Com o governo à beira do colapso, a decisão do Primeiro-Ministro de entrar em guerra em 1982 mudou tudo.

A Guerra das Falklands, travada entre abril e junho de 1982, foi o ponto de virada na liderança da Srª. Thatcher, na verdade em sua carreira política. Em outubro de 1981, a conferência do Partido Conservador expôs com clareza a dissidência. Os chamados “wets” estavam abertamente conspirando contra ela. Apostas estavam sendo feitas contra ela sobreviver no novo ano. Bem atrás nas pesquisas e com o novo partido social-democrata desafiando tanto os trabalhistas quanto os conservadores, poucos acreditavam que Thatcher levaria seu partido a outra vitória eleitoral.

Embora a maltratada economia houvesse trazido algum alívio, Thatcher era vista como uma liderança fraca, com pouco apoio, mesmo dentro de seu partido. O que mais tarde foi chamado de thatcherismo ainda era um sonho, com apenas cortes de impostos de primeira linha. A obsessão dominante foi reduzir a inflação de dois dígitos e cortar gastos públicos. Nada mais parecia preocupar o governo.

Na linha de frente para os cortes estavam a Defesa e assuntos externos. A revisão de defesa de John Nott a frota de superfície deixaria de ter uma atuação global para ter apenas uma atuação regional. Hong Kong deveria ser entregue aos chineses e uma minúscula colônia de ilhas no Atlântico sul estava sendo negociada para “venda e arrendamento” para a vizinha Argentina pelo ministro das Relações Exteriores de confiança de Thatcher, Nicholas Ridley. Sim. As ilhas logo seriam argentinas. O único navio da Marinha Real em sua vizinhança, o HMS Endurance, deveria ser retirado.

Para a junta militar da Argentina, o governo britânico estava claramente ansioso para se desfazer das Malvinas (nome argentino para as Falklands). Assim, quando a iniciativa de Ridley foi debatida na Câmara dos Comuns e as negociações estagnaram, o convite à junta argentina para imitar a tomada de Goa (colônia portuguesa) pela Índia em 1961 foi irresistível. A invasão foi nomeada Operação Goa. Mesmo com a tensão aumentando, Thatcher se fez de surdo aos pedidos do Ministério das Relações Exteriores (Foreign Office) para reforçar as ilhas e enviar navios para a área. O ministro das Relações Exteriores, Lorde Carrington, achava que suas relações com Thatcher eram delicadas demais para pressionar o assunto.

Embora Thatcher dificilmente pudesse ser responsabilizada diretamente pela invasão argentina, foi certamente o resultado de seu estilo de governo e abordagem política. Ela falhou em defender as ilhas do ataque surpresa e muitos na Argentina pensaram que ela havia atraído imprudentemente à Junta “para o combate”.

A partir do momento em que o desastre era iminente, na noite de 31 de março, Thatcher sabia que enfrentava humilhação e possível resignação. De um dia para o outro, ela mudou de Chamberlain (primeiro ministro inglês enganado por Hitler) para Churchill. Ela teve uma sorte excepcional, pois o cauteloso chefe da equipe de defesa, o Almirante Terence Lewin, estava ausente e o primeiro conselho disponível para ela foi do Chefe da Marinha, Sir Henry Leach. Ele prometeu que a Marinha Real poderia retomar as ilhas, um projeto imprudente dadas as distâncias envolvidas. Para Thatcher, Leach era sua única salvação. Na Câmara dos Comuns, no dia seguinte, ela conseguiu converter um sentimento de vergonha nacional em um de propósito comum. Os primeiros navios da Marinha Real se fizeram ao mar em dois dias, em meio a um pandemônio em Portsmouth e Plymouth.

A guerra trouxe o melhor em Thatcher. Ela sabia que estava fora de sua zona de atuação, consultando Harold Macmillan e outros sobre como se comportar. Ele aconselhou-a a estabelecer um gabinete de guerra, nunca se preocupando com dinheiro e sempre cobrindo seus flancos diplomáticos e legais. Em flagrante contraste com sua abordagem dos assuntos domésticos, Thatcher apoiou abertamente seus comandantes militares e suas decisões até o fim.

Durante a viagem da força-tarefa para o sul, Thatcher teve que manter a pressão sobre o inimigo e manter os críticos e aliados satisfeitos de que ela estava aberta a uma retirada negociada. Isso não foi fácil. Os EUA se opuseram à guerra. O presidente Reagan havia apoiado a Junta Militar argentina e foram apenas as estreitas relações de Thatcher com ele que asseguraram apoio logístico vital de combustível e armas enquanto a força-tarefa se mudava para o sul da Ilha de Ascensão. Reagan ordenou que a Marinha dos EUA estivesse pronta para auxiliar a Força-Tarefa britânica se as coisas não saíssem como o desejado. Até um porta-aviões estava de prontidão, caso o empreendimento enfrentasse um desastre.

