A aeronave A-1 (FAB-5542) do Esquadrão Poker após pouso de emergência depois de colidir com um pássaro em voo durante voo de treinamento

No último dia 22 de agosto, um jato de combate A-1 (FAB 5542) do 1º/10º GAv “Esquadrão Poker” da Base Aérea de Santa Maria (BASM) sofreu um acidente, causado por um impacto com um pássaro em voo. O texto abaixo e as fotografias estão circulando na web, e recebemos por e-mail hoje do amigo Sandro Colaço. A aeronave fez um pouso de emergência e precisou usar inclusive o gancho de parada, pegando o cabo de segurança na pista para poder parar totalmente na barreira de segurança. O piloto, não identificado, nada sofreu.

Relato:

Coloco aqui, para os interessados por aviação e demais simpatizantes, uma experiência que vivenciei ontem por volta do meio dia.

Estava voando de AMX em uma missão de treinamento de ataque. Voava rápido e baixo, próximo de uns 500KT de velocidade e 300FT de altura, simulando uma incursão abaixo do radar em território inimigo. Eu, como ala, e um amigo, como líder, … ambos voando em formação linha de frente.

Em determinado momento da missão, tive que corrigir alguns dados de navegação nos computadores da aeronave e voltei minha atenção para dentro da cabine. Estou lá digitando quando, de repente, escuto um estrondo, sinto o avião tremer e uma série de luzes de alarme se acendem.

O pássaro acertou o motor Rolls Royce Spey do AMX.

De imediato, subi e avisei o líder que algo estava errado. Logo imaginei que havia colidido com alguma coisa, mas solicitei que o líder se aproximasse e avaliasse a condição externa do meu avião. Feito isso, constatou que eu havia colidido com um pássaro.

Uma colisão com pássaro a quase 500KT é o mesmo que um impacto de um tiro de 38, mas com um projétil de uns 3kg ou mais. É uma porrada!!!! Dependendo de onde pegar, faz mais estrago que um impacto de um projétil de canhão 20 ou 30mm.

Bom, … até esse momento de avaliação dos danos estava tudo controlado, mas os problemas estavam por vir.

O pássaro bateu no nariz do avião com uma trajetória longitudinal e acertou exatamente em um ponto que saiu cortando uma série de cabos e destruindo várias caixas de dijuntores do avião. Com isso perdi o sistema elétrico principal do AMX e uma série de instrumentos ligados a esse sistema (fly by wire, controle do leme, dois geradores, freios aerodinâmicos, flaps, hud, computadores de bordo, armamento,…). Só me sobrou uma bússola, um horizonte artificial, um indicador de velocidade analógico, compensadores de emergência e rádios de comunicação, sendo estes alimentados por uma bateria de emergência com duração de apenas 20min.

Além dos problemas ligados à instrumentação, uma outra discrepância, agora relacionada ao motor, me chamou a atenção. Um dos ponteiros de indicação de RPM do motor estava zerado, assim como uma outra indicação digital de parâmetros dele que havia apagado do painel. Nesta hora, comecei a raciocinar com um possível apagamento do motor, pois aquelas caixas de disjuntores, os pedaços de metal e de fuselagem que o pássaro arrancou poderiam ter sido aspirados pela turbina.

Então, resumindo, eu estava voando com um avião que era só lata e motor.

Embora tivesse, ainda, sistema hidráulico disponível para baixar o trem de pouso, não tinha o sistema elétrico principal para acionar as principais superfícies aerodinâmicas do avião (flaps e airbrakes), sem contar na perda do fly by wire que me neutralizou o leme de direção, superfície aerodinâmica que me seria muito útil no pouso. E tinha que conseguir pousar o mais depressa possível, pois havia a desconfiança de um estado de funcionamento anormal do motor.

A aeronave AMX fez um pouso de emergência na pista da Base Aérea de Santa Maria.

O fato aconteceu perto de Santa Maria, umas 30NM, mas levou uma eternidade para chegar à pista da Base Aérea daquela localidade.

Quando cheguei na vertical de Santa Maria, lembrei que o avião estava muito pesado, pois havia mais de 2000kg de combustível interno (não alijável), e o normal para pousar é com os tanques com menos de 1500kg. Ou seja, mais uma questão preocupante, pois com todo aquele combustível e mais a indisponibilidade de baixar os flaps eu teria que fazer uma final para pouso com 200KT (140kt é o normal) de velocidade para conseguir manter o avião voando. E, obviamente, o pouso seria ainda mais crítico por estar muito embalado, quase no limite dos pneus.

Neste momento, já raciocinei que os 2700m da pista de Santa Maria poderiam não ser suficientes para parar o meu avião e, muito provavelmente, iria precisar engajar, no fim da pista, o cabo de contenção (comum nas bases de caça e iguais aos de porta aviões) e a barreira (uma espécie de rede que segura a aeronave).

Foi necessário usar o gancho para conseguir parar a aeronave.

