F 16 israel - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquianoFoi a primeira missão real do F-16.

Trinta e cinco anos após a Operação Opera (Operation Opera), o ataque aéreo israelense que destruiu o reator nuclear de Saddam Hussein em Osirak, ex-oficiais da IAF e agentes do Mossad revelaram detalhes até então desconhecidos.

O coronel da reserva Ze’ev Raz, que liderou o ataque em 7 de junho de 1981, disse que os técnicos da Força Aérea “reconheceram que voar até o Iraque, ida e volta, cerca de 3.200 km no total – era um pouco além do alcance de nossos jatos, então usamos todos os tipos de truques para ganhar mais alguns quilômetros“.

A Força Aérea de Israel não podia contar – e muitos oficiais israelenses não confiavam nos EUA – com os aviões-tanque dos Estados Unidos para o reabastecimento no meio do trajeto. Na época, a capacidade de REVO israelense estava ainda sendo implantada. Em 1982 Israel não tinha capacidade de reabastecimento aéreo. Neste mesmo ano o Mossad deu o alerta: “o reator nuclear iraquiano será ligado”.

O ataque não podia mais ser adiado. Debruçados sobre mapas, os técnicos e pilotos da IAF recorreram a métodos inovadores para aumentar o alcance dos oito caças F-16A designados para a missão.

Saddam and Chirac - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquiano
Saddam Hussein encontra Jacques Chirac. A França foi grande parceira do Iraque.

Inicialmente, a operação foi chamada de “Ammunition Hill“, mas quando o primeiro-ministro Menachem Begin percebeu que o líder da oposição, Shimon Peres, descobriu a operação, imediatamente ordenou seu cancelamento, mas os preparativos continuaram, sob um novo nome.

O nome ‘Opera’ foi escolhido aleatoriamente pelo computador“, disse o general da reserva David Ivry, comandante da IAF na época. Ivry disse que os primeiros sinais de que os iraquianos estavam construindo um reator nuclear foram vistos em 1976 ou 1977.

Gad Shimron, um ex-agente do Mossad, disse que a inteligência de Israel acompanhava de perto os esforços iraquianos para comprar equipamentos no exterior e seus planos para construir um reator. O objetivo inicial da Inteligência israelense era atrasar a conclusão do reator e verificar se um reator iraquiano completo teria a tecnologia necessária para a produção de plutônio.

Shimron disse que o Mossad reuniu grandes quantidades de informações sobre o progresso da construção do reator de Osirak. Ivry disse que o trabalho do Mossad atrasou a conclusão do reator iraquiano em até dois anos e meio. Shimron lembrou que o primeiro núcleo do reator, pronto para embarcar no pequeno porto de La Seyne-sur-Mer, no sudeste da França, explodiu em circunstâncias “misteriosas” e foi danificado além do reparo.

Ilan Ramon, o primeiro astronauta de Israel e que morreu no desastre do Ônibus Espacial Columbia em 2003, era na época um jovem oficial e único responsável pela navegação. Quando chegou o momento de atacar em Osirak, ele era o homem encarregado de preparar os mapas e examinar se os jatos que a IAF tinha no momento poderiam fazer a viagem de ida e volta. Ivry acreditava que os jatos poderiam facilmente chegar ao Iraque e bombardear o reator; o problema estava na volta.

IAF F 16 - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquianoArye Naor, secretária do governo de Begin, disse que o primeiro-ministro estava determinado a atacar o reator iraquiano “mesmo que fosse a última coisa que ele faria como primeiro ministro“. Para Naor, “um ou dois jatos não retornariam“. Antes do ataque, os pilotos escolhidos para participar da missão, receberam dinheiro iraquiano, caso tivessem de descer em solo iraquiano e precisassem fugir.

Depois que a operação foi adiada, Ivry escolheu um domingo para o ataque, achando que os especialistas nucleares franceses que estavam trabalhando na montagem do reator estariam em seu dia de folga semanal. Os pilotos foram instruídos a evitar combates ar-ar com os MiGs do Iraque se houvesse aviões civis por perto, pois a rota planejada passava não muito longe das rotas de voo dos aviões civis iraquianos.

Ramon, o piloto mais jovem da missão, disse em uma entrevista logo depois de voltar para casa: “Você sabe que pode terminar de duas maneiras, pode acabar com nada realmente acontecendo e todos retornando, ou pode acabar com um ou mais ficando por lá. Nós fomos como num comboio. Então, o primeiro eles vêem; O segundo eles visam; O terceiro eles fecham; E no quarto  eles atiram“.

Ramon foi o último piloto no comboio – o oitavo em duas células de quatro jatos.

