Há exatos 50 anos, o Capitão Robert Hickman decolava da Base Aérea de Barksdale em um avião espião U-2. No dia seguinte, agricultores de uma área remota da Bolívia encontraram os destroços de um estranho avião e os restos de seu piloto.

Cinquenta anos depois, o voo fatal do Capitão Robert continua sendo uma obscura nota de rodapé da Guerra Fria. Cada vez menos pessoas se lembram da tensão daqueles dias, quando parecia que o mundo estava a um passo da aniquilação. Menos ainda sabem como era perigoso voar sobre espaço aéreo inimigo a bordo de um avião-espião.

A missão

A missão de Hickman era voar em torno de Cuba para reunir dados de Inteligência. A política dos EUA proibia vôos diretos sobre o país, que havia sido o foco de uma crise internacional que levou os EUA e a União Soviética à beira de uma guerra nuclear apenas alguns anos antes.

Quando Hickman não conseguiu fazer o check-in programado no Golfo do México e não pôde ser contatado, o pessoal do Joint Air Reconnaissance Control Center supôs que ele estava incapacitado. Logo o temor de que Hickman estivesse com algum problema e que poderia sobrevoar Cuba, colocando os soviéticos em alerta e provocando uma resposta armada, espalhou-se pelo comando.

Em Key West, Flórida, John Newlin e outros pilotos estavam passando a tarde em um pequeno trailer, a poucos metros de seus aviões estacionados. O trabalho deles era decolar rapidamente se uma aeronave de reconhecimento estivesse ameaçada. Quando o sino dentro do trailer tocou logo após as 13hs, Newlin correu até seu McDonnell Douglas F-4 Phantom e em três minutos e meio o jato rugia para fora do hangar. Para Newlin era só mais um alerta de treinamento, assim como outros.

Quando o controlador me deu rumo e distância, fiquei chocado“, disse ele.

Embora ele não soubesse disso na época, a missão de Newlin era abater o U-2 de Hickman antes que ele passasse por Cuba. Ele subiu mais de 16.700 m em busca do avião e recebeu autorização para disparar, mas antes de chegar ao alcance, ele foi chamado de volta por medo de que seu avião violasse o espaço aéreo cubano. Newlin retornou a Key West e só então foi informado que seu alvo era um U-2 dos EUA.

Alguns dos 25 MiG-23BN que foram fornecidos a Cuba para complementar os veteranos MiG-17. Um número desconhecido de aparelhos MiG-27 também foram fornecidos.

Muitos anos depois, Newlin aprendeu alguma coisa sobre o piloto que foi designado para abater. Ele escreveu um artigo para a revista Air & Space sobre a experiência em abril, o que o levou a entrar em contato com a família Hickman.

O Capitão Hickman estava na USAF já havia 10 anos, mas ele estava planejando sair e já havia feito e sido aprovado em testes para se tornar um piloto de linha aérea comercial. Ironicamente, aquele era seu ultimo voo sob as cores da USAF, pois receberia sua dispensa ao final do dia.

O acidente

Hickman não morreu na queda, mas em pleno voo. Os investigadores determinaram que Hickman havia desmaiado e morrido por falta de oxigênio. Seu avião sobrevoou Cuba – felizmente sem nenhuma resposta dos soviéticos – e continuou para o sul até ficar sem combustível, a mais de 5.000 quilômetros de sua decolagem. A busca por Hickman cobriu dezenas de milhares de Km² e incluiu aviões especialmente equipados, normalmente usados na recuperação de astronautas. Não foi a tecnologia de ponta que o encontrou, mas os olhos dos agricultores que trabalhavam em uma área remota da Bolívia. No dia seguinte ao acidente, eles chegaram à cidade de Oruro, depois de atravessarem o terreno acidentado com a carteira de identidade de Hickman e uma história sobre um acidente de avião.

Uma equipe da embaixada americana foi despachada para o local do acidente para confirmar se era o avião era de Hickman, enquanto um soldado boliviano vigiava seus restos mortais.

Todo o esquadrão de Hickman participou do funeral na Catedral São Francisco Xavier, em Alexandria. Ele está enterrado no cemitério nacional de Alexandria, em Pineville. Ele tinha 32 anos de idade.

Ele estava fazendo o que amava“, disse a filha de Hickman, Teresa Jones. “Pelo que entendi, o que ele mais gostava de fazer era voar. E o que ele estava fazendo era pelo seu país. É algo de que se orgulhar.


FONTE: Town Talk


Dica do Amigo Vinicius Teixeira – Obrigado! 😉

6 COMENTÁRIOS

  1. A missão de interceptação e destruição do U-2, pelo piloto do F-4 (se o avião-espião ainda estivesse ao alcance e com o piloto inconsciente), seria fielmente cumprida, por puro profissionalismo, mas não pensem que abater, e possivelmente matar, um compatriota deixaria ileso o lado psicológico do militar atacante…

    Grandes ases, como Pierre Clostermann, não eram tão frios com todos os inimigos, embora os abatesse de ofício, pois o negócio era tira-los do ar — daí imagine um outro piloto, que não está(va) em conflito, tendo de agir contra um colega que não responde aos contatos.

    Seria superável, embora traumático, não interessando as motivações posteriores alegadas pelos superiores ou a história real.