Às vésperas da Guerra das Malvinas, a Marinha Real britânica e a Armada argentina eram esquadras concebidas para desempenhar funções totalmente diversas.

A primeira, que não se envolvia em ações de vulto desde a crise do canal de Suez (1956), consistia em dois porta-aviões para guerra anti-submarina (anti-submarine warfare – ASW), dezesseis contratorpedeiros, 44 fragatas e 31 submarinos de caça e destruição — dos quais doze fragatas e doze submarinos estavam em reparos ou na reserva —, além de um esquadrão para operações anfíbias, integrado por dois navios de assalto e seis de desembarque logístico.

Em apoio, dispunha do Serviço Auxiliar da Esquadra Real, cujos navios-tanques, de abastecimento e munição, possibilitavam aos vasos de guerra permanecer em patrulha por longos períodos, sem necessidade de retornar ao porto. Havia também os submarinos Polaris, lançadores de mísseis, que davam à Grã-Bretanha uma capacidade de dissuasão nuclear. Mas a tarefa básica dessa esquadra era (e continua a ser) a segurança do Atlântico leste, função executada em conjunto com seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com ênfase na ASW.

HMS Conqueror

Devido a essas características, a Marinha Real não estava totalmente preparada para um conflito no qual os ataques aéreos seriam o maior risco. Em abril de 1982, os dois porta-aviões em serviço ativo eram o Hermes, de 24.000 t, prestes a ser retirado de serviço, e o Invincible, de 16.000 t, que deveria ser vendido à Austrália. Nenhum deles permitia a decolagem de todos os tipos de aeronave, mas ambos podiam receber um contingente adicional de Sea Harrier.

Em operações de rotina, cada navio conduzia cinco Sea. Harrier e nove helicópteros Sea King, mas durante a guerra o contingente de Sea Harrier foi quase duplicado. Um aspecto preocupante era a ausência de aeronaves com sistemas de controle e de alerta em voo (airbone warning and control system – AWACS). Por esse motivo, quando chegou a ocasião, as fragatas foram para a frente, como piquetes-radar, com desastrosas conseqüências.

De modo geral, as fragatas e os contratorpedeiros da esquadra também estavam mais bem equipados para operações anti-submarino do que para defender-se de ataques aéreos. Eram obsoletos seus sistemas de mísseis: o Seacat, de mísseis terra-ar (SAM) de curto alcance, e o SAM Seaslug, de longo alcance. Nessas circunstâncias, os navios considerados mais importantes eram os contratorpedeiros Type 42 — o Coventry e o Sheffield, por exemplo —, possuidores do relativamente moderno SAM Sea-dart de longo alcance, e as duas fragatas Type 22 — Brilliant e Broadsword — equipadas com o avançado (na época) sistema SAM Sea Wolf, de curto alcance. A maioria dos navios de escolta estava armada com um ou dois canhões de 114 mm, mísseis Exocet terra-terra (SSM) e canhões antiaéreos (AA) de 20mm ou 40mm.

As operações ofensivas baseavam-se em submarinos nucleares das classes Churchill e Swiftsure, com velocidade de, respectivamente, 28 e 30 nós (51 e 55 km/h) quando submersos, e dos barcos diesel-elétricos Oberon e Porpoise, mais lentos. Todos eram equipados com torpedos de 533 mm; sua presença teria efeito reconhecido como decisivo sobre o desenrolar da campanha.

A Marinha Real era uma força totalmente formada por voluntários, com os mais altos padrões profissionais. Mesmo assim, a missão que a esperava era difícil. Primeiro, seria preciso enfrentar uma jornada de quase 13.000 km até a zona de guerra, para em seguida arrancar o controle marítimo da Argentina, possuidora de forças navais consideráveis e de supremacia aérea. Numa etapa posterior, seria necessário realizar um grande desembarque anfíbio — a mais difícil das operações “do manual” — e apoiar as tropas terrestres de todas as formas, até a rendição final do inimigo.

Muitos teriam considerado tais exigências excessivas. Ainda assim, o contra-almirante John Woodward, comandante da força-tarefa, sentia que esses objetivos poderiam ser executados, embora previsse a perda de seis navios, entre eles pelo menos uma unidade principal. Essa previsão mostrou-se notavelmente precisa.

Cautela é a melhor política

A Armada argentina, por sua vez, era basicamente uma força de defesa costeira com pequena potência para a guerra anfíbia. Sua capacidade operacional já havia sido forçada ao máximo pela invasão das Malvinas e da Geórgia do Sul. No âmbito do regime militar, a Marinha considerava-se rival das outras Armas na luta interna pelo poder político. Esse aspecto tendia a fazer com que se preservasse enquanto esquadra, mesmo ao preço de ceder o domínio dos mares ao adversário. Nas palavras de um observador americano, a Armada argentina era “uma esquadra de um só tiro — afunde um de seus navios e terá afundado todos“.