Todo mundo sabe que o último é o que mais arrisca“, disse Raz. “É como um rebanho de antílopes sendo perseguido por um tigre. Os rapazes provocavam Ramon, dizendo que ele seria o único a ser interceptado. Então ele ficou estressado…Ele também não tinha experiência (Ramon nunca antes havia lançado uma bomba em uma missão real), mas ele voou muito bem e acertou seu alvo“.

Ele foi um bom piloto e um ótimo lutador“, disse Raz.

Moshe Melnick, que liderou uma formação de aviões interceptores que acompanharam os jatos de ataque, disse que os pilotos haviam sido convidados a anunciar através do sistema de comunicação depois de deixar o alvo que estavam seguros e sadios.

Um deles, eu acho que era Ilan Ramon, estava atrasado para anunciar as comunicações e houve longos segundos de silêncio. Estávamos todos preocupados por um momento, mas depois fez contato“, lembrou Melnick.

operação opera - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquianoO bombardeio do reator foi condenado pela comunidade internacional. A França, especialmente, ficou furiosa, tendo investido grandes somas em sua construção.

Mas Ivry lembrou que, em 1991, o secretário de Estado dos EUA Dick Cheney lhe deu uma foto aérea, em preto e branco, do reator bombardeado em ruínas. Cheney escreveu na foto: “Isso tornou nosso trabalho muito mais fácil“. O gesto silencioso e não público foi feito após o fim da primeira Guerra do Golfo.

A decisão de bombardear o reator nuclear no Iraque foi considerada por muitos meses e houve muitos obstáculos. Havia também muitas considerações, mas finalmente chegamos a um estágio no qual sabíamos que, se não atuássemos agora, seria muito tarde“.

O esquadrão de ataque consistiu em duas células de quatro F-16A, cada um com duas bombas de retardo Mark-84 de 907 kg, não guiadas. Os pilotos da missão foram: Ze’ev Raz, Amos Yadlin, Dobbi Yaffe, Hagai Katz, Amir Nachumi, Iftach Spector, Relik Shafir e Ilan Ramon.

Anatomia do ataque

Os preparativos para o ataque no reator continuaram paralelos a discussões secretas no governo. Begin insistiu que a decisão fosse unânime.

Ao mesmo tempo, a equipe do departamento de pesquisa verificou os planos para atacar o reator. Eles concluíram que era preciso destruir o núcleo do reator, a dez metros sob a cúpula.

O chefe do departamento era um jovem oficial, o Major Yitzhak Ben-Israel. Depois de inúmeros cálculos, Ben Israel e sua equipe perceberam que duas bombas gigantes e “burras” provavelmente fariam o trabalho, mas apenas para se certificar, os matemáticos recomendaram aumentar o número para dezoito. A decisão sobre o percurso de voo considerou a rota tinha de ser a mais curta possível devido a restrições de combustível e, na medida do possível, de estações de radar, assentamentos e observação no solo.

Entretanto, o departamento de operações da Força Aérea elaborou planos de contingência em caso de complicações. Possíveis locais de pouso para aviões Hercules localizados no coração do deserto, o Mossad obteve dinheiro iraquiano para ser usado por pilotos abatidos para subornar os reis do deserto, os beduinos, enquanto aguardavam resgate.

Nas semanas anteriores ao ataque, a Força Aérea ordenou repetidamente que seus aviões penetrassem no espaço aéreo jordaniano. A Jordânia na época estava em estado oficial de hostilidade com Israel. Na prática as relações da Jordânia com Israel sempre foram amigáveis. Os jordanianos ficaram furiosos com as violações de sua soberania, mas o efeito desejado foi alcançado: “Para se acostumar com o fato de que os aviões israelenses ocasionalmente atravessavam a fronteira”.

IAF F 16 Op Opera 706x432 - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquianoNa primavera de 1981, Israel recebeu informações sólidas: 70 kg de urânio enriquecido foram enviados para o reator que seria ligado em junho. Após, um ataque seria impossível. Não havia mais volta, chegara a hora de agir.

No dia 7 de junho de 1981, às 15h55min hora local (12h55min GMT), a operação foi iniciada. Os aviões israelenses saíram da base aérea de Etzion, voando no espaço aéreo jordaniano e saudita. Para evitar a detecção, os pilotos israelenses conversaram em árabe, com sotaque saudita enquanto estavam no espaço aéreo da Jordânia e disseram aos controladores aéreos jordanianos que eram uma patrulha saudita que havia saído do curso. Enquanto voavam sobre a Arábia Saudita, fingiram ser jordanianos, usando sinais e formações de rádio jordanianos. Os tanques de combustível externos logo que se esgotaram foram descartados sobre o deserto saudita.

reator - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquianoOs aviões israelenses atravessaram o golfo de Aqaba. Sem saber, o esquadrão voou sobre o iate do rei Hussein da Jordânia, que estava de férias no Golfo na época. Hussein avistou a formação e notou que os aviões carregavam marcas israelenses. Tendo em conta a localização, o título e o armamento dos jatos, Hussein rapidamente deduziu o reator iraquiano como o alvo mais provável. Hussein contatou imediatamente seu governo e ordenou que um aviso fosse enviado aos iraquianos. Contudo, devido a uma falha de comunicação, a mensagem nunca foi recebida e os aviões israelenses entraram no espaço aéreo iraquiano sem serem detectados.

