Na eventualidade de uma guerra nuclear, os primeiros alvos seriam as bases aéreas e suas pistas, mas como destruir a maior de todas as pistas, o mar?

O Sea Dart era um hidroavião de caça. Voou apenas como protótipo e nunca entrou em produção. É até hoje o único hidroavião a ter excedido a velocidade do som.

No final da década de 1940, a Marinha dos EUA estava adquirindo jatos subsônicos. O alto comando da Marinha era cético quanto a perspectiva de usar aeronaves supersônicas nos exíguos porta-aviões, pois os equipamentos necessários para poder operar tais maquinas parecia estar a anos-luz de distância. Os especialistas da época diziam que a decolagem era impraticável, o pouso em alta velocidade impossível de parar e que problemas de instabilidade do navio afetariam diretamente a operação dos supersônicos.

Esses fatores problemáticos para um porta-aviões poderiam ser evitados se a aeronave pudesse decolar e pousar na água. Quando a Marinha realizou um concurso para um avião interceptor supersônico em 1948, a empresa Convair (Consolidad Vultee Aircraft Corporation) respondeu com o projeto Sea Dart. A Marinha ficou tão surpresa que se interessou pela proposta e a Convair recebeu um contrato para dois protótipos em janeiro de 1951.

Os protótipos foram designados XF2Y-1. O comanda da Marinha gostou tanto do projeto e estava tão confiante que doze aeronaves de produção foram encomendadas em agosto de 1952, antes mesmo do protótipo realizar o primeiro voo.

O Sea Dart foi projetado para levar quatro canhões de 20mm e foguetes não guiados, mas nenhum dos protótipos recebeu qualquer armamento. Quatro aviões foram considerados veículos de teste e designados YF2Y-1. Outros oito aviões foram encomendados, elevando o total para 22: dois protótipos XF2Y-1, quatro YF2Y-1 de teste de serviço e dezesseis F2Y-1 de produção.

O avião foi dotado de uma asa em delta, com um casco estanque. Para decolar e amerrissar, a Convair pôs dois esquis retráteis sob o ventre do avião, mas o protótipo acabou usando apenas um, que se provou mais útil e com melhores resultados. Quando parado ou movendo-se lentamente na água, a linha d´agua de flutuabilidade do Sea Dart era no bordo de fuga da asa. Os esquis só eram distendidos quando a aeronave atingia cerca de 16 km/h.

O avião foi projetado com dois motores, bem altos na fuselagem, com as tomadas de ar o mais alto possível sobre o bordo de ataque das asas para evitar a ingestão de água do mar, especialmente o spray resultante da corrida de decolagem. Inicialmente o motor seria o Westinghouse XJ46-WE-02 com pós-queimador, mas este não ficou pronto a tempo e os protótipos foram equipados com o motor Westinghouse J34-WE-32 sem pós-queimador, com a metade do empuxo previsto.

Curiosamente, a estabilidade aerodinâmica dada por um único e longo esqui, fez com que os engenheiros colocassem um freio aerodinâmico de configuração semelhante a do McDonnell Douglas F-15.

Nos anos 50, a Marinha dos EUA considerou um submarino que poderia carregar três Sea Dart. O avião seria armazenado em câmaras de pressão que seriam levantadas por um elevador atrás da vela. Se as condições fossem de mar calmo, o Sea Dart então decolaria por seu próprios meios, mas com mar grosso, o avião usaria então uma catapulta. Logo, a idéia acabou descartada.

Sem um motor potente, o Sea Dart não conseguia romper a velocidade do som. Nos testes, os pilotos descobriram que o avião vibrava e oscilava muito durante a corrida de decolagem. Um dos pilotos relatou que a vibração era tamanha que ele mal conseguia ver.

O XF2Y-1 voou pela primeira vez no dia 14 de janeiro de 1953, mas o voo foi acidental. Durante um teste de táxi de alta velocidade, o avião “saltou”, alcançando 300 metros de altitude. O primeiro voo oficial só aconteceu três meses depois, no dia 9 de abril.

Os EUA não foram o único país a considerar um hidroavião de caça. A empresa britânica Saunders-Roe, já havia construído o SR.A1, um projeto semelhante, mas de resultados pouco expressivos.

Em agosto do ano seguinte, o piloto de testes da Convair, Charlie Richbourg, voou o segundo Sea Dart, o YF2Y-1, propulsado por dois turbojatos Westinghouse J-46, mais forte, cada um gerando 2.700 kg de empuxo. O avião ultrapassou a velocidade do som durante um mergulho raso, tornando-se o primeiro e único hidroavião da história a vencer Mach 1, mas mesmo com os motores mais poderosos, nunca quebrou a barreira do som em voo nivelado. Uma característica do Sea Dart era o seu elevado ângulo de ataque no pouso.

A Convair estava confiante e os trabalhos foram acelerados, mas foi então que a Marinha dos EUA chegou a conclusão que o uso de supersônicos era mais viável a bordo dos porta-aviões.

