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Vista aérea do Aeródromo de Chabelley, no Djibouti (África) / Imagens: Google Earth

Visto do alto, o Aeródromo de Chabelley (Chabelley Airfield) é pouco mais que uma mancha cinzenta em um terrenho amarronzado. Observando a região com maior cuidado, entretanto, percebe-se algo mais intrigante construído sobre uma minúscula faixa de terra na pequena e empobrecida nação do Djibouti, onde o desemprego da população atinge inacreditáveis 60% e o produto interno bruto per capita é um dos menores do mundo.

Djibouti-mapImagens de satélite contam parte da história. Há alguns anos, este local isolado assemelhava a pouco mais do que uma solitária faixa de asfalto perdida no meio deste deserto desolado. Olhe atentamente hoje, no entanto, e você verá o que parece ser uma coleção de hangares, antenas parabólicas, e uma ampla variedade de aeronaves não tripuladas, com seus distintos formatos e cor características.

Sem o conhecimento da maioria dos americanos, e sem qualquer anuncio público a respeito do assunto, recentemente os EUA tomaram algumas medidas para transformar esta pequeno e discreto posto avançado em uma base de operações “duradoura“, considerada como peça chave  na condução da guerra secreta conduzida pelos comandantes militares do JSOC (Comando Conjunto de Operações Especiais / Joint Special Operations Command), na África e no Oriente Médio. Os militares tem sido categóricos a respeito de Chabelley, deixando de mencionar sua existência em sua lista pública de bases no exterior e recusando-se até mesmo a reconhecer que existem questionamentos a respeito do assunto. Os documentos oficiais, imagens de satélite e opinião de especialistas indicam, no entanto, que Chabelley tornou-se essencial para operações secretas com drones em toda a região.

Tim Brown, um membro sênior da GlobalSecurity.org e especialista em análise de imagens de satélite, observa que a operação a partir do Aeródromo de Chabelley permite aos drones americanos cobrirem o Iêmen, o sudoeste da Arábia Saudita, boa parte da Somália, e partes da Etiópia e sul do Egito.

“Esta base tornou-se muito importante por ser um o centro para a maioria das operações com drones no noroeste da África”, disse ele. “É vital. … Não podemos dar ao luxo de perdê-la. “

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Vista aérea do Aeródromo de Chabelley, no Djibouti (África), em abril de 2013 / Imagem: Google Earth

A transformação surpreendente desta guarnição praticamente desconhecida, localizada em um país que também pouco se conhece a respeito, está em consonância com as atividades militares americanas na África, onde o número de missões realizadas,  implementações de operações especiais, e postos avançados, tem crescido exponencialmente, sem que haja praticamente qualquer conhecimento externo a respeito do assunto.

A expansão das instalações em Chabelley e o consequente aumento de sua importância para os militares americanos começou em 2013, quando o Pentágono decidiu deslocar a sua frota de aeronaves não tripuladas, que até então era baseada em Camp Lemonnier, na capital do Djibouti (que leva o mesmo nome do país), para um local mais remoto no deserto.

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Vista aérea de Camp Lemonnier, no Djibouti (África) / Imagem: US DoD

Apesar de muito bem estruturado, Camp Lemonnier, também é muito visado, pois fica ao lado do aeroporto internacional da capital (Djibouti–Ambouli International Airport).

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Visão geral de Camp Lemonnier, em setembro de 2013 / Department of the Navy; CIA World Factbook / Imagem: GeoEye via Google Earth | The Washington Post

Como argumento para a mudança, foi afirmado que o governo do Djibuti, alarmado, solicitou aos americanos que as operações com os drones fossem transferidas devido a uma série de acidentes aéreos com essas aeronaves naquela localidade.

Inicialmente, todo o perímetro em torno daquele local desolado, que outrora serviu à Legião Estrangeira francesa, foi cercado com grades metálicas e concertina. O Pentágono, em seguida, solicitou ao Congresso que custeasse apenas a construção de instalações básicas, que permitiriam que operações temporárias fossem realizadas a partir daquele local, que não seria utilizado por mais de dois anos.

Em questão de tempo, entretanto, Chabelley seguiria o mesmo padrão adotado em Camp Lemonnier, que começou a ser construído de forma austera, até que, em virtude do atentado de 11 de setembro de 2001, as coisas mudaram e o crescimento foi vertiginoso. O efetivo saltou de 900 integrantes para 5.000, a partir de 2002. Mais de US$ 600 milhões já foi investido em infraestrutura, e uma área que começou com 88 acres possui atualmente aproximadamente 600. Camp Lemonnier é tão crucial para as operações americanas que o Pentágono paga ao governo local um aluguel anual de US$ 70 milhões, com contrato firmado até 2044.

