a-1b-5Quando o ultimo AMX foi entregue à Força Aérea Brasileira, nos anos 1990 do século passado, sem clientes e sem perspectivas de vendas, a linha de produção do caça ítalo-brasileiro foi encerrada.

a-1b-6A história do AMX, A-1 na FAB e ‘Ghibli’ na AMI (Aeronautica Militare Italiana) já é bem conhecida, mas vale lembrar que ele foi desenvolvido, inicialmente, para substituir o Fiat G.91 que equipava vários esquadrões de ataque e reconhecimento da AMI. No Brasil, a FAB buscava uma forma de preencher a lacuna deixada pela desativação dos P-40 e P-47. Numa cooperação entre os dois países, as empresas Alenia, Aermacchi e Embraer (29,7% do Programa) produziram o belo avião. O primeiro voo foi em maio de 1984.

Entusiasmados, muitos analistas militares perceberam no AMX uma série de qualidades. Acreditavam que ele poderia ser o substituto ideal para operadores do A-4 Skyhawk. Esperava-se que o AMX fosse exportado, mas, sucessivos acontecimentos, reflexos da queda do Muro de Berlim, pulverizaram as expectativas de vendas externas e, mesmo os parceiros, reduziram suas encomendas. Inicialmente seriam produzidas 187 unidades para os italianos e 79 à FAB, mas cortes orçamentários, especialmente no Brasil, afetaram o programa. Em total silêncio, a linha foi encerrada.

AMX-T, uma nova esperança para o Programa?

O fechamento da linha impactou diretamente sobre disponibilidade do jato, pois pequenas empresas que produziam itens do avião, não tinham mais interesse na continuação dos suprimentos, pois a regra é clara: sem demanda, sem necessidade.

Foi então que em 1998 a FAV (Fuerza Aérea Venezolana, hoje AMB – Aviación Militar Bolivariana) procurou no mercado uma aeronave para preencher sua lacuna de um aparelho de instrução e caça (lead-in fighter trainer).

a-1b-2A FAV empregava aviões Embraer T-27 Tucano para o treinamento básico de todos os pilotos. Depois os pilotos que iam para a aviação de combate passavam a voar com o Rockwell T-2D Buckeye, adquiridos no início dos anos 1970. Depois de ‘polidos’, iam para a etapa final, voar F-5A/B.

Os poucos T-2 criaram um ‘gap’ entre o Tucano e o F-5, agravados pelo uso excessivo. A solução era um novo treinador e bem capacitado. No mercado da época, as aeronaves que poderiam atender a demanda venezuelana eram o BAe Hawk 100, o Aero Vodochody L-159 e o Embraer/Alenia AMX-T.

Desde o início a FAV se interessou pelo AMX-T, mas o processo licitatório só foi aberto em 1999, sendo o AMX-T declarado vencedor. Problemas de ordem financeira impediram que a FAV adquiri-se 24 aparelhos como o planejado, sendo o primeiro contrato limitado a oito aeronaves, depois elevado para 12.

O AMX-T era um derivado direto do biplace A-1B, empregado na FAB para treinamento e conversão operacional. Apresentado pelo fabricante como ‘um sistema de treinamento avançado, orientado para operadores que buscam a eficiente aplicação de seus recursos financeiros, além de possibilitar a fluida formação de pilotos de combate, o AMX-T poderia ser empregado com um eficaz vetor de ataque’.

a-1b-3A venda foi muito comemorada, pois marcava a primeira exportação do jato e reabria a linha de montagem. Um detalhe que tornava o AMX-T ainda mais interessante era que ele seria configurado no ‘estado-da-arte’. A FAV pediu que o jato tivesse um radar RWR e sistema de mísseis ar-ar Python IV, com capacete dotado de mira. A Embraer usou então sua solução para o ALX (que deu origem ao A-29 Super Tucano), dotando o AMX-T de dois MFD de 203 x 203 mm e um MFD 127 x 127 mm, tornando o painel do jato mais eficaz na apresentação de informações e gerenciamento de sistemas. Até mesmo a substituição do motor fora considerada pelos venezuelanos.

Muitas das soluções do AMX-T eram provenientes do AMX. Com um preço muito mais acessível que os dos concorrentes e, o mais importante, com a possibilidade de crescimento, a FAV mostrou-se muito animada, pois além de ser um avião de treinamento avançado, ele poderia ser usado como avião de combate, em apoio aos F-16A e aos Mirage 5 da época.

