capa2Um atributo fundamental do bombardeiro, na Segunda Guerra Mundial, consistia na sua capacidade de atingir alvos-chave localizados no interior do território inimigo.

Uma das operações mais espetaculares desse tipo foi o ataque do Comando de Bombardeiros da RAF (Royal Air Force, Força Aérea britânica), em maio de 1943, contra as represas do Ruhr, cujas hidrelétricas associadas serviam o complexo industrial da Alemanha.

A peça central dessa audaciosa aventura, com nome de código de “Operation Chastise” (operação castigo), foi o desenvolvimento de uma arma de demolição especial e a seleção de tripulações de bombardeiro, experientes o bastante para executar ataques.

Avro 683 Lancaster, o melhor bombardeiro britânico pesado da Segunda Guerra Mundial.
Avro 683 Lancaster, o melhor bombardeiro britânico pesado da Segunda Guerra Mundial.

Durante alguns meses, o engenheiro aeronáutico Barnes Wallis argumentou a favor de ataques aéreos aos alvos-chave. Ele já havia chegado à conclusão de que uma bomba convencional capaz de arrebentar represas seria pesada demais (mesmo para o Avro Lancaster); mas, se detonasse uma carga de 2.722 kg de explosivos contra a massa da represa abaixo da água, as ondas de choque seriam suficientes para enfraquecer a estrutura, que acabaria ruindo. A fim de conseguir isso, Wallis projetou uma mina cilíndrica especial.

Enquanto se realizavam testes com armas de metade do tamanho planejado, lançadas de um Vickers Wellington, Sir Arthur Harris, comandante-em-chefe do Comando de Bombardeiros, recebeu autorização para criar uma esquadrilha especial, que tinha por objetivo atacar as represas Mohne, Eder, Sorpe, Lister, Schwelme e Ennepe. O grupo da força principal com Lancaster, na época, era o 5. °, e seu comandante, Sir Ralph Cochrane, selecionou o tenente-coronel-aviador Guy Penrose Gibson para liderar a nova unidade, a 617ª Esquadrilha. A 21 de março de 1943 Gibson começou a escolher as tripulações dos Lancaster. Sem ter sido informado do alvo final, encetou a difícil tarefa de soltar uma bomba à altura de exatamente 18,3 m acima da superfície da água, à noite, a uma velocidade de 402 km/h e a uma distância entre 366 e 411 m de um alvo.

Lancaster
A mina cilíndrica de Wallis
Pilotos praticando
Pilotos praticando

Os jovens e seus Lancaster

A data para o ataque, 16 de maio, fora escolhida para fazer coincidir um máximo de luar com o nível sazonal máximo de água nas represas. Só no dia anterior Gibson instruiu suas tripulações quanto ao alvo verdadeiro. A essa altura, lhe haviam sido entregues vinte Lancaster B.Mk III especialmente modificados: as portas dos compartimentos de bombas e as torres dorsais haviam sido removidas e adicionara-se um par de forquilhas abaixo do centro de gravidade do avião. Entre elas seria suspensa a arma de 127 cm de diâmetro e 4.196 kg conhecida como “Upkeep“. A altura de liberação da bomba, cuja precisão era vital, seria obtida utilizando-se dois holofotes debaixo do nariz e da cauda do Lancaster. Quando os fachos de luz convergentes formassem um “8” na superfície da água, o avião estaria exatamente a 18,3 m de altitude.

Dezenove das 21 tripulações partiram para o ataque real. Gibson dividiu sua força em formações de três vagas, ele próprio liderando nove aviões contra a represa de Miihne. Um segundo grupo de Lancaster, liderado pelo tenente-aviador Joseph McCarthy (um americano que servia na RAF), atacaria a represa de Sorpe. Os cinco Lancaster restantes, liderados pelo tenente-aviador W. C. Towsend, operariam como “reserva móvel”.

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Quando os fachos de luz formassem um “8”, o avião estaria exatamente a 18,3 metros de altitude

A formação para Sorpe decolou um pouco antes das 21h30 de 16 de maio, percorrendo uma rota pelo norte, para evitar oposição alemã. O segundo grupo seguiu mais ao sul, em três levas, lideradas por Gibson, por Henry Maudslay e por “Dinghy” Young. O grupo de reserva decolou por volta da meia-noite.

