neutralização dos mísseis.

Ilyushin Il-28 ataca posições israelenses.
Ilyushin Il-28 ataca posições israelenses.
Tanque israelense destrói radar egípcio.
Tanque israelense destrói radar egípcio.

O mais audacioso ataque israelense foi sem dúvida a “invasão” do Egito, em setembro de 1969. No dia 9, barcaças israelenses atravessaram o golfo de Suez e desembarcaram unidades especiais em território egípcio. Seu armamento era incomum: quatro carros de combate soviéticos T-55 e três blindados APC BTR-50, capturados durante a Guerra dos Seis Dias. Tais veículos não despertaram suspeita — até o momento em que abriram fogo. Durante oito horas o grupo de combate percorreu cerca de 50 km ao longo da costa, destruindo instalações de radar, atacando postos avançados e acampamentos e causando centenas de baixas aos egípcios. Quando estes começaram a coordenar sua resposta, os comandos reembarcaram e cruzaram novamente o golfo, sob a proteção da Força Aérea Israelense. A incursão teve enorme impacto psicológico: Nasser sofreu um ataque cardíaco após receber a notícia e em seguida demitiu o chefe do Estado-Maior, o comandante-chefe da Marinha e o comandante do Setor do mar Vermelho.

Por mais efetivos que se revelassem esses ataques, a decisão de maior alcance foi o uso, a partir de julho, da Força Aérea para fazer frente à artilharia egípcia. A IAF logo conquistou a superioridade aérea sobre o canal de Suez; em seis meses destruiu 48 aviões, perdendo cinco. Além disso, devastou instalações de artilharia, de radar e de mísseis soviéticos terra-ar (SAM) ao longo do canal.

O míssil terra-ar SAM-2, bastante utilizado nesse período, tinha alcance de até 25 km. Sua potencialidade e seus defeitos eram bem conhecidos, pois fora utilizado na Guerra dos Seis Dias e no Vietnã; os israelenses sabiam que era possível neutralizar eletronicamente seu sistema de radar e, sobretudo, que era incapaz de seguir certos movimentos evasivos realizados pelo avião-alvo. O resultado é que os SAM-2 foram varridos da área do canal. Os poucos aviões israelenses perdidos foram abatidos por armas antiaéreas convencionais, que protegiam as baterias de mísseis. Em janeiro de 1970, quando o Egito se encontrava desprotegido contra bombardeios aéreos, Israel tomou a decisão de lançar ataques a longa distância, selecionando alvos dentro de um raio de 40 km da cidade do Cairo. O objetivo era convencer a opinião pública de que Nasser estava perdendo a guerra de Atrito. Desesperado, este se voltou para a URSS; seu pedido foi logo atendido.

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A câmera automática de um MiG-21 registra os instantes finais de um Mirage israelense.
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A “invasão do Egito”…

Nos primeiros meses de 1970, começaram a chegar ao Egito mísseis SAM-3 de baixa altitude, bem mais eficazes que os SAM-2. Com eles vinha toda uma divisão soviética de defesa aérea: Moscou não confiava armamento tão sofisticado às mãos de seus aliados do Terceiro Mundo.

Recuperando a confiança, os egípcios deram novo impulso às hostilidades. Em fevereiro, seus homens-rãs afundaram um navio israelense no porto de Eilat e uma emboscada causou oito baixas a uma patrulha israelense. Mas a superioridade aérea de Israel permaneceu inquestionável: em fevereiro e março, cerca de vinte aviões egípcios foram derrubados em combates sobre o canal de Suez.

Para enfrentar a ofensiva aérea israelense, o aparato soviético no Egito teve de se tornar mais ostensivo. Em meados de abril, pilotos soviéticos começaram a dirigir patrulhas de combate em defesa do Egito central. Para evitar um confronto direto que conduzisse à escalada do conflito, a IAF renunciou a seus ataques de longa distância. Apesar disso, uma incursão no mar Vermelho, em 16 de maio, resultou no afundamento de um contratorpedeiro egípcio e um submarino. Em uma semana de bombardeios, iniciados em 30 de maio, a IAF lançou mais de 4.000 bombas.

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Uma bateria SAM de SA-2 silenciada por ataque aéreo israelense.
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Pilotos soviéticos recebem instruções antes de partirem para uma missão aérea contra Israel.

Derrotados nos ares, os soviéticos foram obrigados a repensar sua estratégia de defesa. Em lugar de dispor seus mísseis em baterias ao longo da costa, eles os concentraram num cinturão defensivo, 20 km a oeste do canal. Os mísseis foram reunidos em aglomerados de apoio mútuo; a defesa de baixa altitude era fornecida pelos canhões antiaéreos ZSU 23-4, controlados pelo radar, e por grande número de mísseis terra-ar de infantaria (SAM-7). A reorganização produziu seus primeiros efeitos em 30 de junho, quando dois Phantom israelenses foram abatidos.

