Se va acabar la dictadura militar.” Com essas palavras, a população de Buenos Aires exprimiu seu repúdio a um governo que sujeitara o país a uma humilhante derrota.

Ao invadir as Falklands, a junta militar pretendia obter uma vitória fácil, sem combate, destinada a garantir um mínimo de legitimidade a um regime cada vez mais isolado. De 25 de abril a 14 de junho de 1982, a equipe militar mostrou-se incapaz de conduzir uma guerra moderna; a assinatura da rendição selou sua própria sorte, desencadeando uma crise que se refletiria no processo de redemocratização latino-americana.

O primeiro a ser atingido foi o General Leopoldo Galtieri, obrigado a renunciar à presidência em 17 de junho. A junta militar que assumiu interinamente indicou o general Reynaldo Bignone para o cargo, mas as outras Armas protestaram: o desempenho do Exército na guerra fora ainda mais fraco que o da Marinha e da Aeronáutica. O General Bignone tomou posse em 1° de julho, mas a cisão militar tornava-se irreversível.

Paralelamente, a Convocatória Multipartidária exigia uma retribuição pelo apoio incondicional à campanha nas Malvinas, pressionando o novo presidente a cancelar o decreto que proibia as atividades políticas na Argentina. O governo teve de ceder; pela primeira vez desde 1976, os partidos políticos realizaram comícios nos quais reivindicavam a volta ao governo civil.

Soldados argentinos manejam uma metralhadora FN de 7,62 mm nas proximidades de Port Stanley. Apesar de possuir algumas armas modernas, o Exército argentino pecou pelo treinamento inadequado de seus homens.

Em concorridas manifestações de massa, os argentinos exigiam também esclarecimentos sobre o destino dos desaparecidos desde 1976, durante a chamada “guerra suja” contra a subversão. Beneficiado pela suspensão da lei antigreve, em junho de 1983, o movimento operário retornou com toda a força.

Mas o ano de 1983 seria dominado por um fato político fundamental: as eleições de 30 de outubro, as primeiras após dez anos de regime militar. Mais de 80% dos 18 milhões de eleitores compareceram às urnas, elegendo presidente da República o advogado Raúl Alfonsín, da Unión Cívica Radical, que derrotou o ex-senador Ítalo Luder, candidato do Partido Justicialista (peronista). A reabertura do Congresso em novembro, depois de oito anos de recesso, completou o “destape“.

Alfonsín atacou as três áreas críticas da sociedade argentina. Em termos econômicos, procurou estabelecer condições dignas para a renegociação de uma dívida externa que girava em torno de US$ 43 bilhões, além de tentar conter a inflação, cujo índice já ultrapassava os 400% anuais. Na área militar, iniciou um processo de depuração radical das Forças Armadas. Ainda no final de dezembro, enviou para a reserva 38 dos 56 generais na ativa. Afastou 5.000 oficiais que ocupavam cargos na administração pública, substituindo-os por funcionários civis, e extinguiu o 4° Exército, criado em 1981. Sua área de atuação, no sul do país, foi preenchida por tropas do 1º Exército, sediado em Buenos Aires e impulsionador de todos os golpes militares.

Em termos de sociedade civil, o novo governo promoveu a responsabilização penal dos implicados notórios na “guerra suja”. Os nove integrantes das juntas militares lideradas pelos generais Jorge Rafael Videla, Roberto Viola e Lepoldo Galtieri tiveram de comparecer aos tribunais. Alguns deles chegaram a ser presos e outros foram impedidos de deixar o país, por ordem do Judiciário e do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), o mais alto tribunal militar da Argentina.

Recrutas argentinos nas Malvinas perfilam-se sob a bandeira nacional. Seu entusiasmo pela guerra à Grã-Bretanha logo evaporou ante as duras condições de luta no Atlântico sul.

Em fevereiro de 1984, nove oficiais-generais estavam detidos para averiguações, estritamente dentro das leis do país. Mas não foram esquecidos os líderes da contestação armada, como o montonero Mario Firmenich, extraditado do Brasil, onde se encontrava, para responder, preso, a processo na Argentina.

Paralelamente, eram apuradas as responsabilidades pelo fracasso na Guerra das Malvinas. O General Galtieri, o Almirante Jorge Anaya e o Brigadeiro Basilio Lami Dozo foram acusados perante o CSFA de “incompetência militar” e “falta de coordenação estratégica”. Contra os dois primeiros pesava também a acusação de não terem dotado suas tropas de treinamento, armas e suprimentos necessários à guerra — faltas puníveis, pelo Código Militar, com a pena de morte ou a prisão perpétua.

