Caças-bombardeiros MiG-23 ganham altitude após mais um ataque sobre posições guerrilheiras. (Foto: Russian Wwarrior)
Caças-bombardeiros MiG-23 partem para mais uma missão de ataque sobre posições guerrilheiras. (Foto: Russian Warrior)

A invasão soviética no Afeganistão proporcionou uma infinidade de informações sobre os soviéticos e o uso de seu poder militar. Além disso, a guerra permitiu aos soviéticos aprender muitas lições e ofereceu-lhes a oportunidade de treinar e aplicar várias táticas, além disso, possibilitou a experiência com armas diferentes.

Caças-bombardeiros

Helicópteros podem ter sido os principais elementos da força aérea soviética no Afeganistão, mas as evidências indicam que os soviéticos testaram seus caças-bombardeiros, armas e táticas associadas a eles na guerra do Afeganistão.

Caças-bombardeiros soviéticos foram empregados exclusivamente no papel ar-terra, já que os guerrilheiros afegãos não ofereceram nenhuma ameaça ar-ar. Eles foram usados para bombardeios táticos e de terra arrasada, como um esforço para destruir a guerrilha ou retirá-los do país. Combinado com ataques de helicópteros, os caças-bombardeiros soviéticos operaram em todo o país. Metade da cidade de Herat (terceira maior cidade do Afeganistão, com uma população de 150.000) foi nivelada em um ataque extremamente pesado, brutal e prolongado.

Muitas tripulações foram treinadas para missões de apoio aproximado com as tropas terrestres no teatro europeu. No Afeganistão, eles também provaram seu valor em missões contra alvos bem dentro do território de guerrilha. Casas, colheitas, gado, vinhedos e pomares em algumas áreas foram sistematicamente bombardeadas e disparavam, numa campanha de terra arrasada destinada a negar comida e abrigo aos guerrilheiros. Para completar a destruição, as tropas terrestres, muitas vezes entravam nessas áreas após um ataque aéreo e atiravam em qualquer coisa viva. Tudo de valor acabava virando escombros.

Na sequência da intervenção direta da URSS no Afeganistão , a guerra escalou rapidamente, culminando em grandes batalhas que envolveram o uso maciço de aeronaves táticas. Acima o MiG 21 operando no Afeganistão. (Foto: Soviet Hammer)
Na sequência da intervenção direta da URSS no Afeganistão , a guerra
escalou rapidamente, culminando em grandes batalhas que envolveram o uso maciço de aeronaves táticas. Acima o MiG 21 operando no Afeganistão. (Foto: Soviet Hammer)
MiG-21 sobre o Afeganistão. A URSS não enfrentou oposição aérea.
MiG-21 sobre o Afeganistão. A URSS não enfrentou oposição aérea.

No início da guerra, o principal caça-bombardeiro utilizado pelas forças soviéticas foi o MiG-21. O Fishbed tinha um canhão de 23 mm de cano duplo com 200 cartuchos de munição, e podia levar quatro lançadores de foguetes de 57 mm, além de bombas de 250 ou 500 kg. Taticamente, os MiG-21s geralmente operavam em pares, mas eles atacavam individualmente, revezando-se no lançamento de foguetes ou no bombardeio de posições da guerrilha. Depois de lançar sua artilharia, cada um ejetava três conjuntos de flares, como chamarizes de calor aos misseis SA-7 enquanto executavam uma manobra de subida para uma altura segura. Relatórios indicam que os MiGs, muitas vezes, abriam fogo a uma distância de 2.000 m, tornando impreciso e ineficaz o lançamento de foguetes ou o uso do canhão. Essa tática mostrou-se um fracasso. O MiG-21 simplesmente era ineficaz como caça-bombardeiro naquele teatro de operações.

