Após a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética investiu grandes recursos para garantir que a tecnologia militar da Estrela Vermelha se equiparasse com as mais recentes armas desenvolvidas no Ocidente.

Em 1952, antes mesmo do primeiro vôo do M-4, a indústria da aviação soviética iniciou estudos preliminares para um bombardeiro supersônico.

Os soviéticos sabiam que os norte-americanos estavam trabalhando em tais máquinas, mas uma em particular, era o Convair B-58 Hustler, e a URSS não podia ficar sem dar uma resposta.

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M-50 durante exibição que alarmou a OTAN

Desempenho supersônico era um problema, mas não é um problema tão grande como a obtenção de alcance para atacar os EUA e voltar para a URSS. O conceito inicial era de um avião de duas partes¹, com uma plataforma transportadora dispensável sob o controle de um avião tripulado, menor, que descartaria a transportadora após realizar o ataque e depois retornaria para casa. Era uma ideia maluca, mas foi uma das poucas maneiras que os engenheiros encontraram para obter o alcance necessário. As autoridades gostaram do esquema, e em 1954 o OKB Myasishchev foi encarregado para o desenvolvimento do conceito.

Um protótipo deveria ficar pronto para os ensaios de voo até o final de 1958. Deveria ser propulsionado por turbojatos da Dobrynin ou Mikuline e deveria ser capaz de levar 5.000 kg de carga, ter um alcance de 13.000 quilômetros (8.080 milhas) e a uma velocidade máxima de 1.800km/h. A velocidade de cruzeiro seria supersônica, com pelo menos 1.500 km/h a uma altitude de mais de 14.000 metros (45.900 pés).

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Os motores internos, montados em cabides, eram desprovidos de pós combustores

Estudos iniciais do projeto terminaram em 1955 sem nenhuma surpresa. O conceito mostrou-se impraticável. Outros conceitos foram investigados, como uma configuração dual, rebocando outra aeronave, bem como uma única aeronave com grandes tanques descartáveis com motores auxiliares integrais, que seriam ejetados a medida que o combustíveis desses fosse terminando.

Ninguém poderia ter criticado os engenheiros da Myasishchev por falta de imaginação, mas nenhum dos conceitos eram viáveis. Em julho de 1955, o passo lógico foi buscar uma configuração mais convencional – uma única aeronave com tanques descartáveis – e modificar as especificações, diminuindo o alcance sem reabastecimento para 11.000 quilômetros (6.835 milhas), embora o reabastecimento em voo o permitisse missões mais longas. Em contra partida a velocidade máxima e a velocidade de cruzeiro foram aumentadas. O cronograma foi realmente mudou-se, com os ensaios do Estado para começar no início de 1958.

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Trabalho no protótipo do “M-52”, que contava com uma sonda IFR no nariz, uma asa modificada, torre de canhão e a capacidade de levar dois mísseis ar-superfície Kh-22 (OTAN AS-4 “Kitchen”).

O desenho geral da aeronave, agora conhecida como o “M-50”, foi criado e seguiu uma configuração comum como dos primeiros aparelhos supersônicos soviéticos: uma aeronave de asas delta com um conjunto de cauda convencional. Quatro motores foram planejados, e depois do OKB considerar vários arranjos de motores, a decisão foi tomada para montar um motor em cada asa e em um em cabide em cada asa. No entanto, apesar dos esforços para reduzir o peso e aumentar o transporte de combustível, o alcance máximo não poderia ser aumentado para mais de 9.600 quilômetros (5.965 milhas). Vários conceitos foram avaliados, incluído decolagem auxiliada por foguetes, decolagem por foguetes (aonde são os foguetes que colocam o avião no ar) e até mesmo uma versão hidroavião, mas nenhuma dessas ideias seguiu adiante.

