Projetado por Kurt Tank, um dos mais audazes e famosos projetistas de aviões da Alemanha, após a guerra o Huckbeun foi profundamente estudado pelos engenheiros soviéticos. Pouco tempo depois surgiu o MiG-15

De acordo com os planos do governo nazista, o Focke-Wulf Ta.183 deveria se tornar o principal caça a jato monomotor da Luftwaffe.

Este avião nunca voou, nem foi completado terminado. No entanto, sua contribuição para o desenvolvimento da aviação é enorme. O conhecimento colocado foi então replicado em milhares de aviões de outros países por muitos anos. Suas formas externas, asas, empenagem, entrada de ar e fuselagem foram repetidas muitas vezes em outras estruturas.

Quase indistinguíveis entre si para o olhar de um leigo, caças do final dos anos 1940, início dos anos 50, carregam um forte traço do modelo alemão, como o MiG-15/17, o F-84 e F-86, o Dassault Ouraqan e o J29 Tunnan (esse quase uma cópia idêntica).

O Huckbeun começou a ser projetado na Alemanha muito antes do final da Segunda Guerra Mundial, e faltava apenas um mês para a conclusão do projeto. No entanto, a história da aeronave não terminou, na verdade só então começou.

No final de 1942, a Focke-Wulf começou o desenvolvimento de um caça a jato leve, manobrável e de alta velocidade. O projeto foi liderado pelo engenheiro Hans Multhopp sob a supervisão do professor Kurt Tank. O objetivo do projeto era alcançar altas velocidades, então, pela primeira vez na história da aviação, planejou-se equipar a aeronave com uma asa em forma de flecha. Pela mesma razão, a aeronave, conhecida na empresa como “Projeto V” (algumas fontes chamam de V1), deveria ser equipada com asas enflechadas, algo que não era mais novidade para a aerodinâmica alemã, porque já em 1935 o cientista alemão A. Busemann apresentou os estudos a cerca do uso de asas enflechadas e seus parâmetros.

O avião deveria ser motorizado com apenas um motor, o HeS 011 com um empuxo de 1300 kg. Mas este motor – assim como os motores a reação da época – precisava de 3.000 horas para ser montado.

Inicialmente, a instalação de um motor-foguete de 1.000 kg de empuxo para auxiliar na decolagem foi planejada.

O Ta.183 tinha uma envergadura de 10 m e uma área de 22,5 m2, com um comprimento de 9,2 m e uma altura de 3,86 m.

Seu peso de decolagem era 4.300 kg. Sua velocidade máxima foi calculada em 955 km/h a 7.000 m. O teto máximo era de 14.400 m e o alcance foi estipulado em 1.740 km.

Antes de receber a designação oficial, o caça em construção recebeu o apelido de “Huckebein“, que no folclore alemão é um corvo que tradicionalmente causa grande dificuldade para seus oponentes.

O design da aeronave, apesar do conceito revolucionário, era simples. O piloto sentava-se numa cabine acima do longo canal da entrada de ar frontal. As Asas eram enflechadas em 40º, com revestimento em duralumínio. As longarinas e cavidades eram de madeira compensada, pois a Alemanha já estava experimentando uma falta de duralumínio.

Cada asa comportava três tanques de combustível, totalizando 1.565 litros. Dois estabilizadores horizontais em forma de V estavam no topo do estabilizador vertical. O controle de rolagem era realizado por elevons. Os flaps (de três posições) possuíam acionamento hidráulico.

Quatro canhões Mk108 de 30 mm estavam instalados na frente da fuselagem. Suporte para os primeiros mísseis ar-ar Ruhrstal-Kramer X-4 (com alcance de 3 a 5 km. Esses mísseis tinham orientação por fio e foram projetados para lutar contra bombardeiros) foram planejados.

O destino do novo “Focke-Wulf” foi decidido em fevereiro de 1945 em uma competição tipo “fly-off” conduzida pelo alto comando da Luftwaffe. O avião de Kurt Tank derrotou seus competidores, incluindo o notório Messerschmitt R.1101 dotado com uma asa de geometria variável.

Com o nome oficial de Ta 183, foram encomendados 16 protótipos. O Ta 183V1-V3 deveria ser equipado com motor Jumo 004V.

O primeiro voo foi planejado para maio-junho de 1945, com duas configurações de cauda. O início da produção em série deveria iniciar em outubro do mesmo ano. No entanto, esses planos não se realizaram. A história do Ta 183 terminou no dia 8 de abril de 1945, quando a infantaria britânica confiscou a fábrica.

Suposto Huckbeun com as cores soviéticas. A autenticidade da imagem não pode ser comprovada.