Vim, então, para pouso, com o líder ao meu lado me passando informação de ângulo de rampa para pouso, informação que os meus sistemas de bordo não me davam mais. Quando próximo à cabeceira, o líder arremeteu e eu prossegui.

Toquei na pista e o avião quis subir, mas segurei-o no chão. Porém, quando pisei nos freios, o avião perdeu a reta para a direita e quase saiu da pista. Consegui mantê-lo na pista, mas estava muito na lateral. A partir daí tinha duas opções: ejetar ou tentar manter na reta até engajar o cabo e a barreira. Consegui manter a reta bem na lateral direita da pista, mas não queria pisar forte nos freios, pois estava tão na lateral que fiquei com receio de dar mais uma guinada e sair de vez da pista. Tentava de leve pisar no freio esquerdo somente para voltar ao centro da pista, mas não consegui resultado que queria. Assim, o avião manteve a reta, mas não conseguia diminuir a velocidade dele usando os freios das rodas. Desta posição deslocada lateralmente comandei o hook (gancho de arrasto) e, por rádio, solicitei que acionassem a barreira.

Barreira de pé, gancho baixado, … fim de pista …, o gancho engatou no cabo e eu bati na barreira a uns 110kt. Desaceleração imediata!

Daí veio o desespero. Quando o avião parou, eu fui abrir o canopi, mas as fitas da barreira não deixavam abri-lo por inteiro. Eu, com medo de incêndio, querendo sair logo e não conseguia. Olhava para trás e os bombeiros ainda longe. Tirei uma faca que levo na bota e somente com o braço para fora da pequena abertura que consegui levantando o canopi, comecei a cortar as tiras da barreira. Logo chegaram os bombeiros e me ajudaram a cortá-las por completo e a sair da aeronave.

Foi isso. Olhem o estrago que uma porcaria de um pássaro faz!!!!

PS: Pousei com uma bomba BEX-11 debaixo da asa. Iria lançá-la no estande, mas…

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9 COMENTÁRIOS

  1. Algumas boas conclusões :

    Ninguém se machucou,
    a robustez da aeronave que voltou,
    os pilotos estão treinando,
    a perícia dos pilotos,
    equipamento da pista está funcionando,
    o equipamento pode ser recuperado,
    os pilotos ganharam experiência ,
    os Bombeiros da FAB chegaram rápido e
    o piloto na hora H pensou em Deus e no Bombeiro.

    E falando no glorioso bombeiro da FAB, vcs estão treinando os caras ?????
    Os Oficiais Aviadores são a nata de suas gerações, se não pensarem na segurança, nos homens e equipamentos que a fazem , em suma se não pensarem nos BOMBEIROS, não adianta caça de décima geração, um caça o Estado compra outro, mas os pilotos são irrecuperáveis.
    Falo isso por experiência no meu tempo, me lembro dos lixos dos Pioneeiros I e II a gasolina, depois chegaram os AR I e AR II Toyota e Mercedez diesel quatro rodas 4X4 turbinado, um jato .
    Agora treinamento, era um ou dois por ano.
    Espero que tenham melhorado, para o bem de todos.

  2. Catrapo! É um relato interessante. Não é a merma situação, mas me lembrou uma ficção-tosqueira clássica (Aeroporto '80 — O Concorde e uma declaração do "piloto" Alain Delon: "é como tentar parar uma bala de revólver com fita adesiva")… 😀

  3. Competência do piloto, resistência da aeronave e uma pitada de sorte, é claro.

  4. Só não entendi o porque que o piloto não alijou a os tanques que vazios são mais fáceis de explodir e as bex.

  5. Em caso de guerra é só o inimigo treinar os urubus, kkkkk
    Achei muito profissional o piloto, e muito robusta o AMX, sorte que ninguém se feriu gravemente!!!

  6. Era um pouso problemático pela alta velocidade, mas o piloto avaliou que com ajuda dos freios poderia chegar na proteção a baixa velocidade, mas a aeronave embalada sem flap saiu nervosa ao primeiro toque no freio o que dificultou a parada.
    Como os comandos são elétricos pode ser que os tenha perdido na pane elétrica com a destruição dos disjuntores. Poderia ter optado pela ejeção se estivesse operando fora de sede em uma pista sem rede deparada e mais curta.

    Quanto a bomba não era explosiva.
    BEX 11 – Bomba de treinamento não explosiva de 11kg, com cartucho sinalizador fumígero CART-SN B-11, para operações de exercícios de ataque ao solo por aeronaves, que possibilita a avaliação da precisão dos lançamentos realizados.

  7. Olham so o estrago que uma PORCARIA DE UM PASSARO faz, tava sobre efeito de adrenalina,por isto menosprezou 270 milhoes de anos de evoluçao !Se a colisao fosse direta no parabrisa ,a PORCARIA DE PASSARO teria abatido uma maquina fantastica e feito viuva ! Sorte do piloto,aliado a competencia do mesmo !

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