Em meados de maio de 1982, os britânicos sabiam que o general Mario Menéndez, comandante da guarnição argentina e governador militar das Malvinas, pretendia travar uma batalha de defesa concêntrica nas colinas em torno de Port Stanley.

Esse perímetro recebera a maioria das tropas argentinas, estimadas em 10.000 homens: o 3.°, 4.°, 6.°, 7.° e 25.° regimentos de infantaria, além do 5.° Batalhão de Infantaria Naval, mantido em reserva geral; um regimento de artilharia de campanha e uma tropa de artilharia média; a maior parte de um batalhão antiaéreo e um esquadrão de blindados.

Em Goose Green, havia elementos do 2.° e 12.° regimentos de infantaria, além de destacamentos antiaéreos e de artilharia de campanha. Na Malvina do Oeste, o 5.° Regimento de Infantaria e uma companhia de engenheiros estavam em Port Howard, o 8.° Regimento de Infantaria e outra companhia de engenheiros guarneciam Fox Bay, e a pista de pouso de Pebble Island era defendida por um destacamento aeronaval de 120 homens. Menéndez também dispunha de uma forte esquadra de helicópteros — dois Chinook para cargas pesadas, nove Huey, três Agusta A109 e oito Puma — que lhe davam a possibilidade de usar suas reservas num contra-ataque estratégico onde quer que os britânicos desembarcassem.

Fuzileiros ingleses seguem para as praias de San Carlos. O desembarque, conhecido como Operação sutton, começou no dia 21 de maio e praticamente não teve resistência por parte das forças argentinas.

Na opinião dos analistas britânicos, as tropas argentinas estavam bem equipadas, mas seu moral declinava a cada dia. As fileiras reuniam milhares de recrutas de apenas dezoito anos, pouco treinados, perpetuamente famintos e com os nervos abalados pelos bombardeios noturnos, pelas incursões dos Harriers e pelo conhecimento de que as forças especiais britânicas estavam operando entre eles. A grande maioria sentia-se ansiosa por deixar as elevações castigadas pelo vento gelado.

Além de observar a situação do inimigo, os homens do Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron – SBS) tinham a tarefa de avaliar locais apropriados para desembarque anfíbio. Uma área sugerida era Port North, na Malvina do Oeste. As operações nesse local seriam, sem dúvida, bem sucedidas, mas não atenderiam à necessidade de derrotar a massa principal do adversário.

A segunda opção, um desembarque próximo a Port Stanley, acarretava dificuldades exatamente opostas: envolveria tropas argentinas tão numerosas que talvez as operações resultassem num fracasso militar e político inadmissível.

A terceira escolha era San Carlos Water, um braço, de mar de águas profundas que bifurca e penetra pela Malvina do Leste até Port San Carlos, ao norte, e a localidade de San Carlos, ao sul. Estava a 105 km de Port Stanley, mas oferecia praias adequadas para desembarque e um ancoradouro rodeado de colinas que impediam o uso de mísseis Exocet e abreviavam drasticamente o tempo em que os caças-bombardeiros vindos da Argentina podiam manter seus alvos sob mira. A escolha de San Carlos foi aprovada pelo Gabinete de Guerra em 10 de maio de 1982, dois dias depois de o grupo anfíbio deixar a ilha da Ascensão, na última etapa de sua viagem.

A estada nessa ilha fora aproveitada para treinamento, planejamento e reorganização. O desembarque efetivo, sob o codinome de Operação Sutton, merecera planejamento detalhado pela equipe do comandante-de-brigada Julian Thompson, da Brigada Comando 3 dos Fuzileiros Reais; o treinamento envolvia exercícios de tiro com munição real e de desembarque em lanchões. Paralelamente, a carga dos transportes era remanejada, para que os itens mais vitais estivessem disponíveis tão logo ocorressem os desembarques. No entanto, muitas peças fundamentais voltaram à Grã-Bretanha sem ter sido usadas.

