Quando a esquadra do contra-almirante John Woodward chegou às Malvinas, em 30 de abril de 1982, seus comandantes ainda não estavam certos quanto ao tipo de campanha que enfrentariam. Desconheciam o poderio e a distribuição dos invasores do arquipélago, e também as táticas prováveis da Força Aérea e da Marinha argentinas.

A única certeza era o objetivo contra o qual deveriam voltar suas forças: a guarnição sediada nas ilhas. Um ataque ao continente estava fora de cogitação. Woodward deu prioridade ao bloqueio das Falklands, tentando impedir o envio de reforços ou suprimentos do continente. Se esse objetivo fosse atingido, o moral argentino cairia bastante. O mesmo aconteceria a sua eficiência de combate, à medida que se esgotassem os suprimentos.

O cordão marítimo em torno das ilhas foi logo estabelecido. Entretanto, com as forças a seu dispor, Woodward tinha pouca possibilidade de interromper a ligação aérea mantida pelos transportes Fokker F27 Fellowship, Electra e Hercules argentinos. Para tornar absoluto o bloqueio, era preciso pôr a pista de pouso de Port Stanley fora de ação. A força-tarefa poderia atacar o campo de pouso com aviões Harrier e canhões navais de 114 mm, mas seria necessário algo mais pesado para destruir a pista de concreto, deixando-a sem possibilidade de reparos imediatos.

Combates sobre as ilhas

Decidiu-se empregar os velhos bombardeiros Vulcan da RAF (Royal Air Force), cada qual capaz de desfechar um ataque com 21 bombas de 450 kg. O único problema estava na imensa distância entre sua base mais próxima, na ilha da Ascensão, e o alvo, nas Malvinas.

Em operação extremamente complexa, a RAF conduziu dezessete aviões-tanques e um único Vulcan até as Falklands, no alvorecer do dia 1° de maio de 1982. O Vulcan despejou suas bombas a 3.000 m de altitude. Logo em seguida, os Sea Harrier desencadearam uma série de ataques ao campo de pouso de Port Stanley e à faixa de pouso e decolagem em Goose Green, e os canhões do HMS Glamorgan, Arrow e Alacrity bombardearam em pleno dia as posições inimigas. Os argentinos responderam com ataques aéreos aos navios britânicos; a popa do Glamorgan chegou a ser levantada para fora da água por duas bombas que quase o atingiram. Na batalha aérea subseqüente, os Harrier abateram um bombardeiro Canberra, um Dagger e um Mirage, sem sofrer nenhuma perda; outro Mirage foi abatido por engano pela artilharia antiaérea (AAA) argentina, sobre o aeroporto de Port Stanley. O Mirage III estava danificado por ter sido atingido por estilhaços de um AIM-9L lançado de um Sea Harrier, ao se aproximar da pista, o piloto ejetou os tanques subalares, no que foi interpretado como um ataque pelos artilheiros argentinos.

Tais êxitos, porém, não obscureceram a demonstração de poderio aéreo argentino. A força-tarefa achou mais prudente não se aventurar a novo ataque diurno, embora tornasse perigosas as noites para a guarnição argentina, com bombardeios a intervalos aleatórios.

O dia seguinte, 2 de maio, presenciou a perda de dois navios de patrulha Z-28 argentinos, que haviam saído de Port Stanley em busca de tripulações aéreas abatidas e entraram em combate com helicópteros da força-tarefa. Um dos navios, o Rio Iguazu, foi afundado, enquanto o outro, o Islas Malvinas, sofreu sérios danos e encalhou. No dia 3, duas pequenas canhoneiras, a Comodoro. Somellera e a Alférez Sobral, iniciaram outra busca a sobreviventes, envolvendo-se num segundo combate com helicópteros e sendo atingidas por mísseis AS 12. A Comodoro Somellera afundou de imediato, enquanto a Alférez Sobral conseguiu arrastar-se até Puerto Deseado, no continente, com boa parte de sua superestrutura destruída.

Naquele mesmo dia, a notícia do afundamento do Belgrano pareceu confirmar o controle da Marinha Real na zona do conflito. Em 4 de maio, porém, a força-tarefa sofreu sua primeira perda. Não havia campos de pouso nas Malvinas a partir dos quais os Skyhawk, Dagger e Mirage III da Argentina pudessem operar e por isso eles eram forçados a voar das bases em terra firme, no limite de seu alcance. Desse modo, Woodward teve condições de manter seu grupo de porta-aviões em relativa segurança, a cerca de 95 km a leste de Port Stanley.

