A história do F-5EM na FAB por vezes é contada de forma injusta e pejorativa. A verdade é que o “Mike” foi um ato de desespero e inteligência.

Ao longo dos séculos, as grandes nações são baseadas numa poderosa tríade: Poder Econômico, Poder Político e Poder Militar. O Brasil ao longo de sua história jamais alcançou um equilíbrio entre estes três fundamentais pilares. Os militares brasileiros estão constantemente fazendo sacrifícios pela Nação, seja aceitando absurdos cortes de investimentos, seja operando equipamento velho.

O soldado é a linha de frente da defesa de uma sociedade. Falta ao brasileiro essa noção. O povo vê o soldado como um ser abjeto, que passa o dia marchando e sem fazer nada, mas na hora que necessita, na hora em que cai uma avião no meio da floresta amazônica ou numa enchente em Santa Catarina, lá está o soldado, pendurado num fino cabo de aço recolhendo corpos e resgatando pessoas, enquanto que os criticam estão no aconchego do lar.

Northrop F-5E Tiger II

Um governo é o reflexo de seu povo. Se a grande maioria dá pouca ou nenhuma importância para suas força militares, quem estiver no governo também não dará. Simples assim. Em 1942, naquele longínquo 22 de agosto, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e Itália, desde lá as Forças Armadas brasileiras já eram capengas. Para se ter uma idéia do quanto o Exército brasileiro era inexpressivo, as tropas só foram embarcar para à Europa em julho de 1944! Quem treinou e forneceu material foram os EUA. Os soldados brasileiros chegaram na Europa mais mal vestidos para o frio que os recrutas argentinos na guerra das Falklands. A pequena história acima serve apenas para descrever que de lá até o F-5EM, as Forças Armadas brasileiras sempre estiveram no Panteão das coisas a serem deixadas para depois neste gigantesco e riquíssimo país.

Não vamos entrar na história da Força Aérea Brasileira porque é de conhecimento público, mas vale lembrar que por pouco, muito pouco, a FAB quase acabou sendo uma Força de transporte. E o triste é saber que ainda tem gente que pensa assim. Pode-se dizer que a FAB encontrou um ponto de equilíbrio entre 1978 a 1985. Durante esse período, a utilização do Dassault Mirage IIIE e do Northrop F-5E proporcionou a nação uma verdadeira capacidade dissuasória, recaindo sobre o delta francês a missão de ser a primeira linha de defesa do país. Perceba que nessa época o Mirage III ainda era um avião novo – e poderoso – e o F-5 era mais novo ainda. Eram aviões em pé de equilíbrio com a maioria das outras nações do Mundo!

Mas o tempo foi passando e os sucessivos governos, com a empatia da liderança da Força, foram sucateando os equipamentos. A tecnologia evoluiu muito na década de 1980. O F-15 Eagle dominou os céus, o F-16 Fighting Falcon, o F/A-18 Hornet e o Mirage 2000 vieram para ficar. Quando 1990 chegou, a FAB era um arremedo de Força Aérea.

Mirage IIIEbr, designados F-103 na FAB, formam com antigos F-5E do Senta a Puá!

Isto ficou bem evidente quando a FAB organizou a primeira CRUZEX em 2002. O resultado do exercício foi alarmante. A FAB era incapaz de defender e defender-se. Só para se ter uma idéia, quem fez o controle do espaço aéreo de área foi um E-3 Sentry da Força Aérea francesa. Pilotos brasileiros de Mirage III deram o seu melhor, conseguindo vitórias ar-ar incríveis e que entraram para os anais da Força, pegando o Mirage 2000, mas foram vitórias pontuais, resultado de várias derrotas. Numa guerra de verdade, aqueles pilotos não teriam uma segunda chance contra os franceses.

A CRUZEX I foi um divisor de águas. Ou a FAB se modernizava ou deixaria de existir como uma real Força de combate e acabaria como a atual Força Aérea Argentina, ou seja, uma força de papel.

Mas como se modernizar num período tão ruim, numa época em que a inflação devorava o salário dos trabalhadores e a política era representada por pessoas inexpressivas? Abrir uma nova concorrência, uma licitação para um novo caça era algo inviável. Simplesmente o governo não tinha interesse nenhum em ter de ficar se explicando sobre gastos militares numa época de vacas magras.

