O caça MiG-29UB Fulcrum, número de série 50903014896, da Historic Flight Foundation dos EUA, parte para mais um voo na terça-feira, dia 8 de fevereiro. (Foto: Bernardo Malfitano / Cavok)

Em janeiro, o Cavok cobriu com exclusividade no Brasil o primeiro vôo pós-restauração do segundo MiG-29 particular do mundo. Depois de duas semanas no hangar, o Fulcrum da Historic Flight Foundation (HFF) voou novamente nessa semana. A HFF vem revelando vários detalhes sobre a sua mais rápida e moderna aeronave: como ela foi transportada da Ucrânia, quais partes do avião tiveram de ser substituídas por peças novas, os problemas relacionados com a desmilitarização de uma arma de alta performance, o custo desse projeto todo, os testes de voo que vêem estabelecendo as atuais capacidades e condição do MiG, e… a parte mais surpreendente: o fato que o MiG-29 está à venda! Mas antes de sacar o seu cartão de crédito, leia mais sobre a história desse avião, e como ele foi parar em Seattle, com fotos exclusivas que o Cavok divulga de forma inédita no Brasil.

O caça MiG-29UB da Historic Flight Foundation ainda no hangar passando pelo processo de restauração e desmilitarização. Ao fundo um L-39 também em processo de restauração. (Foto: Liz Matzelle / Cavok)

No final da década de 1970 a União Soviética criou o programa Perspektivnyy Lyogkiy Frontovoy Istrebitel, ou PLFI: Caça Tático Leve Avançado. O objetivo era desenvolver um avião que pudesse defender as bases militares e cidades contra os ágeis jatos que os Estados Unidos haviam introduzido: o F-15 e o F-16. O PLFI deveria ser tão ágil quanto os caças americanos (curvas de 9g prolongadas, sem perder a velocidade se os pós-combustores forem usados) e poder atingir 60,000 pés (para alcançar aviões de reconhecimento/espionagem tal como o U-2) e MACH 2.

No dia 8 de fevereiro o caça MiG-29UB iniciou seu programa de testes de voo a partir do Paine Field, realizando o segundo voo com o caça russo civil. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

O MiG-29 entrou em serviço em 1983. Nos últimos trinta anos, mais de 1.600 foram fabricados, e vendidos para trinta países. O Fulcrum da HFF, que saiu da linha de montagem com número de série 50903014896 foi completado no fim da década de 1980, e incluiu dois assentos para o treinamento de novos pilotos – e também todos os sensores e sistemas para que pudesse ser usado em combate. Foi entregue à Força Aérea da Ucrânia, onde acumulou apenas 510 horas de voo em aproximadamente dez anos de serviço. No ano 2000, a Ucrânia começou a aposentar seus MiG-29s, e esse exemplar foi desmilitarizado e oferecido à venda ao público em 2005.

A aeronave MiG-29UB civil após passar pelo processo de restauração feito pela Morgan Aircraft Restorations, de Arlington, visto após seu primeiro voo em Paine Field. (Foto: Kevin Scott / Cavok)

Tim Morgan é o dono da Morgan Aircraft Restorations, que se especializa em jatos ex-militares como L-39s e F-86s. Antes do projeto do MiG ser revelado, Morgan era mais conhecido por sua colaboração com Hans von der Hofen para importar, restaurar, certificar, vender, e operar Alpha Jets, um avião muito raro nos Estados Unidos. O Alpha Jet é mais rápido e mais potente – e bem mais caro – que outros jatos ex-militares de treinamento tal como o T-33 e L-39. Esse trabalho de restauração envolve conhecimento técnico, a capacidade de fabricação e instalação de peças, e (a parte mais importante e complicada) conecções com fornecedores espalhados pelo mundo, uma rede de pessoas que sabem como e onde se arrumar essas aeronaves mas tambem os manuais, as peças, e o know-how para juntar tudo.

Checagem antes do primeiro voo feita por Doug Russell e John Sessions. (Foto: Lyle Jansma / Cavok)
O MiG-29UB da HFF é um dos dois caças do tipo que são de propriedade particular em voo nos EUA. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

John Sessions é um dos advogados e empresários mais bem-sucedidos de Seattle. Depois de décadas ajudando empresas multinacionais a lidar com problemas legais dos mais complicados, e fundar ou investir em várias companhias (tal como sua popria marca de roupas), Sessions acumulou capital suficiente para seguir sua verdadeira paixão: Voar em aviões históricos de alta performance. Criou a Historic Flight Foundation para exibir, manter, e operar sua coleção de aeronaves: do biplano WACO ao jato F-86, do elegante Spitfire ao pesado B-25, do luxuoso Lockheed L-10 ao apertado F8F, do popular Beaver ao raríssimo F7F, o hangar da HFF é uma parade obrigatória para qualquer fanático pela aviação que passa por Seattle. São poucas pessoas que poderiam acumular uma coleção dessas: Cada avião custou, em média, 2,5 milhões de dólares para comprar e restaurar.

