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Entre as aéreas brasileiras, a Gol é a que está em situação mais grave. Somente nos primeiros nove meses de 2015, a companhia registrou R$ 3,2 bilhões de prejuízo / Foto: Boeing 737-800, por Ricardo Hebmüller, em caráter ilustrativo

Depois de vivenciar a era dourada da aviação, quando a demanda chegou a crescer mais de 20% em um único ano, a crise por que passa o setor se agravou em 2015 e não dá sinais de trégua em 2016. Com o dólar alto e a recessão econômica, especialistas já preveem retração na demanda por voos este ano, algo que não acontecia desde 2003. Para enfrentar a turbulência — já são cinco anos de prejuízos bilionários — as companhias aéreas fazem um pouso forçado, com corte de pessoal e redução na oferta doméstica de até 9% em 2016.

— A classe C impulsionou a demanda no passado. Com a queda do poder aquisitivo, a tendência é de retração. Além disso, as viagens de negócios, que representam dois terços do total, vêm caindo. Com a recessão econômica, o ambiente para negócios não é propício. Por isso, já se pode apostar em recuo na demanda este ano — avalia Jorge Leal, professor de Transporte Aéreo da Escola Politécnica da USP.

Se a projeção de Leal vingar, será a primeira queda da demanda em 13 anos — em 2003, o recuo foi de 6%. Os números revelam sinais de retração. A demanda já cai há quatro meses seguidos desde agosto de 2015, após 22 meses de alta. Em novembro, a queda foi de 7,5%, o maior declínio mensal desde agosto de 2003 (-7,48%). A oferta também vem ladeira abaixo, com três meses consecutivos de declínio desde setembro. E vem mais por aí.

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Airbus A350 XWB / Foto: P. Pigeyre, em caráter ilustrativo

IMPACTO DA ALTA DO DÓLAR NAS DESPESAS

A TAM disse que vai reduzir em 6% a 9% a oferta de assentos nos voos nacionais este ano. A Azul, por sua vez, vai diminuí-la em 7% e está reavaliando a frota no curto prazo. A Gol anunciou redução de 4% a 6% no número de decolagens domésticas para o primeiro semestre de 2016. Já a Avianca disse que “eventuais ajustes na oferta dependerão do comportamento do mercado”. Ao reduzir a oferta, as empresas buscam pressionar os preços das passagens para cima. Mas especialistas acreditam que as chances de alta são pequenas.

— Se consideradas as expectativas econômicas para 2016, não há como ser otimista. Mas também não dá para dizer que será pior. Pode ter um viés de redução de demanda — avalia Márcio Peppe, sócio da KPMG no Brasil, que acompanha o setor aéreo.

Para entender os altos e baixos do setor no Brasil, é preciso voltar no tempo. Em 2002, entrou em vigor a liberdade tarifária. Até então, os preços das passagens eram controlados pelo governo. A partir daí, a competição entre as empresas se acirrou, jogando os preços para baixo até o patamar médio mínimo de R$ 329,51 em 2011.

Esse fenômeno, associado ao crescimento econômico, à expansão do crédito e ao aumento da renda verificados a partir de 2004, fez a indústria da aviação experimentar uma fase áurea como poucos segmentos econômicos. Com o bilhete mais acessível e mais dinheiro no bolso, o brasileiro que nunca sonhara em pisar em um avião passou a voar pelo país. De olho na nova classe C, as aéreas parcelavam as passagens em mais de 30 meses e descobriram novos canais de venda, como o modelo de porta em porta em favelas e nos balcões de grandes redes varejistas. O resultado foi o crescimento galopante da demanda entre 2004 e 2011, com alta de dois dígitos por ano — a exceção foi 2008, ano da crise econômica global, mas ainda assim a expansão foi forte, de 8%.

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Embraer ERJ-190AR (ERJ-190-100 IGW) / Foto: Junio Gracielo, em caráter ilustrativo

CORTE DE 2,4 MIL VAGAS DESDE 2011

A partir de 2011, o setor sente o choque do câmbio. Naquele ano, o dólar, que vinha caindo desde 2003, inicia uma trajetória de alta, ultrapassando o marco de R$ 4 em 2015. Como 60% dos custos das empresas estão atrelados à moeda americana (principalmente combustível e leasing de aviões), as aéreas viram as despesas dispararem. E os prejuízos se acumularem. São quase R$ 13 bilhões de perdas entre 2011 e os primeiros noves meses de 2015.

