F-5EM #2
Northrop F-5EM Tiger II da FAB.

Ao contrario do que muitos pensam, não é o artefato nuclear a arma de dissuasão perfeita, é o caça. 

F-106Matéria divulgada originalmente em junho de 2016 e reproduzida para comemorar os 10 anos do Cavok.

Quando Roma ascendeu ao posto de primeira potencia mundial na história humana, seu poderio e sua cultura fluíram através das estradas que esta se empenhou em construir. A expressão “todos os caminhos levam a Roma” não foi cunhada ao acaso. Sim, a mera construção de uma via romana frente a uma região já era motivo suficiente para os reis, imperadores, lideres e o que mais influenciassem um povo em logo aderir a Pax Romana.

Séculos depois uma segunda potencia mundial emergia. Usando os mares como seu tabuleiro, a Grã-Bretanha levou, assim como os romanos, seu poderio e sua cultura ao redor do mundo, era o Império aonde o sol nunca se punha.

Então a humanidade adentrou o Século XX, um século em que revolucionou a existência do Homem sobre a face do planeta. Em 50 anos a humanidade criou e se modificou mais do que em 5.000 anos. O homem já combatia sobre a superfície dentro de monstros de metal. Combatia sobre e sob a superfície do mar, mas quando conquistou os céus, o campo de batalha se tornou 3D e a dinâmica da ciência, tecnologia e guerra mudaram drasticamente.

Finda a Segunda Guerra Mundial, o Homem detinha agora o poder da Era nuclear e os EUA tinham em seu poder a arma de dissuasão perfeita. Mas não. Um artefato nuclear nunca poderá ser considerado a arma perfeita, pois ela só pode ser usada uma única vez. O artefato nuclear é uma arma do juízo final, uma arma tão destrutiva que o espaço conquistado não serve ao conquistador. Mas então, qual seria a arma de dissuasão perfeita? A resposta é o caça.

F-5EMMiG-29_Su-22O caça representa a expressão máxima do poderio de uma sociedade, do quanto ela está empenhada em fazer valer os seus valores. Quando Roma abriu estradas, seu poder fluía através delas. Quando a Grã-Bretanha construiu sua armada, seu poderio fluía através dos mares. O caça é a versão moderna dessas. Nações que produzem e operam caças mostram o quanto estão desenvolvidas e o quanto estão dispostas.

Em 1948, quando a URSS cercou Berlim, a Terceira Guerra Mundial foi evitada graças ao poderio aéreo dos EUA. Muitos historiadores dizem que foi a ponte aérea que evitou a guerra, mas o simples fato da presença de caças e bombardeiros dos EUA na Europa fez os soviéticos recuarem.

Quando regiões do planeta se tornam “quentes”, a simples presença de um caça moderno e capaz de infligir perdas ao oponente é capaz de levar as partes beligerantes ao diálogo. Mas ter um caça não significa operar. De nada adianta ter um caça de 5ª Geração se não souber operá-lo, se ele não estiver inserido num contexto tecnológico.

Os EUA e a Rússia são potências globais e para tanto investem em tecnologia. Hoje um caça dos EUA pode combater em qualquer parte do globo, uma vez que sua sociedade investiu em tecnologia e permitiu a eles um sistema de posicionamento por satélite. Países como Israel e Suécia, possuem uma força altamente capaz, no caso de Israel, altamente capaz e letal, mas são forças que só projetam poder dentro de sua região. Seus caças estão tão inseridos numa “nuvem eletrônica” de informações que qualquer ameaça local é logo dissuadida a não confrontá-los.

Pode-se medir o grau de desenvolvimento tecnológico, econômico, político e cultural de um povo através do caça. A quantidade de caças operados também é um dado relevante. O Brasil tem como sua espinha dorsal de defesa aérea um punhado de caças Northrop F-5E Tiger II. Um caça produzido em 1972 sobre a plataforma de um caça produzido em 1956. Qual o recado que as forças armadas brasileiras mandam ao mundo? Que a nação é forte? Que sua economia é forte? Que seu espaço aéreo é soberano? Não gostou do que escrevi? Sentiu-se ofendido em seu patriotismo? Certo. Então troque Brasil por Bolívia, um país que tem no T-33 a sua defesa aérea. Agora troque Bolívia por Uruguai ou Paraguai. Qual o recado que essas nações mandam para o Mundo?

Em 1957 a Grã-Bretanha cometeu o seu maior erro estratégico. Ao seguir a cartilha recomendada pelos especialistas no malfadado Livro Branco da Defesa, o governo britânico matou a sua rica indústria militar e condenou o seu poder político sobre o mundo. Menos de duas décadas depois o Império aonde o sol nunca se punha era apenas um relato nos livros de história.

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O caça representa o quanto um país está disposto em defender os seus interesses.

Um dos maiores exemplos que podemos usar para confirmar que o caça reflete o poder econômico, político e bélico de um povo é a Argentina. De 1950 a 1982, a Força Aérea Argentina era a maior e mais poderosa da América Latina, sendo apenas rivalizada pela Força Aérea de Cuba. A Guerra das Falklands não destroçou apenas a Força Aérea, destroçou sua economia de vez, seu poder político sobre a região e sua capacidade bélica.

A Rússia, em que pese sua combalida economia, usa o caça como um bastião do seu poder. Sem o caça, a Rússia há muito teria perdido seu poder político.

Quando uma nação, por vezes pela opressão de seus líderes, está comprometida com algo, como a salvar um governo ditatorial ou impopular, ela recorre ao caça e ao seu poderio. É o caso de Cuba, que criou durante as décadas de 1960 a 1980 uma poderosa força aérea, capaz de dobrar a espinha de qualquer país latino-americano, como foi o caso quando seus MiGs libertaram um navio pesqueiro que havia sido capturado pelas Bahamas. A simples presença dos jatos sobre a capital do país foi motivo suficiente para o governo liberar as pressas o navio.

F-15Já a Venezuela, uma nação sócio-economicamente falida, seu governo tenta mandar um recado ao mundo através do caça. Apesar da crise econômica, o governo de lá adquiriu o Sukhoi Su-30, num claro recado ao mundo sobre a sua soberania, mas lembre-se, ter não quer dizer operar.

Atualmente ganha força nos EUA a ideia de reabrir a linha de produção do F-22 Raptor. Mas por quê? Os EUA já não são uma potência? Precisam mesmo de mais Raptors? Ora, a simples ideia de que a cada dia a China e a Rússia despejam caças e mais caças em suas fileiras faz com que os detentores do poderio americano se sintam ameaçados. Como contrapor essa ameaça? Dissuadindo-os com o que há de melhor no arsenal americano e assim o caça cumpre o seu papel de ser a melhor arma de dissuasão.

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O Caça vai muito além de ser uma arma de guerra. A Pax Americana é feita sobre ele. Nenhuma nação gosta de ter em suas costas um porta-aviões com 90 caças de ultima geração, assim como não gostavam de canhoneiras britânicas e nem estradas romanas…


NOTA DO EDITOR: OPINIÃO: Não temos inimigos


ESTE MÊS O CAVOK COMEMORA SEUS 10 ANOS, SEMPRE TRAZENDO AS NOTÍCIAS MAIS INTERESSANTES DO MEIO AERONÁUTICO. VAMOS RELEMBRAR OS MELHORES ARTIGOS QUE PASSARAM POR AQUI DESDE 2009, ESCOLHIDOS PELOS NOSSOS EDITORES E COLABORADORES.

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