O F-5EM foi um ato de desespero, mas com inteligência. Se não havia dinheiro para um novo vetor, a solução seria “um martelinho de ouro” caseiro. Muito embora a célula do Mirage IIIEBR apresenta-se ainda 50% de vida útil (pra ver como foram voados…), modernizar o delta francês seria altamente dispendioso (como o Paquistão comprovara anos mais tarde), pois o avião já tinha há muito saído de linha e suas peças também. Manter o motorzão Atar 9K era mais dispendioso ainda. A solução obvia era o que sobrou, ou seja, o pequeno Northrop F-5E.

Uma aeronave de caça F-5EM modernizada para FAB pelo Embraer Defesa e Segurança. (Foto: Embraer)

Em aviação, modernizar um avião não é nenhuma novidade e muito menos vergonhoso, mas sim uma realidade. O avião de guerra se tornou um equipamento muito caro de manter e operar. Até o meio dos anos 1970, a Força Aérea dos EUA identificava seus modelos mais antigos com a letra “O” de obsolet antes do número de cauda, sendo que a USAF considerava obsoleta uma aeronave com mais de 10 anos. Com os custos crescentes, a letra “O” sumiu!

O F-5M deu a FAB a capacidade de interagir com as melhores forças aéreas do Mundo

Modernizar o Tiger não era nada de novo. Anos antes o Chile modernizara sua frota com o auxílio da Northop, criando o Tiger III. Novidade seria a Embraer desenvolver e gerenciar toda a modernização. No final, a experiência chilena foi benéfica para a FAB, pois o “Mike” não cometeu os mesmos erros e utilizou equipamentos mais modernos, muito embora o F-5EM seja pouca coisa melhor que o F-5E Tiger III.

Mas a liderança da FAB não focou somente no Tigre. A liderança sabia que mesmo o F-5M não seria capaz de defender os céus brasileiros dentro da moderna guerra aérea. Era preciso dar garras ao Tigre tupiniquim. E neste ponto a liderança da FAB merece aplausos e reconhecimento, pois fora uma jogada de mestre dar a Força Aérea Brasileira a capacidade BVR.

Mas a jogada de mestre não se resumiu a apenas modernizar o F-5E. O advento do Embraer E-99 (EMB-145 AEW&C) foi o coroamento da partida! Deram ao F-5M olhos de águia! O F-5 é um caça de pequeno alcance, desenvolvido para defesa de ponto. Ele não é capaz de ficar no ar por longos períodos sem constante REVO. A idéia é decolar, atirar e voltar. O E-99 permite justamente fazer isso.

O E-99 e o F-5M trouxeram a FAB para o século XXI, diminuindo o gap tecnológico e colocando a FAB um degrau acima da maioria das forças aéreas latino-americanas. É preciso lembrar também do SIVAM, que ajudou no reequilíbrio de poder.

Mas se engana quem acha que o caminho foi fácil. Embora o custo do binômio F-5M+E-99 tenha sido relativamente baixo se comparado a aquisição de um novo vetor, o governo por vezes dificultou, contingenciando repasses financeiros, o que acarretou em atrasos e diminuição no número de células modernizadas.

O país experimentou um pico de prosperidade, mas os militares não aproveitaram. A Marinha optou por um elefante branco nuclear e o almirantado acreditou numa segunda frota e hoje paga o preço, sem nenhum porta-aviões, meia dúzia de velhos Skyhawks modernizados e um elefante branco que consome os parcos recursos. A liderança da FAB também errou ao politizar a oportunidade de compra de um novo vetor, levando inacreditáveis 15 anos para receber sinal verde do governo e sem garantia nenhuma que serão mais do que 36 míseros Gripens Echo para patrulhar 22 milhões de km² de céu brasileiro!

O F-5EM foi um ato de desespero dos líderes da FAB, mas merece todo o nosso reconhecimento, pois inseriram a Força Aérea Brasileira dentro da moderna guerra aérea com parcos recursos. Que o Mike é limitado ninguém discorda, mas ele é menos limitado do que o Echo e deu ao guerreiro brasileiro real capacidade de combater. Se for para cair, melhor cair atirando e não apenas como um alvo!

Aos que recolocaram a FAB no caminho certo, meu muito obrigado!


