No dia 8 de agosto de 1987, caças F-14 da Marinha dos EUA abriram fogo contra a IRIAF.

Quando estreou em 1974, o Grumman F-14 Tomcat deveria substituir o McDonnell Douglas F-4 Phantom II na Marinha dos EUA. Essa substituição ocorreu gradualmente, o que significou que Tomcats e Phantoms voaram lado a lado por mais de uma década.

O Phantom e o Tomcat também voaram lado a lado com a IRIAF (Islamic Republic of Iran Air Force – Força Aérea da República Islâmica do Irã). Juntos lutaram contra os guerreiros aéreos de Saddam Hussein durante a Guerra Irã-Iraque, consolidando uma parceria duradoura que continua até hoje naquele país.

Depois de anos voando juntos no mesmo lado das linhas de batalha, o Tomcat e o Phantom acabaram se enfrentando no dia 8 de agosto de 1987. Foi também durante este confronto que os Estados Unidos dispararam seus primeiros tiros contra o Irã desde o rompimento das relações no final dos anos 1970.

Apenas algumas semanas antes, os Estados Unidos haviam iniciado a Operação Earnest Will. Depois de anos de ataques contra navios mercantes por parte do Irã e do Iraque, o Kuwait pediu proteção para seus navios enquanto transitavam pelo Golfo Pérsico e para destinos no exterior.

Os Estados Unidos intervieram e aceitaram a responsabilidade de salvaguardar os petroleiros kuwaitianos, escoltando o primeiro comboio no dia 24 de julho de 1987 e o último no dia 26 de setembro de 1988.

A operação de escolta foi o início do envolvimento militar norte-americano com maior intensidade no Golfo Pérsico. Níveis cada vez mais substanciais de poder aéreo e naval foram mobilizados para a região, com um grupo de batalha de porta-aviões posicionado fora do Golfo na área conhecida como “Estação Gonzo”.

O Battle Group Delta, capitaneado pelo porta-aviões USS Constellation, estava estacionado na estação Gonzo, no Golfo de Omã, e fornecia cobertura aérea para Earnest Will desde o primeiro comboio em julho.

Desde o início, o Irã se envolveu em ações provocativas para a operação. No dia 24 de julho de 1987, quatro McDonnell Douglas F-4 da IRIAF chegaram a 24 km do comboio e foram iluminados pelos radares de tiro dos F-14 que faziam a PAC. Parecia apenas uma questão de tempo antes para um confronto.

As coisas quase chegaram ao auge no dia 8 de agosto. Naquela manhã, um comboio de três petroleiros atravessou o Estreito de Ormuz, a caminho do Kuwait. Eles foram escoltados pelo destróier Kidd e pelas fragatas Jarrett e Crommelin. O cruzador Valley Forge, equipado com sistema Aegis, também participou da escolta durante o trânsito do estreito.

O monitoramento do comboio a partir do céu foi realizado por um Lockheed P-3C Orion especialmente equipado. Projetados como plataformas anti-submarinas, os Orions que voavam, a partir de Omã, faziam parte de um programa de projetos especiais com o codinome “Reef Point”, e realizavam missões de reconhecimento e vigilância em apoio a Earnest Will.

Além do monitoramento visual e eletrônico da atividade militar iraniana, o P-3 também procurava por quaisquer indicações de lançamentos de mísseis Silkworm.

Enquanto o comboio atravessava o estreito, Valley Forge e um avião de alerta antecipado Grumman E-2C Hawkeye detectaram duas aeronaves decolando de Bandar Abbas, na costa sul do Irã, no Golfo Pérsico e posição estratégica no Estreito de Ormuz. Calculando a localização da base aérea de origem, velocidade e altitude, os contatos eram aparentemente de caças F-4. Eles pareciam estar indo direto para o P-3, que estava ao sul, de costas para os aviões iranianos.

Numerosas tentativas de contatos por rádio de Valley Forge foram ignorados. Embora o Orion estivesse sob escolta de caças, eles não podiam deixar o indefeso P-3, então um Hawkeye vetorou dois F-14A que estavam numa PAC na extremidade leste do Estreito de Ormuz.