Três razões para o fracasso do MiG-21 como caça bombardeiro:

  • Primeiro, o avião era uma plataforma mais adequada para a arena ar-ar;
  • Segundo, os guerrilheiros eram um inimigo evasivo, e qualquer tipo de aviso prévio de um ataque aéreo iminente, ajudava a evitar os efeitos do ataque;
  • Terceiro, o terreno montanhoso, onde a maioria da resistência guerrilheira estava localizada. Isso tendia e restringia a eficácia do fogo ar-terra.
A sempre presente ameaça dos SA-7. (Foto: Farm2 Staticflickr)
Com apoio e fornecimento de armas dos EUA através da CIA, os manpads sempre foram uma constante ameaça as aeronaves soviéticas. (Foto: Farm2 Staticflickr)

As íngremes e profundas ravinas sinuosas e vales faziam o uso de aeronaves de alta velocidade ineficientes. Os pilotos soviéticos muitas vezes levavam seus Fishbeds além de suas limitações de voo. Como os helicópteros, os caças-bombardeiros no Afeganistão foram afetados negativamente pelas altitudes elevadas.

Os soviéticos também experimentaram a dificuldade na falta de uma adequada capacidade de ataque de reação rápida. Os soviéticos não utilizavam controladores aéreos avançados (FAC), em especial como no modo que os EUA usaram no Vietnam, embora, como referido anteriormente, alguns FACs em helicóptero. Outra desvantagem foi o fato de seus caças bombardeiros não terem sido capazes de usar a noite como fator surpresa. Os aviões não dispunham de equipamentos para a noite.

Para resolver essa lacuna, os soviéticos introduziram no cenário o Su-25. O Frogfoot é uma aeronave dedicada ao Apoio Aéreo Aproximado (Close Air Suport – CAS), tal como o A-10. O Frogfoot pode transportar até 10.000 libras (4,5 ton) de explosivos em 10 estações, tornando-se uma arma formidável. Taticamente, o Frogfoot operou em pares. Voavam muito baixo. Era usado principalmente para atingir alvos pontuais em terrenos acidentados com suas armas de precisão. O Su-25 era muito temido pela guerrilha.

Um Su-25 exibe suas cicatrizes de guerra causadas pelos perigosíssimos manpads. (Foto: Coleção particular)
Um Su-25 exibe suas cicatrizes de guerra causadas pelos perigosíssimos manpads. (Foto: Coleção particular)

Os soviéticos também empregaram o Su-17, o Su-24 Fencer e o MiG-23 Flogger na guerra. Essas aeronaves participaram de intensos bombardeiros contra concentrações de guerrilha e instalações. Entre abril e maio de 1984, executavam mais de 100 missões por dia.

Bombardeiros

A União Soviética introduziu o Badger Tu-16 na campanha de bombardeio aéreo no Afeganistão. O Tu-16 era um bombardeiro de médio alcance que podia transportar cargas de bombas de até 19.800 libras (9 ton) de bombas.

Os Tu-16, estacionados dentro da União Soviética, foram aparentemente usado pela primeira vez na campanha de bombardeio contra a cidade de Herat, em Abril de 1984. Os soviéticos empregaram numerosos bombardeiros Badger na fronteira comum com o Afeganistão. Em 21 de abril, eles começaram o bombardeio contra aldeias e fortalezas da guerrilha no Vale de Panjshir, que ficava a cerca de 70 milhas (112 km) ao norte da capital, Cabul. Os relatórios indicam que 36 Badgers foram usados, e que entre 30 e 40 ataques aéreos por dia eram efetuados.

MiG-23MLD em 1981

Os Badgers bombardeavam do seu teto de serviço, ficando não muito acima dos picos mais altos das serras, já que a maioria dos alvos estavam no fundo dos vales. Os bombardeiros estavam relativamente seguros porque os guerrilheiros não tinham armamento capaz de atingir com precisão a altitude dos bombardeiros. Os ataques dos Badgers eram seguidos por ataques de caças-bombardeiros, helicópteros e fogo de artilharia.

A experiência de combate e as Lições Aprendidas

Os soviéticos aprenderam e continuaram a aprender muitas lições valiosas em sua guerra no Afeganistão. Foi um intenso “Ganhar e Perder” com os guerrilheiros. Talvez as lições de maior valor que eles aprenderam foi o conhecimento que obtiveram sobre a eficácia de suas armas. O Afeganistão, com seu terreno, ofereceu amplas oportunidades (e tempo) para experimentar seus aviões, táticas, armas, equipamentos de comando e controle e de procedimentos.