A diplomacia pomposa do norte-americano Alexander Haig e pelos peruanos e outros intermediários tentaram dissuadir Thatcher do uso da Força. Tampouco as questões foram facilitadas pelo seu secretário de Relações Exteriores, Francis Pym, um rival de sua liderança. Ela acreditava que apenas a vitória total iria preservar sua reputação, e nenhum acordo que premiava a agressão argentina poderia ser tolerado. No entanto, ela sabia que tinha que prosseguir pelas regras. Sendo uma advogada por profissão, ela seguiu meticulosamente o procedimento da ONU, sempre citando suas resoluções em seus discursos. Quando lhe disseram que não podia abater aviões civis inimigos em serviço de inteligência, ela não o fez.

Thatcher admitiu em suas memórias que ela se apaixonou pelo espírito militar. Soldados não planejaram e murmuraram contra ela. Eles prestaram atenção em sua presença, deram-lhe conselhos diretos e cumpriram ordens sem questionar. Ela particularmente admirava os conselhos de Lewin como chefe de defesa. Ele sabia que estava fazendo mais do que ganhar de volta uma colônia, ele estava salvando e recuperando a Marinha Real do desmantelamento proposto por Nott e Thatcher.

Se os aviões argentinos tivessem bombardeado navios de suprimentos e tropas ao invés de navios de guerra, uma operação terrestre poderia se tornar logisticamente impossível. Os helicópteros pesados da força-tarefa foram todos perdidos quando o essencial navio de transporte Atlantic Conveyor foi afundado. Apesar do inesperado e fantástico desempenho do Harrier, o desembarque foi feito sem superioridade aérea. Os estrategistas militares jamais poderiam supor que os comandantes militares argentinos guarneceriam as ilhas com recrutas mal treinados e sem helicópteros de ataque. A conclusão da maioria dos analistas de defesa é que os argentinos deveriam ter vencido essa guerra. Além do mais, em junho é o período de tempestades no Atlântico Sul, um elemento da Natureza que estava a favor dos argentinos

A decisão britânica mais controversa, o afundamento do cruzador argentino General Belgrano, estava na época dificilmente em dúvida. A Argentina tinha uma frota de batalha no mar, incluindo uma força de transporte armada com mísseis Exocet. As chances estavam pesadamente do seu lado. Tomar a decisão de deixar um navio daqueles vagando pelo oceano ao largo das ilhas, armado com mísseis capazes de derrotar a força-tarefa, teria sido extraordinário. Após o afundamento, o grupo de batalha argentino recuou para o porto e não participou da guerra. Mesmo assim, Thatcher não autorizou nenhum ataque contra bases militares no continente argentino, mesmo que um grande plano da Real Força Aérea já estivesse pronto.

A vitória foi finalmente alcançada em 14 de junho, quando a desprezada guarnição argentina se rendeu em Port Stanley. A reação de Thatcher foi de alívio. Ela estava esgotada, não menos por sentar à noite escrevendo cartas pessoais para famílias enlutadas. A guerra não tinha sido uma grande aposta política, porque ela não tinha opção, mas a aposta militar foi altíssima. Uma guerra a milhares de quilômetros de casa, que deixou um saldo de 255 britânicos mortos e um buraco de 3 bilhões de libras no orçamento de defesa.

A nação bebeu de uma experiência que não desfrutava desde 1945: um claro triunfo militar. A vitória trouxe de volta a liderança de Thatcher que estava à beira do colapso. Ela ganhou fama mundial, tanto nos Estados Unidos quanto na União Soviética, e 10 pontos foram adicionados ao seu índice de pesquisa. Ela estava finalmente na liderança sobre os trabalhistas. Os emergentes social-democratas nunca se recuperaram. Thatcher soube capitalizar seu triunfo, ostentando o renascimento do povo britânico como uma potência mundial. Ela recebeu um novo impulso quando o ditador argentino, General Galtieri, foi substituído por uma democracia rudimentar.

Se a guerra trouxe as melhores características de Thatcher, a vitória tiraria muito do seu pior, em particular a intolerância daqueles que respondiam de volta. Mas deu a ela a confiança e a força política para avançar com um programa que, de outra forma, seria inerte. Seu manifesto de 1979 foi ignorado em conteúdo e tom. Ela começou a equilibrar o orçamento, mas os gastos ainda estavam aumentando. Os sindicatos não foram confrontados. Não houve quase nenhuma privatização. O IRA ainda estava em marcha. O thatcherismo ainda era desconhecido.

As Malvinas mudaram tudo. Os mineiros foram confrontados, o governo local de esquerda foi esmagada. Mais crucial de tudo, os moderados patrícios foram diluídos e eventualmente expulsos do poder.

A Junta Militar argentina apostou na invasão as ilhas como forma de tentar salvar seu governo que caminhava a passos largos para o fracasso. A comoção nacional uniria o povo argentino. No entanto, as Malvinas salvaram as Falklands. As Malvinas salvaram Margareth Tatcher.