Em 18 de maio, o grupo anfíbio juntou-se à frota do contra-almirante John Woodward; o processo final de remanejamento da carga ocupou as 24 horas seguintes. Nesse período, 22 homens se afogaram quando uma ave colidiu com o rotor de um helicóptero Sea King, derrubando-o. Vinte das vítimas pertenciam ao Serviço Aéreo Especial (Special Air Service – SAS). Alguns eram veteranos da reconquista da Geórgia do Sul.

O grupo anfíbio entrou no estreito das Malvinas na noite de 20 de maio. A visibilidade era mínima e as atenções do inimigo voltavam-se para as ações diversionistas das forças especiais e bombardeios em outros pontos das ilhas. Ao amanhecer do dia 21, os lanchões de desembarque conduziriam o Comando 40 dos fuzileiros e o 2.° Batalhão do Regimento de Pára-quedistas ao povoado de San Carlos; o Comando 45 dos fuzileiros desembarcou na margem oposta, na baía Ajax, e o 3.° Batalhão do Regimento de Paraquedistas foi levado pelo braço norte até Port San Carlos. As tropas avançaram rapidamente terra adentro para garantir o terreno elevado e consolidar o perímetro da cabeça-de-praia; logo começou a chegar um fluxo crescente de homens, veículos e equipamentos, inclusive sistemas de mísseis terra-ar (SAM), cujo posicionamento fora predeterminado por computador.

Nas praias e nos ares

Entretanto, o desembarque não ocorreu sem resistência. Na noite anterior, um helicóptero do HMS Antrim identificara um posto avançado argentino em Fanning Head; suas peças sem recuo de 106 mm e seus morteiros de 81 mm dominavam a entrada para San Carlos Water. Uma equipe do SAS e 32 homens do SBS foram levados em helicópteros até as encostas acima do posto avançado, atingido a seguir por fogo de metralhadora e pela artilharia pesada do Antrim. De manhã, nove argentinos renderam-se. Três deles estavam feridos e doze outros haviam sido mortos. Os restantes, cerca de quarenta, fugiram para o leste; seriam atacados algum tempo depois pelo 3.° Batalhão de Pára-quedistas.

Foi nesse momento que dois helicópteros Gazelle britânicos chegaram por descuido à zona de fogo, sendo abatidos. Às 8h15, era a vez dos argentinos: um Chinook e dois Puma foram derrubados por dois aviões Sea Harrier. A intervenção dessas aeronaves nos únicos combates terrestres do dia do desembarque era um prenúncio da feroz batalha aérea que se travaria sobre San Carlos Water e que talvez tenha constituído o momento crucial de toda a Guerra das Falklands/Malvinas.

Na manhã do dia 25, a rivalidade entre as três Armas argentinas foi a grande aliada dos britânicos. A Marinha foi informada do desembarque por volta das 8h e o comando do Exército recebeu informações aproximadamente na mesma hora. No entanto, a Força Aérea — que sustentaria o moral argentino nas semanas seguintes — só foi informada duas horas depois, dando tempo aos britânicos de estabelecer uma cabeça-de-ponte segura.

Paraquedista britânico aprisiona um soldado argentino perto de San Carlos.

Os primeiros ataques aéreos foram feitos por aeronaves sediadas nas Malvinas, pouco depois das 10h. Eles aumentaram de intensidade com a chegada de jatos vindos do continente — obrigados a voar a grande altitude para poupar combustível, a descer junto às ondas para escapar à detecção do radar nos últimos 80 km e a realizar uma única passagem. A determinação e coragem dos pilotos argentinos mereceu a admiração de seus adversários, embora a própria natureza desses ataques evidenciasse graves debilidades táticas.

Para eliminar qualquer possibilidade de sucesso da Operação Sutton, os alvos dos pilotos argentinos deveriam ser os navios logísticos, os transportes, as tropas já desembarcadas, os equipamentos, veículos e depósitos de suprimentos. Em vez disso, os aviões investiram contra os barcos-escolta. Os pilotos seguiam direto para os alvos e lançavam suas bombas no último momento. A maioria das bombas não ficava em vôo livre por tempo suficiente para se armar, de modo que, ao atingirem o alvo, poucas explodiam.

