Ao tomar a decisão de invadir as Falklands, em março de 1982, o triunvirato argentino acreditava que uma Grã-Bretanha economicamente enfraquecida, empenhada em reduzir suas forças navais fora da área da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), se limitaria a protestar diante do fato consumado.

Além disso, imaginava que as excelentes relações com os Estados Unidos, decorrentes do apoio de Buenos Aires à política centro-americana da administração Reagan, levariam os americanos a vetar uma eventual reação britânica. Duplo engano. A primeira-ministra Margaret Thatcher, acusada de subestimar os preparativos argentinos da invasão, baseou sua sobrevivência política na recuperação militar do arquipélago. Preocupados em evitar a desmoralização, em caso de insucesso, de seu principal aliado na OTAN, os EUA forneceram aos ingleses um decisivo apoio logístico.

Um satélite espião americano foi desviado para o Atlântico sul, fornecendo aos britânicos 98% das informações eletrônicas utilizadas na guerra. Mais ainda, Washington concedeu-lhes créditos no valor de US$ 60 milhões (em 1982 um F-15 custava cerca de US$ 23 milhões – NE) e armamentos ultra-sofisticados, além de 473 milhões de litros de combustível.

Um soldado argentino de sentinela espera pela chegada da força-tarefa britânica, que deixou a Europa dias depois da ocupação das Malvinas. Enquanto diplomatas da ONU e de vários países buscavam uma solução pacífica para a crise, a Argentina enviava um número cada vez maior de tropas para as ilhas, à espera do contra-ataque britânico.

Mas, num primeiro momento, a solução diplomática não estava descartada. No próprio gabinete Thatcher, alguns acreditavam que durante a lenta aproximação da força-tarefa — oitenta dias para chegar às Malvinas — seria possível persuadir os argentinos a retirar suas forças. Assim, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido mobilizou todo o seu poderio diplomático para aumentar a pressão sobre a Argentina.

O embaixador britânico na Organização das Nações Unidas (ONU), Sir Anthony Parsons, já havia conseguido flanquear diplomaticamente a Argentina às vésperas da invasão, persuadindo o Conselho de Segurança a solicitar, no dia 1.° de abril de 1982, que os dois lados mostrassem moderação em sua disputa das ilhas.

O ataque argentino colocava, desse modo, Buenos Aires em violação aberta à política das Nações Unidas; sem perda de tempo, Parsons reuniu votos suficientes no Conselho de Segurança para garantir a aprovação da Resolução 502, que exigia a cessação imediata das hostilidades, a retirada das forças argentinas das ilhas e a solução pacífica das divergências nos termos da Carta da ONU.

A duplicidade americana

A Grã-Bretanha deu seguimento a sua ofensiva diplomática persuadindo os países do Mercado Comum Europeu (MCE) a impor durante quatro semanas sanções econômicas à Argentina, entre as quais a suspensão das exportações de armas. Mas dessa vez a vitória não foi completa, pois os EUA não desejavam alienar totalmente o apoio argentino a sua política externa. Segundo revelações do semanário britânico The Economist, publicadas em 1984, Reagan “compartimentou” sua reação à crise. O secretário da Defesa Caspar Weinberger teve a aprovação do presidente para o projeto de ajuda secreta aos britânicos. Desconhecendo essa decisão, o secretário de Estado Alexander Haig envolveu-se num estafante vaivém aéreo de Londres a Buenos Aires do dia 8 ao dia 19 de abril, apresentando quatro propostas de paz.

Margaret Tatcher, Alexander Haig e Francis Pym, secretário das Relações Exteriores britânico.
Alexander Haig, secretário da Defesa dos Estados Unidos, conferencia com o general Galtieri, presidente da Argentina em 1982.

Eram todas variantes de um mesmo tema: a retirada argentina e o retorno da força-tarefa britânica, o estabelecimento de alguma forma de administração provisória anglo-argentina sobre as ilhas enquanto se realizassem negociações entre os dois países quanto ao futuro delas. Por insistência britânica, sugeria-se que as negociações levassem em conta a vontade dos kelpers, os 1.800 habitantes das Malvinas.

Os trâmites em Londres reuniram principalmente Haig e Francis Pym, nomeado secretário das Relações Exteriores após a renúncia de lorde Carrington, em 5 de abril. Ele parecia mais disposto a aceitar uma solução de compromisso do que Margaret Thatcher, mas ambos exigiam a retirada das tropas argentinas antes de qualquer negociação. Além disso, opunham-se à fixação prévia de uma data para o término da soberania britânica sobre as ilhas (Haig havia proposto seis meses), pois isso forneceria à Argentina um pretexto para estender as conversações e reocupar as Malvinas ao expirar o prazo final. Já o presidente Leopoldo Galtieri exigia o reconhecimento da soberania argentina desde o início do diálogo.