Descobriram-se fatos que traumatizaram a opinião pública. Foi o caso da Diretriz Secreta 594, assinada em 1977 pelo general Videla — um dos poucos documentos a sobreviverem à “limpeza de arquivo” empreendida pelo regime militar em 1983. O documento sugeria que as detenções fossem feitas “fora dos locais de trabalho, de forma velada” e, além disso, dava liberdade de ação para os “grupos de tarefa” utilizarem “o método mais conveniente para o êxito das operações”.

2 de Abril de 1982: Apoio popular ao presidente Leopoldo Galtieri na “reconquista das Malvinas”

A Instrução Secreta 604, assinada em maio de 1979 pelo General Roberto Viola, é ainda mais explícita, ordenando “a detenção e/ou eliminação dos elementos subversivos marxistas”. Em setembro de 1984, a Comissão Nacional dos Desaparecidos — instalada por Alfonsín no início de seu governo e presidida pelo escritor Ernesto Sábato — trouxe a público seu relatório final. O Relatório Sábato, como seria conhecido, apontou 8.961 casos concretos de presos “desaparecidos”, localizou 340 centros de tortura e campos de extermínio, citou 896 militares diretamente implicados em sevícias, fuzilamentos ou outras formas de assassinato e responsabilizou as Forças Armadas pelos acontecimentos do período da ditadura.

O contra-ataque militar

Na segunda metade de 1984, Alfonsín obteve nova vitória: a maioria dos argentinos aprovou, num plebiscito, a proposta do Vaticano sobre a soberania nas ilhas e no canal de Beagle, reivindicados respectivamente pela Argentina e pelo Chile. Alfonsín defendia a aprovação do acordo, embora este fosse mais favorável ao Chile em alguns aspectos; os peronistas preferiram a abstenção. O apoio do eleitorado reforçou a política do presidente — e eliminou mais um dos pretextos para conservar as Forças Armadas mobilizadas.

No final de 1984, logo após a assinatura do Tratado de Beagle com o Chile, Alfonsín procedeu à dissolução do comando do poderoso lº Exército e de diversas unidades de todo o país. Tais medidas eram adotadas em nome da reestruturação das Forças Armadas, de maneira a ampliar seu grau de profissionalismo. Propunha-se a criação de comandos regionais conjuntos sob chefia única, para evitar que se repetisse o que ocorrera nas Malvinas, quando o Exército, a Marinha e a Aeronáutica travaram, cada um, sua própria guerra.

A proposta de Forças Armadas apolíticas, profissionais, era acompanhada pela reposição de todo o material perdido na guerra. Segundo um relatório preparado pela Faculdade de Estudos da Paz da Universidade de Bradford, da Grã-Bretanha, no final de 1984 a Argentina já estava em condições de travar uma eficaz guerra de desgaste nas ilhas. Sua Força Aérea dispunha de 130 aeronaves em 1982; no governo Alfonsín o número elevou-se a 160, inclusive 54 interceptadores Skyhawk, nove interceptadores Mirage e catorze bombardeiros Super Etendard. Dos cinco mísseis Exocet que possuía no início do conflito, passou a ter pelo menos 28, além de uma série de armas similares de fabricação israelense. Previa-se o encaminhamento, a curto prazo, de oito modernos submarinos e quinze barcos-escolta para a Marinha, possuidora de apenas dois submarinos obsoletos e cinco barcos-escolta em 1982.

Entre outros aspectos, o reaparelhamento tinha o objetivo de reforçar a tendência profissionalizante no âmbito das Forças Armadas e, de outro lado, amenizar o ressentimento dos militares diante da investigação dos crimes da “guerra suja”, cometidos em obediência às ordens de um governo legal. Em julho de 1984, Alfonsín teve de destituir o General Jorge Arguindegui da chefia do Estado-Maior do Exército, por sua recusa em punir o General Pedro Mansilla, comandante do 3° Exército, que vinha obstruindo as investigações sobre as violações dos direitos humanos. Em março de 1985, o ministro da Defesa Raúl Borrás e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, General Julio Fernandez Torres, entraram em confronto aberto. Antes de se demitir, Torres denunciou a existência de uma “agressão subversiva”: o pretexto sempre alegado para os golpes militares, obviamente que do ponto de vista da Esquerda.

O repúdio civil ao regime militar que levou ao desastre nas Malvinas manifestou-se em grandiosos comícios durante a campanha eleitoral de 1983, que elegeu presidente da República o advogado Raul Alfonsín, destacado líder da Unión Cívica Radical.

