A ex-colônia de Honduras Britânica conseguiu a independência em 1981, mas necessitou do apoio militar da antiga metrópole para manter sua integridade territorial.

O pequeno país da costa leste da América Central, hoje conhecido como Belize, esteve sob domínio da Grã-Bretanha desde o início do século XVII, quando mercadores, piratas e traficantes de escravos britânicos começaram a desafiar a autoridade da Espanha sobre aquele território (os espanhóis foram os primeiros a chegar, mas nunca se fixaram na região).

A Guatemala proclamou sua independência da Espanha em 1821, mas dois anos depois foi anexada ao México e, até 1839, fez parte da Federação Centro-Americana. Independente de novo, a Guatemala declarou-se herdeira da Espanha e começou a reivindicar o território de Honduras Britânica. Em 1859, a Guatemala concordou em reconhecer as fronteiras existentes, em troca da construção de uma estrada até o litoral atlântico. Em 1862, Honduras Britânica tornou-se oficialmente colônia da coroa inglesa. Embora a estrada pretendida não fosse construída, a Guatemala deixou de lado suas reivindicações.

Diante da modesta torre de controle do Aeroporto Internacional de Belize, aparece um dos seis Harrier GR.Mk 1A que a, Grã-Bretanha enviou a Belize em novembro de 1975, para afastar a ameaça de invasão pela Guatemala.

Em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, a Guatemala repudiou o tratado de 1859, apontando como motivo o fato de a Grã-Bretanha não ter construído a estrada. Passou a constar da Constituição da Guatemala que Honduras Britânica era de direito a província guatemalteca de Belize, que chegou a contar com um lugar (sem preencher) na Câmara Federal. A oferta da Grã-Bretanha no sentido de submeter a questão à Corte Internacional de Justiça foi rejeitada. Em 1956, quando a Grã-Bretanha estava desprestigiada pela intervenção militar que tentara no canal de Suez, em conjunto com Israel e França, e que foi sustada pela ação coordenada de Estados Unidos e União Soviética, a Guatemala voltou a insistir em sua reivindicação sobre Honduras Britânica/Belize. Embora o entusiasmo da Grã-Bretanha pela manutenção do império tivesse diminuído depois da Segunda Guerra Mundial, a coroa não estava disposta a ceder o território disputado à Guatemala.

Demonstrações de força

Em abril de 1958, a princesa Margaret fez uma visita oficial a Honduras Britânica. Dois aparelhos de interdição Canberra B(I).Mk 8 escoltaram o avião de transporte VIP que levava a princesa. Também fizeram parte da formação dois Canberra PR.Mk 9, de reconhecimento fotográfico, que ostensivamente funcionavam como aeronaves de navegação. Em fins de 1961 foi realizada outra demonstração de força, quando dois Vickers Valiant B(PR)K.Mk 1 visitaram Honduras Britânica, supostamente para um levantamento dos estragos produzidos pelo furacão Hattie.

Em 1964, Honduras Britânica passou a contar com governo interno completamente constituído, e em 1973 passou a chamar-se oficialmente Belize. Em fins de 1975, as relações com a Guatemala haviam chegado a seu ponto mais crítico, e uma invasão do território de Belize por forças guatemaltecas parecia questão de horas.

Depois que os GR.Mk 1A voltaram à Grã-Bretanha, em abril de 1976, os Puma continuaram em Belize. Alguns observadores militares acreditam que,se a Grã-Bretanha tivesse feito demonstração de força semelhante nas Falklands/Malvinas, o conflito de 1982 poderia ser evitado.

No dia 5 de novembro, seis BAe Harrier GR.Mk 1A deslocaram-se de sua base em Wittering para Belize, apoiados por aviões-tanque Victor. Três helicópteros Westland Puma já tinham sido despachados para lá em outubro. Essa “injeção” de poderio aéreo parece ter contido o ímpeto dos guatemaltecos, cuja aviação de linha de frente era composta de alguns velhos Cessna A-37 Dragonfly e uns poucos Lockheed T-33, capazes de efetuar missões de ataque, mas ainda mais velhos. A Guatemala retornou à mesa de negociações, e a situação se estabilizou.

Em abril de 1976, os Harrier foram desmontados e despachados de volta para a Inglaterra; os Puma ficaram em Belize. As negociações de 1976 e 1977, no entanto, chegaram a um impasse previsível; a Guatemala insistia em querer o distrito de Toledo, em Belize, como preço de qualquer acordo. A parte mais distante dos centros de Belize, e também a mais pobre do país, Toledo no entanto representa cerca de um sexto do território belizenho. Ademais, Toledo constituiria um aumento da costa guatemalteca do lado leste, no mar das Caraíbas.

Ameaça de invasão

Na conferência da Comunidade de Nações em 1977, foi discutida a possibilidade de os países membros garantirem que Belize se tornasse independente, mesmo sem ter havido acordo com a Guatemala. Isso estimulou nova ameaça de invasão: a Guatemala mobilizou suas reservas e concentrou forças na fronteira com Belize. O primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, enviou um navio de guerra pequeno e seis Harrier para lá. Os aviões chegaram em 5 de julho de 1977, e imediatamente começaram a realizar voos de patrulha e outras missões para marcar sua presença. A guarnição britânica foi reforçada, e foram construídos novos postos avançados. Uma pista grande foi aberta na selva, no sul.