— Em 2015, o dólar subiu 55%. Como temos cerca de 60% dos custos em moeda americana, isso nos afetou muito. A retração econômica fez a busca por voos cair. As empresas tentaram manter os passageiros com promoções, mas isso tem um limite. Esse limite parece ter sido alcançado em agosto. Desde então, a demanda não para de cair — diz Eduardo Sanovicz, presidente da Abear, associação que reúne o setor.

Diante desse cenário, a estimativa da Abear é que o setor tenha cortado, em média, 3% dos funcionários em 2015. Aplicando-se esse percentual ao número de empregados que o setor tinha em 2014 (61.279), as demissões no ano passado terão reduzido o quadro para 59.441 pessoas. São cerca de 2.400 a menos que em 2011.

A estabilidade no emprego virou até moeda de troca nas negociações salariais. A proposta que o sindicato patronal das aéreas, o Snea, colocou sobre a mesa foi a de não demitir ou manter o salário dos demitidos por todo o ano de 2016 em troca de reajuste zero em 2015. A data-base do setor é 1º de dezembro, mas as negociações se arrastam. Aeronautas (tripulantes) e aeroviários (pessoal de terra) rejeitaram a proposta. Na quinta-feira, os trabalhadores farão contraproposta: reajuste de 12% dos salários — originalmente, pediam 15%.

— Agora que demitiram todo mundo vão querer oferecer estabilidade? — indaga Selma Balbino, presidente do Sindicato Nacional dos Aeroviários.

A Gol evita falar em novas demissões. Disse apenas que “diante do cenário desafiador, a companhia redesenhou sua estrutura organizacional e cancelou temporariamente novas contratações”. Também negociou a flexibilização no calendário de entrega de aviões. Dos 15 Boeings 737-800 NG programados para entre 2016 e 2017, planeja incorporar à frota apenas quatro aeronaves no período.

A TAM informou que mantém “o seu quadro funcional neste momento e segue avaliando o cenário nos próximos meses”. Disse que, em 2015, realizou “ajustes necessários para otimizar taxas de ocupação” e que o número de funcionários “foi reduzido em menos de 2%, incluindo a rotatividade natural da companhia”. A Avianca disse que o número de empregados ficou estável em 2015, e a Azul disse não ter feito demissões no ano passado.

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Boeing 737-700 / Foto: Ricardo Hebmüller, em caráter ilustrativo

AÇÕES DA GOL CAÍRAM MAIS DE 90% DESDE 2011

Entre as companhias aéreas brasileiras, a Gol é a que está em situação mais grave, na avaliação de especialistas. Somente nos primeiros nove meses de 2015, a companhia registrou R$ 3,2 bilhões de prejuízo. E o desempenho das ações vai de mal a pior: no ano passado, os papéis da empresa tiveram desvalorização de mais de 80% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

Desde 2011, quando a empresa entrou no vermelho, a desvalorização das ações supera 90%. Ontem, os papéis recuaram 5,58%, a R$ 1,69. Com a queda de preço, a empresa já deixou o Ibovespa, o principal índice acionário da Bolsa brasileira.

Na Bolsa de Nova York, as ADRs da Gol são negociadas a centavos de dólar. Ontem, elas fecharam cotadas a US$ 0,38, com queda de 7,96%. Desde 2011, a queda acumulada é de mais de 95%.

Para José Vértiz, diretor para América Latina de Corporate da Fitch, uma das principais agências de classificação de risco, um dos principais problemas da Gol é sua dependência em relação ao mercado brasileiro. A partir de fevereiro, a empresa deixará de operar voos regulares para Miami e Orlando, seus destinos dos Estados Unidos, o principal mercado da aviação mundial.

