O pequeno estado do Oriente Médio é um gigante na industria aeroespacial, mas Israel não produz seus próprios caças.

O único avião construído no país foi o IAI Kfir, resultado da busca pela independência bélica. O Kfir nada mais era do que um Mirage III com motor J79 e aviônica desenvolvida com base nas necessidades locais. O Kfir basicamente solucionou as deficiências do delta francês.

A segunda aeronave a ser desenvolvida em Israel foi o IAI Lavi, mas este, após os primeiros vôos dos protótipos, acabou cancelado por causa da política EUA-Israel. O avião seria um “outro F-16” e competiria no mercado internacional justamente no nicho do Fighting Falcon. O Governo dos EUA já havia elegido o F-16 como seu produto para seus aliados, retirando do caminho o F/A-18L e o F-20. Então chegou a vez de calar o Lavi.

Como o Lavi usava motorização norte-americana, se os israelenses continuassem com o programa, o custo de aquisição seria astronômico (os japoneses sentiram na pele, ou melhor, no bolso os custos do F-2).

A solução encontrada por Israel considero a mais acertada. Se não podem projetar e construir seus próprios aviões por causa de custos, optaram por serem independentes em armas e aviônicos

Israel compra no exterior somente o airframe e a motorização. Armamento e tecnologia embarcada, tudo nacional. O país se tornou referencia mundial em aviônica de ponta, não só no que tange a militares, mas também no mercado civil.

Um dos programas mais emblemáticos da IAF (Israeli Air Force) e que demonstra bem o quanto sua indústria evoluiu, foi o F-15 Baz, que serviu como um impulso ao F-15E da USAF. Enquanto os americanos viam nos módulos FAST apenas tanques conformais, os israelenses viram nele um tanque capaz de aumentar o alcance e a carga de combate. Israel acabou projetando o seu próprio F-15E, o F-15I Ra´am, que é considerado por muitos analistas militares superior ao F-15E (antes chamado de Strike Eagle).

Israel também modificou seus F-16, criando uma versão recheada de eletrônica avançada e usando armas projetadas localmente, chamada de F-16I Sufa.

F-16I ‘Sufa’
Kfir

A ideia do texto não é analisar as armas israelenses, mas mostrar o quanto objetivo foram eles. Não produzem aviões, nem motores, mas são auto-suficientes naquilo que realmente importa. Em 1982 os argentinos, aqui, bem pertinho do Brasil, sentiram na pele o que é a dependência tecnologia. Na hora que mais precisaram, os franceses foram embora e deixaram os técnicos com um monte de problemas para resolverem nos Mirages III e Super Etendards e o que é pior, o Exocet, um míssil que na época era o estado-da-arte, inoperante. Graças a espionagem e muito dinheiro, os argentinos conseguiram colocar seis em uso. Mas vejam o tempo que isso consumiu, a quantidade de recursos que tiveram de ser alocados na tarefa, conquanto se o país fosse independente na produção de um míssil anti-navio, bastava conectar no avião e ir para o combate.

Imaginemos uma situação hipotética. Por algum motivo os EUA declaram embargo militar à Israel. E daí? Os israelenses vão focar na missão de manter os aviões voando. Motores eles fazem a manutenção em casa e peças também. Agora, imagine se o país depende-se de armas importadas e de um software estrangeiro? Ficava como a Argentina no pós-guerra, vendo seus aviões apodrecerem por falta de peças e manutenção adequada e desdentados, voando só com bombas-burras produzidas numa fábrica de panelas.

Israel fez a coisa certa. Israel não criou tecnologia. Aprendeu com o que tinha e focou onde era preciso.

A tecnologia de Israel está presente na Força Aérea Brasileira, tanto embarcada como aviônicos quanto em armamento, como os misseis ar-ar Python IV.

Israel está neste exato momento recebendo o F-35, um verdadeiro jato stealth de Quinta Geração, mas mais uma vez, a versão Israelense difere dos demais, justamente por não depender da tecnologia estrangeira, pelo contrário, muitos dependem da tecnologia de Israel.