A maior unidade naval era o porta-aviões Veinticinco de Mayo, de fabricação inglesa, lançado em 1945 com o nome de HMS Venerable. Transportava doze Skyhawk A-4Q e várias aeronaves ASW. Sua presença isolada contradizia o princípio da guerra aeronaval, de que, para ser eficaz, um porta-aviões deve ter o apoio de outro.

ARA Veinticinco de Mayo

O segundo navio mais importante da Armada, o cruzador de 13.645 t General Belgrano, era ainda mais antigo. Lançado em 1939, com o nome de USS Phoenix, permanecia como o último sobrevivente de Pearl Harbor. Seu armamento consistia em quinze canhões de 152 mm, oito de 127 mm, dois de 40 mm e dois sistemas de SAM Seacat.

A esquadra também dispunha de alguns contra-torpedeiros igualmente provenientes dos Estados Unidos, que tinham sido reformados e reequipados com canhões de 127 mm e de 76 mm e SSM Exocet; seus navios de guerra modernos (para 1982) incluíam dois contratorpedeiros Type 42, recentemente recebidos de estaleiros britânicos, e três corvetas francesas Type A69. Havia apenas quatro submarinos, e suspeita-se que nem todos estivessem aptos a combater. Além disso, os argentinos reuniram uma flotilha de pequenos aviões de ataque, navios-patrulha e navios caça-minas.

As primeiras baixas argentinas

A invasão do arquipélago custou aos argentinos a corveta Guerrico. Em seguida, a Armada retirou-se para suas bases, preocupada com a possibilidade de submarinos britânicos estarem operando na área. Na verdade, o primeiro submarino nuclear, o HMS Spartan, não chegaria às Malvinas antes de 12 de abril de 1982, quando Londres anunciou o estabelecimento de uma Zona de Exclusão Marítima em torno das ilhas. Os submarinos Splendid e Conqueror vieram em seguida, recebendo depois o reforço do Valiant e do Onyx. Uma vez declarada a Zona de Exclusão, o tráfego entre terra firme e Port Stanley foi reduzido ao mínimo.

ARA Gen. Belgrano

Enquanto isso, a força-tarefa continuava seu caminho rumo ao sul, parando rapidamente para reagrupar-se na ilha da Ascensão. Nada digno de nota ocorreu no mar até a retomada da Geórgia do Sul, em 25 de abril. Nessa operação, o submarino Santa Fe foi atingido ainda na superfície, próximo a Grytviken, sofrendo tantos danos que teve de ser conduzido de volta ao porto e abandonado pela tripulação.

Em 30 de abril, a Zona de Exclusão Marítima foi declarada Zona de Exclusão Total (Total Exclusion Zone – TEZ). Em 1.° de maio, a força-tarefa estava preparada para iniciar os ataques nas Malvinas — e começaram as incursões aéreas argentinas contra a esquadra britânica.

Golpe a golpe

A cautelosa aproximação da força-tarefa animou a Armada argentina a voltar ao mar ainda uma vez. O almirante Jorge Anaya deslocou seus navios em dois grupos, aparentemente com o objetivo de executar um movimento em pinça ao norte e ao sul das Malvinas. O grupo do norte consistia no Veinticinco de Mayo e em cinco barcos-escolta, inclusive os dois destróieres Type 42; ao sul estavam o cruzador General Belgrano e dois barcos-escolta. Não se ficou sabendo quais as reais intenções de Anaya; parece que o plano era atacar com os aparelhos do porta-aviões, assegurando-lhes a cobertura aérea das bases do continente. Se os britânicos desviassem para o sul, encontrariam o grupo. do Belgrano, que lhes infligiria maiores danos com fogo de artilharia e SSM Exocet antes de afastar-se.

A força-tarefa tinha pelo menos informações gerais sobre esses movimentos. Em 26 de abril, os submarinos Conqueror e Splendid patrulhavam a oeste das Malvinas; nesse dia, o Splendid avistou vários destróieres argentinos distanciando-se do litoral e começou a acompanhá-los. No dia seguinte, porém, foi instruído pelo quartel-general da esquadra, em Northwood, para seguir o Veinticinco de Mayo em uma área ainda mais ao norte. Simultaneamente, o Conqueror recebeu ordens para iniciar a busca ao Belgrano, ao sul.