A atenção principal foi dada aos jatos Me-262, Ar-234 e He-162, já com produção em série e testados em batalha. Demorou algum tempo para os vencedores compreenderem os desenvolvimentos mais complexos e promissores da aviação alemã, como as asas para frente, geometria variável e asas delta, uma vez que os vencedores não tinham o seu próprio conhecimento nesta área.

Quando os cientistas americanos e soviéticos passaram a estudar o Ta 183 , pode-se dizer que muita coisa passou a fazer sentido. Tanto os EUA quanto a URSS já estavam saturados de dados alemães sobre asas enflechadas. O desenho do Ta 183 foi solucionador para o design de aeronaves como o MiG-15 e o F-86.

Os soviéticos capturaram muito material alemão, mas o melhor caiu em mãos dos EUA, com os cientistas alemães desesperadamente buscando se entregar aos americanos nos dias anteriores a capitulação. Dessa forma, os soviéticos tiveram mais trabalho para compreender melhor o material que tinham em mãos. Tropas dos EUA foram instruídas a capturar e enviar material alemão, enquanto os soldados soviéticos apenas destruíam o que viam pela frente, sem compreenderem o valor de tais.

MiG-9

Os historiadores militares soviéticos por anos negaram que o MiG-15 era uma copia refinada do Huckbeun. Para eles isso era uma desculpa dos EUA, que tiveram no MiG-15 uma surpresa desagradável sobre os céus da Coreia.


FONTE de pesquisa: Airwar; livro Secret Luftwaffe Emergency Fighters;


NOTA DO EDITOR: Em 1947, Kurt Tank a convite do presidente Juan Peron mudou-se para a Argentina, onde ele criou um caça baseado em seu projeto anterior, o IA-33 Pulqui II, com mudanças mínimas em relação ao motor e à localização da asa. O primeiro voo foi em junho de 1950 com o próprio Tank nos comandos. Curiosamente, comparando dados de voo, o Pulqui mostrou-se inferior ao MiG-15 e ao F-86, o que colocava a Argentina com o 3º mais poderoso avião do mundo naquela época…

9 COMENTÁRIOS

  1. Nada se cria, tudo se copia ? Acho duvidosa a expressão no que diz: Nada se cria… Mas na parte em se cipiar, essa sim tem fundamento !
    Até hj voam cópias e cópias remodeladas e tem gente que diz que: Não é cópia, apenas seguimos o conceito !
    Kkkkkkkkk

  2. Reportagem fantástica. Desconhecia esse avião e a sua importância. O primeiro jato a voar foi o He-178. O primeiro operacional foi o Me-262 mas a inspiração para quase todos os outros primeiros jatos das outras nações foi esse aí. Todos alemães. Sou plastimodelista, já vou vasculhar a net atrás de um desse aí

  3. Impressionante a quantidade de projetos inovadores e a frente de seu tempo que os alemães foram capazes de desenvolver ou idealizar durante a 2ª Guerra, e principalmente no seu final. Sempre foram tremendamente eficientes e capazes lidando com engenharia de todos os tipos.

  4. Ótimo artigo!

    O irônico é que a Luftwaffe entrou na guerra com vetores datados, que em pouco tempo se mostrariam impróprios para as novas formas de combate. Após, acumularam-se projetos revolucionários, que a indústria alemã não conseguiu entregar na quantidade, no momento e no padrão de qualidade necessários. O timing era aquele, só faltou combinar com os inimigos.

      • Temos que agradecer a Hitler e sua megalomania estupida. Se ele tivesse deixado seus excelentes generais atuarem sem se intrometer impondo suas estratégias desastrosas a Europa e o mundo seriam muito diferentes do que existe hoje. Inclusive foram suas decisões estúpidas que os desviaram de uma conquista certa de parte importante das reservas de matérias primas e petróleo da URSS.

      • Já na Grande Guerra, a marinha alemã não havia entregado o que prometia. Para a Segunda Guerra, ficava claro que a situação seria ainda pior, já que as forças navais sempre foram preteridas no esforço armamentista nazista. No entanto, pelo menos uma lição o almirantado alemão aprendeu: não permanecer ocioso. Lutaram até o fim com o que tinham e o que não tinham e evitaram os levantes e insurreições de novembro de 1918.

  5. Excelente reportagem, mas continuo acreditando que o MIG 15 somente foi o que foi em função da absoluta incompetência do partido trabalhista inglês e Stafford Cripps, que não apenas vendeu o Rolls Royce Nene para os soviéticos, como também colaborou com informações técnicas. Um decisão política burra, que custou a vida de milhares, talvez milhões, com o prolongamento da guerra da Coreia e o fim do domínio aéreo americano. O Sabre não tinha a razão de subida do MIG e não era palho em maiores altitudes. E o Superfortess virou um super turkey.