Um país que deu um salto significativo na virada do século foi à Rússia. Num acordo governo-a-governo (ambos os países negam) que envolvem tantas variáveis e interesses, Israel forneceu tecnologia de ponta aos russos em troca de informações e um MiG-29…

O quê Israel fez deveria servir de exemplo para as nações do Mundo. “Eu compro seu avião, mas integro o meu sistema”. Um país que se beneficiaria com isso é justamente o Brasil. A FAB é usuária de prateleira. Não há necessidade, nem quantidade suficiente que justifique a indústria nacional fabricar um caça. Uma coisa é a Índia investir US$ 7,5 bi e produzir 250 Tejas. Outra é investir US$ 7 bi e receber 36 caças. O que está sendo gasto com um novo caça, poderia muito bem ter sido melhor aplicado no desenvolvimento de armas, sensores e softwares.


– Giordani –

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19 COMENTÁRIOS

  1. Artigo magnífico Gio! Mostra de forma cristalina não apenas o acerto da política israelense em produzir aquilo que realmente precisa como também os benefícios de tal política não apenas para a economia (Israel é um grande exportador de armas) como também para o progresso científico e tecnológico da nação.

    Isso se chama capacidade de se defender e atacar se for necessário. Aliás a imagem de um drone IAI Harops de poucos milhares de dólares destruindo uma bateria de Pantsyr que custa alguns milhões é emblemática. E não tem preço…

    Agora é ficar de camarote vendo o esperneio dos antissemitas de plantão…rs!

    • Um país tão pequeno em tamanho e população dando surra várias vezes em dezenas de países imensos, populosos e riquíssimos.

      Os soviéticos faturaram muito vendendo equipamento militar pra esse pessoal. Agora reclamam porque os EUA fazem o mesmo.

  2. O ponto de visra do texto é interessante. Só discordaria da questão rekacionada a um possivel embargo a Israel.
    Primeiro que Israel é um preposto dis EUA no Oriente Medio e sua existência e manutenção depende totalmente dos americanos.
    Segundo que, em sintonia com isso, com um embargo militar e principalmente econômico, Israel não teria condiçoes de financiamento dessas soluções com relação aos equipamentos.
    Seria uma realidade cruel e nunca experimentada por Israel.

    • Você podia se poupar de passar vergonha não é mesmo meu caro Xings! E para além da vergonha é ignorância e desconhecimento de história, talvez oriunda do antissemitismo atávico e da retórica fajuta e mentirosa de DCE. Pois bem, o Estado de Israel foi criado em 1948 mas apenas no final dos anos 60 passou a receber ajuda militar norte-americana ou seja, mais de 20 anos depois da sua criação, e depois de ter vencido três campanhas militares (1948, 1956 e 1967). Ou seja, resta claro que não apenas Israel não é proposto dos EUA na região (são aliados como a Rússia é aliada da Síria).

      Outro aspecto, e como já mencionei anteriormente, é que o montante de ajuda militar enviado anualmente na verdade corresponde a menos de 20% do orçamento de defesa de Israel, os restantes mais de 80% sendo bancados pelo contribuinte israelense.

      Ademais e como é possível extrair do texto Israel desenvolveu uma indústria de defesa robusta, com companhias (IAI, RAFAEL, Elbit e IWI) que além de grandes exportadoras estão entre as maiores do mundo.

      Por fim, não custa lembrar que o maior inimigo de Israel na região, a teocracia fascista iraniana, simplesmente está tecnologicamente atrasada se comparada com o Estado Judeu especialmente no campo da indústria militar, sua economia está passando por muitos problemas relacionados à inflação, uma crise hídrica sem precedente ameaça quase 60% das terras agriculturáveis do país o que ainda demonstra atraso tecnológico dos persas na agricultura lembrando também ser Israel líder mundial em tecnologia e técnicas de irrigação. Tudo isso aliado à insatisfação com o clero corrupto tem provocado protestos populares cada vez mais violentos e frequentes.

      • Com um embargo, Israel não teria condições nem de importar petróleo.
        Esqueça essa possibilidade.

        • Já sofreu embargo, já sobreviveu.

          Negar fatos de amplo conhecimento público é inútil.

    • Não sabe nada de Israel.

      1) Israel já sofreu embargo.

      2) Nem tudo que Israel faz é avalizado pelos EUA.

      3) O apoio americano relevante ocorre apenas a partir da década de 80.

      Nem vou tentar explicar.

  3. Mais um belíssimo artigo dos nossos estimados editores. E preciso dizer ainda, Sr. Giordani, que concordo em gênero, número e grau! Israel mostra profundo conhecimento no conceito principal de ADMINISTRAÇÃO; possuem a habilidade de fazer muito dispondo de pouco, alocam recursos com maestria e acabam tirando leite de pedra.