No entanto, os grupos de bombardeio e os navios-piquetes de radar permaneciam expostos ao perigo; em 4 de maio, enquanto captava transmissões de radar ao sul das ilhas, o contratorpedeiro Sheffield foi atingido por um míssil Exocet disparado de avião. A ogiva do míssil não explodiu, mas a ignição de seu propulsor rapidamente transformou o interior do navio em um inferno. O fogo escapou ao controle e, em conseqüência, morreram 21 membros da tripulação.

Nas operações de resgate dos sobreviventes, que se lançaram ao mar, foram avistados os rastilhos dos torpedos inimigos, obrigando à adoção imediata de medidas anti-submarino. Mas os ataques não se concretizaram: o paradeiro dos submarinos argentinos restantes preocuparia os britânicos até o final do conflito. Outro revés sofrido pela força-tarefa foi o abandono do projeto de “amolecer” as Malvinas por meio de bombardeios aéreos. Um novo ataque de bombardeiros Vulcan, em 4 de maio, não conseguiu atingir o campo de pouso de Port Stanley. No mesmo dia perdeu-se o primeiro Sea Harrier, abatido sobre Goose Green; dois outros Harrier não conseguiram voltar de uma missão sob más condições meteorológicas, em 6 de maio (acredita-se que tenham colidido dentro de uma nuvem). A força-tarefa estava agora reduzida a apenas dezessete aeronaves; sem dúvida, seria demasiado perigoso arriscar a força restante em bombardeios rasantes e a baixa altitude diretamente contra as fortes defesas aéreas argentinas. As incursões foram limitadas e os Sea Harriers ficaram reservados para a função de defender a força-tarefa de ataques aéreos. Aproveitando-se desse fato, as aeronaves de transporte argentinas continuaram a voar para Port Stanley, à noite e muitas vezes sob terríveis condições meteorológicas.

Vulcan sendo preparado para uma missão anti-radar sobre as ilhas.

Não havia sido possível impor o bloqueio aéreo. O bloqueio naval, em contrapartida, fora mantido com eficácia. Em 7 de maio, a Zona de Exclusão Total foi ampliada até 20 km da costa argentina. Dois dias depois, um Harrier interceptou e bombardeou violentamente o navio espião Narwal, que se rendeu mas afundou quando estava sendo rebocado. Na noite de 11 de maio, o HMS Alacrity, explorando o estreito das Malvinas, interceptou o barco argentino Islas de los Estados e o destruiu com o fogo de seus canhões. Mais dois forçadores de bloqueio, o Rio Carcamia e o Bahía Buen Suceso, bombardeados e metralhados violentamente por Sea Harrier provenientes de Fox Bay, em 16 de maio, foram abandonados por suas tripulações.

Os britânicos não se haviam resignado ao impasse nos céus. Os comandantes das forças terrestres, em especial, insistiam em que fosse obtida superioridade aérea, antes de seus homens tentarem o desembarque. Woodward planejava minar a força da aviação argentina obrigando-a a enfrentar as Patrulhas Aéreas de Combate (Combat Air Patrol – CAP) dos Sea Harrier. Estes eram muito superiores em combate, por serem mais manobráveis — e também porque as aeronaves argentinas só tinham combustível para três minutos de luta nos céus das Malvinas.

A isca para atrair os aviões argentinos eram os navios de defesa aérea mais bem equipados da força-tarefa, os Type 42 e 22. Entretanto, como havia mostrado o afundamento do Sheffield, uma belonave Type 42, esse era um jogo perigoso. Em 12 de maio, a força-tarefa sofreria outro sério revés, quando os Skyhawk desfecharam um ataque ao HMS Glasgow. Este teve a sorte a seu favor: uma bomba atravessou-o, sem explodir. Mesmo assim, ele ficou suficientemente danificado, e teve de se afastar da zona de conflito.

O ataque ao Glasgow custou aos argentinos três Skyhawk, porém, no geral, eles se recusaram a fazer o jogo britânico. Se encontravam uma CAP, fugiam ao combate; a falta de um sistema de radar de alerta aéreo antecipado significava que os Sea Harrier teriam sorte se conseguissem interceptar aeronaves em aproximação. O fracasso em estabelecer uma nítida superioridade aérea foi mitigado, entretanto, pelo sucesso das forças especiais britânicas em Pebble Island, a terceira pista de pouso do arquipélago.