No dia 4 de novembro de 1954, Richbourg fez um passe de alta velocidade para alguns repórteres e oficiais da Marinha ao longo da Baía de San Diego. Voando a 925 km/h. No momento em que o piloto acendeu os pós-queimadores, o coice resultante do empuxo extra apontou o nariz do avião para baixo. Richbourg puxou o manche para corrigir a atitude. A fuselagem estanque se rasgou como papel. O Sea Dart caiu no mar, matando seu piloto e o resto do pouco apoio para a continuidade do programa.

Embora a Marinha tenha concedido ao Sea Dart mais três anos de experiência, as encomendas foram canceladas. Após a reordenação das designações militares das Forças Armadas dos EUA, o Sea Dart recebeu a designação oficial de YF-7A.

O programa foi oficialmente encerrado em 1962.

https://www.youtube.com/watch?v=Tv76E2hqgag


Nome: Convair F2Y (YF-7A) Sea Dart

Tipo: Caça supersônico hidroavião

Dimensões: Comprimento: 16 m; Envergadura: 10,3 m; Área alar: 53m²

Propulsão: Dois turbojatos Westinghouse J46-WE-2 com pós-queimador, cada um gerando 2.700 kg de empuxo

Desempenho: Velocidade máxima: 1.325 km/h; Alcance: 826 km; Teto de serviço: 16.700 m

Armamento: Quatro canhões Colt Mk12 de 20mm, foguetes não guiados e dois mísseis ar-ar

14 COMENTÁRIOS

  1. Grande Gio, ótima lembrança . Sobre o Saro SR.A1 o mais famoso piloto de teste inglês, Eric Brown, apesar de ter sofrido um acidente c/ ele, dizia que ele era surpreendentemente manobrável. Outro hidro a jato gerado c/ uma concepção não usual foi o Martin P6M SeaMaster – um bombardeiro nuclear. Abs.

    • Valeu!
      O SeaMaster foi muito, mas muito interessante. A USN tinha planos de construir bases ao redor do mundo ao melhor estilo Thunderbirds! As bases submergeriam quando não estivessem em uso!

  2. Pessoalmente, acho que deveriam ter insistido um pouco mais na formula ou talvez para a época, algo menos ambicioso mas que pavimentaria as soluções ao longo o curso…

    Deveriam ter desenhado um STOL de velocidade alta primeiro…

    Como stol, o avião sofreria menos nas decolagens por necessitar de corridas curtas…o proprio Harrier era subsonico e provou seu valor…então buscar um interceptador logo de partida era algo arriscado tal como foi…

    Um caça anfibio sempre teria uma grande dificuldade competitiva de desempenho ( embora não impossivel) comparativamente a um caça tradicional, mas vislumbrar que a partir dai voce teria pistas de decolagens indestrutiveis ou melhor ainda, poder desconcentrar sua força aeronaval entre varios navios ao contrario de arriscar tudo nuns poucos porta aviões que podem ser afundados seria um trunfo consideravel…

    apos uma pequena maturação de boas experiencias e conceitos operacionais, novas tecnologias surgiram e dariam alicerce cada vez maior a um caça supersonico anfibio, tal como geometria variavel, vetoração de empuxo, aircushion no lugar dos esquis…etc….

    • Imaginem se o conceito tivesse persistido, provavelmente a figura de pequenos cruzadores com catapultas a ré, ZELL teriam evoluido mais e desconcentrando a força aeronaval dos Nae em uma boa fração….veriamos cruzadores com 2 a 6 caças cada….bem como a continuidade de pequenos Nae, pois o conves detes seria basicamente utilizado apenas para decolagens sendo a operação de pouso na agua…

  3. Os EUA abandonaram o hidroavião e o anfíbio de todos os ramos, enquanto temos hoje o Canadá, Rússia, Japão e China desenvolvendo anfíbios os EUA consideram algo ultrapassado.

  4. Um dos meus favoritos , ehhhh, bons tempos , os caras eram malucos e muito criativos , havia tambem o projeto X13 que era um caça de pouso e decolagens na vertical , sem FBW , so na hidraulica e cabeamentos , os pilotos de testes eram fodas , alem de serem fisicamente perfeitos os caras deveriam possuir um QI de gênio !

  5. Caso a busca pelo caça anfibio tivesse persistido, seria muito interessante a continuidade da evolução dos cruzadores com 2 a 6 caças a bordo, diluindo o risco de manter-se tudo num porta avioes.

    surgiriam porta avioes menores, com seus conves superior dedicado quase exclusivamente a operações de decolagens e os inferiores ao resgate dos aviões pousados no mar.

    outro ponto, é que a ideia de vc possuir pistas de pouso indestrutiveis a bombardeio (agua) tem lá seu grande apelo e charme como importante ingrediente de persistencia de combate por mais que seja atacado.

    • Mas os conhecimentos adquiridos nao foram esquecidos , basta uma situaçao real que exija aquelas tecnologias que os CARAS correrao para o BAU e de la retirarao os velhos projetos !

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