Às 15h15min de 15 de abril de 1986, aviões da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), da Marinha dos Estados Unidos (USN) e dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (USMC) atacaram alvos em Tripoli e Benghazi na Líbia. O ataque foi o código chamado operação El Dorado Canyon.

O ataque foi à resposta do presidente Ronald Reagan a vários ataques terroristas patrocinados pela Líbia na Europa, entre eles os ataques de 1985 em Roma e em Veneza, que mataram 19 pessoas e feriram aproximadamente 150 pessoas. Na noite de 5 de abril de 1986 agentes líbios atacaram a boate “La Belle” em Berlim Ocidental, matando uma mulher turca e dois sargentos do Exército americano, além de ferirem 50 militares dos EUA entre o total de 230 feridos.

A Líbia era um espinho no mundo desde que Muammar Gaddafi havia subido ao poder. Gaddafi não se sentiu culpado por seu apoio ao terrorismo, mesmo dizendo publicamente que continuaria a apoiar o terrorismo. Os confrontos anteriores não tinham ido bem para Gaddafi. Durante um exercício militar para provar a liberdade de navegação dos Estados Unidos no Mediterrâneo em agosto de 1981, dois jatos líbios SU-22 Fitter desafiaram a Marinha dos EUA e foram abatidos por uma CAP (Combat air patrol – patrulha de combate) de F-14A do esquadrão VC-41 Black Aces, no que ficou conhecido como o incidente no Golfo de Sidra.

O presidente Reagan conferenciou, vários dias depois do atentado a boate LaBelle, com países europeus e árabes para tentar chegar a algum tipo de resolução diplomática para o problema Kadafi. No dia 14 de abril Reagan decidiu que a melhor resposta era atacar alvos relacionados ao terrorismo na Líbia. Infelizmente ele recebeu pouco, para não dizer nenhum, apoio dos países europeus. A França, a Itália e a Espanha não só negaram permissão de sobrevoo para os aviões atacantes como também negaram o uso de qualquer base pelos americanos. Isso significaria que os bombardeiros da USAF teriam que voar de suas bases no Reino Unido em torno de toda a massa terrestre européia, a fim de alcançar seus objetivos líbios, transformando a missão numa maratona de 15 horas e 8.850 km. Seria a missão mais longa pilotada por aeronaves táticas até aquela data.

O presidente francês negou aos norte-americanos seu apoio porque não estava interessado em uma resposta limitada, mas queria uma resposta mais forte para remover Gaddafi do poder.

Um aspecto pouco conhecido da operação é que, durante outubro de 1985, dez dos F-111E Aardvarks da 20th Tactical Fighter Wing – TFW (20.ª Ala de Combate Tático) já haviam voado numa missão de treinamento de bombardeio de longa duração a partir de sua base na RAF Upper Heyford, partindo do Reino Unido para a Terra Nova no Canadá, fazendo o percurso de ida e volta, na qual ficou conhecida como Operação Ghost Rider. As informações e as táticas utilizadas pelo 20ª TFW foram repassadas para o 48º TFW, equipado com o modelo F-111F Varks.

A ordem de batalha para a Operação Eldorado Canyon, que seria a primeira missão de combate da Força Aérea desde a guerra no Vietnã, começou com os 24 (incluindo seis sobressalentes) F-111F do 48º TFW, baseado na RAF Lakenheath no Reino Unido. Estes bombardeiros equipados com designadores Pave Tack com visor infravermelho foram carregados com bombas de precisão Paveway contra alvos militares libaneses.

Para fornecer capacidade de contramedidas eletrônicas, cinco (sendo 1 de reserva) EF-111A Raven do 42º Esquadrão de Combate Eletrônico (42nd Electronic Combat Squadron – ECS). Dezenove aviões-tanque KC-10A Extenders e 10 KC-135 Stratotanker forneceriam o total de seis reabastecimentos aéreos aos bombardeiros e sua escolta de ECM.

No mar Mediterrâneo, a bordo dos porta-aviões USS América (CVA-66) com a Ala aérea embarcada 1 (Carrier Air Wing – CVW) embarcada e no USS Coral Sea (CVA-43) com a CVW-13, a Marinha e os Marines preparavam um ataque com seus próprios aviões. Jatos Grumman A-6E Intruder, LTV A-7E Corsair II, McDonnell Douglas F/A-18A Hornet e Grumman EA-6B Prowler estavam sendo preparados para atingir alvos na Líbia. O Grumman F-14A Tomcat e alguns Hornets forneceriam CAP sobre os porta-aviões e escoltas. Aviões Grumman E-2C Hawkeye forneceriam a capacidade de controle e alerta aéreo avançado para as aeronaves da Marinha e também a coordenação em caso de resgate (search and rescue – SAR).

LTV A-7 Corsair: veterano do Vietnã novamente em ação!

A Marinha já havia atingido vários alvos navais da Líbia durante março e início de abril. O comando e controle de missão geral foram fornecidos por uma aeronave KC-10A Extender da USAF modificada.

Outro aspecto pouco conhecido da Operação Eldorado Canyon é que quase foi a estréia em combate do F-117A Stealth Fighter. No momento, em abril de 1986, aproximadamente 30 desses jatos furtivos tinham sido produzidos e estavam operando sobre o deserto de Nevada em Tonopah Test Range. Poucas pessoas sabiam da existência, naquela época, do jato e o Secretário de Defesa decidiu não expor à tecnologia furtiva aos 2.900 “consultores soviéticos” da rede de defesa aérea da Líbia. As defesas aéreas da Líbia não eram nada comparadas com os céus acima de Bagdá, onde os F-117A se aventuraram cinco anos depois.