Haig tentou acalmar os temores britânicos propondo a participação dos EUA no governo interino das Malvinas. Londres, porém, recusou-se a ceder. Afinal, em 19 de abril, após uma série de encontros em Buenos Aires, Haig conseguiu obter algumas relutantes concessões da junta militar argentina. Esta aceitava a retirada simultânea de suas tropas terrestres e da força-tarefa britânica e o estabelecimento de um governo interino sob supervisão da ONU, mas exigia a presença, nesse governo, de um número igual de cidadãos britânicos e argentinos — dos quais havia cerca de vinte nas ilhas, antes da invasão —, insistindo em que as negociações quanto à soberania deveriam estar encerradas no final de 1982.

Navios britânicos seguem para as Falklands, na ocasião, Malvinas.

Aliado à insistência argentina de que seus cidadãos deveriam ter o direito de adquirir terras e estabelecer-se no arquipélago, esse último ponto foi declarado inaceitável por Londres, pois trazia implícita a transferência relativamente rápida da soberania das Malvinas à Argentina.

Abandonando sua diplomacia de vaivém, mas não seus esforços pacificadores, em 22 de abril de 1982 Haig apresentou outra proposta, elaborada juntamente com Francis Pym: um processo de negociação um pouco mais extenso, quanto à questão da soberania, do que o sugerido em qualquer dos planos anteriores.

A proposta foi rejeitada por Buenos Aires, que retomou a tese do reconhecimento prévio da soberania. Responsabilizando a Argentina pelo impasse, os EUA adotaram algumas sanções econômicas contra Buenos Aires e passaram a fornecer abertamente combustível e equipamento militar à força-tarefa britânica.

A luta para ganhar tempo

Em certa medida, o interesse de ambas as partes em fazer concessões — embora limitadas — dependia do fluxo e refluxo das operações militares e navais. A princípio, a Argentina não acreditava na determinação britânica de reconquistar as ilhas; de qualquer forma, estava confiante em que um eventual desembarque seria facilmente repelido.

HMS Conqueror

Com a chegada da força-tarefa ao Atlântico sul, em meados de abril, a declaração britânica de um raio de 320 km de Zona de Exclusão Total (Total Exclusion Zone – TEZ) aos navios mercantes e de guerra argentinos e a retomada da ilha Geórgia do Sul, em 25 de abril, Galtieri mostrou-se mais disposto a fazer concessões, aceitando a proposta de retirada das forças argentinas e britânicas.

Naquele momento, os argentinos encontravam-se mais ameaçados do que poderiam imaginar. De acordo com informações divulgadas em 1985, desde o início de abril, aviões ingleses Canberra de reconhecimento, capazes de voar a 20.000 m num raio operacional de 3.200 km, foram pintados com as cores chilenas e dirigiram-se à base de Punta Arenas, no extremo sul do continente. Ali também foram estacionadas tropas de elite, prontas para destruir em terra, se necessário, boa parte da aviação argentina envolvida no conflito.

Paradoxalmente, a disposição argentina de luta aumentou após o afundamento do velho cruzador General Belgrano pelo submarino britânico Conqueror. O ataque ocorreu em 2 de maio de 1982, quando o navio estava a cerca de 64 km da TEZ, e causou a perda de 368 vidas. A opinião pública internacional horrorizou-se com a investida desnecessária; muitos fizeram coro às acusações argentinas de que a ação violava o espírito da Resolução 502.

O governo Reagan não desejava uma derrota humilhante da Argentina, mas também não permitiria a derrota da Grã-Bretanha, tanto que ajudou o país com recursos materiais, logísitca e financeiros.

Dias antes, em 26 de abril, a Organização dos Estados Americanos (OEA) havia aprovado uma resolução que condenava o comportamento britânico, isto é, a ofensiva na Geórgia do Sul. Percebendo que as operações não ficariam confinadas a um bloqueio pacífico das ilhas, a Irlanda, a Alemanha Ocidental e outros países do MCE começaram a exigir o fim das sanções à Argentina. Essas pressões, juntamente com a manifestação de desagrado dos EUA em relação à escalada do conflito, fizeram o governo britânico rever sua atitude quanto a uma possível solução de compromisso. Tal sentimento foi reforçado em 4 de maio, quando um míssil argentino Exocet lançado por um Super Etendard afundou o contratorpedeiro HMS Sheffield, enfatizando junto à opinião pública britânica a natureza arriscada do empreendimento.

