capa3Vislumbradas como uma maneira fácil de consumir a base industrial alemã, as incursões a Schweinfurt tiveram o efeito contrário de minar a confiança e o engajamento da USAAF. Mas os americanos não desistiram.

Em função de sua obstinada insistência em bombardeios diurnos, a 8.ª Força Aérea da USAAF (United States Army Air Force, Força Aérea do Exército dos Estados Unidos), sediada na Inglaterra em meados de 1943, acabou se habilitando a estender suas operações para dentro do território da Alemanha. O pré-requisito, na ausência de caças de escolta capazes de acompanhar a missão toda, era se valer de grande número de bombardeiros, para anular a oposição dos caças inimigos.

Os aliados acreditavam que a indústria alemã de rolamentos de esfera, concentrada em Schweinfurt, no sul da Alemanha, representava um componente vital da indústria bélica inimiga, e que um único ataque pesado o danificaria severamente. Essa suposição levou à escolha de Schweinfurt como alvo de ataque da recém-criada 1.ª Ala de Bombardeio de Combate (Pesado) da 8.ª Força Aérea, em agosto de 1943.

O caminho para Schweinfurt foi sangrento: fogo antiaéreo, caças e acidentes cobraram seu preço. Algumas das formações encontraram o caminho de volta pela sequência de destroços fumegantes no solo.
O caminho para Schweinfurt foi sangrento: fogo antiaéreo, caças e acidentes cobraram seu preço. Algumas das formações encontraram o caminho de volta pela sequência de destroços fumegantes no solo.

O plano original previa o envio de 150 Boeing B-17F da 4.ª Ala de Bombardeiros de Combate (Pesado) para atacar a fábrica Messerschmitt em Regensburg-Prüfening e então voar para bases no norte da África.

A 4.ª Ala decolaria pouco antes dos 240 B-17F da 1.ª Ala, que atacaria Schweinfurt. Até Bruxelas, os Supermarine Spitfire e Republic P-47 britânicos e americanos dariam cobertura de penetração para o ataque a Regensburg.

Os Boeing B-17F-10 da 322.ª Esquadrilha do 91.° Grupo de Bombardeiros ficaram famosos por causarem a destruição do maior número de aviões inimigos, mas sofreram as maiores baixas.
Os Boeing B-17F-10 da 322.ª Esquadrilha do 91.° Grupo de Bombardeiros ficaram famosos por causarem a destruição do maior número de aviões inimigos, mas sofreram as maiores baixas.

Perdas iniciais

Desde o início das incursões, desencadeadas em 17 de agosto, o mau tempo impediu que se efetivasse um cuidadoso plano. O intenso nevoeiro sobre as bases da 4.ª Ala atrasou os atacantes de Regensburg. Mesmo assim, os aviões decolaram a tempo de garantir sua chegada às bases africanas durante o dia. Mas a 1.ª Ala — sediada mais para o interior da Inglaterra, onde o nevoeiro continuou por mais tempo — não conseguiu decolar senão três horas e meia mais tarde, quando os próprios caças de escolta já estavam no solo, reabastecendo. Além disso, a 4.ª Ala havia atraído a atenção conjunta das defesas alemãs, perdendo 24 dos 146 B-17 que atravessaram a costa inimiga.

Quando a 1.ª Ala atingiu a costa belga, os caças inimigos, já remuniciados e reabastecidos, estavam em estado de alerta. Caças provenientes de regiões distantes do Reich concentravam-se agora nas áreas visadas pelos atacantes de Schweinfurt. Quando 230 B-17F do 91.°, 92.°, 303.°, 305.°, 306. °, 351.°, 379.°, 381.° e 384.° Grupo de Bombardeiros sobrevoaram a Bélgica, o bloco dianteiro de sessenta bombardeiros foi atacado por sucessivas vagas de aviões do JG 26 (Jagdgruppe, grupo de caça) seguidas de elementos do JG 2, JG 3 e I/JG 5.

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Palestra matutina para as tripulações dos B-17 da 8.ª Força Aérea, antes de uma incursão ao Reich. As perspectivas eram ruins e a realidade foi pior. Muitos desses pilotos não voltariam. A direita, registro da missão do dia, em Kimbolton, base do 379.° Grupo de Bombardeiros. As perdas de aviões e homens na primeira incursão a Schweinfurt foram tão altas que a USAAF esteve para desistir da operação.

Antes de alcançar o alvo e bombardeá-lo, às 14h57, o grupo dianteiro de B-17F havia perdido 21 aviões; sete outros voltaram para suas bases sem lançar bombas. Ao todo, o alvo foi atingido por 183 B-17. Quando a 1.ª Ala voltou a suas bases, constatou-se que ela havia perdido 371 membros da tripulação, distribuídos por 36 aviões; dezenove outros B-17 foram encaminhados para reparos.