A verdade é que a alta oficialidade jamais havia apoiado Alfonsín; esperava apenas que seu enorme prestígio começasse a desgastar-se. Em outras palavras, “apostava” em seu fracasso diante dos sérios problemas argentinos, agravados pela péssima administração militar do período anterior. Em certa medida, essa estratégia foi vitoriosa. Em fevereiro de 1984 deflagrou-se a primeira de uma série de greves de trabalhadores. A inflação chegou em julho ao índice incontrolável de 615%, e a questão da dívida externa levou o governo a um confronto com os credores que provocou sobressaltos no sistema financeiro internacional. Começaram a surgir manifestações de descontentamento em vários setores da sociedade — e ouviram-se os primeiros boatos sobre golpe militar.

Embora o acordo com o Chile contribuísse para desanuviar um pouco a atmosfera, um clima de desestabilização voltou a pairar sobre a Argentina. Na primeira semana de agosto foi admitida a existência de um complô para assassinar o presidente; em setembro, constatou-se a existência de “grupos repressivos ilegais”, formados provavelmente por militares e policiais ligados ao antigo regime. Bombas explodiam em Córdoba e Mendoza, em atentados inexplicáveis, mas que poderiam ser uma tentativa de criar clima de tensão e medo, caldo de cultura para o clássico processo de “desestabilização”. Em outubro de 1984, a onda de boatos recebeu um estímulo poderoso: os juízes militares do CSFA enviaram à Justiça civil um comunicado no qual diziam não ter encontrado, em 94.000 páginas de processos, provas suficientes para basear a acusação contra os nove integrantes das três juntas militares no tocante à violação dos direitos civis. Como se não bastasse, o CSFA aproveitou para tornar claro que, de qualquer modo, os oficiais acusados haviam agido corretamente ao decretar o esmagamento, por todos os meios, dos grupos armados de oposição ao regime. A solidariedade ostensiva entre os oficiais na ativa e os reformados diminuiu o espaço de manobra do governo, obrigado a aceitar, em dezembro, o julgamento dos integrantes das juntas militares pela Justiça civil. Em março de 1985, a crise tornou-se explícita com a recusa do General Torres em deixar a chefia do Estado-Maior das Forças Armadas de maneira “civilizada”. As duras críticas por ele dirigidas à política de Alfonsín levaram o General Ricardo Pianta, designado para substituí-lo, a declarar que não tinha “condições psicológicas” para assumir o cargo. Em resumo, o processo de redemocratização da Argentina, iniciado com o “destape” e a subida ao poder de um governo civil, devolveu à sociedade as liberdades pelas quais o povo tanto ansiava.

O novo governo impôs aos militares a volta aos quartéis e “dourou a pílula” da profissionalização com o reaparelhamento das Forças Armadas em termos adequados à realização de uma guerra convencional moderna. Mas as dificuldades em nível econômico — que, longe de se limitar à Argentina, caracterizam países latino-americanos que passam por processos semelhantes — ameaçavam corroer a base de sustentação civil do governo e trazer os militares de volta ao primeiro plano da cena política.


FONTE: Guerra na Paz

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3 COMENTÁRIOS

  1. A Argentina tem uns capítulos tenebrosos em sua história, como o Ataque da Aviação Naval a Buenos Aires em 1955 na revolução contra Peron.
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    El Bombardeo de la Plaza de Mayo, también conocido como la Masacre de Plaza de Mayo, fue el bombardeo y simultáneo ametrallamiento aéreo, cometido el 16 de junio de 1955 en la ciudad de Buenos Aires (Argentina). Ese día, un grupo de militares y civiles opuestos al Gobierno del presidente Juan Domingo Perón intentaron asesinarlo y llevar adelante un golpe de Estado y, si bien fracasaron en su propósito, durante el mismo varios escuadrones de aviones pertenecientes a la Aviación Naval, bombardearon y ametrallaron con munición aérea de 20 mm, la Plaza de Mayo y la Casa Rosada, así como el edificio de la CGT (Confederación General del Trabajo) y la entonces residencia presidencial, matando a más de 308 personas.
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    . https://m.youtube.com/watch?v=79qMG8x0aEs

  2. Uma pequena dúvida, que os colegas podem me esclarecer: Em 82, quem detinha maior poderio militar, Brasil ou Argentina?

  3. É com lembrar que essa coleção ("Guerra na Paz"), se não me engano foi publicada em 1984, e portanto a matéria parece incompleta por causa disso. As coisas ainda estavam acontecendo na Argentina. Eu tenho essa coleção, foi uma das minhas primeiras sobre o assunto, quando estava aprendendo à ler ainda, e a guardo com muito carinho. Inclusive os fascículos extras de "Armamentos" e "Combatentes."

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