A história de como a Força Aérea israelense armou uma cilada para os soviéticos durante a Guerra de Atrito.

Há 48 anos, um estado-cliente soviético – o Egito na época – estava em apuros. Humilhado pela esmagadora e incontestável vitória israelense na Guerra dos Seis Dias (1967), o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser escolheu confrontar Israel sem se arriscar a uma nova derrota em uma batalha aberta: começa a Guerra de Atrito (1967-70), com constantes barragens de artilharia egípcia e comandos nas posições israelenses ao longo do Canal de Suez.

Mas Israel, incapaz de vencer uma disputa acirrada com os mais numerosos países árabes, revidou com sua melhor arma: A Força Aérea Israelense (IAF), cuja blitzkrieg aérea fora decisiva para vencer a Guerra dos Seis Dias. A IAF usaria seus recém-adquiridos F-4 Phantoms em ataques aéreos de retaliação nas profundezas do Egito.

A resposta de Nasser foi recorrer à União Soviética, que construiu uma densa rede de defesa aérea de mísseis superfície-ar (SAM) ao longo do Canal de Suez. Enquanto a IAF abateu numerosas aeronaves egípcias, as baterias SA-2 e SA-3 derrubaram várias aeronaves da IAF e ameaçavam as operações aéreas israelenses ao longo do canal (uma situação muito parecida com o que os pilotos norte-americanos passavam em Hanói).

Inicialmente apenas os SAMs ameaçavam o poderio da IAF, mas então um novo jogador apareceu na área: esquadrões da Força Aérea Soviética, dotados com aeronaves MiG-21, começaram a voar patrulhas aéreas defensivas sobre o Egito.

Inicialmente, soviéticos e israelenses tiveram o cuidado de evitar um ao outro (assim como as aeronaves israelenses, americanas e russas fazem hoje na Síria). Mas, a situação não iria perdurar muito e aconteceu. Os soviéticos começaram a interceptar ataques israelenses e até danificaram um A-4 Skyhawk com um míssil ar-ar no dia 25 de julho de 1970. Entre os SAMs e os MiGs, os israelenses apelidaram a área ao redor do Canal de Suez de “Texas“, como no Velho Oeste.

Israel decidiu que os soviéticos precisavam aprender uma lição.

Os soviéticos não sabiam, mas a IAF contava com operadores de rádio israelenses que falavam russo e estes, monitorando as comunicações soviéticas, deram a IAF uma boa idéia da força que enfrentavam.

A Operação Rimon 20 seria uma cilada aérea. “O plano era bem simples”, escreve o historiador Shlomo Aloni. “Quatro Mirages voariam simulando o padrão de uma missão de reconhecimento de alta altitude sobre a área onde os MiG-21 pilotados por soviéticos patrulhavam. Cada par de Mirages armados voaria muito perto um do outro para simular na tela do radar egípcio uma típica missão de reconhecimento composto por dois Mirages desarmados“. Enquanto isso, Phantoms e Mirages estariam à baixa altitude sobre o Sinai controlado por israelenses, fora do alcance do radar egípcio e esperando para atacar se os soviéticos mordessem a isca e perseguissem os Mirages de “reconhecimento” mais perto do território israelense.

As tripulações selecionadas foram às melhores e mais experientes de Israel. As equipes da IAF estavam ansiosas, mas apreensivas. “Não tínhamos medo, mas não sabíamos o que esperar, porque os soviéticos tinham armas diferentes e mais avançadas“, lembrou um piloto israelense. “Disseram-nos que era hora de mostrar aos russos onde o ‘Texas’ fica“.

Então, na quinta-feira à tarde, 30 de julho, os soviéticos morderam a isca. De vários aeródromos no Egito, vinte e quatro MiG-21 foram acionados para interceptar o falso voo de reconhecimento. Suas presas fáceis se transformaram em dezesseis Phantoms e Mirage III. Em três minutos, cinco MiGs foram abatidos, dois por Phantoms, dois por Mirages e uma morte conjunta. Um MiG-21 foi destruído por um F-4 que lançou um AIM-7 Sparrow numa “extraordinária baixa altitude”, indo contra o manual de uso do AAM. Outra tripulação israelense “perseguiu seu MiG de 4.500 m para 600 m, onde foi destruído por um AIM-9D Sidewinder“, de acordo com Aloni. Os israelenses não eram apenas habilidosos, mas também sortudos: um piloto soviético acertou em cheio um Phantom, mas o AAM Atol (versão soviética do Sidewinder) não explodiu!

Houve uma justiça poética na vitória de Israel. No entanto, não foram os israelenses que se regozijaram (o comando da IAF optou por classificar a batalha como um combate contra egípcios), mas, inacreditavelmente, os conselheiros soviéticos foram alvo de chacota por parte dos egípcios. “Havia egípcios que não conseguiam reprimir o riso ante o estrondoso fracasso dos russos“, de acordo com um escritor israelense. “Após a batalha, Nasser foi forçado a emitir uma ordem explícita para não rirem dos instrutores soviéticos nos esquadrões”.

Os Estados Unidos, temerosos de que a situação fugisse do controle, logo trataram de negociar um cessar-fogo que acabaria com a Guerra de Atrito – mas não com a guerra entre israelenses e árabes. O cessar-fogo deixou as baterias SAM intactas e ao longo do Canal de Suez, algo que Israel logo iria se arrepender.

Três anos depois, os soviéticos se vingariam quando os SAMs que forneceram ao Egito e à Síria abateram vários aviões da IAF sobre o Canal de Suez e as Colinas de Golã. No entanto, os pilotos e conselheiros soviéticos não participariam, pois o presidente egípcio Anwar Sadat os expulsou em 1972.

 


FONTE: National Interest

32 COMENTÁRIOS

  1. A união soviética deveria ter ficado apenas com o acordo comercial. Quando teve a pretensão de ir para o corpo a corpo, mostrou que sua doutrina aérea é inferior. Foi esta mesma doutrina que quase fracassamou durante segunda guerra mundial, custando a vida de milhares de pilotos soviéticos. Atualmente não sei se a Rússia ainda age de forma ingênua e engessada. Parabéns Israel pela excelência e pela surra bem dada nos comunistas.