B-24_ploestiParar o abastecimento de petróleo de Hitler era o objetivo visado por trás das incursões a Ploesti. A consecução desse plano envolveu os americanos numa dramática campanha aérea.

O vasto complexo de refinação de Ploesti, na Romênia, que fornecia à máquina de guerra alemã cerca de 60% de suas necessidades de petróleo bruto, logo atraiu a atenção dos planejadores estratégicos aliados: a destruição das refinarias ajudaria a paralisar os exércitos de Hitler, que desde 1939 conquistavam vitórias sucessivas.

Em junho de 1942, foi possível contar com os bombardeiros Consolidated B-24D, de alcance suficiente para atingir Ploesti. Treze desses aviões foram enviados contra o alvo em 11 e 12 de junho. O voo, a partir de Fayid, no Egito, só podia transportar cargas leves. Devido ao mau tempo sobre a Romênia, poucas bombas atingiram o alvo, provocando danos irrelevantes.

Voando baixo sobre o inferno de uma refinaria em chamas, um grupo de B-24D Liberator continua rumando para seus próprios alvos.
Voando baixo sobre o inferno de uma refinaria em chamas, um grupo de B-24D Liberator continua rumando para seus próprios alvos.
O mapa mostra as distâncias e rotas percorridas pelas tripulações.
O mapa mostra as distâncias e rotas percorridas pelas tripulações.

Esse fracasso não abalou os americanos. Um ano mais tarde, planejaram montar uma incursão pesada, de baixa altitude, com cinco grupos de B-24. Como no norte da África só havia dois desses grupos — o 98º e o 376º — em condições de operar, transferiram-se três outros (o 44º, o 93º e o 389º) da Inglaterra para Benghazi, na Líbia.

Em 1º de agosto de 1943, 179 bombardeiros rumaram para Corfu, dando início à Operação “Onda de Maré“. Dois deles se perderam em acidentes logo no início do voo. Como um dos aviões acidentados era o líder do 376º Grupo, as perdas causaram confusão generalizada. A força então dirigiu-se à Romênia em duas formações e uma delas aproximou-se de Bucareste, por ter perdido um ponto de desvio. Liderando o 93º Grupo, o coronel-aviador Addison Baker divisou as refinarias e dirigiu a formação ao alvo. Atacados pelo fogo cerrado das defesas terrestres, os pilotos tiveram dificuldade em identificar seus objetivos e bombardearam alvos de oportunidade. Os B-24 do 44º, 98.° e 389º Grupo chegaram depois e encontraram — além de uma cortina de fogo antiaéreo — nuvens de espessa fumaça cobrindo os alvos. Os comandantes dos grupos mostraram grande habilidade e coragem para encontrar e atacar outras fábricas do complexo, mas sofreram baixas consideráveis. O 44º Grupo perdeu sete dos dezesseis aviões para o fogo antiaéreo e o 98º perdeu treze dos 41.

Liberator mal conseguindo escapar de Ploesti, antes de ser envolvido na nuvem de chamas e fumaça de um depósito de combustível incendiado.
Liberator mal conseguindo escapar de Ploesti, antes de ser envolvido na nuvem de chamas e fumaça de um depósito de combustível incendiado.
B-24 on fire
Atingido pela forte artilharia alemã, um B-24 tem seus tanques de combustível incendiado.

Quando os B-24 saíram da área, caças alemães estavam à espera. À perda de 33 bombardeiros por fogo antiaéreo juntou-se a de mais oito, abatidos pelos Messerschmitt Bf 109. Outros sete aviões fizeram pouso forçado na Turquia: dois colidiram e um caiu no mar. Assim, perderam-se 52 bombardeiros da força de 179 enviados, e mais 58 ficaram severamente danificados. Somente dois dos B-24 do 44º Grupo retornaram, incluindo o do comandante, coronel-aviador Leon Johnson.

O ataque conseguiu destruir duas das principais fábricas, e o complexo de Ploesti não recuperou a produção plena nos próximos oito meses. Durante esse tempo, os aliados avançaram pelo norte da Itália, reduzindo pela metade a distância entre bases de bombardeio adequadas e o alvo. O próximo ataque contra as refinarias de petróleo foi realizado por 206 B-24 da 15ª Força Aérea, em 18 de maio de 1944. Os alemães recorreram a um elaborado sistema de cortinas de fumaça, mas mesmo assim sofreram danos de monta. Utilizou-se uma mudança de tática, envolvendo o uso de cerca de setenta caças Lockheed P-38 e caças-bombardeiros, num ataque de baixa altitude, em 10 de junho. Mas os americanos contaram, ao fim da missão, 24 aviões a menos.

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Devastação de uma refinaria após um ataque de B-24. O abastecimento de petróleo da Romênia para a Alemanha cessou pouco antes que tropas soviéticas ocupassem Ploesti.
Messerschmitt Bf 109
Como se não bastasse a forte e agressiva reação da artilharia antiaérea dos alemães, os bombardeiros ainda tinham de lidar com a sede de sangue dos Messerschmitt Bf 109.

Entre 5 de abril e fim de agosto (quando Ploesti foi invadida pelos soviéticos), os B-17 e B-24 da 15ª Força Aérea realizaram um total de dezenove ataques, que despejaram 13.469 t de bombas durante 5.479 incursões, com a perda de 233 aviões. Privada do petróleo de Ploesti, a Alemanha passou a depender quase totalmente da fabricação de petróleo sintético.

B-24_15 força aerea

FONTE: Máquinas de Guerra #14

Edição: CAVOK

IMAGENS: Pinterest


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16 COMENTÁRIOS

  1. Mas que belo artigo!
    Parabéns, Tchê!

    E como o B-24 era resistente…

  2. Muitos anos atras li um artigo na revista Força Aérea sobe esse ataque, foi um esforço muito grande para um resultado abaixo do esperado.

