No começo de 2019, o setor aéreo europeu poderá enfrentar uma das maiores paralisações de sua história. A declaração, em tom de ameaça, partiu do sindicalista alemão Ingolf Schumacher, o mais influente negociador do sindicato de pilotos da Europa, o Vereinigung Cockpit. Isso porque a maior companhia aérea low cost do continente, a irlandesa Ryanair, estaria, segundo ele, submetendo seus funcionários a uma excessiva jornada de trabalho.

“As empresas de baixo custo precisam levar em conta as reivindicações dos funcionários e encontrar uma forma de garantir os direitos dentro desse modelo de negócio”, afirmou Schumacher, em entrevista à emissora N-TV.

A declaração ecoou em todo o mercado aéreo europeu, que vive uma intensa guerra de preços. Uma passagem entre Londres e Berlim, por exemplo, é oferecida por 12 euros pelas companhias de baixo custo, cerca de 10% do preço cobrado por empresas tradicionais, como British Airways e Lufthansa.

Existe a necessidade de encontrar uma maneira de manter conversas construtivas a fim de melhorar as condições de trabalho e a remuneração dos trabalhadores”, acrescentou o sindicalista, ao lançar o slogan Ryanair must change (Ryanair tem que mudar). No ano passado, a Ryanair foi a única companhia europeia a ocupar uma vaga entre as 15 piores empresas aéreas do mundo, segundo o ranking da Skytrax.

Aeronaves 737 da Ryanair.

Isso explica por que algumas companhias, na prática, já estão mudando. A Joon, companhia aérea de médio e longo curso criada em setembro de 2017 pela Air France-KLM, com a proposta de ser uma empresa voltada aos “millenials”, estaria com os dias contados.

Segundo o jornal francês Le Figaro, o novo CEO do grupo, Benjamin Smith, não enxerga futuro para a empresa diante das margens apertadas ou resultados deficitários. Por isso, deve encerrar as operações da Joon em breve, focando seus esforços nas companhias de baixo custo regionais, a Transavia e Hop.

Somente no primeiro semestre deste ano, paralisações, protestos e greves na Air France resultaram em perdas de US$ 381 milhões. Vale lembrar que o atual presidente herdou a Joon de Jean-Marc Janaillac, ex-CEO que pediu demissão alguns meses atrás. No Brasil, a Joon iniciou neste ano uma rota direta entre Fortaleza e Paris, operada com o Airbus A340-300.

O problema é que as tarifas praticadas por várias empresas low cost ferem uma regra básica da contabilidade, de que resultado de receita menos despesa precisa ser positivo. “As low cost criam grandes desafios para o setor aéreo tradicional porque operam com margens muito baixas e estruturas que as grandes não conseguem ter”, afirmou o espanhol Juan Requejo Liberal, consultor em mercado aéreo e especialista em turismo. “Esse fenômeno tem se desenvolvido muito rapidamente porque também está em crescimento a modalidade de turismo barato e de curta duração, especialmente na Europa.”

Companhia aérea low cost francesa Joon.

Não há no horizonte qualquer sinal de que as low cost perderão força nos próximos anos. Ao contrário. Para o mercado brasileiro, já anunciaram suas operações a chilena Sky, a norueguesa Norwegian Airways e a Avianca Argentina (que não tem relação com a Avianca Brasil, em recuperação judicial desde a semana passada).

Na opinião do presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, a maior concorrência será positiva para os consumidores brasileiros, mas defende mudanças nas regras tributárias sobre o setor.

Segundo ele, os custos operacionais no Brasil deixam as empresas nacionais em situação de desvantagem na concorrência com rivais estrangeiras. “Esse reforço da competitividade passa pela equalização dos custos existentes por aqui, que são superiores à média global”, informou a Abear, em nota. “A desregulamentação do transporte de bagagens, a exemplo do que já se praticava no restante do mundo, tem amparado a retomada do crescimento do setor, após a crise econômica, abrindo espaço para novos modelos de negócio, renovando, inclusive, o interesse de estrangeiras.”


Fonte: Correio Braziliense

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