— Diferentemente da TAM, que tem vários voos internacionais, a Gol é muito centrada no Brasil, que está em recessão. Além disso, a TAM tem um parceiro forte, a (chilena) LAN na sua estrutura .

A nota de crédito da Gol na avaliação da Fitch é B-, ou seja, a companhia não tem o selo de investment grade, que chancela o investimento seguro.

A Delta é sócia da empresa, com uma fatia de 9,48%, mas têm sua participação restrita na gestão. A participação de investidores estrangeiros em companhias aéreas brasileiras ainda é restrita a 20%, de acordo com a legislação.

A Gol, salienta Vértiz, também é afetada pelas demais variáveis que atingiram em cheio a aviação brasileira, como a alta do dólar, que pressiona os custos das empresas. Cerca de 60% das despesas das aéreas são atreladas à moeda americana, especialmente o combustível e o leasing dos aviões.

Diante desse cenário, a Gol está alterando o calendário de entrega de aviões e cortando oferta de assentos.

“O cenário de 2015 foi bastante desafiador, porém a Gol é uma empresa consolidada nacionalmente e que está preparada para continuar enfrentando adversidades, caso elas existam. Estamos confiantes que nosso trabalho, aliado às medidas adotadas pela companhia nos levarão a superar os desafios com segurança e liquidez, garantindo que saiamos mais fortalecidos desta travessia”, disse a Gol em nota.

Foto Ricardo Hebmüller - BRASIL: Em crise, cias aéreas devem ter primeira retração em 13 anos
Companhias aéreas devem enfrentar primeira retração em 13 anos / Foto: Ricardo Hebmüller, em caráter ilustrativo

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FONTE: Jornal O Globo

EDIÇÃO: Cavok

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14 COMENTÁRIOS

    • Este seu comentário é uma faca de dois gumes:

      Pró PT: Depois de 13 anos no governo este foi o único ano em que as empresas aéreas do Brasil sofreu uma crise.

      Contra PT: Com a chegada do PT as economias do setor aéreo vem caindo ano após ano.

      Qual dos dois você quis dá referência?

      • Daqui a pouco vai dar PT no setor aéreo! Se é que vc me entende… Rssrsrrsrs

        O que eu acho único no Brasil, é como a direita e esquerda são representadas no Brasil…
        É muito diferente do exterior ocidental…

        Sinceramente amigo, Klaus, acho que está na hora de abrir o canopy e pular… Hehehhe

        • "… acho que já está na hora de abrir o canopy e pular…"
          Já estou me planejando a alguns anos $$$ de pular fora desse barco, frustrei com esse país de um jeito que não tem mais volta.

          Dá para viver em um país como este(link abaixo), em que um escândalo consegue ser tão maior que abafa o anterior e nem o novo e nem o antigo são resolvidos.
          http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-notic

          Pois é amigo Ufric… quem puder pular a tempo deste barco que o faça o mais rápido possível que quando ele afundar não terão coletes para todos.

  1. Na bonança, eles eram os responsáveis. Na crise, a culpa é dos outros…

  2. Depois a gente tem que escutar entrevista de economistas de grandes universidades dizendo que o dólar alto é bom pra economia, porque o preço para exportação cai, mas esquece que compramos máquinas e insumos em dólar.

  3. A mesma cantilena de sempre das companhias aéreas: a culpa é do DÓLAR.
    Aí quando o dólar era 1 por 1, as passagens aéreas eram mais caras do que são hoje.
    Se a cotação do dólar baixa, as passagens não baixam por isso ou por aquilo.
    Se a cotação do dólar aumenta, a culpa é desse aumento.
    Mais ou menos como acontece com a imensa maioria dos empresários brasileiros: nos períodos de vacas magras o preço sobe porque a culpa é da crise, do governo, do dólar, dos tributos, etc.
    Nos períodos de crescimento, aí o preço continua subindo porque "a economia está aquecida e há excesso de demanda".
    Nunca a situação do país está propícia para os preços baixarem. Sempre há uma boa desculpa para isso não ocorrer.
    Concluindo: o país estando bem ou mal, certo é que o consumidor sempre leva ferro.
    A culpa é, na verdade, da falta de caráter do povo brasileiro.

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