O Boeing 707-130 retornando do seu primeiro voo de testes depois de uma manutenção em 2012, visto na curta final de Miami. (Foto: Robert Collazo)

Mais uma matéria sobre o Boeing 707, que no início de 2013 um fato bastante importante envolveu um destes clássicos em particular. Trata-se do Boeing 707-138B (s/n 17702), matrícula 9Q-CLK, que no dia 26 de janeiro de 2013 decolou de Miami para Kinshasa, com escalas em Natal (!) e Accra.

Depois de ter chegado à Florida em agosto de 2010 para manutenção – onde inusitadamente foi pintado com um padrão de cores imitando aquele de um dos protótipos do Boeing 787 – o ‘CLK tomou o rumo da República Democrática do Congo – DRC (ex-Zaire), onde opera como aeronave presidencial do Sr. Joseph Kabila.

Além de ser um fato por si só já especial, por tratar-se de um voo com um Boeing 707, dos quais restam em atividade pouco mais de 60 unidades, essa célula em especial merece destaque.

O VH-EBG com a tripulação que fez o voo de entrega de Seattle para Sydney, em 24 de setembro de 1959. Na ocasião, levava um quinto motor no pod especial desenvolvido pela Boeing para transporte de motores sobressalentes. (Foto: Qantas)

Trata-se, com efeito, do jato comercial mais antigo ainda em atividade no mundo! (portanto, estamos excluindo aqui algumas unidades de KC-135E/R, mais antigos, ainda em voo). E mais: é um dos raros 707 da versão ‘138 dos quais foram fabricados apenas 13 exemplares, todos para a australiana QANTAS. O ‘138 é uma versão “long range” da série ‘120 (a primeira versão do 707) e com ele a Boeing atendeu aos requisitos da QANTAS que necessitava de uma aeronave de longo alcance para ligar Sidney à costa oeste dos Estados Unidos. Para tanto, a fabricante tomou a fuselagem da versão ‘120, encurtou-a em 3,05m para diminuir o peso vazio operacional e adicionou um tanque de combustível na seção central da fuselagem, aumentando a capacidade total de 51 mil para 65 mil litros. Essa foi a mais curta das versões do 707 (menor ainda alguns centímetros do que o B720), com um comprimento total de apenas 41m.

Mencione-se que outro ‘138B ainda voando é o famoso N707JT, do ator John Travolta, pintado nas cores antigas da QANTAS. Entretanto, o ‘707JT é bem mais “novo” do que o 9Q-CLK, tendo sido fabricado em 1964.

O VH-EBG com pintura especial alusiva aos 40 anos da QANTAS. Notar a deriva original, de altura menor, bem como os motores jato puro PW JT3-C6, substituídos depois pelos turbofan PW JT3D. (Foto: Qantas)
O VH-EBG com pintura especial alusiva aos 40 anos da QANTAS. Notar a deriva original, de altura menor, bem como os motores jato puro PW JT3-C6, substituídos depois pelos turbofan PW JT3D. (Foto: Qantas)

Com o seu “roll out” da fábrica de Renton em 24 de julho de 1959 e primeiro voo em 08 de setembro daquele mesmo ano, o 9Q-CLK foi apenas o 64º 707 da linha de produção e tem, portanto, mais de 53 anos de atividade! Nada mal para uma aeronave pressurizada…

Agora registrado G-AWDG, o s/n 17702 é visto nas cores do seu segundo operador a British Eagle.

Registrado como VH-EBG e recebendo o nome de batismo “City of Hobart”, operou pela flag carrier australiana em voos de passageiros, de outubro de 1959 até janeiro de 1968, quando foi vendido para British Eagle Airways, que o utilizou em voos charter desde o Reino Unido para a Europa continental e o Caribe. Após a liquidação da empresa, foi operar para a Laker Airways, em configuração única de 158 passageiros. Nessas duas companhias britânicas utilizou sempre a matrícula G-AWDG.

A Laker Airways manteve as cores básicas da British Eagle, quando utilizou o G-AWDG entre 1969 a 1978.