    Com relação aos valores, citados no último parágrafo, estava pensando exatamente nisso a umas 2 semanas, discutindo com um amigo oficial do EB. Apenas 36 aviões não é escala de produção respeitável para quem precisa reduzir custos… ou produz-se mais, ou exporta-se ou ainda revê-se a ideia.

    Forte abraço a todos. Boa noite!

  4. Concordo com o editor em todos os sentidos.

    Aeronaves, navios e qualquer armamento inteligente necessita de atualização constante para evitar a obsolescência.

    Um casco de fragata ou célula de caça duram 40 anos.

    A eletrônica em 15 fica obsoleta.

  5. Texto incrivelmente lúcido. Pena estarmos muito longe disso, aqui as empresas quebram, fogem ou se obrigam a vender-se para outras estrangeiras mais ricas.

    • "Só visa o lucro."

      Quantas vezes vc já ouviu essa crítica? O Brasil é o país onde empresa é pra dar prejuízo. Por que ora bolas alguém arrisca seu capital senão pelo lucro?

      Se o sujeito achar uma mina de ouro no quintal, tapa o buraco rápido, pois a mina é do governo e vai receber uma ninharia de indenização.

  6. Considero Israel um exemplo de eng. reversa amiga, mas só, nem de longe vejo essa independência que o Gio e o Tireless mencionam.

    Israel recebe ajuda financeira dos EUA, sim, é muito e eles pagam? Não sei e acho que isso é segredo.
    Tirando Rússia e China, ninguém consegue manter uma guerra com embargo americano, embargo de verdade, mas sabemos que isso é uma Utopia, ex. Irã e C Norte.

    Não vou postar aqui mas os senhores podem pesquisar, em 2014 numa das várias ofensivas do Hamas coisa de semanas, foi o suficiente para Israel em caráter de urgência pedir ao pentágono e não a casa Branca, pedir munição de artilharia, mísseis hellfire, kits para bombas guiadas, bombas burras e etc., alguns itens básicos que um país tão independente militarmente deveria possuir ainda mais por estar sofrendo uma investida corriqueira de um grupo terrorista e não uma força militar estrangeira.

    ps* Uma curiosidade, após a primeira guerra do Golfo o Iraque sofreu embargo americano, um dos principais responsáveis por manter o Iraque foi o Brasil, há quem diga que só não mandávamos armas. O Brasil tem sorte.

    • O valor da ajuda está no orçamento. A informação é pública.

      É proibido no direito internacional tratados secretos.

    • Se vc tem acesso a equipamento e munição baratos ou gratuitos, por que não usar?

      Agora, boa parte dos itens que vc citou são facilmente fabricados em caso de necessidade. Esse é o X da questão. Munição, bombas burras… em poucos dias estarão disponíveis.

      Nós preferimos fabricar (e pagar caro) por itens de fácil fabricação e importamos o complexo. Em caso de necessidade, em pouco tempo estamos paralisados como a Argentina nas Malvinas.

  7. Excelente exposição. O Estado de Israel foi erguido em todos os seus alicerces através de ações extremamente inteligentes, funcionais, eficientes e objetivas, o oposto do que ocorre aqui na banânia, por isso se tornou referência mundial em diversas áreas e têm a supremacia militar na região. Concordo plenamente com sua opinião sobre que o Brasil poderia a tempos estar investindo em desenvolvimento de sensores, softwares e armamentos ao invés de Investir na tal ToT do F-39 Zelotes pagando mais de US$150 milhões por caça para aprender a fazer algumas partes da fuselagem de uma aeronave que dificilmente passará das 36 unidades enquanto permanecemos dependentes em relação as partes mais importantes e sensíveis. E agora que a Embraer Defesa e Segurança não contará mais com a totalidade dos recursos vindos dos lucros do setor civil o que farão com isto?

  8. Mais um belíssimo artigo dos nossos estimados editores. E preciso dizer ainda, Sr. Giordani, que concordo em gênero, número e grau! Israel mostra profundo conhecimento no conceito principal de ADMINISTRAÇÃO; possuem a habilidade de fazer muito dispondo de pouco, alocam recursos com maestria e acabam tirando leite de pedra.

    Com relação aos valores, citados no último parágrafo, estava pensando exatamente nisso a umas 2 semanas, discutindo com um amigo oficial do EB. Apenas 36 aviões não é escala de produção respeitável para quem precisa reduzir custos… ou produz-se mais, ou exporta-se algumas unidades ou deve-se rever a ideia.

    Forte abraço a todos. Boa noite!

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