Capitaneado pelo comandante Christopher Wreford-Brown, o Conqueror avistou o Belgrano e seus barcos-escolta na tarde de 1.° de maio. Nesse momento, era intensa a atividade aérea e marítima em torno das Malvinas. Os movimentos em pinça de Anaya pareciam prestes a fechar-se sobre os navios britânicos e acreditava-se que um terceiro grupo, talvez integrado pelo restante dos barcos-escolta argentinos, ocupasse posições a oeste das ilhas.

Naquela noite, argentinos e britânicos recorreram aos aviões de reconhecimento. Por volta da meia-noite, um Grumman S-2 Tracker argentino localizou a força-tarefa em seu radar; algum tempo depois, um dos Sea Harrier do Invincible foi iluminado por um radar de controle de mísseis argentino e tomou ação evasiva, retornando rapidamente a um ponto em que seu próprio radar localizou o Veinticinco de Mayo e seus cinco barcos-escolta.

Ao amanhecer, o porta-aviões argentino estava a apenas 320 km da força-tarefa e em posição de ataque. Era, entretanto, um navio antigo, incapaz de atingir sua velocidade teórica máxima, de 25 nós (46 km/h). Esse aspecto, aliado ao fato de o vento ter enfraquecido até parar, impediu a decolagem de seus Skyhawk completamente carregados. O contra-almirante Juan Lombardo, no controle da operação, deu ordens de rumar em direção ao continente e aguardar melhores condições de voo.

Enquanto isso, o Conqueror seguia o Belgrano. A discussão entre o almirante Woodward e o almirante Sir John Fieldhouse, comandante-chefe da esquadra, resultou na conclusão de que a Armada argentina poderia abandonar a zona do conflito se o cruzador fosse afundado, embora ele estivesse fora da TEZ. O gabinete Thatcher aprovou a mudança nas regras do combate; sua decisão foi comunicada a Wreford-Brown.

Às 16h do dia 2 de maio de 1982, o Conqueror disparou alguns torpedos convencionais Mark 8 contra o Belgrano, à distância de 1.800 m. Dois deles atingiram o cruzador a bombordo. O primeiro danificou seriamente a proa e o segundo, explodindo no espaço após as máquinas, aplicou o golpe mortal ao navio de guerra. Em vinte minutos, o Belgrano adernava tão acentuadamente que o capitão Hector Bonzo, seu comandante, deu ordens de abandoná-lo. Às 17h, o barco rolou sobre seu eixo longitudinal e afundou. Morreram 368 argentinos. Os sobreviventes só foram resgatados trinta horas mais tarde, pois os dois barcos-escolta lançaram um ataque infrutífero ao Conqueror.

Em termos militares, o afundamento do Belgrano obteve o resultado desejado — as principais unidades de superfície da Marinha argentina retiraram-se para suas bases e lá permaneceram até o fim da guerra. Entretanto, o ataque além da TEZ e o elevado número de mortos geraram uma onda de indignação por todo o mundo. Dois dias depois, o afundamento do HMS Sheffield mostrou que os argentinos eram capazes de devolver os golpes recebidos; o conflito seria bem mais longo e sangrento do que se imaginara inicialmente.


FONTE: Guerra na Paz


IMAGENS:

http://www.defensemedianetwork.com/stories/falklands-war-l-photos/

http://www.iwm.org.uk/history/30-photographs-from-the-falklands-war

15 COMENTÁRIOS

  1. Bela matéria. Novamente, os Argentinos subestimaram a capacidade britânica e foram com muita sede ao pote. Poderiam ter se preparado melhor para tal investida sobre o arquipelago. Somente a dotação de mais exocets já daria a vantagem esperada aos hermanos.

    • Não eram militares, eram políticos de uniforme. Muita gente ascendeu a postos-chave só por serem filhos ou asseclas do regime. Na hora que precisaram de militares, de profissionais tinham somente o Tatico Buzo no solo e no ar um punhado de corajosos pilotos contra um Exército preparado para lutar contra a URSS…

  2. Olhando toda a Operação Britanica, tem que dar os parabens a eles, pois lutar e vencer tão longe de casa e no "quintal" do inimigo, não é para qualquer um. Não apenas pelo fator de combate, mas principalmente o logistico.

    Mas por outro lado…..não vejo a RN tendo muito sucesso em enfrentar a Marinha da URSS ou sua força area de longo alcance nessa epoca (sem estar com a USN ao seu lado). Se poucos exocet já fizeram estragos lançados por jatos subsônicos, enfrentar um Tu-22M com AS-4 ou AS-6 teriam consequencias terriveis. Não tenho informação, mas creio que nessa epoca, a RN seria uma "auxiliar" da USN operando junto a ela.