Em 1978 o veterano foi registrado N600JJ e adquirido pela Charlotte Aircraft e transformado em aeronave VIP, tendo ido voar em 1981 para o Xeique saudita Abdallah Baroom.

Agora transformado em aeronave VIP, inclusive com a instalação de uma APU, o s/n 17702 é visto nas chamativas cores quando voou para o Xeque Baroom. (Foto: Ron Cuskelly Collection)

Em agosto de 1987 o s/n 17702 foi vendido para a Skyways Aircraft Leasing e quatro meses depois foi registrado como N707KS. Um fato interessante é que a Skyways era de propriedade do consórcio Aviation Management, no qual o Xeique saudita Salem Bin Ladem (irmão mais velho de Osama Bin Ladem) tinha uma participação e era o real “dono” do avião nessa época.

Em cores bem mais discretas e registrado agora N707KS. (Foto: Ron Cuskelly Collection)

Em 1990, ainda como N707KS, o avião mudou novamente de proprietário, agora a First City Texas Houston, que em 1992 alterou a matrícula de forma quase “subliminar” para N707SK (apenas alterando a ordem das últimas duas letras).

A mudança de N707KS para N707SK deveu-se ao fato de que o proprietário do s/n 17702 havia adquirido outro 707, um modelo ‘321B, que recebeu o registro N707KS. (Foto: Ron Cuskelly Collection)

Mas a relação mais duradoura dessa “avis rara” começaria em maio de 1998 quando foi vendida para o governo da República Democrática do Congo (DRC) e registrada 9Q-CLK. As duas últimas letras eram as iniciais de Laurent Kabila, então presidente do país, até ser assassinado em 2001, quando foi substituído por seu filho, Joseph Kabila, até hoje no poder.

Agora como 9Q-CLK, o s/n 17702 é visto em Lanseria, África do Sul, quando passando pela reforma do interior VIP. (Foto: Ian Malcolm / AFAVIA)

Após pouco voar em quase 10 anos, passando a maior parte do tempo em um hangar em Kimnshasa, o ‘CLK foi visto em Lanseria, África do Sul, em agosto de 2007, pintado em cores marrom e creme, passando por uma reforma do seu luxuoso interior VIP. Esse trabalho foi efetuado pela FAAircraft.

O novo interior instalado em Lanseria.

Aproveitando a oportunidade que a aeronave encontrava-se na África do Sul, um grande credor do governo congolês residente naquele país, conseguiu uma ordem de arresto do 707 na justiça. Entretanto, em 01 de novembro de 2007 a aeronave simplesmente decolou “sorrateiramente” de Lanseria para Kinshasa, onde ficou a salvo da justiça sul africana e de um provável leilão para satisfazer o crédito de cerca de US$ 20 milhões.

O ano de 2008 parece ter sido um dos de maior atividade do 9Q-CLK a serviço do governo da DRC. Com e feito, entre alguns voos documentados do veterano, incluem-se:

  • 11-ABR-08: Levou o Presidente Joseph Kabila de Kinshasa para Lusaka, Zâmbia, para um encontro de mandatários da região, para resolver a disputa das eleições do Zimbabwe (o call sign quando o presidente está a bordo é “Congo 001”);
  • 13-ABR-08: Retorna com o Presidente Kabila de Lusaka para Lubumbashi (DRC);
  • 14-ABR-08: Voa de Lubumbashi para Kinshasa;
  • 15-ABR-08: Voando de Kinshasa para Ilha do Sal;
  • 07-AGO-08: Chega a Beijing com o Presidente Kabila, para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos;
  • 22-SET-08: Pousou à noite no Aeroporto JFK em Nova Iorque, trazendo o Presidente Kabila para a Assembléia Geral da ONU.
  • 06-NOV-08: Voa de Kinshasa para Nairóbi, levando Kabila para uma reunião sobre a crise humanitária na DRC.
Aterrissando em Beijing, em 7 de agosto de 2008, quando levou o Presidente Joseph Kabila para assistir à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos (Weimeng).

A tripulação técnica é composta por ex-pilotos oriundos da companhia congolesa Hewa Bora Airways, que utilizou Boeing 707 nos anos 90 até meados dos anos 2000.

