DC 10 VARIG Sea Harrier - GUERRA DAS FALKLANDS/MALVINAS: o dia em que uma aeronave brasileira esteve há minutos de ser abatidaNa Guerra das Malvinas, um flerte com a morte sobre o Atlântico Sul. Britânicos confundiram avião e quase abateram DC-10 com 188 pessoas – entre elas Brizola.

Aconteceu na tarde de sexta-feira, 23 de abril de 1982. Quem estava sentado do lado esquerdo do avião levou um grande susto: apareceu um jato militar, bem armado e com pintura de camuflagem, junto da asa do DC-10 da Varig. Foi por pouco tempo — o suficiente para provocar tumulto. De repente, o caça deu uma guinada e desapareceu. Deixou perplexidade bastante para animar a conversa a bordo naquele fim de viagem Johanesburgo-Rio.

Ao desembarcar no aeroporto do Galeão, por volta das 19h30m, cada passageiro tinha uma breve história para contar. Um deles era Leonel Brizola, então candidato ao governo do Estado do Rio. “Dava para ver o perfil do piloto“, ele disse ao GLOBO na época. Brizola (1922-2004) e seus companheiros de viagem não podiam imaginar, mas aquilo fora um flerte com a morte.

guerra das malvinas 707 da FAA por um Sea Harrier - GUERRA DAS FALKLANDS/MALVINAS: o dia em que uma aeronave brasileira esteve há minutos de ser abatida
Boeing 707 da FAA fotografado a partir do cockpit de um Sea Harrier

Quando o DC-10 foi captado na tela dos radares, a frota britânica navegava a dois mil quilômetros de distância das praias do Rio. Avançava na direção do arquipélago Malvinas, invadido por tropas argentinas três semanas antes.

O almirante John Forster “Sandy” Woodward comandava uma operação arriscada, a 13 mil quilômetros das bases européias, limitada no calendário pelo início do inverno polar. E, também, limitada no tempo, porque o governo da primeira-ministra Margareth Thatcher não sobreviveria se a missão resultasse em fiasco ou numa “viagem inútil a lugar nenhum” — na definição do Bureau de Inteligência do Departamento de Estado norte-americano.

Há quatro dias a esquadra deixara a base da ilha de Ascensão, na altura de Pernambuco, e era freqüentemente sobrevoada por um Boeing 707 da Aerolíneas Argentinas. Toda a estratégia de defesa da Junta Militar dependia da localização dos navios para estimativas sobre a data mais provável de chegada da frota à zona de combate.

Incomodado com as missões de “reconhecimento”, Woodward pediu mudanças nas regras de interceptação. Até então, dependia de autorização expressa de Londres para abrir fogo contra aeronaves consideradas como “ameaça”, fora da “zona de exclusão aérea”, mesmo que estivessem desarmadas. Recebeu autonomia na quinta-feira 22 de abril, quando o secretário de Defesa, John Nott, anunciou alterações no sistema de “alerta de defesa” da frota — sob o argumento de que a esquadra já se encontrava ao alcance da Força Aérea Argentina (FAA).

guerra das malvinas 707 FAA localiza - GUERRA DAS FALKLANDS/MALVINAS: o dia em que uma aeronave brasileira esteve há minutos de ser abatida
No dia 21 de abril de 1982 o Boeing 707 TC-91 da FAA localizou a frota britânica enquanto esta navegava a 2.200 km da costa brasileira na altura do Rio de Janeiro

Na manhã de sexta-feira, 23, um Boeing 707 da Aerolíneas despontou nos radares, e desapareceu — indicam os registros coletados pelo historiador militar britânico Rupert Allason, cujos livros são assinados com o pseudônimo Nigel West.

À tarde, outro alarme: aeronave suspeita a 340 quilômetros de distância, dez mil metros de altitude, em aproximação a 700 quilômetros por hora. O momento não poderia ser pior, descreveu Woodward nas memórias, porque o porta-aviões Hermes estava em meio ao reabastecimento. Preparou-se o lançamento de mísseis.