A guarnição britânica em Belize recebia o apoio de aviões Hercules e VC10. Na foto maior, um VC10 manobra na pista de Belize antes de decolar de volta para Brize Norton, na Grã-Bretanha. Na foto em preto e branco, um Harrier GR.Mk 3 desmontado embarca num Hercules para reforma na Grã-Bretanha.

Novamente, a demonstração de força britânica levou os guatemaltecos de volta à mesa de negociações. Em meados de 1980, a Guatemala parecia disposta a renunciar a sua reivindicação de Toledo e a reconhecer a independência de Belize, em troca de sua exigência original, da construção de uma estrada até o litoral leste, e alguns acordos comerciais de pequena monta.

Embora o perigo imediato tivesse passado, dessa vez a Grã-Bretanha não levou de volta os Harrier imediatamente. Em 21 de setembro de 1981, Belize tornou-se afinal um país independente. Como parte das comemorações, quatro Harrier lançaram fumaça vermelha, branca e azul ao sobrevoarem a cidade de Belize e depois a fronteira com a Guatemala. Afirma-se que os aviões estavam completamente armados, e que em terra havia mísseis superfície-ar (SAM) Blowpipe de prontidão. Os guatemaltecos não interferiram; estavam quase a braços com uma guerra civil.

Depois da guerra das Falklands, o presidente guatemalteco general Efraín Rios Montt declarou sua intenção de acertar a disputa por meios diplomáticos. Seu sucessor, general Oscar Humberto Mejía Víctores, ratificou essa posição. Contudo, houve alguns incidentes de fronteira, sem que, é verdade, fossem disparados tiros. O governo de George Price, primeiro-ministro belizenho até 1984, adotava uma política de imigração aberta, que permitiu a entrada no país de um grande número de refugiados, inclusive da Guatemala.

O governo de Rios Montt havia instaurado tribunais secretos na Guatemala, e muitos refugiados guatemaltecos chegaram a ser sequestrados em Belize e levados de volta a seu país (em 1984, o Exército da Guatemala atacou campos de refugiados no México). Em 1983, três soldados das forças especiais guatemaltecas foram presos na cidade fronteiriça de San Ignacio, ao que parece enquanto desempenhavam uma missão de penetração ostensiva do território belizenho. Eles foram fotografados, e suas impressões digitais foram tiradas; em seguida, foram soltos na fronteira. Registraram-se outras incursões “secretas”, e um acontecimento grave ocorreu em meados de 1984, quando o Exército da Guatemala chegou a ocupar por dias a cidade belizenha de Jalacte. Os invasores se retiraram, porém, obedecendo à polícia de Belize.

As forças de prontidão

As forças armadas guatemaltecas eram grandes e relativamente eficientes. O Exército tinha cerca de 3 000 homens, inclusive com unidades especiais, e contava com artilharia e blindados. A Marinha era pequena, mas eficaz e incluía 650 fuzileiros, além de ter aviões. Os aviões de combate da Força Aérea eram dez (ou menos) Cessna A-37B, entre seis e doze Pilatus PC-7 e cinco treinadores Lockheed T-33 capazes de executar missões de ataque. Vários dos helicópteros podiam atuar armados. Em contraste, a Força de Defesa de Belize (BDF) tinha um efetivo de pouco mais de seiscentos homens, com quatro barcos rápidos de patrulha, dois Britten-Norman BN-2B Defender e alguns morteiros. As Forças Britânicas em Belize (BRITFORBEL) eram bem mais possantes e estavam divididas em dois comandos: o Grupo de Combate Norte, sediado no Campo Holdfast, enquanto o Grupo de Combate Sul tinha seu quartel-general no Campo Ridean. As unidades do Exército que compunham as BRITFORBEL eram trocadas a cada seis meses, mas sempre incluíam um batalhão de infantaria, um batalhão de artilharia com canhões leves de 105 mm e alguns carros de combate leves Scimitar e Scorpion, para reconhecimento.

Variedade de aviões

A principal diferença entre o Exército da Guatemala e as BRITFORBEL estava na qualidade do apoio aéreo que cada um podia obter. Muitos aviões da Real Força Aérea Britanica (RAF) visitaram Belize, entre eles aparelhos reconhecimento Canberra PR.Nik 9. Outros aparelhos da RAF operavam em campos da região, como dois esquadrões de BAe Buccaneer que estiveram em Porto Rico em 1986. Ações com porta-aviões seriam mais simples no mar das Caraíbas do que foram no Atlântico Sul em 1982. As BRITFORBEL contavam também com seu próprio apoio aéreo, baseado em Belize.