O caça Fulcrum entra na pista de decolagem de Arlington para seu primeiro voo. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

Durantes vários desses projetos de restauração, Sessions colaborou com Morgan. Em 2003, Sessions descobriu que talvez pudesse ser possível adquirir um MiG-29, que é bem mais moderno que qualquer outro avião que Morgan havia restaurado. Quando Morgan soube da venda dos MiG-29s da Ucrânia, sabia que atrairia o interesse de Sessions… e acertou. Sessions resolveu comprar o Fulcrum. Começou então o demorado transporte do MiG para os Estados Unidos.

O MIG-29UB civil da Historic Flight Foundation decola pela primeira vez em Arlington. (Foto: Jeremy Dwyer-Lindgren / Cavok)

Por ser um avião militar moderno, Sessions e Morgan tiveram medo do container atrair a atenção de terroristas, piratas, ou outros criminosos mal-intencionados que talvez quisessem roubar o equipamento. Como precaução, o MiG foi desmontado e dividido entre dois containers. As asas e os motores foram transportados através do Atlântico, enquanto a fuselagem e empenagem foram em direção ao Oceano Pacífico. Chegando em Hong Kong, percebeu-se que o transportador não tinha uma certa licença local de importação, e o container ficou preso na alfândega. A situação piorou quando as autoridades do porto de Hong Kong descobriram que era um moderno avião militar. Do início de 2006, foram dois anos de viagens à Hong Kong, com Sessions contratando os melhores advogados especializados nessa área, e um juíz chinês finalmente declarando que o avião havia sido desmilitarizado corretamente e poderia seguir para a costa oeste americana.

O caça decolou pela primeira vez no dia 23 de janeiro de 2010, a partir do Aeroporto Municipal de Arlington. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

Quando a segunda metade do MiG chegou ao hangar de restauração de Morgan em 2008, em Arlington, todo o avião foi completamente desmontado e inspecionado. Algumas peças que não haviam chegado aos Estados Unidos teriam que ser fabricadas em Arlington, ou duplicadas simetricamente baseadas em peças do lado oposto da aeronave. Os motores RD33 estavam em um estado tão precário que Sessions comprou dois novos, fabricados sob encomenda pela fábrica da Klimov na Rússia.

Smokey!!! (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

Mecânicos da Força Aérea da Eslováquia vieram não só para trabalhar no sistema de ejeção logo antes do primeiro vôo, mas também durante o resto do processo de restauração, a cada poucos meses desse período de dois anos. Os manuais de operação e manutenção do Fulcrum, em inglês, foram comprados na Índia.

A aeronave fez um voo curto e pousou em Paine Field, após o primeiro voo com sucesso no dia 23 de janeiro. (Foto: Kevin Scott / Cavok)

Durante esse processo de inspeção e restauração, a Força Aérea da Rússia perdeu dois MiG-29s em acidentes, um há menos de um mês do outro. A causa foi um problema estrutural nos estabilizadores verticais. O uso de metais diferentes levou a uma gradual reação química; quando molhada, a estrutura “trocava” íons entre os rebites e as vigas e painéis, e isso lentamente corroía e enfraquecia a cauda do avião, até que essa se soltasse do MiG durante o vôo.

Detalhe do MiG-29 com o número de série da aeronave. (Foto: Liz Matzelle / Cavok)

Em seu hangar em Arlington, Morgan criou versões de alumínio de todos os componentes estruturais da cauda do MiG, a maioria deles maiores e mais rígidos que os originais, e substituiu todos os componentes de outros metais.

O caça MiG-29UB da HFF foi fabricado em 1989. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

Os painéis da superfície do avião também precisaram ser retocados, pintados, ou substituídos completamente, depois de serem expostos aos elementos durante vários invernos na Ucrânia e sofrerem dois anos de maresia constante no porto de Hong Kong.

O caça MiG-29UB chegando após seu segundo voo realizado nos EUA. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

Todos os detalhes da aparência do MiG, da sua camuflagem de dois tons de cinza, à pantera negra com olhos vermelhos ao lado do cockpit, foram mantidos tão próximos quanto possível aos originais, de quando o Fulcrum voava na Ucrânia.