Um caça Harrier se aproximou do “alvo”. Chegou por trás; passou por cima; ficou à frente; foi para o lado esquerdo; deu uma guinada e sumiu, sem responder às tentativas de contato do comandante do DC-10, Manoel Mendes — segundo ele mesmo relatou aos passageiros curiosos, como Leonel Brizola e o então deputado maranhense Neiva Moreira.

guerra das malvinas sea harrier - GUERRA DAS FALKLANDS/MALVINAS: o dia em que uma aeronave brasileira esteve há minutos de ser abatida
Tripulação argentina fotografa Sea Harrier enquanto é interceptada

O piloto do caça confirmara o “alvo” como jato comercial regular da companhia brasileira Varig, em voo de rotina e com as luzes de cabine devidamente acesas. Woodward calcula em 30 segundos e Allason (West) estima em 20 segundos o intervalo entre o reconhecimento pelo Harrier e a ordem para abortar o ataque. A bordo do DC-10 da Varig, 188 pessoas não sabiam, mas durante essa fração de tempo flertaram com a morte. E o comandante Woodward escapou de um erro que, certamente, teria mudado a história da guerra no Atlântico Sul. (FONTE: O Globo)


Texto retirado da matéria originalmente publicada em 23/07/2014. Clique aqui para ler na íntegra.

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16 COMENTÁRIOS

  1. Já imaginaram o tamanho da caca que daria se eles tivessem derrubado este jato será que o Brasil entraria na guerra ao lado dos hermanos, teria o Brasil imposto restrições ou proibições a Inglaterra perto de nosso litoral, enfim muitas suposições e com certeza mudanças severas no futuro daquela época.

      • nunca o Brazil venceria o Reino Unido em uma guerra o os Britanicos tem muito mais tecnologia e são bem mais preperados para a guerra se juntar toda a America do sul não ganha do Reino Unido nunca a F.A.B daria troco na R.A.F…. chega a ser hilario pensar na f.a.b enfrentando r.a.f a royal navy e a r.a.f venceriam em uma semana.

      • ahahahaha boa, não sabemos os detalhes do que poderia acontecer, mas sabemos o desfecho.

      • NUNCA, se procurar saber a respeito, a Inglaterra vivia em uma epoca dificil, com a moral extremamente baixa! Invadir um país como o Brasil precisa de MUITO empenho ainda mais em 1982! O Brasil estava com a industria militar em "alta". Lembrando que o F-5 interceptou um Avro Vulcan antes mesmo de entrar no terrirorio brasileiro, coisa que os pilotos britanicos achavam que iriam pousar sem ser detectado!

        • A economia brasileira naquela época se encontrava estagnada e com viés de queda. Era inviável qualquer aventura militar, que levaria a um isolamento diplomático e econômico. A indústria militar em alta também é preciso ser posto em perspectiva: acredito que você escreveu tendo em mente a produção de blindados da época.

          A Inglaterra não precisaria invadir e ocupar o território brasileiro por completo. Uma vitória militar pode acontecer de várias maneiras que não a subjugação completa do adversário. Uma derrota em uma batalha naval ou o bombardeio de alguma instalação de infraestrutura estratégica já seriam motivos para abalar seriamente o regime militar.

          • Voce está ciente que a Inglaterra por pouco não deixou a Argentina com as Malvinas? A Inglaterra estava vivendo um momento conturbado e com moral baixa, a Ilha que pertencia aos britanicos, que é considerado estrategico por pouco não fizeram nada, imagina querer fazer alguma coisa contra o Brasil. A Argentina com a pessimo treinamento e qualidade de seus equipamentos fizeram um estrago considerado na frota britanica, imagina uma Guerra com o Brasil, não duvido que no final o Brasil perderia, mas seria um vitoria sem beneficios (Não me lembro a palavra correta)

            • Vitória de Pirro. Mas pior que uma vitória pírrica é a própria derrota.

