Avia S-199 Messerschmitt: mais perigoso para o seu piloto do que para o inimigo!

Os primeiros dias da Força Aérea de Israel.

Por ocasião da invasão árabe, em maio de 1948, a Força Aérea Israelense (Israel Air Force – IAF) tinha apenas três esquadrilhas de aviões leves (principalmente Piper Cub) e aproximadamente quarenta pilotos na ativa. Não possuía aviões de combate: somente três aviões de carga e dois bombardeiros. Quase não existia comunicação pelo rádio entre as forças de terra e os voos de reconhecimento.

A força aérea adversária era incomparavelmente superior. O Egito contava com cerca de 40 Spitfire, 2 aviões de carga e perto de 30 bombardeiros. A Síria dispunha principalmente de aviões Harvard e o Iraque tinha uma esquadrilha de Fury.

Em conseqüência desse desequilíbrio, a recém formada Força Aérea de Israel não podia tentar incursões diurnas. A única missão cabível era fazer vôos de reconhecimento, de apoio às ofensivas terrestres. Mas, nesse desempenho, devido à falta de rádio, as mensagens sobre as posições árabes tinham de ser jogadas do ar, em garrafas, para a tropa em terra. Além disso, era reduzida a artilharia antiaérea, o que deixava os campos de pouso israelenses extremamente vulneráveis à aviação árabe.

Por falta de alternativa e ansiosa para realizar ofensivas aéreas, os israelenses foram obrigados a improvisar. Os suprimentos eram lançados de paraquedas para as tropas, e o bombardeio dos aeroportos árabes realizados à noite e sem técnica: as bombas eram simplesmente jogadas pela porta dos aviões, com resultado insignificante.

Foi sob essas condições adversa que, em 15 de maio de 1948, a Força Aérea de Israel se viu obrigada a realizar operações de maior porte contra os árabes. Na manhã desse dia, a principal base aérea israelense, Sde Dov, foi atacada pelos Spitfire do Egito, que destruíram três aviões e causaram baixas na turma de manutenção em terra. Numa segunda incursão, na tarde do mesmo dia, um dos Spitfire foi derrubado. Enquanto isso, o setor de compras de armas da Haganah (defesa, em hebraico) empenhava-se arduamente na Europa para conseguir equipamentos. Em 29 de maio, chegou à recém ocupada base aérea de Ekron o primeiro lote de aviões de combate. Eram quatro Messerschmitt, vindos da Tchecoslováquia. Havia também um fluxo constante de pilotos voluntários, quase todos com experiência da Segunda Guerra Mundial.

Bristol Beaufighter

O alvo escolhido para o início de ação da esquadrilha foi uma coluna egípcia que tinha penetrado até Ashdod, a 50 km ao sul de Tel Aviv. Ao se aproximarem, os Messerschmitt abriram a formação e deixaram cair bombas sobre concentrações de veículos. Depois, passaram a atacar a coluna, de várias direções, empregando suas metralhadoras de 20 mm. Os egípcios revidaram com preciso fogo antiaéreo, que destruiu dois dos quatro bombardeiros.

Deste modo, os árabes eliminaram, em uma só ação defensiva, metade da Força Aérea de Israel.

Numa ocasião, dois Dakota C-47 egípcios acercaram-se de Tel Aviv ao cair da noite. Quando começaram a lançar suas bombas, um Messerschmitt israelense, de volta de um voo de patrulhamento, entrou em ação, conseguindo derrubar os dois Dakota. Em outro incidente, navios de guerra egípcios aproximaram-se da costa de Tel Aviv a fim de bombardear a cidade. A Força Aérea Israelense muniu às pressas os aviões disponíveis. Um Bonanza, um Fairchild e um Rapide se dirigiram para a área. Sem dispor nem mesmo de um visor de bombardeiro, essa força improvisada causou, entretanto, terror nos egípcios, e os três navios se retiraram, sem combate.

Mecânicos israelenses retiram peças de um Spitfire egípcio abatido.
O voo de uma Fortaleza Voadora B-17 americana sobre Israel. Em alguns casos, esses aviões saíram dos EUA iludindo o FBI.

