O F-35 da Lockheed parece ter surgido como o grande vencedor da desinteligência entre o Canadá e a Boeing.

O governo liberal do Canadá teria decidido cancelar a compra de US$ 5,2 bilhões de novos Boeing F/A-18E/F Super Hornet como um plano “tampão” para substituir a envelhecida frota de McDonnell Douglas F/A-18C Hornet. Em vez disso, a Royal Canadian Air Force compraria Hornets da Austrália como uma solução de curto prazo.

A decisão, se confirmada, é vista como uma retaliação contra à Boeing e o governo dos EUA de penalizar a empresa canadense Bombardier por presumir o dumping (ação ou expediente de pôr à venda produtos a um preço inferior ao do mercado, especialmente no mercado internacional) do avião da série C no mercado norte-americano a preços propositadamente abaixo do real. A Boeing apresentou um processo anti-dumping no Departamento de Comércio dos EUA e a Comissão de Comércio Internacional (International Trade Commission – ITC) em abril, alegando que a Bombardier foi subsidiada pelo governo canadense.

O governo canadense ainda não confirmou relatos de que estaria se retirando do acordo para o Super Hornet. O ministro da Defesa, Harjit Sajjan, disse aos repórteres em 5 de dezembro: “Vamos preencher essa lacuna de capacidade provisória. Estou ansioso para fazer o anúncio no momento apropriado“.

Perder o pedido canadense seria inegavelmente um golpe para os negócios de armas da Boeing. A empresa não pode se dar ao luxo de perder a possibilidade de vender 18 novos Super Hornets que o Canadá planejava adquirir inicialmente, mas a chance de fornecer todos os 65 novos jatos que a Royal Canadian Air Force (RCAF) precisa para recompor sua força de combate.

Pior ainda, a disputa pode conduzir a RCAF direto no colo da Lockheed Martin.

Para uma força aérea relativamente pequena como a do Canadá, não faz muito sentido operar dois tipos de aeronaves, garantindo praticamente que os primeiros 18 Super Hornets teriam sido seguidos por mais 47”, argumenta Richard Aboulafia, analista de defesa do Teal Group.

Ter um único esquadrão de 18 aeronaves simplesmente não tem muito sentido econômico ou militar“, diz Aboulafia. “Provavelmente eles teriam dito: ‘Ei, economizaríamos bilhões se nós simplesmente comprarmos mais 47 – isso cuida do nosso requisito de combate para as próximas três décadas“.

Comprar Hornets usados da Austrália, que são quase idênticos em termos de idade e capacidade para a frota atual do Canadá, é no máximo um Band-Aid de cinco anos para a envelhecida força de combate canadense”, diz Aboulafia.

Se o Canadá realmente cancelar o acordo do Super Hornet e abrir uma competição para um caça de próxima geração nos próximos cinco anos, o F-35 da Lockheed quase inevitavelmente emergirá vitorioso, concordam os analistas.

A disputa Boeing-Bombardier dá ao primeiro-ministro liberal do Canadá, Justin Trudeau, que fez campanha para não comprar o dispendioso e polêmico F-35, uma desculpa para retornar ao jato da Lockheed.

A RCAF quer o F-35. A indústria também quer. Mas Trudeau fez uma campanha batendo forte no jato americano“, diz Aboulafia.

Claro, o Canadá também pode se voltar para o Gripen, o Typhoon e o Rafale, mas Loren Thompson, do Instituto Lexington, argumenta que o Canadá provavelmente optará pelo F-35 de qualquer maneira, porque a maioria de seus aliados principais estão migrando para o caça stealth de 5ª Geração.

Além disso, quanto mais o Canadá adia sua competição para um novo caça, menos vantagem a Boeing tem. O preço do F-35 vem caindo há anos, com a Lockheed projetando um F-35A a US$ 80 milhões no ano fiscal de 2019. Enquanto isso, à medida que o Super Hornet envelhece e a Boeing luta para manter a linha de produção, a empresa ficará com dificuldade para evitar aumento nos custos.

Apesar das consequências, a decisão da Boeing de interpelar judicialmente a série C da Bombardier em face de possíveis retaliações do governo canadense indica que a empresa calculou que as apostas são muito maiores para o mercado comercial do que no lado militar. A lógica é clara: Perder os Super Hornets é claramente um golpe, mas está longe de ser a catástrofe que teria sido há 18 meses quando a Boeing estava de frente para o potencial término tanto das linhas do F/A-18E/F quanto do F-15. Mas com programas de atualização, vendas internacionais para o Kuwait e Catar, e potencialmente novos pedidos dos EUA, parece que ambos os aviões da Boeing permanecerão em produção por pelo menos até o final dos anos 2020.

A Boeing continuará a entregar 24 F/A-18 por ano a uma taxa de dois por mês – a taxa mínima necessária para manter a linha de produção – para os clientes dos EUA e internacionais, disse a porta-voz da Boeing, Kelly Kaplan.

A Marinha dos EUA também está investindo quase US$ 300 milhões para o ano fiscal de 2022 em atualizar os Super Hornets existentes para a configuração do Bloco III proposta pela Boeing, o que garante à empresa uma fonte confiável de trabalho que pode ser feito na linha de produção existente.

Mas o Canadá era indiscutivelmente a maior oportunidade única para o Super Hornet fora das vendas adicionais do governo dos EUA, diz Byron Callan, do Grupo Capital Alpha.

Aboulafia concorda, dizendo que Boeing pode ter perdido uma oportunidade ideal para consolidar ainda mais o futuro da linha F/A-18E/F.

É muito difícil competir no mercado mundial quando você é extremamente dependente das atualizações de aviões existentes“, diz Aboulafia. “A Boeing pode ter perdido um momento de ouro no tempo“.

Embora a Lockheed ganhe no curto prazo, a disputa Boeing-Bombardier pode, em última instância, significar problemas para as empresas de defesa dos EUA no mercado global de forma mais ampla. Uma batalha semelhante vem se formando há anos entre a Boeing e a Airbus sobre o que o governo dos EUA vê como a União Europeia dá subsídios injustos a empresa europeia.


FONTE: Aviation Week

 

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6 COMENTÁRIOS

  1. Que situaçao amarga para a Boeing e privilegiada para o Canada, que sempre subsidiou a Bombardier, que praticou dumping contra Boeing e Embraer, e no final eles tem as cartas nas maos.

    • Muito drama por poucos caças.

      Não acho que a Boeing está muito preocupada com isso.

      • Nao sao poucos mas, como diz o texto, 18 seguidos de mais 47, e alem do bilhoes, isto representa a contimuidade da linha de montagem e de milhares de empregos.

  2. No Canadá, tudo é política. também no caso da CSAR, eles precisam de quase dez anos para matar o C27J e, eventualmente, comprarem uma aeronave com desempenho inferior, mas é empurrada pelo lobby (e interesse) do Sr. Trudeau.

    • O C-295 sempre foi o favorito pelo uso de motores canadenses no programa FWSAR( Fixed-Wing Search and Rescue Program).
      O C-295 não faz CSAR, ele é integrante do sistema Canadian Armed Forces Search and Rescue (CAFSAR), os famosos amarelinhos desarmados, a plataforma CSAR do Canadá é o Bell 412EP(CH-146 Griffon) camuflado e armado.
      . https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/th

    • Parceria estratégica, ToT, campeãs nacionais…

      Só falta ser candidato a vaga no Conselho de Segurança.

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