Apenas duas das cinco fábricas vitais de rolamentos de esferas sofreram danos consideráveis: a produção total reduziu-se em apenas 21%, e por não mais de três semanas.

O estudo dos relatos de combate evidenciou que, com a capacidade alemã de resistir às incursões de penetração profunda, os planos de ataque diurnos não escoltados falhariam com frequência. Um resultado imediato consistiu na entrega acelerada do B-17G, dotado de maior capacidade de armamento de fogo à frente (numa torre no queixo). O raio de ação dos caças de escolta (os P-47 e os Lockheed P-38) aumentou com o uso de reservatórios auxiliares; mais tarde, incorporou-se a esses dois tipos de caça o notável P-51D.

Uma formação chega na metade da missão. Agora resta a longa viagem de volta, enfrentando interceptações, fogo antiaéreo, congelamento, ferimentos e exaustão.
Uma formação chega na metade da missão. Agora resta a longa viagem de volta, enfrentando interceptações, fogo antiaéreo, congelamento, ferimentos e exaustão.

A incursão de 17 de agosto contra Schweinfurt levou os alemães a dispersarem a indústria de rolamentos de esferas por todo o país. Os americanos lançaram uma segunda incursão pesada em 14 de outubro, com 420 aparelhos B-17 e Consolidated B-24. Novamente o mau tempo interferiu e impediu que aos B-17 se juntassem os B-24, que tiveram de fazer uma rota de despistamento sobre o mar do Norte. Apenas 291 B-17 rumaram para Schweinfurt, com a 1.ª Divisão à frente, numa rota quase reta até o alvo. A 3.ª Divisão optou por uma rota irregular, numa tentativa de confundir o inimigo quanto a seu alvo final. Os primeiros B-17 enfrentaram o grosso da reação dos caças alemães. O 305.° Grupo de Bombardeiros, por exemplo, perdeu catorze de seus dezessete aviões.

Erros táticos e estratégicos

A 1.ª Divisão americana atacou Schweinfurt novamente em 24 de fevereiro de 1944. Com escolta de caças de longo alcance, 238 B-17F e B-17G decolaram para o longo voo sobre a Alemanha. Perderam-se apenas onze aviões. A RAF agora também participava e, na mesma noite, 663 Handley Page Halifax e Avro Lancaster despejaram 2.000 t de bombas. Na noite de 30 para 31 de março, durante o desastroso ataque da RAF a Nuremberg, mais de cem Halifax e Lancaster despejaram cerca de quatrocentas toneladas na área de Schweinfurt, acreditando que fosse Nuremberg. Os B-17F e B-24 da 8.ª Força Aérea realizaram outros ataques diurnos contra Schweinfurt em 21 de julho e 9 de outubro de 1944. O último deles, com bombardeiros médios da 9.ª Força Aérea, ocorreu em abril de 1945.

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Chamas, fumaça e destroços de um B-17 atingido. O fogo antiaéreo arrebentou toda a seção do nariz, matando piloto, co-piloto, atirador e navegador.

O episódio de Schweinfurt demonstrou as falhas características do plano de bombardeio estratégico dos aliados: não se conseguiria resultado decisivo através do bombardeio sem informações sobre a capacidade do inimigo de dispersar seus alvos bélicos vitais e sem que se obtivesse uma superioridade aérea inconteste.

– Giordani –

FONTE/IMAGENS: Máquinas de Guerra #14 – Edição: CAVOK

IMAGENS adicionais: Pinterest

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14 COMENTÁRIOS

  1. Esses artigos sobre os bombardeiros da Segunda Guerra Mundial são muito interessantes, e as imagens são um espetáculo à parte. É triste pelas vidas perdidas, mas é o ônus da guerra.

    Mandou bem, Tchê!

    • O que será que se passava na cabeça dos soldados e pilotos?
      Medo? Orgulho? Honradez?

        • Cara, suicidas, não eram. Tinham um trabalho a fazer, e esse trabalho podia matar eles. Coragem e disposição.

          • Fico tentando imaginar o que se passava na mente daqueles homens. A 8.000 m, sem pressurização, suportando temperaturas de -70°C dentro de uma fuselagem com duas grandes aberturas e disparando em caças…eu tento, mas não consigo.

            A USAAF vendeu a imagem da invencibilidade das fortalezas e milhares de jovens acreditaram.

  2. Muito bom, e levanta uma excelente questão a respeito da dispersão dos meios vitais de um inimigo, um problema das campanhas militares atuais empreendidas pelas potências militares…

  3. A última imagem do B-17 em chamas sem a parte dianteira é de arrepiar, fico imaginado seus colegas, nos aviões ao lado vendo esta cena e tendo que continuar a missão sem perder o foco mesmo tendo acabado de perder mais amigos e sem ter feito nada para ajuda-los, deve ser de uma impotência absurda esta em uma situação dessas.

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