Um MiG-23 exibe seus troféus. A aviação soviética aprendeu duras lições e adaptou armas e táticas numa guerra perdida desde o primeiro dia. (Foto: Coleção particular)
Um MiG-23 exibe seus troféus. A aviação soviética aprendeu duras lições e adaptou armas e táticas numa guerra perdida desde o primeiro dia. (Foto: Coleção particular)

Su-25_afeganistãoDo ponto de vista político, o Kremlin demonstrou no Afeganistão a sua capacidade de projetar seu poder fora das fronteiras da União Soviética através de uma operação de transporte aéreo maciça. Ficou provado no Afeganistão que o poderio militar soviético dependia muito da sua força de helicópteros. Provavelmente, esta dependência continuou a ser uma parte do sistema militar soviético após a saída (desonrosa) do Afeganistão.

Uma grande vantagem que os soviéticos ganharam foi a experiência de combate. Os exercícios são uma boa formação, mas o combate real é o único teste verdadeiro de comandantes, de unidades, de pessoal e equipamentos. As Tropas soviéticas no Afeganistão rotacionavam a cada seis meses. Parece lógico supor que os tripulantes de helicópteros, caças-bombardeiros, bombardeiros, etc, também rotacionavam com freqüência para garantir que um grande número de combatentes adquirissem experiência em combate, uma chance de aprimorar suas habilidades de combate individuais. Aos poucos, os soviéticos aprenderam as duras lições que os americanos aprenderam no Vietnã. Combater as forças de guerrilha com as forças convencionais é um assunto longo e árduo.


FONTE: Center for Aerospace Doctrine, Research and Education, Maxwell AFB, Alabama


NOTA DO EDITOR: O texto é muito mais abrangente, mas como o nosso foco é em aviação, foi devidamente editado. Além disso, o ano de publicação deste é 1985, ou seja, é exatamente o período em que os Soviéticos estavam literalmente atolados no Afeganistão, num beco sem saída.


Enhanced by Zemanta
Anúncios

15 COMENTÁRIOS

  1. O SU-25 sobreviveu mesmo após ser atingido por fogo antiaéreo proveniente de um MANPAD. Um caça bem construído é outra coisa. E pra constar, nos Balcãs foram abatidos um Mirage2000 e um F-16 por lançadores antiaéreos portáteis.

    Imagine os "ocidentais" enfrentando um inimigo inteligente, esperto e bem preparado, que mine sua estrutura tecno-logística e atrapalhe suas comunicações e transferencias de dados, seja por ações de comandos ou guerra eletrônica… o que sobraria? Por vezes acho que a OTAN se prende muito a tecnologia e esquece que uma robustez e durabilidade do equipamento faz toda a diferença.

    • Relojoeiro,

      Primeiramente, M2000 e F-16 são aeronaves de categoria diferente… Foram pensadas para se desempenharem contra outros caças e não somente para ataque ao solo em si… Uma aeronave mais próxima do Su-25 seria o A-10 ( ou mesmo o AMX…)…

      Robustez e durabilidade são importantes, mas a capacidade de lutar uma guerra centrada em redes é mais importante ainda… A ideia é vencer pela inteligência; antecipar cada golpe do adversário… Quem tem informação e com isso for capaz de prever o que o adversário vai fazer, pode ganhar o combate até mesmo antes dele começar… Ter a iniciativa é o mais importante. E por fim, poder atacar com precisão e a grande distância, sem correr riscos, compensa qualquer falta de força bruta…

  2. O problema do Su 25 é que ele ataca a baixa altura.vejam os videos deles na georgia e fica claro que são alvos muito faceis ,tanto é que a defesa anti aérea da Georgia abateu um su 25 .Eu vi num video no youtube.Guerra na ossetia.

  3. Excelente matéria. Vai ter parte três?! hehehe 😀

    Interessantíssima a ultima foto, do MIg-23 ( parece ser um MLD… ), com a boca de tubarão… Salvo engano, cada estrela pintada logo acima da boca representava 10 missões. Assim sendo, o exemplar da foto participou de 150 incursões contra rebeldes afegãos.