    • Mas no teatro europeu contra a URSS iriam dispor de um importante fator que eram aeronaves AWACS…

      • Mas a questão é: quem "emprestaria" nessa epoca um AWACS que era algo bem raro e valioso na epoca? Alem de que, muito dependeria de com quem ou onde a RN iria atuar, pois ela não tinha AWACS nessa epoca e em teatro saturado e dificil de operar como o Baltico, ou com grandes intemperes maritimas como o Mar do Norte, ela se veria com serios problemas. Creio que o local menos vulneravel para a RN seria o Mediterraneo, até pq a grande qtda de meios aereos e navais da OTAN nessa area iriam cobrir suas deficiências.

        • Na época a RAF dispunha dos Hawker Siddeley Nimrod e dos mais antigos Avro Shackletons AEW 2 modificados para a função, quebrava um galho, mas dependeria de bases no solo…

      • Pedraoctba,

        AndrewKDias,

        Um conflito com a URSS seria automaticamente um conflito com a OTAN… As forças armadas do Reino Unido iriam operar dentro de uma estrutura, e não de forma isolada… Em outras palavras, haveria toda a rede de sensoreamento dos países da OTAN a disposição…

  3. Giordani,

    Excelente matéria. Parabéns.

    Apenas discordo com relação a força de superfície da armada argentina ser tratada como força costeira.

    O que os argentinos possuíam, com os Type 42 e o seu porta-aviões, era um autêntico componente oceânico, teoricamente preparado para ações de longo curso.

    Salvo melhor juízo, o ARA Belgrano estava armada com mísseis 'Exocet'. Logo, era um alvo legítimo e importante.

    Tivessem também um submarino em condições ideais de combate e um torpedo que prestasse, e poderiam haver mais baixas entre os navios britânicos; muito embora considere difícil os argentinos lograrem êxitos nas águas algo rasas que teriam que lutar…

      • Pois é… O pessoal da FAA não estava adequadamente adestrado para ataques navais.

        As bombas lançadas pelas aeronaves não explodiram basicamente por serem lançadas a distância errada, sem dar tempo para armar as espoletas. E olhe que pontaria, eles tinham… Os armeiros argentinos não se atentaram a isso durante todo o conflito, e mesmo os pilotos tiveram consideráveis dificuldades quando enfrentaram a frota britânica…

        Apenas a Aviacion Naval estava verdadeiramente treinada e equipada para atacar navios…

  4. Ótimo artigo, parabéns.
    Se não me engano, o Belgrano estava a apenas 13 nos no momento de ataque inglês (algo bem displicente, pois já haviam submarinos nucleares no teatro de operações), e a distância era inferior a 1800 metro no momento do lançamento dos 3 torpedos.
    Como o Giordane falou, os militares argentinos eram políticos de farda…

  5. Eu tenho pra mim que a missão do Belgrano era realmente afundar… Servir de isca no caso, dividindo a força britânica e trazendo os navios ingleses mais para perto da costa argentina, onde dois dias mais tarde foram alvos dos Exocets. Mas é uma teoria da conspiração pessoal, rsrsrs.

    Tem a questão de ser um martiri. Coisa que vai ser para sempre…

    Ou os caras eram incompetentes mesmo. As vezes é difícil acreditar no óbvio.

  6. Eu de minha parte, gostaria de confirmar se alguem já leu algo a respeito sobre o Belgrano fundear entre as ilhas após a missão inicial de pinça. lembro que já li muito disto a epoca mas não encontro mais nada, então não sei se era apenas hipotese…

    parece que uma das missões discutidas, seria a do Belgrano operar nas Baia fechadas entre as ilhas pois se lá estivesse, estaria imune a ataques por misseis sea skimming e poderia utilizar eficazmente seus poderosos canhões como artilharia de apoio as ilhas e impedindo a aproximação das fragatas. Seria interessante pois apesar de obsoletos para luta oceanica, estariam totalmente aptos a luta litoranea. Somente os harriers poderiam desta forma ataca-lo…

    • Não posso falar por todos, mas nunca li qualquer referência que os comandantes argentinos intencionavam tal coisa. Assim como o Giordani, também acho que foi uma suposição dos ingleses, pois seria o melhor uso para o mesmo.
      Mas para ser franco, acredito que em os argentinos estavam bem perdidos no que deveriam fazer. Assim como a maioria dos oficiais nem sabiam da invasão, acredito que os mesmos nem tiveram muitas oportunidades de planejar muita coisa. Sendo assim tb acredito que eles nem imaginavam que poderiam ser derrotados, provavelmente agiram com o calor do momento, sem muita organização. Mas isso é só o que eu penso como entusiasta.

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