Com informações do The Guardian


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15 COMENTÁRIOS

  1. Antes de Thatcher, o Reino Unido era conhecido como "o homem doente da Europa". Ela reduziu o estado, privatizou, cortou impostos e benefícios sociais…

    Medidas impopulares, mas necessárias. Daí vem o de sempre: greves, baderna, fora a questão irlandesa e a união soviética.

    Em 82, o país começa a se recuperar. De 84 a 90, o PIB mais que dobrou.

    Ter as contas do Estado em ordem é pré-requisito. Para dar algo para alguém, vc precisa ter esse algo primeiro.

    Distribuir benesses e quebrar o governo, como os esquerdistas sempre fazem, é mole.

  2. A impulsividade adolescente da Argentina custou caro à Junta Militar… poderiam ter insistido em uma solução diplomática pelas Malvinas, mesmo com a estagnação das discussões no Parlamento da Rainha.

    • 90 porcento da política externa é definida pela política interna.

      A junta precisava de um inimigo externo e inventou essa guerra.

  3. Saindo do campo militar e indo para o político, dos países que eu leio, dos relevantes, eu diria que o Brasil é um dos menos preconceituosos para mulher e negros, o racismo aqui é brincadeira de criança comparado ao americano, japa, inglês e etc.
    O que fizeram com essa Teresa May foi sacanagem, o Brexit que é uma piada, uma vergonha, o povo decidiu sair fora da UE por meio de referendo, e o que o parlamento faz, culpa a primeira ministra ahahah
    O que saiu de matéria tendenciosa por ela ser mulher, em nenhum momento nessas matérias tendenciosas foi lembrado que a decisão foi do povo.

  4. Texto bem escrito, mas não compartilho 100% com a opinião do artigo.

  5. Excelente análise. Acho exagero considerar que a guerra seria ganha pela Argentina, já que a força tarefa era composta por uma força de respeito e os meios aéreos não haviam sido testados – mas eram eram extremamente novos.
    Por outro lado, a força Argentina era inexperiente e tinha meios navais muito menos expressivos, contando com apoio aéreo vindo de terra.
    E uma extensão do conflito, chegando ao continente, seria terrível para os argentinos, pois já estavam desfalcados de material devido à embargos.

    • A Argentina nunca teve chance.

      Falta de profissionalismo. Não havia treinamento, peças, munição.. suficientes. É o que se deduz das suas próprias palavras.

      Até hoje, como lemos aqui, acreditam que é só comprar equipamento que está tudo certo.

  6. Mentiras, mentiras, mentiras…

    Ela está no top five de todas as pesquisas sobre primeiros-ministros do reino unido.
    https://en.m.wikipedia.org/wiki/Historical_rankin

    Em paises democráticos, há o conceito de rotatividade do poder. Somente a esquerda autoritária é que acredita em se manter no poder seja pela força ou por suborno.

    Quanto a seu legado, basta ver a lista de homenagens recebidas após sair do poder:
    https://en.m.wikipedia.org/wiki/Honours_of_Margar

    • O mais longo mandato como primeiro-ministro em 150 anos.

      Vamos comparar as honrarias com Major, Blair, Brown e Cameron.

      Recebeu o título de baronesa. John Major é apenas cavaleiro.

      Recebeu o título de dama da ordem de Garter, a mais alta do reino unido. Só John Major recebeu essa honra.

      Recebeu funeral militar na catedral de Saint Paul. Desde de Churchill, só ela recebeu essa honra.

      Esse ano receberá uma estátua com 3 metros de altura em sua cidade natal.

      Nada mau.

  7. Há um filme chamado Iluminados pelo Fogo, baseado em parte no relato de um ex combatente argentino que gerou o livro Los Chicos de La Guerra, onde se expõe o despreparo técnico e tático, a falta de equipamentos e mantimentos e os maus tratos sofridos pelos argentinos por parte de seus próprios comandantes.

    • É fato notório. Contudo, como bem sabemos, as pessoas preferem criar narrativas fantásticas.

      Não se diminui em nada a coragem dos pilotos argentinos, mas eles nunca tiveram chance.

  8. Independentemente das motivações, prejuízos e benefícios da Dama de Ferro, o fato é que uma atitude delinquente de um regime militar decadente gerou uma guerra aberta totalmente desnecessária. Basta ver que os próprios habitantes da ilha, quando consultados, se dizem e se sentem parte do UK e assim desejam permanecer. Ou seja, se a popularidade da governante britânica subiu, é porque ela fez uma limonada do limão que os argentinos lhe deram.
    Muitas mortes desnecessárias. Fico me perguntando o tipo de sentimento que atinge as famílias dos que caíram, deve ser revoltante perder um familiar ainda na sua juventude por causa de um conflito inútil.
    Particularmente me chocou saber, uns tempos atrás, que o número de soldados ingleses mortos no conflito já foi superado pelo número de ex-combatentes que cometeram suicídio desde então. Estatística que nos mostra que o trauma da guerra não é sentido apenas pela população, mas também pelos combatentes e de uma forma indelével.

    • Os soldados argentinos ainda sofreram muito com o próprio povo que os culpava pela derrota e não receberam nenhum apoio oficial com o término da guerra…

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