– Giordani –

20 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo texto Giordani muito explicativo e mostra bem o teu conhecimento do assunto mas em relação aos comentários eu não entendo este pensamento obstinado de que nosso país precisa ter armamento em quantidade suficiente para enfrentar os EUA, China ou Rússia que tem as maiores quantidades de meios, não temos a quantidade necessária com certeza mas também não temos recursos para isso, mas por que isso, na minha opinião a culpa não é do governo e também não é do povo, pois se a gente não correr atrás do que queremos e trabalhar muito pra isso nós não conquistamos e pra todo mundo é assim porque seria diferente para os militares, a culpa é toda e somente deles, se quiserem melhorar deve trabalhar em bons projetos, planejamentos ótimos e no atual sistema de aquisição onde quem adquire é o governo eles devem ter um excepcional poder de convencimento. Mas porque eles não mudam isso, pegamos por exemplo os misseis da FAB por que a força não compra sem passar pela aprovação do governo e se já compra porque todo mundo diz que não temos nem pra equipar todas as aeronaves que temos, simples porque os militares não querem isso.
    Eu estou muito esperançoso em relação aos novos comandantes das forças que pelo que vejo estão agindo diferente pensando mais em eficiência do que em quantidade pois o melhor é sempre o equilíbrio não importando se é muito ou pouco mas sim bem equilibrado, já imaginou termos 200 caças de ponta e uns 50 foguetes ou dois porta aviões completos com escolta e tudo e não ter combustível pra eles, esta na hora de mudarmos nosso pensamento e começarmos a assumir os nossos erros pois os militares são tão ou mais culpados que os governantes por não conseguir o dinheiro que precisa ou por não mudar a lei para que tenham esta possibilidade ou melhor usar o dinheiro que já ganha de forma correta e sem desperdícios.

  2. Legal o texto mas não concordo com o termo elefante branco do programa nuclear da Marinha.

    Penso que o Brasil deveria basear seu poder de dissuasão em algumas frotas de submarinos e pequenas embarcações de ataque rápido e em pelos menos uns 120 caças Gripen e no minimo uns 100 como o SU – 35 !

    • Adotar um estratégia de usar "pequenas embarcações de ataque rápido" seria o derradeiro suicídio da Marinha. Estas embarcações não teriam eficácia num cenário de mar aberto e extenso, como é o caso do Brasil, banhado pelo oceano Atlântico. Na Escandinávia, há muitos fiordes e ilhotas por onde essas lanchas missileiras poderiam se esconder, brincando de gato-e-rato com o inimigo. Na Ásia a situação é parecida. Mas no Atlântico, não!!

      Em mares extensos, abertos, com acesso a grandes oceanos o que ganha guerra naval de superfície é NAVIO GRANDE; muito armamento, muitos (e poderosos) sensores, helicóptero orgânico, blindagem e porte suficiente para poder aguentar um impacto inicial, etc. Afora isto, só mesmo os submarinos (de preferência nucleares, em virtude das grandes áreas a se patrulhar)!

      Boa noite

  3. Excelente texto Giordani. Estou mais otimista com o futuro do Brasil, mais do que nunca. Somente espero que não apareça mais um aventureiro na próxima eleição. Os F-39 não podem ficar nas 36 unidades senão todo caro investimento será jogado no lixo. Acredito que muitas mais unidades do Gripen F-39 serão encomendadas. O KC-390 será um sucesso, e as coisas dentro das três forças serão equacionadas. Os custos operacioanis e com pessoal inativo são altos nas três forças, grandes concentrações nos centros urbanos caros das capitais brasileiras. Precisamos criar uma força profissional, eficiente e menor, menos chefe e mais índios, se me entendem. Os F5EM cumprem o que se esperava dele, principalmente a famosa doutrina. No mais, não temos uma grande ameaça a vista. Sorte nossa.

  4. Não faria sentido todo o investimento do FX-2 para 36 caças.
    O que foi feito com o F-5 foi admirável e sensato, já que upgrades e modernizações são correntes em outros países, porém de alguma forma tardio e não podemos esperar um F-5M2, e no começo dos anos 2000 a FAB poderia ter elevado seus Mirage ao padrão Cheetah ou mesmo Kfir, sem necessidade de comprar os surrados M2000.