Os mísseis britânicos e a falta de combustível não eram as únicas ameaças aos pilotos argentinos. Eles também tiveram de enfrentar as Patrulhas Aéreas de Combate (Combat Air Patrol – CAP) dos Sea Harrier, uma das quais estava posicionada ao norte das ilhas, outra na Malvina do Oeste e uma terceira na extremidade sul do estreito das Malvinas — o “caminho para casa” preferido dos argentinos. Os mísseis Sidewinder AIM-9L e os canhões de 30 mm dos Sea Harrier abateram cinco Skyhawk, quatro Dagger e um Pucará. Além disso, os SAM Seacat do Argonaut ou do Plymouth derrubaram um Dagger e o SAS destruiu um segundo Pucará com um SAM Stinger. As perdas argentinas no primeiro dia de luta chegaram a absurdos quase 50% — desgaste que nenhuma força aérea poderia dar-se ao luxo de manter.

O grosso dos soldados argentinos não passavam de recrutas inexperientes e mal equipados. Esses jovens foram enviados para lutar contra soldados profissionais e treinados para lutar contra a União Soviética.

Mas a Marinha Real também pagou um preço alto. O Ardent fez juz a seu nome. Afundou lutando, ardendo em chamas e levando consigo 22 mortos — os sobreviventes foram recolhidos pelo Yarmouth e por helicópteros. O Antrim chegou a ser atravessado por bombas que não explodiram; foram necessárias dez horas de trabalho para desarmar e lançar ao oceano uma delas.

O Argonaut teve quase a mesma sorte: foi atingido por duas bombas que não explodiram, mas provocaram um incêndio e danificaram os motores e a engrenagem de direção. O Plymouth rebocou-o até San Carlos Water, onde permaneceu enquanto durou o combate. O navio conseguiria voltar à Grã-Bretanha, a baixa velocidade.

Ao anoitecer, haviam sido desembarcados 4.000 homens e 1.000 t de equipamento. No dia seguinte, continuou sem interrupção o processo de alargamento e consolidação da cabeça-de-praia. Os pilotos argentinos só apareceram à noite e em número simbólico: deviam estar se recuperando do castigo da véspera. No dia 23, porém, retomaram o combate com a mesma coragem desesperada. O Antelope foi atingido duas vezes por bombas que não explodiram. Todavia, uma delas detonou ao ser removida, provocando um incêndio que acarretou o abandono do navio. Na madrugada, as chamas atingiram o depósito do Antelope; uma violenta explosão rompeu seu casco e o fez afundar. As perdas argentinas foram de um Skyhawk e quatro Dagger. Além disso, os Sea Harrier destruíram um Agusta e três Puma, fornecendo ao general Menéndez um pretexto — a “falta de mobilidade” — para o fato de não haver investido contra as forças britânicas em San Carlos Water.

No dia 24 de maio de 1982, a aviação argentina voltou seus canhões contra o Sir Galahad, o Sir Lancelot e o Sir Bedivere, provocando avarias nesses três navios auxiliares e perdendo três Dagger e um Skyhawk. Todavia, no dia 25 — data nacional da Argentina —, a Força Aérea desfechou um ataque modelo, brilhante do ponto de vista técnico, explorando os erros táticos dos britânicos. Pouco depois das 14h, uma bomba atravessou o Broadsword e saiu através da plataforma de decolagem do barco, destroçando seu helicóptero Lynx. Três outras atingiram o Coventry, provocando seu afundamento e a morte de dezenove tripulantes.