Em resposta ao problema do alcance, os engenheiros do OKB Myasishchev tinham redesenhado e buscado alternativas de todas as maneiras possíveis e reais, mas reconheceram que o M-50 ainda não atendia as especificações. Funcionários do OKB argumentavam que as especificações eram exageradamente agressivas, dada a natureza avançada da aeronave. Em 1956 a Força Aérea soviética aceitou os argumentos e aprovou a construção de um protótipo.

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Detalhe da incomum cabine do M-50.

O protótipo do “M-50A” ficou pronto em julho de 1958. O sufixo “A” indicava que o protótipo não apresentava os mecanismos previstos para os de produção, principalmente no desenvolvimento do turbojato Zubets RD-16-17 (que deveria fornecer 18.490 kg de empuxo com pós combustão), ainda não estava pronto. O protótipo M-50A foi equipado com duas variantes diferentes do Dobrynin VD turbo-7:

  • Um motor VD-07:00 com pós-combustão, gerando um empuxo máximo de 15.990 kg e foi montado suspenso em um cabide de cada asa.
  • Um motor VD-7BA sem pós-combustão, gerando um empuxo máximo de 9.500 kg, foi montado na extremidade de cada asa.

A fuselagem praticamente era um grande tanque de combustível, pressurizada com gás inerte e com um sistema de extinção de incêndios. Não havia tanques nas asas.

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Imagem retirada de um fotograma do primeiro voo do M-50.

A fuselagem era uma secção circular. As asas eram muito finas, razão pela qual não havia tanques em si, com uma relação de espessura corda de 3,7% na raiz e a configuração era a delta, com um enflechamento de 57,57 graus. A asa foi dotada de grandes flaps e ailerons. As superfícies da cauda eram todas móveis e todas tinham os clássicos, pesos soviéticos anti-vibração, nas pontas.

O trem de pouso era muito semelhante ao Bison com uma configuração tipo bicicleta, com quatro rodas (duas no nariz e duas no trem principal, estabilizadas por rodas de apoio nas asas). A roda do nariz era dirigível. O trem de pouso, assim como as superfícies de controle de voo, eram atuados por sistema hidráulico. Havia um sistema de para-quedas de freio.

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Dois tripulantes sentavam-se em tandem numa cabine pressurizada e em assentos ejetáveis que baixavam. Além disso, os pilotos usavam trajes pressurizados, caso necessitassem ejetar.

Entrava-se na aeronave através de escotilhas inferiores separadas, e havia escotilhas de emergência no topo, à frente de um compartimento contendo um bote salva-vidas e outros equipamentos de sobrevivência. Uma sofisticada suíte aviônica foi planejada para o M-50, que teria os mais recentes e melhores equipamentos de navegação, incluindo um sistema de navegação estelar. Não se sabe se o protótipo chegou a receber essa suíte.

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Tanto o trem de pouso dianteiro quanto o principal dispunham de quatro rodas.
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Uma das tantas ideias para o M-50. No caso aqui, o M-50-05, que decolaria por foguetes.

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Depois de uma série de mudanças, como indicado por testes de táxi, em outubro de 1958, o M-50A foi desmontado, colocado em uma barca e transportado para o centro de testes de voo em Zhukovskiy. Outros testes e correções foram feitas na aeronave em Zhukovskiy e em 27 de outubro de 1959 o M-50A fez seu primeiro vôo. Para os voos iniciais, todos os quatro motores eram VD-7BA (sem pós combustores). Nos vôos subsequentes o protótipo foi forçado mais e mais em seu envelope de desempenho, embora o programa de teste fosse adiado por um acidente em terra em 12 de maio de 1960, quando os calços cederam durante um teste de motores e aeronave saiu em disparada e sem controle, colidindo com o protótipo do Bison-C nas proximidades e matando um mecânico. O Bison teve que ser demolido e o M-50A voltou a voar novamente em dois meses. Em abril de 1961, os dois turbojatos internos foram trocados por VD-7MA (com pós-combustão). O avião parecia sofrer de assimetria, voando para a direita.

