Elon Musk anunciou recentemente que a SpaceX não está mais buscando aterrissagens propulsivas com sua cápsula Dragon 2. Não na Terra, nem em Marte.

A informação foi recebida com pesar na comunidade científica. Para alguns o sonho de ver uma cápsula pousando por seus próprios meios seria a concretização do futuro sonhado pela Ficção Científica. Mas os desafios tecnológicos que cercam as aterrissagens propulsivas talvez ainda estejam aquém da tecnologia atual.

Até o momento, a SpaceX realizou 12 voos de carga com a nave espacial Dragon para a Estação Espacial Internacional. E apesar de estarmos perto de ver a SpaceX lançar a segunda geração da Dragon (Dragon 2), há um aspecto importante que foi cancelado. A capacidade de pousar usando motores de foguete em vez de pára-quedas. Antes de sabermos exatamente por que a SpaceX desistiu – mesmo que momentaneamente – de aterrissagens propulsivas, vamos dar uma olhada em como a Dragon nasceu.

A cápsula Dragon nasceu junto com a SpaceX. Em 2004, a empresa aeroespacial ainda não havia lançado um foguete quando começou a desenvolver sua nave espacial Dragon. Na época, os planos da SpaceX era o lançamento de seu primeiro foguete, o Falcon 1. A SpaceX também tinha planos de construir uma versão mais poderosa do Falcon 1 e um foguete de 5 motores, chamado Falcon 5, mas nenhum saiu do papel.

Em 2005, a NASA solicitou propostas para um veículo de carga para atender a Estação Espacial Internacional a fim de substituir uma das missões do Ônibus Espacial que seria aposentado em breve. A SpaceX apresentou uma proposta para usar sua cápsula Dragon em março de 2006 e, mais tarde naquele ano, a NASA anunciou que a SpaceX foi escolhida, junto com a Kistler Aerospace, para conduzir três voos de prova de demonstração.

Depois de 3 tentativas fracassadas de colocar um Falcon 1 em órbita, a NASA estava prestes a anunciar quem ganharia o contrato de Reabastecimento Comercial. Com a SpaceX gastando até o último centavo, literalmente, tudo recaiu sobre os ombros do 4º voo do Falcon 1. Para a SpaceX e para todos os fãs da SpaceX, no dia 28 de agosto de 2008, a SpaceX colocou o Falcon 1 em uma órbita perfeita. Apenas dois meses depois, talvez devido ao aumento da confiança nas habilidades da SpaceX, a NASA concedeu à SpaceX um contrato de US$ 1,6 bilhão de dólares para lançar 12 voos para a Estação Espacial Internacional.

A primeira cápsula Dragon a voar não era uma versão completa com capacidade de missão. Em vez disso, para testar a funcionalidade básica, a SpaceX lançou uma versão simplificada, no dia 4 de junho de 2010. A missão foi um sucesso completo e também foi o primeiro voo do poderoso Falcon 9 da SpaceX.

O próximo voo da Dragon, no dia 8 de dezembro de 2010, seria o primeiro teste completo da espaçonave para o primeiro contrato de Serviços de Transporte Orbital (Commercial Orbital Transportation Services 1 – COTS 1) da NASA com a SpaceX. Após seu sucesso, a SpaceX obteve permissão para atracar na Estação Espacial Internacional pela segunda vez – COTS 2. A cápsula Dragon não atraca no modo convencional. A nave se aproxima até certo ponto, então o braço mecânico da EEI agarra o veículo e manobra o veículo até o porto de atracação.

Demorou quase 18 meses, mas em 25 de maio de 2012, a SpaceX tornou-se a primeira empresa privada a atracar na Estação Espacial Internacional. Seis dias depois, a Dragon saiu da EEI. A cápsula reentrou na atmosfera em segurança, amerrisando no Oceano Pacífico. Desde então, a SpaceX lançou mais 12 missões de reabastecimento comercial para a ISS. Onze dos quais foram concluídos com sucesso. A única falha foi para no dia 28 de junho de 2015, quando durante a subida o foguete explodiu. Apesar do rompimento do veículo Falcon 9, a cápsula Dragon teria saído incólume se tivesse um comando para abrir os pára-quedas após ser ejetada, um comando que agora está em vigor se outro evento similar ocorrer.

O momento em que o tanque de oxigênio do estágio superior do Falcon 9 se rompeu e causou a perda da missão CRS-7 em 28 de junho de 2015

Embora a SpaceX tenha apenas lançado cargas para a ISS, seus planos têm sido lançar humanos desde o início. A companhia basicamente pratica com carga, então já demonstraram muitos componentes cruciais quando chegar a hora de voar com tripulação a bordo.

O plano original para uma Dragon tripulada era usar a cápsula com motores de abortagem de lançamento integrados – chamados SuperDracos – montados nas paredes laterais. Esta versão inicial era conhecida como DragonRider.

Após a DragonRider, a Spacex revelou sua atualização, Dragon 2 em 29 de maio de 2014, num evento de imprensa muito chamativo na sede da SpaceX em Hawthorne, Califórnia, exibindo a espaçonave maravilhosamente atualizada e muito do século 21.