Mais tarde, dois Super Etendard aproximaram-se do grupo de porta-aviões e dispararam dois mísseis Exocet, esperando atingir o Hermes ou o Invincible. Os dois mísseis foram desviados graças a contramedidas eletrônicas. Um deles perdeu-se no mar, mas o outro achou um novo alvo: o cargueiro Atlantic Conveyor, que afundou alguns dias depois. Houve doze mortos entre a tripulação e perderam-se três helicópteros Chinook, seis Wessex e um Lynx. Era o mais notável sucesso argentino, apesar da perda de dois Skyhawk sobre San Carlos e de um terceiro em Goose Green, abatido pela própria artilharia antiaérea argentina.

Embora ainda fossem realizados três ataques a navios britânicos, a perda do Atlantic Conveyor marcou o fim da batalha aérea. Os argentinos haviam obtido uma vitória tática no dia 25; os britânicos, um êxito estratégico fundamental, pois naquela tarde tinham desembarcado 5.000 t de suprimentos e 5.500 homens dispostos à luta.


Vantagem argentina no ar

As aeronaves argentinas envolvidas na Guerra das Malvinas tinham diversas procedências: a Força Aérea Argentina (FAA), a aviação naval, a guarda-costeira (Prefectura Naval Argentina – PNA) e o Batalhão Aéreo de Combate 601 do Exército, este último baseado nas próprias ilhas.

Contou a Argentina com incontestável superioridade no ar: cerca de 112 aviões de combate preparados para operações bélicas a partir de bases no continente, contra apenas vinte Sea Harrier inicialmente disponíveis entre os britânicos.

Os aparelhos argentinos se concentravam em seis bases aéreas: Comodoro Rivadavia, Trelew, Río Gallegos, Santa Cruz, San Julián e Río Grande, ao longo da costa sul e central do país. Mesmo assim, voavam dentro de seu alcance máximo quando em missões contra a força-tarefa enviada pela Grã-Bretanha às águas do Atlântico sul.

A principal unidade argentina era o 2.° Esquadrão Naval de Ataque e Combate (ENAC), baseado em Río Grande e equipado com jatos Super Etendard que transportavam mísseis Exocet. Estes, além de afundarem o Atlantic Conveyor e o Sheffield, representaram tal ameaça para os britânicos que seus porta-aviões foram forçados a permanecer ao largo, a leste das Malvinas, o que reduziu sua capacidade de fornecer cobertura aérea às outras embarcações da força-tarefa. Uma atenuante era o pequeno número de Exocet disponíveis na Argentina: apenas cinco no início do conflito. O embargo imposto pelo governo francês, fabricante desse míssil, impediu os argentinos de re-estocá-lo.

O poderio aéreo continental consistia em vinte aviões A-4C Skyhawk do Grupo 4 da FAA, baseado em Río Gallegos; 26 A-4B Skyhawk do Grupo 5, estacionado tanto em Río Gallegos como em Santa Cruz; onze A-4Q do ENAC, que partiram inicialmente do porta-aviões Veinticinco de Mayo e, depois, do aeroporto militar de Río Grande; 34 IAI Dagger do Grupo 6, que operava a partir de San Julián, Río Grande e Río Gallegos.

Todos esses aparelhos fustigaram o adversário em uma série de corajosos reides, particularmente contra os navios britânicos ancorados em San Carlos Water.

Já o Batalhão 601, sediado nas Malvinas, era composto, no fundamental, de helicópteros, mas dispunha também de 25 Pucará da FAA, estacionados em Port Stanley, Goose Green e Pebble Island. Contava ainda com cinco Aermacchi MB 339, em Port Stanley, e quatro Beech T-34C Turbo-Mentor, em Pebble Island.


FONTE: Guerra na Paz

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3 COMENTÁRIOS

  1. Nada contra os editores, mas esta pauta sempre vai e volta né. O conteúdo e a história reconheço que é muito rica. Algum dos editores é argentino ? Nada contra apenas curiosidade. Abraços.

  2. Haja bombas que não explodem ein, o cavok já falou sobre combates entre Líbia e Egito acho q na década de 70 ?

  3. Parabéns aos editores, o tema Malvinas sempre terá detalhes a mais que vem surgindo com o tempo.

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