Desde 1° de maio de 1982, equipes do 22.° Regimento do Serviço Aéreo Especial (Special Air Service – SAS) e do Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron – SBS) haviam começado a desembarcar nas Malvinas para obter informações. Na ocasião, os comandantes militares britânicos não tinham nenhuma idéia a respeito das forças e disposições argentinas. Nas palavras do brigadeiro Julian Thompson, comandante da Brigada Comando 3, “nós começamos com um mapa em branco das Malvinas e lançamos as forças especiais como um tiro de espingarda, para ver o que encontravam“.

Isso tornava perigosos os desembarques iniciais das equipes britânicas, porque nunca podiam saber o que os esperava. Entretanto, seis equipes SBS e sete patrulhas SAS conseguiram deslocar-se sem ser detectadas. Eram desembarcadas à noite em balsas infláveis ou em helicópteros cujos pilotos estavam equipados com os moderníssimos (para a época) óculos para visão noturna passiva (passive night goggles – PNG), de fabricação americana, que lhes possibilitavam visão extraordinariamente clara na escuridão. As SBS procuravam identificar possíveis locais de desembarque, enquanto as SAS se deslocavam para as colinas a fim de observar as disposições da guarnição. Duas equipes SAS atingiram a ilha Malvina do Oeste, uma chegou a Darwin, outra a Bluff Cove e três outras à área em torno de Port Stanley.

Além das informações coletadas, as equipes das forças especiais foram de grande utilidade no tocante às operações psicológicas britânicas (psyops), quando a partir de maio começaram a irradiar em espanhol para a guarnição argentina.

A engenhosidade das forças especiais era tão grande e seu treinamento tão completo que teria sido tolice restringir sua ação a um papel de coleta de informações, quando ainda existiam nas Malvinas três campos de pouso capazes de receber aeronaves Pucará. Eram aviões leves, projetados para operações de contra-insurreição e que podiam transportar uma valiosa carga útil de 1.620 kg de armas. Não era conhecido o número de Pucará argentinos, mas sabia-se que muitos deles estavam baseados em Pebble Island, a noroeste das Malvinas. Decidiu-se que as forças especiais destruiriam esses aviões, tanto para reduzir o poderio aéreo argentino quanto para minar sua confiança.

Na noite de 14 de maio de 1982, 45 homens do SAS e uma equipe de apoio de fogo naval foram desembarcados de helicóptero a uma distância acessível do campo de pouso, onde se juntaram a outros oito integrantes do SAS, ali chegados três dias antes. Usando cargas explosivas; eles destruíram seis Pucará, quatro Turbo-Mentor e um Skyvan, alinhados ao lado da pista de grama para pouso e decolagem, e repeliram com fogo cerrado um contra-ataque da guarnição. Todo o destacamento encarregado da incursão retornou a salvo.

Logo em seguida, surgiram embaraçosos indícios da atividade das forças especiais no continente. Em 16 de maio, descobriram-se destroços de um helicóptero Sea King em território chileno, perto da fronteira argentina. Seus três tripulantes, ilesos, foram encaminhados aos britânicos pelo governo chileno, que apresentou um moderado protesto oficial.

A versão britânica foi de que o helicóptero havia sofrido dano em seu equipamento de navegação durante uma tempestade e fizera um pouso forçado. Dada a distância entre a força-tarefa e o continente, essa hipótese era pouco provável — e a presença de homens das forças especiais na tripulação tornava-a ainda menos plausível.

Depois da guerra, o secretário da Defesa negou que o Reino Unido tivesse violado leis internacionais por usar território chileno — mas, sintomaticamente, Londres liberou a venda de armas ao regime do general Augusto Pinochet. Em fevereiro de 1985, o semanário inglês New Statesinan revelou toda a história: o helicóptero levantara voo de uma base britânica secreta em Punta Arenas, no Chile. Os aviões ali sediados estavam a vinte minutos de voo das bases argentinas de Río Gallegos e Río Grande. Mais ainda, há suspeitas de que uma equipe das forças especiais tenha destruído, no dia 20 de maio, cinco jatos Super Etendard equipados com mísseis Exocet. No dia 25, um Exocet afundou o cargueiro britânico Atlantic Conveyor; depois disso, os Super Etendard não foram mais vistos na zona do combate.

Em 18 de maio de 1982, o comando britânico julgava ter feito todo o possível para preparar um desembarque. A Força Aérea argentina não fora neutralizada, mas a Armada estava fora de combate. O fluxo de informações das equipes SAS e SBS e a utilização de recursos eletrônicos haviam permitido a montagem de um quadro dos pontos fortes e fracos do inimigo. Em 20 de maio, o grupo de ataque separou-se do corpo principal da força-tarefa e zarpou para o estreito das Malvinas.


FONTE: Guerra na Paz

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