Durante o evento, eles transmitiram um vídeo inspirador que ilustra uma das características mais impressionantes da Dragon 2, pousar suavemente usando os motores SuperDraco em vez de paraquedas!

Esta capacidade de aterrissagem propulsiva alinha-se com o principal objetivo da SpaceX de levar pessoas a Marte. Devido à fina atmosfera de Marte, os pára-quedas se tornam muito menos eficazes do que na Terra e, com algo tão grande e pesado quanto uma cápsula do Dragon, que pesa cerca de 6.400 kg, o pouso propulsivo é necessário. Mesmo o muito mais leve Mars Curiosity Rover pousou usando uma mistura de pára-quedas e pouso propulsivo. Pesando 899 kg, é a coisa mais pesada que já desembarcou em Marte até hoje.

Teste real de propulsão

A cápsula Gemini tinha assentos ejetáveis (sim assentos ejetáveis), e o Ônibus Espacial, inicialmente também tinha assentos ejetáveis (Columbia) para os primeiros 4 vôos, mas foram removidos. 

A SpaceX testou a capacidade do SuperDraco de abortar a missão no dia 6 de maio de 2015. Apesar dos 8 SuperDracos com baixo desempenho, a Dragon 2 acelerou de 0 para 62 km/h em apenas 1,2 segundo e atingiu a velocidade máxima de 555 km/h.

Esperava-se que em 2018 a SpaceX realiza-se um teste de abortamento em voo, onde usaria os SuperDracos para se afastar de um Falcon 9 em MaxQ (ponto onde a pressão aerodinâmica é máxima, ou seja, o ponto em que a pressão do ar é maior sobre o veículo). Quando isso ocorrer vai ser um teste emocionante de se ver!

Então, tudo isso dito, por que a SpaceX cancelou o aspecto mais legal do Dragon 2? O que mudou? No dia 19 de julho de 2017, Elon Musk deu uma atualização sobre a Dragon 2 na Conferência de Pesquisa e Desenvolvimento da Estação Espacial Internacional.

A Dragon 2 é capaz de pousar propulsivamente tecnicamente. Nós retiramos os apoios de pouso que saem do escudo térmico. Mas tecnicamente ainda é capaz de fazer isso. A razão pela qual decidimos não insistir nisso é porque seria preciso muito esforço para qualificá-lo em segurança. Particularmente para o transporte da tripulação e, em seguida, houve um tempo em que pensei que propulsores montados ao lado seria o caminho certo para aterrissar em Marte. Mas agora estou bem confiante de que não. Há uma abordagem muito melhor e é isso que a próxima geração de foguetes e espaçonaves SpaceX vai fazer.

Vamos analisar: “tecnicamente, ainda pode pousar propulsivamente”. A SpaceX decidiu não ter mais pernas de pouso que se projetam através do escudo de calor. Embora isso já tenha sido feito antes, como o trem de pouso no Ônibus Espacial, ele ainda acaba sendo um grande pesadelo para se qualificar para a segurança humana e de carga. É claro que isso poderia ser feito com a quantidade certa de tempo e dinheiro, mas depois chegamos ao próximo ponto.

Qual é o real ganho fazendo pousos propulsivos aqui na Terra? Os benefícios não parecem compensar os custos. Como vantagem técnica, um pouso propulsivo eliminaria a necessidade dos custos envolvidos na recuperação de uma nave boiando na superfície do mar. Custa caro mandar um navio e helicóptero para recuperar um veículo espacial, mas de quanto seria a redução de custos por missão vs o custo de tentar pesquisar, desenvolver e certificar uma aterragem propulsora da terra?

Por outro lado, a partir do 11º voo, a SpaceX comprometeu-se a encarar um problema. Recondicionar uma Dragon que pousou em terra e não ter que reformar uma que aterrisse em água salgada provavelmente economizará algum dinheiro, mas isso é algo que vai demorar muito tempo para que as economias superem o custo. Até lá, a SpaceX pode estar em projetos maiores e melhores. 

Quando a SpaceX cancelou o Falcon 5 em favor do Falcon 9, muitas pessoas ficaram desapontadas e céticas, pois não fazia sentido. Elon colocou muito tempo e dinheiro no Falcon 5 para simplesmente descartá-lo em favor do Falcon 9. E no entanto a SpaceX têm demonstrado a cada dia que é a empresa que mais cria raízes no Futuro.

Por fim, não vamos esquecer. A cápsula Dragon foi projetada para transportar carga e tripulação para a Estação Espacial Internacional em primeiro lugar. Ainda está executando uma tarefa muito crítica para a qual foi projetada e construída. Embora seja fisicamente capaz de fazer mais, talvez um veículo mais refinado e focado para missões interplanetárias esteja em todo um plano melhor e mais sustentável. 


FONTE: Every Day Astronaut

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Aos trancos e barrancos a primeira a pousar em Marte será a NASA, uma empresa privada talvez seja player lá pelos anos 2300 e se muita coia mudar ahaha

  2. Ótima matéria.

    Outro fato que corrobora está decisão da empresa foi a implementação de uma embarcação dedicada a buscar e resgatar os futuros ocupantes: https://bit.ly/2PJssJq

  3. Que diferença faz se pousarem com retro foguetes ou paraquedas, o importante é pousar com segurança, o resto é torcida do autor do texto.

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