Como a base cresceu, os céus sobre Lemonnier e o aeroporto vizinho tornaram-se cada vez mais congestionados e perigosos. Em 2012, uma média de 16 drones e quatro aviões de combate americanos decolaram ou pousaram lá todos os dias, além de aviões militares franceses e japoneses, e aviões civis. De acordo com uma investigação do jornal The Washington Post, esse cenário contribuía para um alto índice de erros por parte dos controladores de voo. Os djibutianos eram especialmente hostis aos americanos, ignorando as comunicações dos pilotos e forçando as aeronaves americanas a permanecerem sobrevoando do aeroporto até estarem com pouco combustível. Havia um ódio especial para as operações com os drones, o aumentava ainda mais o caos nos céus da região.

Seis aeronaves não tripuladas baseadas Camp Lemonnier foram perdidas em acidentes, incluindo um corrido numa área residencial da capital. Apesar dos EUA não terem considerado os controladores de voo djibutianos responsáveis pelos eventos, os funcionários do governo do Djibuti expressaram suas preocupações com a segurança das operações, tendo inclusive determinado que os drones fossem operados de outro lugar.

Na visão dos comandantes militares, a discrição de Chabelley, que fica a 10 km de Camp Lemonnier, era perfeita para abrigar as aeronaves não tripuladas, principalmente levando-se em consideração a natureza e a complexidade das missões realizadas.

Tim Brown, da GlobalSecurity.org, observa que Chabelley permite aos EUA manterem as missões envolvendo aeronaves não tripuladas praticamente no anonimato.”Eles são capazes de operar com mais privacidade, não em segredo absoluto, mas há muito menos chance de uma observação contínua a respeito do número de sortidas realizadas e na natureza das missões”, afirmou.

Dan Gettinger, o co-fundador e co-diretor do Centro para o Estudo de Aeronaves não tripuladas da Universidade de Bard, no estado de Nova York, e autor de um guia para identificação de bases de drones a partir da análise de imagens de satélite, concorda. “, Em Chabelley, parece que eles começaram com dois CAPs (patrulhas de combate aéreo / combat air patrols) – cerca de sete aeronaves, uma mistura de MQ-1 Predators e MQ-9 Reapers”, disse ele. “E desde então, temos realmente visto uma expansão, particularmente nos últimos dois meses; além de mais alguns hangares e a ampliação da infraestrutura para o pessoal como um todo “.

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Vista aérea do Aeródromo de Chabelley, no Djibouti (África), em outubro de 2013 / Imagem: Google Earth

Em meados do segundo semestre de 2013, a frota de drones dos EUA já havia sido transferida para Chabelley. Questionado sobre o assunto, o AFRICOM (Comando dos Estados Unidos para África) recusou-se a informar a quantidade e os tipos das aeronaves deslocadas para a nova base. Baseado em investigações anteriores, entretanto, já se sabia que dez MQ-1 Predators e quatro MQ-9 Reapers ficavam baseados em Camp Lemonnier, de forma que presume-se que essas aeronaves tenham sido transferidas para Chabelley. O Pentágono e o AFRICOM também se recusaram a comentar qualquer outro aspecto das operações na nova base, incluindo o fato do posto avançado temporário ter sido transformado numa instalação mais permanente. As razões pelas quais não são difíceis de entender.

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Nesta tomada aérea do Aeródromo de Chabelley em 2013 é possível distinguir claramente entre os dois tipos de drones presentes na base. Os MQ-1 Predators, menores, possuam asas cuja envergadura é de 14,8 m, enquanto nos MQ-9 Reapers a envergadura é de 20 m / Imagem: Google Earth

Ainda segundo Dan Gettinger, “a maior parte das missões realizadas a partir de Chabelley são de reponsabilidade do JSOC e da CIA”. Na opinião dele, as missões são focadas em inteligência, vigilância e atividades de reconhecimento, além de ataques contra posições de terroristas na Somália e no Iêmen, neste caso também auxiliando a campanha militar liderada pela Arábia Saudita.

Para não dizer que houve silêncio absoluto das autoridades americanas quanto às operações em Chabelley, recentemente a Força Aérea dos EUA (USAF) divulgou um relatório detalhando um incidente ocorrido em fevereiro de 2015 em que um MQ-9 Reaper caiu durante uma missão de inteligência, vigilância e reconhecimento na área de responsabilidade do AFRICOM. De acordo com as informações, um Reaper pertencente ao 33º Esquadrão de Operações Especiais Expedicionárias (33th ESOS), após ter decolado de Chabelley e percorrido cerca de 480 km (300 milhas) da base, apresentou problemas mecânicos e caiu em águas internacionais.