Após o dia 3 de junho, rarearam os ataques árabes contra Tel Aviv; a primeira trégua não estava longe. Justamente durante essa pausa, que durou um mês, a Força Aérea de Israel teve tempo de se organizar. Voluntários procedentes dos Estados Unidos, do Canadá e da Inglaterra apresentaram-se para atuar como radioperadores, navegadores, mecânicos, artilheiros, pilotos e instrutores. Não existia uma verdadeira estrutura de comando, mas os objetivos eram bastante claros para cada combatente.

Durante a trégua vinham regularmente aviões da Tchecoslováquia, e a chegada de Fortalezas Voadoras B-17, excedentes americanos de guerra, aumentou substancialmente o poder ofensivo da aviação israelense, quando a luta recomeçou em julho.

Após a compra desses bombardeiros, todo o aspecto da guerra aérea mudou a favor de Israel.

Dois Harvard da Força Aérea de Israel em vôo de Observação. A FAI adquiriu seus primeiros Harvard no fim de 1948. Embora esse modelo tivesse sido projetado como avião de reconhecimento, os israelenses fizeram-lhe adaptações, acrescentando metralhadoras e suportes com capacidade para transportar bombas leves de 50 kg.

Um dos maiores estratagemas de Israel foi o “empréstimo” que obteve do Ministério do Ar inglês de quatro Bristol Beaufighter, um dos melhores modelos de bombardeiro. Emmanuel Zur, o agente israelense encarregado da transação, concluiu que alguns Beaufighter seriam um bom reforço para seu país. Sob o pretexto de fazer um filme sobre eles, persuadiu as autoridades inglesas a enviar cinco desses aviões para um longínquo campo de pouso na Escócia. Zur filmou as cenas, perante um grupo de oficiais empertigados. As tripulações que arranjara, simpatizantes da causa israelense, decolaram, sobrevoaram a base, desapareceram rapidamente sobre um morro e seguiram em direção a Israel, reabastecendo-se na Córsega. O problema de peças de reposição foi resolvido com habilidade pelo ex-piloto da RAF John Harvey. Tendo adquirido um bombardeiro Handley Page Halifax excedente de guerra, Harvey lotou-o de peças dos Beaufighter, metralhadoras, munição e até um motor completo, e depois voou para Israel.

No início de 1949, o efetivo israelense contava com uns 150 aviões — dos mais variados tipos — e pilotos capacitados, muitos dos quais precisavam saber manejar até dez modelos diferentes de aeronaves. Para reforçar a Esquadrilha 101, a única de aviões de combate, os tchecos ofereceram cinqüenta Spitfire LF Mk IX, recondicionados.

Nessa época, a zona do canal de Suez estava sob ocupação inglesa. Uma base da RAF, instalada em Fayid, protegia a passagem dos navios. Mas a presença da RAF era mal tolerada tanto pelos israelenses como pelos árabes.

Supermarine Spitfire Mk IX

Um incidente ocorrido em 7 de janeiro de 1949 ilustra bem a afirmativa de que a habilidade dos pilotos era realmente a força oculta dos israelenses. Nesse dia, quatro Spitfire Mk 18 da RAF decolaram para um voo de reconhecimento. Depois de quase meia hora, dois Mk IX da IAF partiram de Hatzor em missão de patrulha. Como a IAF não contava com sistema preventivo de alerta aéreo, a maioria das rotas de patrulhamento era baseada apenas na intuição dos pilotos. Por mero acaso, eles avistaram os aviões da RAF e os atacaram. Apesar da superior potência de fogo e da maior agilidade dos Mk 18, o resultado final foi a destruição dos quatro aviões da RAF.


FONTE: Guerra na Paz, Editora rioGráfica, pág. 68

14 COMENTÁRIOS

  1. A história da IAF é um milagre. tiraram água de pedra e aos poucos chegaram na excelência. Israel depende totalmente da IAF para sobreviver, por isso investe tanto em equipamentos e treinamento, só não tem F-22 porque os EUA não vende. A industria de defesa local é muito valorizada pelo governo e a população sabe da importância das forças armadas como ninguém mais no mundo.