A próxima grande movimentação do ‘CLK ocorreu em agosto de 2010 quando surpreendentemente foi visto em Miami, onde iria passar por uma grande revisão. A estada na Flórida foi bastante demorada. Aparentemente a falta de peças e pagamentos pontuais por parte do governo congolês, fez com que a manutenção programada fosse suspensa e apenas parcialmente cumprida. Em janeiro de 2011, o avião foi visto sem motores, fora do hangar, com cores semelhantes de um dos protótipos do 787, em curvas de azul escuro e azul claro, com um grande “707” pintado na cauda.

O 9Q-CLK, visto já em Miami, em dezembro de 2011, sem motores e nas cores “Dreamliner”. (Foto: Victor Lopez)

Em 10 de setembro daquele ano o 9Q-CLK efetuou o primeiro voo de experiência após mais de um ano desde sua chegada em Miami. Aparentemente, vários problemas foram encontrados nesta sortida e a aeronave retornou ao aeroporto com o painel do engenheiro de voo “piscando feito uma árvore de natal”, no dizer de uma pessoa com acesso ao clássico 707.

Depois de mais um ano de reparos, o s/n 17702 realizou mais três voos de testes entre o final de 2012 e início de 2013. No primeiro, um duto do ar-condicionado rompeu-se e a aeronave começou a perder pressurização. A tripulação retornou para um pouso de emergência em Miami. No segundo teste, efetuado em 15 de janeiro de 2013, o sistema antiskid do freio das rodas falhou, levando ao estouro dos pneus no pouso. A terceira tentativa, em 22 de janeiro, acabou prematuramente, pois um dos motores entrou em pane e teve de ser cortado, obrigando ao retorno ao aeroporto.

O 9Q-CLK decola para Kinshasa, despedindo-se de Miami para um futuro incerto na África, após mais de 2 anos na Florida (Foto: Victor Lopez)

Mesmo diante de tantos problemas, uma decisão foi tomada de levar a aeronave para Kinshasa, obtendo-se uma autorização da FAA (Federal Aviation Administration) para um único voo de ferry para a África.

Rota do ranslado do Boeing 707 entre a Flórida e a África, com escala em Natal.

Assim, no dia 26 de janeiro último, o clássico cinquentão partiu definitivamente para sua casa, de Miami para a capital congolesa, escalando em Natal e Accra (Gana). Veja abaixo um vídeo feito durante o táxi para decolagem. No dia 10 de fevereiro o 9Q-CLK foi visto no pátio de aeroporto N’djili, de Kinshasa, na área reservada a aeronaves do governo.

Infelizmente, comenta-se que a não ser pelas cores “Dreamliner” aplicadas ao ‘CLK em Miami, quase nenhum dos itens que deveriam ser inspecionados ou atualizados foram realizados na aeronave e o futuro do clássico s/n 17702, o jato comercial mais antigo em voo, parece nada promissor…

Marcelo Magalhães é advogado em Porto Alegre, fotógrafo e pesquisador de aviação comercial nacional e internacional. Fundador da Radar Associação Aeronáutica, que mantinha uma revista impressa de aviação na década de 1980 e 1990, e também colaborou com fotos para as principais revistas de aviação do Brasil. Atualmente está escrevendo um livro sobre a história do Boeing 707 e sua operação pelas empresas aéreas brasileiras e pela FAB.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Estava eu vindo de Brasília pra NATAL no dia 27 de janeiro quando vi essa aeronave estacionada e aparentemente sendo preparada para partida. Fiquei curioso quanto ao fato de um 707 ostentar uma pintura semelhante a atual da Boeing, e o que fazia uma aeronave como essa aqui em Natal. Mas lendo a matéria agora foi respondida minha dúvida. Realmente foi bonito de se ver!

  2. Vi esse aviao em Miami quando fui visitar meus pais durante o Natal. Achei muito engraçado um 707 com pintura estilo Dreamliner e fiquei com vontade de descobrir que aviao era esse, mas durante as ferias esqueci de pesquisae o aviao. So' lembrei outro dia quando estava olhando minhas fotos… Obrigado Marcelo por esclarecer a historia. E que historia excepcional! Quem diria.

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