  3. Li um texto na revista AERO que alguns dos B-24 ficaram baseados em Natal RN durante algum tempo. De lá fizeram um translado para a África onde estavam em treinamento para a missão. Nesse mesmo texto, a descrição do voo até o local contavam alguma passagens muito interessantes. Por exemplo o líder da missão os levou direto para a Flak inimiga. Ele percebeu o erro de aproximação, mas sabia que os B-24 seriam mais duramente atingidos se desse a volta, então ele prosseguiu e foi um dos primeiros a ser abatido. Outra parte do texto mostrava uma das aeronaves em voo com o Zé Carioca pintado no nariz do avião!

  4. Muito legal!

    A cerca de 20 anos li 2 livros que me marcaram muito. Na época era um frequantador assíduo de sebos e aficcionado por livros de guerra. Encontrei um livro sobre Ploesti de capa azul,da coleção Blitzkrieg da editora Nova Fronteira. Comprei, levei pra casa, li e depois disto só fiquei sossegado, quando consegui comprar a coleção inteira. Ainda tenho estes 2 livros e todos os outros da mesma coleção, preciso desenterra-los da casa do meu pai, onde estão encaixotados a mais de 15 anos. He he he….

    livro Ploesti – O livro conta todas as missões de ataque às refinarias, dados sobre o planejamento e tudo que foi necessário. O B-24 era a principal aeronave utilizada. Aliás o livro dá um destaque especial à aeronave. Vale a pena a leitura.
    http://mlb-s2-p.mlstatic.com/livro-ploesti-james-

    livro Os Demolidores de Represas – este é mais fantástico ainda. O planejamento e a enorme quantidades de mudanças no B-24 para poder levar bombas especialmente desenvolvidas para a tarefa, é algo muito louco. Estas bombas, projetadas por Barne Wallis, tinham de ser lançadas sobre a agua da represa, na menor velocidade e altitude possivel, para que – sem ricochetear na água – ela afundasse, e se alojasse bem próxima da parede da barragem. A explosão causava uma onde de choque que derrubava a barragem. Imaginem a dificuldade de por uma bomba neste lugar, nestas condições e sob fogo anti-aéreo.
    http://mlb-s2-p.mlstatic.com/lvos-demolidores-de-

    Os dois livros são fantásticos. Os fatos ali planejados, executados e relatados são incríveis. São ações sem precedentes e de uma dimensão enorme. Nunca mais algo desta magnitude será feito. Parece ficção de tão incrível.

    Leiam os livros, para quem não leu….

      • Aliás tem outro também muito bom, que não faz parte desta coleção, mas que também é fantástico. O nome do livro: Por Dentro do III Reich de Albert Speer.
        http://mlb-s1-p.mlstatic.com/739-MLB4706156690_07

        Tem um outro também que não me lembro o nome, que fala sobre as relações de Getúlio Vargas e a Alemanha na WW2. Interessante demais. Getúlio Vargas comprou um mundo de equipamentos militares alemães. Caminhões, Blindados, armas em grandes quantidades. Porém somente a primeira remessa foi entregue, que continha armas de fogo e veiculos blindados que foram usados pela policia do regime. Logo depois o bloqueio do atlantico impediu a entrega dos demais equipamentos. Não me lembro a quantidade exata, mas foram comprados mais de 1000 caminhões, centenas de blindados. Os equipamentos foram pagos e fora a primeiro lote, mais nada foi entregue.

    • Fiquei curioso agora, vou ver se encontro em algum lugar para compra-los, parecem muito esclarecedores e claro é um assunto que considero muito interessante, obrigado pela dica amigo !!!

      • Cara estes 3 livros são fantásticos.

        Este de Albert Speer, é coisa de outro mundo. Afinal tantos queriam suceder Hitler e no fim foi Albert Speer que assumiu e "assinou" a rendição. Ele foi julgado em Nuremberg, abriu a boca, falou tudo e por isto escapou da pena de morte. Escreveu o livro (se não me engano boa parte dele) na prisão, nos seus 20 anos de reclusão. O cara era arquiteto, começou com projetos pequenos para o partido Nazista, chegando a ser o mais influente e confiável personagem do círculo próximo de Hitler. Ele conta toda sua trajetória, com bastidores de coversas com Hitler, atritos com militares e membros mais fanáticos do partido. É a obra que nos leva o mais próximo possível de entender a Alemanha Nazista.

        Vale a pena..

  5. Algumas curiosidades, era tão difícil acertar alvos nos bombardeiros na 2GM que é comum ver fotos aéreas mostrando muitas crateras ao redor de alvos.
    Outra é que os Alemães avançaram bastante na produção de óleo sintético já que o petróleo era escasso no meio da guerra em diante.

    • Vai dizer que não é – guardada as proporções – exatamente o que os EUA estão fazendo hoje a partir do xisto? Ao invés de xisto, os "alemon" usavam carvão!

  6. Outro revistão, Máquinas de Guerra!

    E era muita, MUITA coragem e disposição pra afzer este tipo de missões praticamente suicidas. Para vencer os nazistas, só com o máximo da força possível, sem exceções!

  7. Esse ataque, apesar das baixas e da rápida recuperação da refinaria, teve um trunfo. Uma das refinarias desse complexo foi tão bem atacada, que não mais retornou à produção, e essa refinaria era justamente a que produzia combustível de aviação, fez muita falta à Alemanha.

  8. Excelente matéria.

    Só pra se ter uma ideia do nível de dificuldade da missão, morreram mais aviadores que pessoas em terra.

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