No período subseqüente, Israel solicitou aos EUA equipamento eletrônico antimíssil e desenvolveu novas táticas para enfrentar a defesa soviética. As bases de mísseis seriam atacadas a baixa altitude, “de fora para dentro” — pois no interior estavam os núcleos de controle e comando. Dessa maneira, duas baterias de mísseis terra-ar SAM-2 foram destruídas ao preço de um Phantom.

Em 30 de julho, descartando seu papel defensivo, os pilotos soviéticos envolveram-se numa batalha aérea contra os israelenses. Foram abatidos cinco MiG-21, em revide aos danos causados a um Mirage.

Foi essa a última batalha da guerra de atrito. Nem os EUA nem a URSS estavam interessados num confronto e ambos trataram de refrear seus “aliados”. Em 8 de agosto, o Egito e Israel concordaram com o cessar-fogo. Os egípcios haviam sofrido cerca de 10.000 baixas nos primeiros sete meses de 1970; a trégua oferecia-lhes oportunidade de melhorar de situação. A última baixa egípcia no conflito foi o presidente Gamal Abdel Nasser, que faleceu no dia 28 de setembro de 1970, desgastado por três anos de confronto. Apóstolo do nacionalismo árabe, Nasser morreu antes de amadurecerem as conquistas estratégicas da guerra de atrito por ele impulsionada. Muitos historiadores israelenses acreditam que a política de bombardeio a longa distância foi um grave erro que teve como conseqüência imediata o estabelecimento do cinturão de defesa aérea soviético. Em 1973, no Yom Kippur (o Dia do Perdão), principal feriado religioso judaico, irromperia outro conflito armado e o esquema de defesa aérea montado em 1970 seria decisivo para a travessia egípcia do canal e a nova ofensiva contra os israelenses. Esse confronto, em certa medida, terminou empatado — e, por isso mesmo, alterou decisivamente a correlação de forças e o jogo de alianças no Oriente Médio.


FONTE: Guerra e Paz #4

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13 COMENTÁRIOS

  1. Texto incrível, parabéns Gio!

    Impressionante o tamanho do SA-2. hehe

    🙂

  2. 'Felomenal', diria o outro!

    Acredito que nenhum do dois se interesse por esse tipo de combate hoje, é inimaginável perdas de numerosos Rafales e F-35.

    Também, em minha opinião, as lições deste capítulo explicam as quantidades pornográficas de F-16 de Egito e Israel.

    • Eu gostaria de ter uma quantidade pornográfica de F-16 me protegendo.

      🙂

  3. Olha… se tem uma coisa que eu admiro e muito nos Israelenses é o pragmatismo.

    Lá parece que não tem mimimimi

    Os T-55 estavam disponíveis, por que não usá-los? Não pensaram duas vezes! Se eles tivesse capturado algum Mig-21 certamente teriam também usado contra os invasores. Eles lutam com o que tem e de forma bem racional.

    Brasil tem muito a aprender com Israel principalmente no campo de desenvolver tecnologia bélica. Israel não buscou a famosa independência tecnológica que os militares brasileiros adoram mencionar. Aliás eles compram muito armamento estrangeiro, porém conseguiram desenvolver seus próprios armamentos e os compram em larga escala sustentanto a indústria nacional.

    Além disso Israel desenvolveu sua própria indústria bélica que complementa os armamentos estrangeiros adquiridos e melhor do que isso.. eles aprenderam a modificar, melhorar e atualizar os armamentos estrangeiros.

    O F-35 Israelense tem tudo para ser uma versão modificada pelo Tio Jacó que pode ser mais eficiente até do que a versão do Tio Sam

    • Os israelenses focaram na coisa certa, ou seja, na munição. De nada adianta ter um super-master-mega Gripen e munição para duas horas de combate. Quem quer ser independente tem que ao menos produzir suas próprias bombas e mísseis!

    • O companheiro tem razão naquilo que escreve, mas que jeito davam 38 mil milhões (bilhões) de dólares de ajuda militar à indústria brasileira…

  4. Muito bacana a matéria ! Principalmente por mostrar as fotos do lado árabe . Tenho muitos livros de aviação , mais foi a primeira vez que vi uma foto do Mirage sendo abatido . Se não me engano a unica foto que tenho de um avião de Israel sendo abatido e de um F-4 e mesmo assim na guerra de 1982 .

  5. Matéria muito boa! Especialmente por abordar a lendária operação Rimon 20, quando os israelenses emboscaram e abateram 5 Migs-21 pilotados por soviéticos.

    • E assim fizeram cair por terra o mito que os árabes eram abatidos às centenas por não os saberem utilizar…

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