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Detalhe do missíl ar-superfície AS-4 “Kitchen”.

O trabalho no protótipo do “M-52”, que contava com uma sonda IFR no nariz, uma asa modificada (pequenas aletas nos motores da extremidade de cada asa), uma pequena asa em delta no topo do da deriva, uma torre de canhão e a capacidade de levar dois mísseis ar-superfície Kh-22 (OTAN AS-4 “Kitchen”). No entanto, por esta altura, o programa foi considerado “vazio”. O Premiê soviético, Nikita Krushchev, não estava entusiasmado com bombardeiros estratégicos, acreditando que os novos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) eram um sistema de ataque nuclear mais barato e potencialmente muito mais eficaz.

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Maquete apresentando a singular cabine do avião.

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Em 9 de Julho de 1961, o M-50A fez um sobrevoo no show aéreo anual em Tushino, escoltado por dois caças MiG-21. Observadores ocidentais ficaram impressionados com a grande e elegante máquina (aparentemente, fez um barulho estrondoso e impressionante, embora o voo não fizesse uso de pós-combustão). Aquele voo impressionou² por demais os planejadores da OTAN, que logo lhe atribuíram o nome de “Bounder” (algo como um demarcador de fronteiras). O que os ocidentais não sabiam era que aquele voo do M-50A foi também o último. O M-50A acabou estacionado no museu ao ar em Monino, onde permanece até hoje. O protótipo M-52 foi desfeito antes da conclusão.

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Proposta para o M-52.

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O cancelamento do programa M-50 foi por muito tempo uma vergonha para a VVS Soviética (Voyenno Vozdushniye Sily), assim como foi o Livro Branco dos britânicos e o Arrow para os canadenses. Krushchev tinha razões legítimas para cancelar o programa, mas foi um retrocesso no desenvolvimento soviético de grandes aeronaves de alto desempenho. O OKB Myasishchev teve uma série de ótimos conceitos para o desenvolvimento, como um transporte supersônico (SST) derivado do M-50A. O OKB Myasishchev foi fechado.

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Concepção artística de como deveria ter sido o M-50 Bounder

Características gerais

Tripulação: Dois

Dimensões: Comprimento: 57,48 m; Envergadura : 35,10 m; Altura: 8,25 m; Área alar: 290,6 m²

Pesos: Vazio: 85.000 kg; Carregado: 175.000 kg; Peso máximo de decolagem: 200.000 kg

Propulsão: Dois turbojatos Dobrynin VD-7M montados em cabides (um em cada asa) e dois Dobrynin VD-7MA montados em cada extremidade da asa (um em cada asa).

Desempenho: Velocidade máxima: 1.950 km/h; Velocidade de cruzeiro: 1.500 km/h; Alcance: 7.400 km; Teto de serviço: 16.500 m (54.100 pés)

Armamento: 30.000 kg de bombas ou mísseis transportados em um compartimento interno


NOTA DO EDITOR¹: Os EUA acabaram utilizando este conceito no B-58, mas não de uma forma tão radical quanto a proposta pelos soviéticos. No caso, o B-58 levava uma arma nuclear num grande tanque de combustível descartável sob a fuselagem, com o combustível de retorno na fuselagem e asas.

NOTA DO EDITOR²: Durante aquele voo, o avião fez várias passagens sobre o público. Havia na plateia um adido militar dos EUA. Ele prontamente alardeou o Pentágono e a OTAN, pois ao ver “vários” M-50 passando, julgou que a URSS já possuía uma frota de Bounder, mas o que ele não sabia era que aqueles aviões eram na realidade o mesmo…

11 COMENTÁRIOS

  1. mas esse obsrvador da USAF era meio "lerdo" não? Na foto que mostra a apresentação pública dá para ver o número da aeronave (Bort) claramente….como ele pensou que fossem várias aeronaves? hehehehe

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