Mais especificamente, naquela noite de abril, estavam os quartéis de Al Aziziyah, em Trípoli, e os quartéis militares de Benghazi, perto de Benghazi. Ambas as instalações do quartel eram centros de comando e controle para redes de terror líbias e bases para a própria guarda de Jamahiriyah de Gaddafi. Al Aziziyah também continha a residência de Gaddafi. O Quartel de Benghazi também continha um armazém cheio de peças e componentes de aeronaves MiG. A base Murrat Side Bilal, um centro de treinamento naval líbio usado para educar terroristas em coisas como sabotagem subaquática e outros truques sujos transmitidos pela água, também foi alvo. Dois aeródromos estavam na lista de alvos – Base aérea de Okba Ben Nafi de Trípoli (anteriormente fora uma base da Força Aérea dos EUA), onde os transportes IL-76 usavam para exportar armas e equipamentos líbios para terroristas e o Aeródromo Militar Benina, perto de Benghazi, onde estavam baseados caças MiG e Sukhoi. Benina também fora uma antiga base americana.

Pouco antes dás 2hs, os F-111F se dividiram em três células de seis aeronaves usando os sinais de chamada Remit, Elton e Karma. Então começou o ataque.

O ataque durou 13 minutos. Os Varks lançaram 60 toneladas de bombas em seus alvos. Vítimas civis no solo foram mínimas, mas inevitavelmente algumas bombas perderam seus alvos – criando um embate diplomático, mas as baixas civis foram mínimas. Ironicamente, uma das bombas que perderam o alvo quase destruiu a embaixada francesa.

As aeronaves da Marinha e dos Fuzileiros executaram missões de supressão da defesa aérea, destruindo o radar de defesa aérea e os locais de mísseis terra-ar (SAM) da Líbia com mísseis anti-radar Shrike e HARM. Aviões A-6 Prowler bloquearam os sinais e comunicações instantes antes dos F-111 chegarem sobre os alvos.

Em Benina, quatro MiG-23 Flogger foram destruídos, bem como dois helicópteros Mil-8 Hip e dois Fokker F27. Em Okba Ben Nafi vários IL-76 Candid foram destruídos ou danificados. Por sorte, nenhum ‘conselheiro soviético’ fora ferido ou morto.

Os ataques foram tão rápidos que a defesa aérea líbia foi pega de surpresa. Nenhuma arma da defesa respondeu ao ataque até que os aviões já haviam passado por cima em seu caminho para fora do país.

Um F-111F (Karma 52) foi perdido, com o governo líbio reivindicando o abate. Ambos os membros da tripulação, o capitão-piloto Fernando Ribas-Dominicci e o capitão do Comando de Sistemas de Armas Paul Lorence, morreram. Houve controvérsia sobre a perda da aeronave e da tripulação, mas foi a única perda operacional durante a missão. Tem sido teorizado que as bombas que atingiram estruturas em Trípoli que não faziam parte dos alvos vieram de Karma 52. É também provável que alguns dos danos causados à cidade e seus habitantes foi auto-infligido pelas armas e mísseis disparados indiscriminadamente pelas equipes de defesa aérea líbia/soviética.

Eldorado Canyon, o batismo de fogo do Hornet!

Um alvo (ou objetivo) que foi perdido era o próprio Gaddafi. Diz-se que ele recebeu um aviso por telefone sobre o ataque que estava se aproximando. Se a chamada foi feita pelo primeiro-ministro maltês ou pelo primeiro-ministro italiano é de pouca importância agora, mas quando se soube que Kadhafi correu apenas alguns momentos antes das bombas atingirem sua casa, parecia ser outro caso de conivência européia para com Gaddafi e suas políticas. Seja qual for o motivo, a Operação Eldorado Canyon deixou Gadafi vivo, mas sua capacidade de operar e apoiar o terrorismo foram, pelo menos temporariamente, enfraquecida.

Como era de se esperar, logo após o ataque, Kadafi proclamou que ele havia “conquistado uma espetacular vitória militar sobre os Estados Unidos“. Os líbios também exibiram os destroços de um SA-3 SAM como sendo os restos de um F-111 derrubado.

Uma história sem um final verdadeiramente feliz

A Operação Eldorado Canyon foi notável em certos aspectos. Foi à primeira missão de combate da USAF desde a Guerra do Vietnã e a primeira que partiu do Reino Unido desde a Segunda Guerra Mundial. Também foi o batismo de fogo do F-111F e do sistema de direcionamento Pave Tack. Foi também o primeiro dos poucos usos em combate do EF-111A Raven.

A Marinha e os Fuzileiros marcaram o batismo de fogo do F/A-18A Hornet e a foi a primeira vez que o míssil anti-radiação de alta velocidade (High Speed Anti-radiation Missile – HARM) foi usado em combate.


FONTE: Avgeekery


Leia mais: ZONAS DE GUERRA: operação El Dorado Canyon

 

5 COMENTÁRIOS

  1. Existia uma jogo para Sega Genesis/Mega Drive nos anos 90, que era um simulador bem primitivo de F-117, onde uma das missões iniciais era exatamente a El Dorado Canyon. Durante anos achei que esses aviões tinham participado da operação por conta disso.