Ao chegar ao espaço aéreo iraquiano, o esquadrão se separou, com dois dos F-15 formando uma estreita escolta para o esquadrão de F-16 e os F-15 (Cada F-15 estava armado com quatro mísseis Sparrow, quatro Sidewinders e um sistema de guerra eletrônica) restantes dispersos no espaço aéreo iraquiano como chamariz e ataque de reserva.

Sob o mais estrito silêncio de rádio, os F-16 desceram para 30 m sobre o deserto iraquiano, tentando voar sob o radar das defesas iraquianas. Um dos pilotos viu uma pessoa acenando para a formação, na qual ele acreditou ser um beduíno do deserto. Às 18h35min, hora local (14h35min GMT), a 20 km do complexo, a formação subiu para 2.100 m e entrou em um mergulho de 35 graus a 1.100 km/h. A 1.100 m, os F-16 começaram a liberar as bombas Mark 84 em pares, em intervalos de 5 segundos. Pelo menos oito das dezesseis bombas lançadas atingiram a cúpula reator.

F 16A netz - 36 anos da Operação Opera, o ataque israelense ao reator nuclear iraquianoEm Israel, aviões de vigilância e inteligência voavam o mais alto possível enquanto acompanham o desenrolar da situação, funcionando como plataformas de controle aéreo e estações de retransmissão de comunicações. As forças de resgate também estavam no ar. No total, setenta aviões e helicópteros participaram da operação.

Soubesse mais tarde que meia hora antes dos aviões israelenses chegarem, um grupo de soldados iraquianos que guarneciam as defesas antiaéreas, tinham deixado seus postos para uma refeição da tarde, desligando seus radares. Os aviões israelenses foram interceptados pelas defesas iraquianas, mas conseguiram se evadir do fogo antiaéreo. O esquadrão puxou forte e subiram para uma alta altitude seu retorno a Israel.

O ataque durou menos de dois minutos. De acordo com Ze’ev Raz, o líder da força de ataque, os pilotos israelenses recitaram o versículo bíblico “Joshua 10:12” quando eles estavam retornando à base.


FONTES: Israeldefense; Times of Israel; The Aviationist

Anúncios

14 COMENTÁRIOS

  1. Incrível como nem Jordanianos, Sauditas e Iraquianos interceptaram as Aeronaves na ida e na volta e também a grande distância que foi cobrida pelos Israelenses. Hoje acho que seriam ataques de mísseis de cruzeiro.

    • Eu posso até tá viajando na maionese, mas p/ mim tem muito mais 'segredos' ainda não revelados nessa história. Os países da região não viam c/ bons olhos o Saddam Hussein – ele não era confiável e sua personalidade já era conhecida – e ter armas nucleares poderia levá-lo a sonhos de dominação das nações árabes ou na pior das hipóteses levaria instabilidade p/ a região, e portanto ameaça ao comércio do petróleo ( subiria o preço, mas de que adiantaría se não pudessem escoar a produção ). Então seria assim tão impossível que numa negociação secreta via EUA, a Arábia Saudita ( talvez até a própria Jordânia – essa história do rei pode ter sido um álibi ) fizesse vista grossa aos aviões israelenses ? Se eliminaria uma iminente ameaça a estabilidade política e econômica, sem ferir a união dos povos árabes e sem envolver oficialmente os americanos. Viajei demais ?

      • Eu não duvido, até penso na mesma linha que você. Através de negociações deram sinal verde pra Israel, que também era o único com coragem pra realizar o ataque.

  2. Haja cálculo, navegação, frieza! Poucos se arriscaram tanto sem reabastecimento.

  3. Ótimo artigo, Giordani! Com direito até a causos kkkkkkk.

    Essa operação merecia um filme, em minha opinião.

  4. O negócio é ser parça do dono dos "porcos", e não é nem do presidente americano e sim do congresso, como os Sauditas kkkkk

    • O F-15A tecnicamente tinha capacidade CCIP, mas sua doutrina era totalmente outra (superioridade aérea). Logo poderia, mas não pratica não. O F-16 já havia sido desenhado para esse tipo de missão.

      Apesar que mais tarde Israel modificou alguns de seus F-15A para virarem caças-bombardeiros juntos aos F-15E.

  5. Consta também que na época o pessoal da então General Dynamics não acreditaram na façanha israelense e correram para as pranchas para reverem seus cálculos, se era possível mesmo tal ser realizado com seu "pequeno" jacto.

Comments are closed.