      • Não seria porque são o povo escolhido por DEUS ….
        a história israelense pós 1948 e fantástica, para não dizer sobrenatural !
        . Talvez no futuro vai ter algum livro contando essa historia no livro da Torá…

      • São bem treinados e com muita experiência e o mais importante, sabem que precisam dar o melhor para garantir a sobrevivência do Estado Israelense, em qualquer lugar isto é o que todo piloto precisa: um bom equipamento, um bom treinamento e uma bom motivo para lutar.

  2. Realmente, a sobrevivência de Israel nos primeiros dias é difícil de se explicar sob qualquer ótica. E o uso dos "Bf-109", emblemática.

  3. Patriotismo é algo que invejo nesse povo, e a história descrita dos aviões furtados define bem o lema de que na guerra vale tudo. Excelente matéria!

  4. Na verdade não eram Messerschmitt Bf 109, mas sim Avia S-199 : após a 2ª GM, a Tchecoslováquia, que sob domínio nazi fabricou o 109 quis seguir a produção, mas o estoque de motores DB-605 acabou e eles resolveram simplesmente colocar o motor ( Jumo 211 ) e a hélice do He-111 e criaram o S-199 – uma mer… de avião, que além de performance de vôo ruim ainda tinha problemas no mecanismo de sincronização das metralhadoras, havendo casos de destruição das hélices ao disparar as armas ! Mas p/ quem não tinha nada, antes isso do que nem isso.

  5. Outra história interessante é que no caminho p/ chegar em Israel um B-17 bombardeou o Cairo, pegando de surpresa os egípcios.

    • E usando como referência, um simples mapa estudantil arrancado de uma enciclopédia britânica!

  6. É Giordani, agora se vc for contar essa história p/ essa galera de hoje, eles não vão entender porque não usaram o GPS, o Google Maps ou o Earth …

  7. Todo este sucesso da IAF causa um bocado de inveja e faz muitas nações guardarem rancor mortal, só esperando a oportunidade…

  8. As aeronaves "Me" que vieram da Tchecoslováquia eram Avia S-199; um BF-109G-6 construído com um motor Junkers Jumo. O motor, dotado da mesma hélice do He-111F, causou sérios distúrbios ao caça ( a hélice gerava um torque excessivo ), que se tornou muito perigoso de operar ( em particular durante pousos e decolagens ). Quando os primeiros Spitfire ficaram disponíveis, os pilotos imediatamente preferiram os dito cujos.

    Interessante que a RAF deixou muita coisa em solo israelense. Salvo engano, ao menos duas seções de Spitfire MK.V foram deixadas prá trás quando da retirada do domínio britânico. Aproveitando partes de aeronaves derrubadas, os israelenses lograram fazer duas aeronaves ( seus dois primeiros Spitfire )! Montaram-nos na raça, sem quaisquer manuais, contando apenas com a experiência de mecânicos que haviam antes servido a RAF.

    • Penso que a correcção constante que o piloto tinha de fazer ao torque era um absurdo mesmo. E a nova hélice impossibilitava a utilização do canhão que disparava através da hélice, o que levou os checos a instalarem dois pods nas asas, piorando ainda mais o comportamento do avião. Os checos apelidaram-no de a mula, tal era a sua "graciosidade".

      Ainda assim conseguiram várias vitórias aéreas com os israelitas, incluindo face a Spitfire egípcios.

      A compra das 25 unidades por espiões é por si só uma história. Os pilotos estavam na Checoslováquia quando foi criado o Estado de Israel e tiveram de regressar à pressa, sem treino. E os S-199 foram transportados por C-54 Skymaster.

      O S-199 e o S-92 (Me-262) ainda assim ostentavam cores bem graciosas.

      • O BF-109 e FW-190 são conhecidos por serem os caças da WWII mais difíceis de decolar.

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