Os Lancaster voaram sobre a costa de Norfolk e baixaram a uma altitude de 30 m para evitar detecção pelo radar inimigo. A formação de Sorpe cruzou a costa holandesa perto de Vlieland e a de Gibson, uns 80 km ao sul. O fogo antiaéreo vindo da Holanda dizimou o primeiro grupo. Apenas McCarthy, que estava voando cerca de 97 km atrás de sua formação, devido a um atraso forçado na decolagem, escapou ileso. Gibson, por sua vez, conduzia sua leva de três aviões 12 m acima dos campos holandeses, enquanto os bombardeadores o alertavam contra casas, árvores e outros obstáculos. Perto de Rosendaal, o Lancaster pilotado pelo tenente-aviador Bill Astell foi atingido por fogo antiaéreo e caiu. Evitando as principais defesas do Ruhr, Gibson levou seu avião para o norte de Hamm, antes de tomar a rota final para Möhne. Podia ver bem seu enorme alvo sob o luar. Quando os canhões de defesa da represa entraram em ação, Gibson iniciou um ataque perfeito. Sua mina detonou bem no centro da represa. Subindo para circundar o alvo, ele avistou o Lancaster do tenente-aviador J. V. Hopgood ser atingido por fogo antiaéreo, quando se aproximava da represa. A mina de Hopgood ultrapassou o parapeito da represa e atingiu a hidrelétrica. Mas o avião estava em chamas e logo seus reservatórios de combustível explodiram. Quando o próximo avião, pilotado pelo líder da esquadrilha H. B. Martin, fez seu ataque, Gibson voou sobre a represa para atrair o fogo antiaéreo para seu aparelho.

d3b6f403cddbc690f9f5db837a8bb264A mina de Martin também caiu com precisão e explodiu contra a represa, que ainda permanecia intacta. Em seguida, veio “Dinghy” Young. Enquanto Gibson e Martin distraíam os atiradores inimigos, sua mina acertou o alvo. Mas só o ataque seguinte, do tenente-aviador D. J. H. Maltby, fez com que a grande estrutura de concreto ruísse. Uma brecha de 91 m se abriu e a massa de 134 milhões de t de água acumulada precipitou-se vale abaixo.

A represa de Eder (e) e Möhne (d) depois dos ataques
A represa de Eder (e) e Möhne (d) depois dos ataques

Então Gibson instruiu Martin e Maltby para voltarem. Formaram com ele, rumo a Eder, “Dinghy” Young (controlador substituto, caso Gibson fosse abatido), Maudslay, o tenente-aviador D. J. Shannon e o oficial-piloto L. G. Knight. Localizada num vale mais profundo que o da represa de Möhne, a de Eder mostrou-se um alvo difícil de se atacar. Shannon fez seis tentativas infrutíferas antes de conseguir soltar sua mina no alvo. A mina de Maudslay atingiu o parapeito e explodiu com o impacto, destruindo o Lancaster. Foi a última mina restante, soltada por Knight, que finalmente estourou a represa de Eder, provocando o repentino escoamento de 200 milhões de t de água.

Os ataques aos outros objetivos não tiveram êxito, mas o rompimento das represas Möhne e Eder foi uma impressionante demonstração bélica, de concepção e planejamento impecáveis e executada com empenho por 133 jovens — dos quais, 56, em oito Lancaster, não voltaram. Guy Gibson recebeu a Victoria Cross, a mais importante condecoração britânica.

ataque a represas #1

FONTE: Máquinas de Guerra #14 – Edição: CAVOK

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8 COMENTÁRIOS

  1. Que legal que você Giordani postou isto.

    Muito legal. Parabens.

    Esta foi, na minha opnião, a missão de bombardeio mais interessante da ww2.

  2. O mais incrivel e engenhoso foi como eles fizeram para medir a altitude com precisão usando apenas 2 olofotes , bem ao estilo gambiarra , o jeitinho nosso !!!

    Esses mecanicos que fizeram as modificaações só podiam ser BR…

    • rápido ou alto demais e a bomba se espatifaria no impacto sem o efeito de quicar sobre água, lançada, no alvo, longe demais explodiria sem efeito estrutural, perto demais poderia explodir no choque provocando danos "superficiais" uma tarefa que exigia precisão cirúrgica executada por uma machadinha velha enferrujada, muito bom…

  3. "…a arma de 127cm de diâmetro…", não seria 1,27cm de diâmetro?
    São por esses e outros fatos que eu considero o melhor conflito para estudar, em termos históricos, de armas e táticas de guerrear eu já tinha visto um documentário sobre este fato, mas não me recordava deste dispositivo utilizando dois fachos de luzes para medir a altura certa de lançamento.
    Ótima matéria!

    • 1,27 cm é o diâmetro do seu dedo indicador…acho fino demais pra ser uma bomba capaz de destruir uma barragem, nao?

      • É verdade.
        Quando li esta matéria por algum motivo, dislexia talvez, eu interpretei os 127cm como sendo 1/2"(12,7mm).
        Acho legal ser corrigido por algum erro cometido, mas fazer de um erro meu uma ironia já é algo que não acho tão bom.

  4. Bacana a matéria.

    Só a título de curiosidade, os argentinos, quanto operaram Lancaster e Lincon, também formaram um esquadrão com o propósito específico de destruir barragens, tal como os 'Dam Busters'. Chegaram até a realizar treinamentos, mas, até onde sei, nunca houve um lançamento real ou mesmo uma arma específica para se usar…

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