Esperava-se que o AMX-T fosse uma aeronave que associaria características de lead-in fighter trainer com as qualidades de um caça-bombardeiro, transformando o jato numa ótima opção para diversas forças aéreas que quisessem utilizar aviões de treinamento avançado com capacidade de emprego real, otimizando os custos ao se ter um ‘2 em 1’. O AMX-T deveria também abocanhar uma fatia do Hawk.

a-1b-4AMX-T, um fim não declarado

Mas as coisas não saíram conforme o planejado. A Venezuela, sob o comando de Hugo Chavez, e os EUA, sob administração George Bush, já estavam em rota de colisão. A Embraer teria recebido uma simples e direta comunicação de Washington. Os componentes de origem norte-americanas não poderiam ser comercializados com a Venezuela. O governo brasileiro tentou reverter a situação, contatando diretamente os EUA, mas estes foram irredutíveis.

E assim, da noite para o dia, US$ 400 milhões, a reabertura da linha de montagem e o AMX-T viraram pó.


FONTES: Jackson Flores, RFA #24, ano 2001; Revista Flap International; Air Force Technology


Leia mais: AERONAVES FAMOSAS: Alenia-Aermacchi-Embraer AMX A-1

 

33 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia Senhores!

    Daí a necessidade de independência tecnológica! Não que devamos recriar a roda e por para funcionar, mas ter a capacidade técnica e mão de obra qualificada para que, em situações como a descrita acima, possam ser razoavelmente contornadas.

    O cenário poderia ser outro, se nossa indústria fosse capaz de suprir a falta de componentes americanos ou de aliados diretos do EUA. Não estou dizendo que a venda de US$400milhões à Venezuela seria a tábua de salvação para o A1 -T Centauro, mas teríamos condições de dialogar com o truculento Busch e dizer " olha queremos vender, sabemos dos problemas de vocês contra eles, notem que você são os maiores compradores de petróleo processado da Venezuela, então façamos assim: vocês EUA seguem fazendo teus negócios com o Chavez e nós BRASIL faremos os nossos, com nossos componentes." Bastaria para impor vontades…

    Se a Venezuela iria pagar? Se o A-1 T Centauro iria para frente? Se nossas relações com os EUA iriam azedar ou não? bem para responder estas perguntas, nenhum aqui poderia afirmar ou negar…mas a tentativa sempre tem que prevalecer!

    O fato inegável é que se o Brasil continuar como está, sem programas definidos de investimentos em tecnologia e pesquisa em parceria com universidades e outras entidades particulares, aliados a um orçamento dedicado para investimentos e aquisições de conteúdo nacional…seremos sempre isto aí mencionado no artigo acima!

    CM

    • Verdade, é sempre assim, quando estamos perto de fechar algum bom negócio vem os EUA e ferra tudo.

      A Argentina tambem passou por problemas parecidos durante o conflito das Malvinas, sofrendo o embargo na compra de peças e de suprimentos.

      Aí sempre que vejo alguém comentando que deveríamos ter F-35, F's Americanos ou Hélis Americanos como espinha dorsal da FAB me bate uma vontade de fugir dos fóruns.

      Como diria um amigo meu… "É muita falta de absurdo."

    • 1) O Brasil não produz chips

      Este artigo mostra como um fornecedor pode bloquear o funcionamento de qualquer chip e consequentemente o equipamento. https://www.embarcados.com.br/ft232-pirataria-e-p

      2) O Brasil é fraco em usinagem de precisão. Também não há produção nacional de componentes essenciais como motores de passo, rolamento de esferas recirculantes entre outros.

      3) O Brasil é fraco na siderurgia de metais especiais.

      4) O Brasil não alivia quem desenvolve tecnologia nacional.

      Este artigo exemplifica o problema: https://www.embarcados.com.br/editorial-por-que-e

      Conclusão: Um equipamento de alta tecnologia é fruto de um parque industrial avançado e não o inverso.

      OBS: O AMX é mais italiano que brasileiro.

      • Como não ? Comprei um saco de Ruffles ontem e tinha escrito Made In Brazil!

      • O Brasil não produz chips… Um dia seria interessante começar a produzir.
        .
        Motor de passo? O pessoal da WEG tem interesse nesse assunto.
        .
        Quer máquina de usinagem? O pessoal da ROMI também deve ter interesse.
        .
        Rolamento? Tem um amontoado de indústrias para impulsionar.
        .
        O Brasil é fraco na siderurgia de metais especiais? sim, mas tem parques a disposição para impulsionar e muita matéria prima.
        .
        Se não existir demanda, não existe oferta e assim, não existe desenvolvimento tecnológico.
        .
        São necessárias profundas mudanças em nosso sistema e em nossa mentalidade, do contrário, fazer suco de laranja é o futuro por aqui… Produtos manufaturados? Pra que se incomodar, trás da China é o que a maioria está fazendo mesmo.

