Quando se fala na guerra travada entre argentinos e britânicos em 1982 no Atlântico Sul, uma das primeiras coisas que se diz é que os argentinos perderam a guerra por não poderem usar a pista do Aeroporto de Port Stanley. Será?

Sim. É verdade. A pista teria feito a diferença para os argentinos, tanto é que os britânicos desencadearam a operação Black Buck, que tinha como objetivo negar o uso da pista pelos argentinos, objetivo semi-alcançado. Mas isto é só uma parte. A grande verdade é que os argentinos não poderiam usar a pista para seus Mirage, Dagger e A-4 de forma adequada por diversos problemas;

Problema #1: terreno instável

Uma avaliação do corpo de engenharia do Exército argentino sentenciou: a pista não poderia ser utilizada por jatos rápidos somente aumentando o comprimento dela, pois o terreno era instável demais. Exigiria um volume de trabalho aquém da capacidade disponível dado o pouco tempo para execução dos serviços. Os engenheiros argentinos chegaram a enviar placas de aço para aumentar a pista, mas somente uma parte deste material chegou as ilhas.

Prisioneiros argentinos usaram as placas que se destinavam a ampliação da pista para se protegerem do frio extremo.

Logo após o desembarque britânico e subseqüente tomada da pista, os engenheiros reais chegaram a mesma conclusão, mas isto não afetou a RAF, pois o Harrier não necessitava de mais comprimento.

Problema #2: resistência da pista

As pistas ao redor do mundo recebem um determinado número, que indica a capacidade de suportar ‘x’ quilos por m². A pista de Stanley estava abaixo da resistência, por exemplo, para um Mirage III. Mais uma vez não haveria tempo aos engenheiros argentinos para refazer todo o pavimento. E de novo, o Harrier estava dentro da capacidade da pista.

Problema #3: não basta só ampliar

Muitos entusiastas se deixam levar pela falácia que era só aumentar a pista e voilà!, acabaram-se os problemas. Nada disso. O Mirage III necessitaria de uma ampla rede de apoio no aeroporto e, por incrível que pareça, a FAA não estava preparada para operar de forma avançada, com poucos recursos. Simplesmente não existia uma unidade de apoio extra-campo.

Problema #4: briga de irmãos

Tanto os pilotos da Fuerza Aerea Argentina quanto os aviadores da ARMADA realizaram treinos em pistas curtas no continente. Aos poucos eles estavam aprendendo a tirar o melhor proveito e o quanto de carga poderiam carregar. Mas eis que uma estúpida e desnecessária briga política se desenrolou nos bastidores. A Inteligência dos EUA descobriu evidências de que a FAA se recusava a operar nas ilhas porque ficaria submetida a controle da ARMADA. O Almirante Carlos Busser, responsável pela coordenação da invasão das ilhas, relatou que a simples idéia de serem comandados por aviadores fez os pilotos da Força Aérea a se recusarem a receber instruções dos aviadores de como atacar os navios britânicos!

Os pontos identificam os impactos das bombas britânicas

Conclusão

Estudos de viabilidade e testes no continente provaram que o A-4 Skyhawk poderia decolar ao nível do mar com 0 km/h de vento contrário, carregando dois tanques subalar de 500 litros e duas bombas de 225 kg e voar num perfil baixo de menos de 1.000 m sobre o mar até os alvos. Vários outros perfis e condições de vento eram viáveis, mas a maioria deles estava dentro do comprimento da pista de Port Stanley.

Para as outras aeronaves, Mirage IIIEA e Dagger (motor Mirage V da IAI Atar 9C), operar no aeroporto de Stanley seria no limite de segurança, não deixando espaço para erros ou mau tempo.

A conclusão é que sim, a pista teria feito a diferença para os argentinos, mas os planejadores argentinos não foram capazes de prever a necessidade de usá-la, pois estes talvez tivessem sido contaminados pela ideia de que jamais a Grã-Bretanha deslocaria uma força-tarefa ou envia-se um bombardeiro para atacar um alvo a 13.000 km de casa.


FONTE de pesquisa: Think Defence

19 COMENTÁRIOS

    • Foi a primeira ação que os britânicos levaram a cabo assim que retomaram o controle das ilhas. Dentro em breve um acordo entre os governos irá permitir voos regulares da Aerolineas Argentinas uma vez por semana para o aeroporto local.

    • Não amigo! Os aviões da RAF e aeronaves civis utilizam a base de Mount Pleasant, construída depois do conflito. De fato como o Gio colocou a pista foi reparada depois da guerra para operar aparelhos C-130 e F-4 Phantom. Contudo a operação dos caças era marginal, tanto que precisavam pousar com um cabo de parada.

      • Os ingleses torraram muito, mas muito dinheiro depois da guerra. Para se ter uma ideia, as PACs eram sempre realizadas por caças Phantom e Harrier e, ambos, com a companhia de um Victor, pois as condições climáticas mudam velozmente na região e se um Phantom ou Harrier não pudesse pousar, era reabastecido até as condições meteorológicas melhorarem. Por vezes o Harrier pousava e o Phantom ficava orbitando.