Os voos com o MiG-29UB civil da HFF estão sendo realizado em Paine Field. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

O último desafio foram as cargas explosivas dos assentos de ejeção. Elas haviam sido removidas durante o processo de desmilitarização, e foi difícil importá-las para os Estados Unidos. Mas quando elas foram finalmente instaladas em janeiro de 2011, o MiG-29 estava pronto para voltar aos céus.

O caça demorou cerca de 3 anos para ser restaurado e colocado em voo pela HFF. (Foto: Bernardo Malfitano / Cavok)

John Sessions não revela quanto ele pagou para a Ucrânia quando comprou o MiG. Mas diz que o projeto inteiro – compra, transporte, restauração, etc. – custou mais de seis milhões de dólares.

O caça agora está sendo colocado a venda. Interessados tratar com a HFF. (Foto: Jason Fortenbacher / Cavok)

No dia 23 de janeiro, finalmente chegou a hora de aproveitar os retornos desse enorme investimento. No assento dianteiro estava Doug Russell, um dos pouquíssimos pilotos americanos com experiência voando MiG-29s, quando servia com a US Air Force em uma base alemã com um esquadrão de Fulcrums. E logo atrás sentou Sessions, que com seus 56 anos tinha cara de menino que ganhou um presente quase inacreditável.

John Sessions, o atual e feliz proprietário do caça MiG-29UB Fulcrum. (Foto: Lyle Jansma / Cavok)

O MiG voou de Arlington, onde fica o hangar de restauração de Tim Morgan, para o Paine Field, onde fica a Historic Flight Foundation com a coleção de John Sessions – e onde a Boeing fabrica 747s, 767s, 777s, e 787s. Ficou no hangar da HFF por duas semanas, anacronisticamente cercado por aviões como um P-51 e um Beech Staggerwing. Mas durante essa semana finalmente voltou ao ar. Voou quatro vezes, dando um verdadeiro show aos empregados da Boeing e outros residentes da região. O MiG será testado como se fosse um avião completamente novo: voos gradualmente chegando a MACH 0,97 e passando dos 50,000 pés. Já foi pilotado através de curvas de 5,5g, stalls, e ângulos de ataque de 70 graus.

Como foi colocado a venda, em breve esse magnífico caça deverá estar voando em outra localidade. (Foto: Bernardo Malfitano / Cavok)

Infelizmente, este MiG-29 não continuará por muito tempo na Historic Flight Foundation. John Sessions venderá o MiG – e também mais dois Fulcrums que ainda não acabaram o processo de restauração – para arrecadar dinheiro para a HFF e poder comprar, restaurar, e exibir mais aviões clássicos. Agora que Sessions e Morgan desenvolveram as conexões internacionais, as técnicas de fabricação e manutenção, e o know-how sobre como restaurar e pilotar um Fulcrum, esperam que essas habilidades sejam procuradas por outras pessoas que querem estar entre as primeiras a comprarem um MiG moderno. Todos nós esperamos ver o número de MiG-29s nos Estados Unidos crescendo nos próximos anos. E se você quiser comprar um, não esqueça o cartão de crédito platina!

Agradecemos imensamente ao pessoal da Historic Flight Foundation, especialmente a Liz Matzelle pelas imagens, e também ao fotógrafo e amigo Jason Fortenbacher que gentilmente cedeu as belas imagens do segundo voo do MiG-29 em Paine Field. O vídeo visto nesse artigo foi feito pelo Museu Future of Flight.

20 COMENTÁRIOS

  1. Engraçado … uma grupo conseguiu reformar esse caça …

    Então isso mostra que engenharia reversa não é algo tão dificil …

    O que o Brasil tá esperando ?
    Tecnoclogia de mão beijada ?
    Espera sentado…

    Pelo que se nota é um caça rustico e tosco , como bem falaram cheio de rebites, turnina lamentavel, e o estado de conservação era pessimo, oque faz cair por terra a lenda da durabilidade dos equipamentos sovieticos/russos.

    Ainda bem que o Jobim nos livrou disso,

    Abraços e ferro na boneca

  2. […] A aeronave de caça MiG-29UB, que operou nas forças aéreas da Rússia e Ucrânia, antes de voar novamente nos EUA, foi completamente restaurada pelo pessoal da Historic Flight Foundation, e agora faz parte da Flying Heritage Collection, a qual tem como proprietário Paul Allen, um dos fundadores da Microsoft. Saiba mais sobre o caça MiG-29UB civil nos EUA aqui. […]

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