  2. A verdade é que a Embraer nunca se preocupou em oferecer alternativas livre do embargo.
    A China oferece a aeronave de instrução K-8 e o transporte Y-8 em versão com motor e aviônica ocidental e com motor e aviônica chinesa para quem não pode comprar o ocidental.
    A Venezuela comprou o K-8 e o Y-8 na versão livre de componentes americanos.
    Sei que o Brasil não fabrica motores, assentos ejetáveis e aviônicos, nem deveria, pois nossa produção de aeronaves militares não justifica. Mas existem alternatívas destes componentes livre de embargos americanos.

    Na versão Ocidental usada pelo Paquistão e Egito o K-8 tem motor Honeywell TFE731, assento ejetável Martin Baker MK-10L e aviônicos Rockwell Collins e na versão livre de embargo comprada pela Venezuela e Bolívia tem motor WS-11(copia autorizada do Ivchenko/Progress AI-25), assento ejetável JALI HTY-7 e aviônicos chineses.

    O Y-8 na versão ocidental usa motores PW150B, hélices Dowty e aviônica Honeywell. Na versão livre de embargo comprada pela Venezuela usa motores WJ-6(cópia autorizada do Ivchenko AI-20) , hélice e aviônicos chineses.

    • WRStrobel,

      Realmente seria uma saída inteligente e perfeita. Podendo em alguns casos ser até mais barato a aquisição do produto final.

      Mas…….

      CM

    • WRStrobel,

      Compartilho do raciocínio.

      Produtos "híbridos"; que ofereçam a perspectiva de contar com itens de procedências distintas.

      Mas isso somente é possível até determinado limite, dentro do que o mercado oferece… Produzir uma aeronave como o Yak-130, acredito que não haveria qualquer problema particular. Seria possível contar com grande número de itens substituíveis. Mas conforme aumenta a complexidade, as possibilidades se reduzem, haja visto características físicas inerentes ( que encontra limitações naturais relativas ao que é produzido, além do desempenho maior automaticamente gerar entraves relativos a concorrência e interferência direta em perspectivas estratégicas de grandes potências ).

    • Mas é complicado desenvolver um produto que seja "universal" e que aceita muitas possibilidades dentro do seu shape…

      Também fica mais difícil de prestar assistência para os operadores, algo que pode ser prejudicial para uma empresa que presa pelo nome. Sabemos muito bem da fama que os produtos chineses têm…

    • WRStrobel

      Entendi seu ponto, porém acho que vc não entendeu o ponto de Washington.

      Os americanos, na época, não queriam um AMX-T com os venezuelanos, sejam eles com componentes americanos ou chineses ou russos.

      Nos contrapor aos americanos, por esse valor de contrato, seria no mínimo insanidade.

      Sendo assim.. nem compensava tentar desenvolver uma alternativa ao embargo dos componentes americanos.

      • Perder uma venda para não desagradar os americanos?
        Isso seria se rebaixar demais se houvesse uma versão livre de embargos.

        • Amigo

          Eu sei que isso não soa bonito!

          Mas eu estou apenas enxergando o Brasil com a importância que ele tem no cenário mundial.

          Gostaria muito que pudéssemos peitar os EUA mas não temos essa estrutura, então manda quem pode, obedece quem tem juízo!

          Infelizmente esse é o resultado que colhemos por sermos, basicamente, um país exportador de produtos primários.

          Não há como negar que somos atrasados! Somos atrasados economicamente, socialmente e politicamente. 🙁

          • Esse pessoal só não explica quem é que vai pagar a reengenharia da aeronave.

            A lógica chinesa é inversa.

            O padrão é a aeronave sem componentes americanos. Há um pedido grande do governo que banca isso.

            A ocidental é para captar vendas.

            • Nosso governo comprou as aeronaves com padrão ocidental, então dentro da mesma lógica caberia a Embraer fazer uma versão sem coleira americana para captar vendas.
              Quem vai pagar? A Embraer que vai recuperar com as vendas.

              • Vai mesmo?

                Se fosse, já teria feito. Se o negócio é bom, as pessoas querem.

                Se é bom, o acionista quer, eu quero e vc também.

                Caso contrário, não é tão bom assim.

  3. Eu sempre achei que o A- não poderia morrer deste jeito. Acredito que se a FAB e a Embraer se juntassem novamente poderia ser produzida uma nova versão, bem mais moderna e um pouco maior do jato, assim como a Boeing fez com o FA-18. Não necessitaríamos de inventar muita coisa aproveitando o projeto básico e acrescentando um novo e mais potente motor. Sendo assim poderia a FAB constituir uma força de manobra maior com mais esquadrões com um custo bem menor. Sempre pensei num mix de F-X( Hoje Gripen) + A- 29 + " Super AMX".