    • Pois é, Eu não consegui dados a cerca das estrelas pintadas na fuselagem.
      Quanto a uma terceira parte, não, não haverá, pois "foge" do nosso tema-fim que é a Aviação, mas segue mostrando como os soviéticos tiveram de se adaptar de todas as formas. O treinamento deles era para lutar na europa, não contra guerrilheiros num terreno tão difícil quanto. Isso me lembra os problemas que os americanos enfrentaram no Vietnã, com equipamento e táticas desenvolvidas para combater na europa…

      A retirada soviética do afeganistão foi tão violenta quanto a sua chegada e penso que talvez tenha sido até pior. Várias unidades foram "esquecidas" e quando a munição acabou…foram triturados vivos pelos rebeldes…

      Irônia é que no filme Rambo III tenha uma nota de dedicação ao "valente" povo do afeganistão…que irônia!!!!

      • Filme interessante sobre o pessoal esquecido no Afeganistão é "9º Pelotão" (9 POTA, em cirilico), russo, de 2008, que narra com um tom meio melodramático a história de um destes pelotões abandonados em 1989, na derrocada soviética. Atentem-se caso assistam, à participação especial do RAMBO no final do filme… E claro, tem várias cenas com Mi-24D caracterizados tal qual os equipamentos soviéticos de então… trailer: "http://www.youtube.com/watch?v=BXvf4xInXsg

      • GIORDANI,

        Ok!!

        Apenas a título de curiosidade, fazendo companhia aos Tu-16, também estavam os Tu-22M e os Su-24. Todos foram usados com certa frequência no esforço russo. Missões de interdição pesadas foram lançadas, nas quais os russos utilizaram uma certa variedade de bombas, que iam desde as de uso geral a tipos específicos com espoletas de retardamento ( e até mesmo alguns "monstros" de 9000kg ), que lograram atrapalhar bastante a guerrilha ( notadamente sendo empregadas contra trilhas e pequenas estradinhas utilizadas pelos rebeldes ). E as maiores ações, como disse anteriormente, ocorreram no final da intervenção, quando os soviéticos se retiraram em seus comboios e houve a necessidade de dar-lhes proteção.

      • meu caro Giordani,

        a retirada sovietica durou de maio de 88 a fevereiro de 89, ou seja 10 meses, não foi uma debandada, os "guerreiros da liberdade" afegãos atacaram durante o processo e custou a vida de 500 soldados sovieticos, mas não creio que tenham sido "esquecidas" unidades nesse periodo!

        • MJBlaya,

          No caos da retirada final do Afeganistão, diversas unidades posicionadas em postos avançados foram deixadas para trás…

          • Exatamente. As unidades "esquecidas" foram as dos postos avançados. A URSS estava ruindo. Dez ou quinze soviéticos num longínquo posto pouco importavam…

  4. Sugiro o filme "Jogos do Poder" com Tom Hanks, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman que explica o que foi aquela merda que os soviéticos aprontaram no Afeganistão que ajudou a criar o Al Qaeda e o resto daquela p*rra toda.

    "Caças-bombardeiros soviéticos foram empregados exclusivamente no papel ar-terra, já que os guerrilheiros afegãos não ofereceram nenhuma ameaça ar-ar."

    Guerrilheiros afegãos? Eram pastores armados com espingardas contra helicópteros de ataque pesado. Seriam dizimados se o senador Charlie Wilson não tivesse tapeado o governo dos EUA e criado a operação cyclone junto com Gustav Lascaris. Ao final depois de tudo, os soviéticos saíram do Afeganistão com o rabo entre as pernas para a extinção e o governo americano foi omisso e burro ao deixar o país destruído para favorecer o extremismo religioso.

  5. O Afeganistão tem sido uma prova de fogo a qualquer equipamento militar lá utilizado… é um lugar onde a guerra parece que nunca vai acabar… juntamente com a Palestina…

    Os STs A29 terão uma excelente oportunidade de mostrar seu valor ao mundo e colocar o Brasil e a Embraer definitivamente no mapa da industria bélica mundial…

  6. Minha Paixão pela história e a leitura, me leva ao mundo desses combates lendo essas belíssimas matérias …Ótimo Caro Giordani. (:

Comments are closed.