              Em minha visão, qualquer acirramento no conflito apenas beneficiaria a Inglaterra. O "se" não entra em jogo, as variáveis são partes integrantes de qualquer desventura militar. Se houve dificuldades políticas na Crise das Lagostas, que dirá num conflito 'emprestado'. Ademais, a Inglaterra não tinha qualquer interesse em levar a guerra ao continente. A estratégia era não perder as Falklands, o que poderia levar a um efeito cascata nos demais territórios ultramarinos.

              A questão da moral também é relativa. E um conflito militar é sempre um ótimo catalizador para uma união interna, que era justamente o que a Dama de Ferro se ressentia. O Império precisava desesperadamente de uma 'chacoalhada'. Ademais, não estou ciente dos ingleses "entregando" as Malvinas. Tenho noção de uma país parlamentarista, no outro extremo do globo, que possuía todo equipamento e doutrina voltados para uma guerra europeia e foram surpreendidos. E, mesmo assim, no mesmo mês, a resposta já havia chego.

              Por fim, em minha opinião, havia um certo equilíbrio entre os exércitos do cone sul. Se a Argentina teve problemas no 'pega pra capar', provavelmente as fraquezas brasileiras também se mostrariam, principalmente sem apoio norte-americano. Sobre a "interceptação do Vulcan", sinceramente: isso não foi nenhum orgulho para a FAB. Um avião projetado entre as décadas de 40 e 50, teve problemas na sonda de reabastecimento, declarou emergência e se dirigiu para território brasileiro, se livrando de QUASE tudo de estratégico que possuía. Será que alguém que pousará no seu país, realmente quer entrar desapercebido?

              Ps: os pilotos curtiram tanto a estada no Rio que até nos homenagearam http://uploads.meiobit.com/2015/01/20150103vulcan

      • pelo contrario ia ter um pais o primeiro mundo derrotado pois por pouco os engleses nao desistiram das ostilidades e naquele tempo nos tinhamos defesa claro se fose agora nao temos nada

    • O Brasil avisou a Inglaterra que se invadisse o continente, o Brasil entraria na Guerra! Sem contar que entregou alguns aviões para a Argentina, então com certeza, o Brasil daria o "troco".

  2. Não dá para menosprezar a capacidade de reconhecimento marítimo visual de uma aeronave comercial em situação de boa visibilidade. O reconhecimento marítimo feito pelos B-707 era bem razoável.
    Quando viajo de Brasília para Porto Alegre ou Caxias do Sul, costumo reservar uma poltrona no lado esquerdo na janela. Com boa visibilidade, ao passar por cima de Curitiba, é possível não só ver, mas contar com facilidade os navios que estão em alto mar, na fila de espera para o porto de Paranagua. Quando faço isso, sempre imagino a coragem e audácia dos pilotos argentinos.
    Fiz a mesma coisa em um vôo de Lisboa. É possível ver com relativa facilidade os navios a longa distância em direção ao estreito de Gibraltar.
    Hoje não parece grande coisa, mas para 1982, era um feito impressionante.

  3. Uma duvida de um leigo, o boeing da FAA estava em águas internacionais?
    Não deu pra perceber na imagem mas esse boeing tinha marcação da FAA?
    O intuito de se usar uma aeronave civil desarmada era não tomar tiro, digo houve várias aproximações sem tiro dos harrier

    • A FAA usou um 707 porque era a unica aeronave no inventario capaz de localizar a frota inglesa a longa distância.

  4. Apesar da superioridade tecnológica, a Inglaterra não teria condições financeiras para manter um conflito contra Argentina e Brasil ao mesmo tempo e tão longe de casa, a não ser que recebessem ajuda dos EUA. Na verdade como já foi exposto em diversas reportagens estavam por um fio para alcançar o objetivo ou voltar para casa sem conquistá-lo. Foram muito mais competentes mas também ajudados pelo despreparo, falta de apoio e de bons equipamentos dos argentinos. Mas há de se ressaltar que mesmo na base do improviso e utilizando principalmente os A-4 com fissuras nas asas, sem radares, sem assento ejetor, atacando com metralhadoras e com bombas burras que muitas vezes não explodiram, os argentinos conseguiram afundar ou destruir 7 navios e uma lancha, avariar outros tantos.

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