Os F-14 eram tripulados pelo Tenente-Comandante Robert Clement, líder da PAC, o Tenente William “Bear” Ferran, seu ala. Foi o RIO (oficial de interceptação radar) de Ferran que inicialmente fez contato com os caças da IRIAF, detectando-os no poderoso radar AWG-9 do Tomcat a uma distância de 56 km.

Os F-4 estavam baixos, a 200 m. Quando a distância diminuiu para 45 km, eles subiram para 600 m de altitude.

Ferran tentou adquirir visualmente os Phantoms através do Sistema de Câmeras de Televisão do F-14, mas a notória neblina do Golfo tornou isso impossível.

Enquanto isso, os dois lados estavam se aproximando rapidamente, com as regras de combate da Marinha dos EUA exigindo que os caças tivessem que esperar até que os iranianos estivessem dentro de 16 km antes de atirar.

Com a distância dos Phantoms diminuindo rapidamente para o P-3, os pilotos da Marinha estavam convencidos de que os iranianos eram uma ameaça ar-ar real. Ferran travou num dos F-4, lançando um AIM-7 Sparrow.

Mas o míssil não funcionou e caiu livremente na água. Clement disparou outro Sparrow, seguido por outro míssil de Ferran. Ambos os mísseis pareciam ir corretamente em direção ao alvo.

Depois de ver o que ele acreditava ser a detonação de um míssil, Clement comandou uma virada para longe dos Phantoms. Por um momento, isso pareceu um movimento perigoso, já que os F-14 tinham virado as costas para um F-4 que ainda podia atirar neles.

Os Tomcats se esforçaram para baixar a altitude, soltando chaffs e flares ao longo do caminho para frustrar qualquer tentativa dos iranianos de atacá-los. O dia não prosseguiu com mais nenhum incidente. O P-3 conseguiu continuar sua missão sem incidentes e os F-14 voltaram para o Constellation.

Até hoje, ainda não está claro se os mísseis dos Tomcats encontraram o alvo. Porque os Tomcats se afastaram e escaparam após supostamente testemunharem uma detonação, não havia como confirmar um abate. Na verdade, o incidente é digno de nota, uma vez que a identificação visual nunca foi estabelecida e há dúvidas sobre se os contatos do radar constituíam F-4 iranianos ou algo mais.

Como o historiador David Crist descobriu, oficiais que analisaram o incidente, concluíram que o contato radar era na verdade um C-130 iraniano (talvez numa missão de reconhecimento) e, portanto, não representava ameaça para o P-3, muito menos para qualquer outra aeronave ou navio.

Quase 20 anos após o incidente, no entanto, um controlador que tinha estado a bordo do E-2 que tinha vetorado os F-14, disse que “não havia erro e que eram sim caças F-4“, mas que um C-130 estava no ar ao mesmo tempo.

Os iranianos, estranhamente, não emitiram nenhum comunicado sobre o incidente. Quando as notícias do incidente começaram a ser veiculados pelos jornais dos EUA, o governo Reagan minimizou o envolvimento, preocupado com o potencial de escalada.

VF-21

As autoridades norte-americanas comentaram o incidente, embora nunca confirmassem explicitamente sua ocorrência, com o secretário de imprensa Marlin Fitzwater se referindo a ele como “o incidente que não estou confirmando“. Outras autoridades chegaram a sugerir que os contatos de radar não eram iranianos ou nem sequer eram aeronaves para começar.

Se a última teoria fosse verdadeira, confirmaria, ironicamente, que os F-14 realmente haviam encontrado “fantasmas” naquele dia de agosto de 1987…


FONTE: War is Borin


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3 COMENTÁRIOS

  1. No texto diz que "os contatos (no plural) iranianos pareciam voltar à base" após o evento, e antes cita que o E-2C plotou 2 alvos decolando de Bandar Habbas. Na minha opinião o que viram foi o próprio míssil explodindo.

  2. Não se tem notícia de um aviador americano, em combate, ter cometido a barbeiragem de lançar um míssil de curto alcance (IR) após um colega ter lançado um de médio alcance, mas me parece que isso pode ter ocorrido, nesse caso: daí, o segundo míssil, o Sparrow do Mr Clement, pode ter sido abatido pelo Sidewinder do Mr Ferran (já que o texto não diz de qual tipo era e nem saibamos se alguma autoridade naval de lá teve "interesse" em divulgar)…

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