O mais sério efeito diplomático do afundamento do Belgrano foi o término das esperanças de um acordo negociado. Tais expectativas haviam sido despertadas por dois conjuntos de propostas apresentadas por dois peruanos: o presidente Fernando Belaúnde Terry e o secretário-geral da ONU Javier Pérez de Cuellar. O plano do presidente era uma variante dos planos de Haig — a retirada do local das forças militares de ambos os lados, o estabelecimento de um governo interino com a participação latino-americana e negociações subseqüentes, sob a supervisão das Nações Unidas, para determinar o futuro a longo prazo das ilhas. As propostas do secretário-geral da ONU tinham padrão semelhante, procurando igualmente contornar a delicada e crucial questão da soberania.

Após o afundamento do Belgrano, o plano de Pérez de Cuellar tornou-se o alicerce para as exaltadas sessões de negociação em Nova Iorque. Em meados de maio, porém, era evidente que os dois lados procuravam apenas ganhar tempo. Sem esperança de chegar a um acordo, os britânicos continuavam a fingir interesse nas negociações, enquanto se preparavam para a retomada do arquipélago. A Argentina pretendia aproveitar esse período para repor seus estoques esgotados de misseis Exocet.

Soldados britânicos durante treinamento de tiro a bordo de um navio durante o longo deslocamento para a zona de combate.

Em 17 de maio de 1982, os britânicos apresentaram novas propostas, que incluíam a aceitação de um governo interino das Nações Unidas para as ilhas; mais uma vez ocorreu um malogro, devido à insistência argentina quanto ao reconhecimento prévio da soberania. Em 20 de maio, a Grã-Bretanha abandonava as negociações sobre a proposta de Pérez de Cuellar.

A lógica das armas

A essa altura, o Gabinete de Guerra de Thatcher já havia fixado para 21 de maio o início do desembarque das forças britânicas em San Carlos. Nem a crescente impaciência do MCE, que no dia 17 concordou em renovar as sanções à Argentina por apenas uma semana, nem a série de resoluções anti-britânicas na OEA e na ONU — patrocinadas por representantes da América Latina — alteraram a decisão de Londres. Uma resolução conjunta entre a Espanha e o Panamá, em 4 de junho, exigindo o cessar-fogo e o cumprimento das negociações sob a Resolução 502, foi vetada pela Grã-Bretanha com o apoio dos EUA.

Apesar disso, Reagan estava decidido a evitar uma derrota esmagadora da Argentina. Por isso, tentou formular um novo plano de paz, a ser apresentado nas reuniões econômicas de alto nível iniciadas em 3 de junho em Versalhes, França. Era previsto o posicionamento de uma força para manutenção da paz nas Malvinas após a retirada das tropas britânicas e argentinas, a formação de um governo interino das Nações Unidas e negociações sem prazo determinado para um acordo duradouro entre a Argentina e a Grã-Bretanha.

Os argentinos, à beira do desastre, aceitaram essa proposta, esquecendo suas exigências anteriores quanto à questão da soberania. Mas era demasiado tarde: o conflito das Malvinas somente seria encerrado com uma clara vitória militar.


FONTE: Guerra na Paz

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6 COMENTÁRIOS

  1. Meia dúzia de argentinos sabiam dá invasão as ilhas.
    Nem o exército nem a força aérea sabiam disso, até um dia a antes do fato.

    Argentina é um Brasil que fala espanhol, tudo feito nas coxas inclusive guerras.
    Ai quando viram que a guerra já era pro lado argentino aceitaram aos 45min do segundo tempo negociar, sendo que o placar dá GB já estava 7X1 no campo de batalha.

    • Tem um relato de um piloto da FAA que descobriu que estava em guerra enquanto tomava o café da manhã e via o jornal matutino. Disse ele que se soubesse com antecedência, poderia ter treinado mais e estudado táticas. Já na Inglaterra, assim que eclodiu o evento, todas as licenças foram canceladas e os pilotos enviados para treinamento. Um grupo estava desembarcando na França para treinamento conjunto e do aeroporto mesmo foram enviados para os EUA.

  2. Não me fala de 7 X 1 por favor, me lembra da Alemanha, Copa do Mundo em casa. Pode parar com essa conversa. kkk

    • Off mas nem tanto!

      Eu nem me importei com o 7X1
      Eu me importei mais com os gastos nos estádios, só o que gastaram na "copa das copas" daria pra comprar:

      76 novos F-39
      3 reabastecedor aéreo
      Uns 20 Vants
      12 P-8
      E ainda sobrava dinheiro pra comprar muitos mísseis, bombas inteligentes, pods,etc…

      • Nada mais natural num país que adora futebol e novela do torrar bilhões de sestércios em estádios de futebol…

        • E ainda por cima não sabem e nem irão pesquisar o que é sestércio.

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