Apesar da suposta natureza temporária de Chabelley, o AFRICOM determinou recentemente uma ampliação das operações realizadas a partir  do aeródromo, razão pela qual os EUA assinaram um acordo com o governo do Djibouti a fim de estabelecer aquela base como “permanente”. Também foram instalados no local novos sistemas de segurança automatizados, incluindo um conjunto complexo de sensores integrados, dispositivos de imagem térmica, radar, câmeras e dispositivos de comunicação – a fim de fornecer maior proteção para as instalações locais.

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Vista aérea do Aeródromo de Chabelley, no Djibouti (África), em março de 2015 / Imagem: Google Earth

No último mês de junho o Pentágono garantiu a alocação de US$ 7,6 milhões para a ampliação da cerca de proteção da base e melhoria na infraestrutura local. Em setembro passado uma empresa já foi contratada para a execução dos serviços. Questionado sobre a expansão das atividades no Aeródromo de Chabelley, o AFRICOM tem se mantido em silêncio a respeito do assunto.

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EDIÇÃO: Cavok

IMAGENS: Retratam o evento

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20 COMENTÁRIOS

  1. Os militares do USA devem ficar muito irritados com estes satélites…

    • Creio ser mais uma questão de equilibrio Junioriung, pois na Africa a China já entrou com o pé na porta, e tem diversas nações em sua dependencia devido aos investimentos e empréstimos dados aos países locais.

  2. Será que a presença dos drones é para garantir a segurança de odontologistas amantes de tiros de fuzil na cabeça de Leões Selvagens? Assim eles podem caçar em segurança!
    Desculpe… não tive como não fazer a piadinha infame.

    • Infame e, se me permite, um tanto quanto sem graça. :-/

      Sobre a temática, li recentemente um livro chamado "Guerras Sujas", do Jeremy Scahill. Ele aborda essa questão do Djibouti como centro da guerra ao terror, e pra quem se interessa sobre o tema, #ficaadica.

      • Sem graça foi a ideia desse acéfalo em sair dos EUA pegar um avião para caçar um animal em um país mergulhado na miséria como é o Zimbábue.
        E mais infame ainda é os EUA pagar 70 milhões de dólares anuais pelo aluguel dessa base.
        Falando em valores a cabeça do Cecil, dizem que custou 50 mil dólares.
        Infelizmente a miséria na África é tanta que qualquer papel com a cara do Benjamin Franklin já é considerado uma riqueza.

        • Por mais que eu não concorde em caçar um animal que não revida o tiro…

          É um esporte legítimo..

          O Brasil agora que por uma questão emergencial liberou a caça aos javalis, mas pelo nro de caçadores homologados pelo IBAMA e o EB todos iremos ter problemas com javalis em futuro próximo.

        • Infamia maior ainda será se o governo local nao usar bem essa renda.

  3. O mapa mostra o porque da importancia do lugar ahaha, o "chifre da Africa" é estratégico.

    • Perfeito, Gal…
      Estratégico para os EUA na região, assim como a Síria é para a Rússia. Ambos usam de todos os meios disponíveis para exercer sua influência e defender seus interesses. Interessante é que o único demonizado pela mídia ocidental é o Putin. Algo do tipo: o sujo falando do mal lavado.

    • Como a costa Ocidental da África era uma bela área para o Brasil entrar e mostrar grandeza…

      Massssssssssss

      Só mandar o Lulladrão lá vender produto da Odebrecht não deu muito certo..

      Perdemos esta para os chinas também.

  4. Ahhh se os Argentinos tivessem Google Earth em 1982….

    Talvez a história fosse outra. SQN!!!

  5. Na esfera jurídica internacional se numa dessas operação que visa assassinar um terrorista utilizando um Drone e num ataque ele eram feio e acabam matando uma pessoa inocente, o Governo do Djibouti pode ser responsabilizado por apoiar dar guarida ou ser colaborador nesses crimes contra um cidadão desse país ou de outros da região.

  6. Bom dia a todos.
    Numa das fotos aparecem 6 aviões de grande porte,identifiquei 2 C-130, e há um jato bimotor(C-40 ?)
    O quadrimotor turbo hélice pronto para taxiar não sei o que é, parece um Antonov-12 ,seria de um país vizinho( Eritreia,Etiópia?) será que existe esse nivel de colaboração?
    Outra duvida é quanto aos aviões entre os C-130 e o jato bimotor.
    O que são?
    A fuselagem é longa,as asas menores que as dos C-130,não enflechadas e parecem-pelo menos na foto parecem terminar 'quadradas',em angulo reto.
    P-3 Orion?
    Palpites?

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