  5. Parabéns pelo texto Giordani!

    E a história do F-5 deveria servir de ensinamento aos nossos militares.

    Sabem que o dinheiro é curto e deveriam a todo custo dispender todos os esforços possíveis para que ao menos 36 células de A-1 (nesse total incluídos todos os bipostos) sejam modernizados. Inclusive tentando algumas junto aos italianos, se estiverem disponíveis, como fontes de peças, principalmente motores.

    Mesmo porque todo o programa já está encaminhado, faltando o necessário $$$.

    Porque o ideal seria um segundo lote de Gripens, mas não temos a certeza de que isto acontecerá.

    Com apoio de KC-390, P-3 e E-99, estas aeronaves se tornam importantes vetores devido às suas características de alcance e capacidade de transportar armamento, investindo-se em armas inteligentes, mísseis antinavios (MANSUP versão lançada do ar e MAR).

    E depois, de tudo estabelecido, parte-se para um imaginário 3º lote de F-39.

  6. Parabéns pelo texto!
    O que virou a Venezuela com seus F-16 E Sukhois?
    Argentina não é mais nada
    Uruguai, Paraguai, Suriname, Guianas nunca foram
    Peru e Equador estão estacionados na década de 90
    Colômbia recebe ajuda dos EUA
    Chile está do outro lado da cordilheira, voltado para o Pacífico de todas as formas e é um caso a parte.
    O Brasil poderia ter feito inúmeras compras de prateleira nesse mesmo período mas sabiamente conseguimos escapar dessa armadilha, de não ganhar nada com a aquisição e pagar caro para operar.
    Com relação aos 36 Gripens, não há outra saída! Se ficarmos só com esses a FAB só vai ter isso muito em breve. AMX e F5 não duram muito mais. E se tivermos condições de operar só esses aí, parabéns aos comandantes que não cederam a tentação de ter o olho maior que a barriga.

  7. Texto excelente. Bastante esclarecedor.

    A única coisa que gostaria de ressaltar aos colegas que postaram comentários sobre a aquisição do Gripen, é que vocês podem contar com a má vontade e falta de estratégia dos políticos sim

    Não adianta a FAB passar todo o respaldo técnico.

    Quem assina o cheque tem outras prioridades.

    Um caça novo custando US$ 120 milhões é equivalente R$ 420 milhões, ao câmbio de hoje. É muito dinheiro sem retorno político. Esses caras não têm amor pelo Brasil, ponto!

    Essa ideia de ToT, na minha opinião, foi a forma que os militares encontraram para poder adquirir equipamentos novo.

    Ora, envolveu "licitações, empreiteiras, etc, campo onde os políticos são "especialistas" em furtar a nação.

    A realidade geopolítica não permite ao Brasil agir como lobo solitário, ele necessariamente terá de estar alinhado a alguma grande potência, isso é normal.

    Ninguém vê Canadá ou Austrália com esse chororô (ia esquecendo do Justin Trudeau)!

    Por acaso alguém compra uma fábrica de pneus só porque tem de substituí-los periodicamente?

    Guardada as devidas proporções, a aquisição Gripen via ToT dar no que colegas estão temendo.

    Quando o último caça chegar, já estarão "desatualizados" demais em relação aos de quinta geração. Aí vão abrir um "FX-3" e depois de mais 15 anos alguém vai estar falando como os "36" Gripens são bravos ao defender um país tão grande.

  8. A modernização do Mike foi uma decisão acertada. Elevou o patamar de nossos caçadores e de nossas operações a um alto nível, nunca antes visto na FAB. É uma pena a modernização do AMX não estar andando. É muito interessante a padronização de aviônica e sistemas que a FAB conseguiu junto a Embraer e a AEL no F-5EM, A-29, AMX-M. Isso é o uso da inteligência. A modernização foi reconhecida lá fora na forma do convite para a RedFlag. O Americano se viu na necessidade de conhecer as capacidades do F-5EM. E depois os Franceses sentiram do que se tratava em outras edições da Cruzex por aqui. A novela Gripen ainda nem começou, vamos ver como a FAB vai agir quando ele chegar, como ele vai operar, como vai evoluir. Só depois cabe espaço para novas aquisições. No mais, belas palavras do Giordani.