      • Em uns vinte anos, depois de umas cinco consultorias e uns vinte bilhões, chegamos lá.

        Tejas brasileiro.

          • Não é questão de seriedade, mas de inviabilidade.

            O amx sequer foi projetado e fabricado integralmente no Brasil.

            • O País nunca havia feito uma aeronave de desempenho semelhante, não é de se estranhar que o programa do AMX tenha sido elaborado de tal forma.

    • Tudo muito lindo e maravilhoso, eu até considero bacana essa ideia, mas quem paga a conta disso tudo aí? Erigir uma estrutura capaz de não dar prejuízo e entregar uma aeronave minimamente capaz hoje e futuramente não é tarefa para fracos. Discordo somente na questão de "não inventar muita coisa", pois o ambiente contestado do futuro não é favorável aos medíocres, a não ser que, claro, o embate se faça entre eles.

      Enquanto não mudar essa mentalidade de que forças armadas são dispensáveis, prefiro compra de prateleira e conhecimentos específicos à aquisição de ToT e seus derivados.

      Sds

    • Nem precisaria tudo isso, bastaria finalizarmos a modernização já contratada e abandonada…o Super AMX é o A-1M mesmo, mas nem isso conseguimos.

  4. O caso do AMX-T é bem parecido com os tão falados Osório da Engesa.

    Quem no mundo não usa componentes americanos?

    O Putin mesmo cobrou de seus subordinados a total independência de componentes americanos e a Rússia é um dos maiores vendedores de armas do mundo.

    Então coleguinhas vamos parar de falar besteira, a Embraer NÃO tem dinheiro nem pra pagar funcionário, muito menos pra ser "independente" mesmo se essa fosse sua vontade. Por US$400mi então kkkk.

    Se nessas empresas e no nosso governo tivesse gestor e gente capacitada, conversaríamos com os americanos uma forma de produzir sob licença diversos amamentos (estilo os japas) e tenho certeza que se fizéssemos isso no governo Obama "bunda mole", nos permitiriam vender na A.Sul armas feitas por aqui. Mas…..

  5. …..quanto ao amx-br, uma vergonha, a fab acabou com esse projeto que desde sua origem foi pensado para ser bom, e só, mas a fab o deixou ruim kkkkk.

  6. Tem sempre um alienado que diz "…aí vem os EUA e ferra(m) tudo".

    É o seguinte: não sabe brincar, não desce pro play.
    Pra essa pessoa, os EUA bloquearam o negócio por quê mesmo?? Porque são malvados e rasteiros e fazem de tudo pra prejudicar os pobres e inocentes países que procuram seu lugar ao sol.

    Não, bloquearam por que podiam, simples assim. Criticar uma nação que fez e faz o que faz em defesa de seus interesses é ser ingênuo demais, ainda mais quando se trata de um player global. Vender um artigo cheio de tecnologias sensíveis desenvolvidas pra um inimigo do desenvolvedor, pode; gastar tempo e recursos com P&D no firme propoósito de determinar o fim dessa dependência tecnológica, não pode.

    E digo mais, absurdo é colocar a própria culpa em cima dos outros, e esse é um dos motivos dessa josta desse país não ir pra frente. É revoltante como certas pessoas não conseguem enxergar a verdade óbvia e ululante em frente de seus narizes.

    E segue o barco… a remo.

  7. 1) Independência com um caça que sequer é realmente brasileiro
    O AMX é um caça mais italiano do que brasileiro. Havia duas linhas de montagem, mas a produção dependia das três empresas. Mesmo que a Embraer tivesse condições de colocar horas de engenharia para substituir componentes americanos.

    Esqueceram de combinar com os italianos, donos da maior parte do caça. http://airway.uol.com.br/wp-content/uploads/2015/

    2) Caça sofrível
    O AMX não é tão ruim quanto seus detratores pregam, mas passou muito longe de ser um potencial sucesso de vendas.

    O caça foi feito para desempenho a baixa altura e subsônico. Quando ficou pronto, seu conceito já estava ultrapassado.

  8. Na verdade é um avião mais "ataque" do que "caça". Trouxe melhorias para a FAB quando chegou mas realmente foi um projeto que teve alguns problemas. A sua versão M poderá ser útil na transição F5M -> F39, mantendo uma capacidade adequada de ataque preciso na FAB.

    • CajFAB,

      Comentário sensato e com uma visão que infelizmente não é compartilhada nem aqui e aonde mais interessa…FAB e governo federal.

      CM

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