Em julho de 1977, uma esquadrilha  de Harrier GR.Mk 3 estava baseada permanentemente no aeroporto Internacional de Belize. Aviões e tripulações faziam rodízio com unidades sediadas na Grã-Bretanha e na Alemanha Federal. Oficialmente chamada de Esquadrilha 1417, esse destacamento tinha quatro Harrier, que ficavam em esconderijos camuflados, com proteção de concreto contra explosões, dos dois lados da principal pista do aeroporto. Os quatro pilotos, 22 componentes do pessoal de terra e dois cozinheiros moravam em alojamentos padronizados moveis, perto da base dos aviões. Outros oito membros do pessoal de terra, encarregados de trabalhos de segunda linha, moravam e trabalhavam com o pessoal do destacamento de Puma, num hangar.

A função dos Harrier em Belize era primordialmente apoio aéreo; praticamente não existia preocupação com combate aéreo ou interceptação. A decolagem e o pouso verticais raramente eram praticados, porque o calor e a umidade afetavam adversamente a potência dos motores. Era preciso injetar água para diminuir a temperatura dos motores, e muitos voos de rotina eram feitos de manhã bem cedo ou à tardinha, para evitar os extremos de temperatura e também para não perturbar o tráfego de aeronaves civis. Além dos motores, também os aviônicos dos Harrier, que eram antigos, eram afetados pelo calor. Duas vezes por semana os aviões eram borrifados com WD40, para afastar o perigo de corrosão.

A Esquadrilha 1563 tinha quatro Puma para apoio da guarnição. Todos os Puma da RAF eram equipados para voo noturno, sem luzes, e afirma-se que os aparelhos em Belize estavam preparados para missões de infiltração clandestina de forças especiais. Pode ser também que esses helicópteros estivessem equipados para operações de reconhecimento fotográfico ou com sensores infravermelhos. Os Puma já tinham participado de missões humanitárias, socorrendo as vítimas do terremoto no México em setembro de 1985 e as da erupção vulcânica na Colômbia em novembro do mesmo ano.

Apoio dos Gazelle

As BRITFORBEL podiam contar também com o apoio dos helicópteros Aérospatiale Gazelle da Esquadrilha 25 da Aviação do Exército (AAC). Essas aeronaves substituíram os Westland Scout em 1979, e desempenhavam missões de controle aéreo avançado, observação e reconhecimento, e comunicações. As operações, no entanto, eram muito prejudicadas não só pelo calor e pela umidade como também pela natureza inóspita do terreno. O salvamento em caso de pouso forçado na selva seria problemático, e por isso os Gazelle se mantinham em rotas fixas sempre que possível. Muitos oficiais do Exército queriam ver helicópteros Westland Lynx em Belize, porque eles eram maiores e mais capacitados para as tarefas existentes que os Gazelle.

Os Gazelle da Esquadrilha 25, como os Harrier da 1417 e os Puma da 1563, tinham sua base no Aeroporto Internacional de Belize. Ali essas aeronaves contavam com a proteção de mísseis superfície-ar Rapier manejados por pessoal da RAF e com o auxílio de radar de controle de tráfego aéreo também a cargo da RAF. Igualmente baseados naquele aeroporto estavam os dois Defender da Força de Defesa de Belize. Esses aparelhos foram cedidos ao país pela Grã-Bretanha em 1983 e eram pilotados por aviadores da RAF, mas pilotos belizenhos treinados no Canadá começaram a assumir gradualmente a tarefa.

Antes a cargo dos técnicos de uma empresa de aviação civil, a manutenção dos Defender era feita por mecânicos da própria Força de Defesa. Busca e salvamento (SAR), evacuação aeromédica (medevac) e repressão ao cultivo de maconha e contrabando de entorpecentes eram as principais funções dos Defender. Esses aviões foram equipados com o sistema de navegação Loran L, aparelhos de comunicação radiofônica com muitos recursos e alto-falantes para uso em voo; também podiam receber radar de detecção, casulos com duplas de metralhadoras e outros armamentos.

A ameaça externa a Belize só diminuiu em 2002, quando as partes fizeram uma acordo, e as fronteiras continuaram as mesmas do início da disputa. A Grã-Bretanha manteve até 2011 sua presença militar.

Belize continua fazendo parte da Commonwealth.


FONTE: Aviões de Guerra #72

12 COMENTÁRIOS

  1. Tem gente que acredita piamente que a Grã-Bretanha foi "pega com as calças nas mãos" em 1982. O fato é que os britânicos já tinham uma boa capacidade de mobilização, que foi posta a prova e realizada com maestria em 1982. Talvez tenha faltado um simples e poderoso exercício sobre as ilhas, mas aí foram os britânicos que subestimaram a Argentina, muito embora o serviço secreto chileno houvesse emitido alertas.

  2. Época das tentativas de invasão de ilhas. 40 anos depois o mundo é totalmente diferente. Se pelo menos ainda tivessem essas coisas por aqui, justificaria o investimento mais vultuoso nas nossas forças armadas. Nem isso mais.
    Nem a miséria instituída na Venezuela pelo Ditador Maduro provocou um ataque ou resposta militar.