Quando a Operação Desert Storm começou, o F-14 Tomcat, desde a Guerra do Vietnã, era o único caça no inventário dos EUA a ter abatido um adversário na arena ar-ar. Além disso, o Tomcat, graças a Hollywood, era uma espécie de superstar por seu papel popular no filme Top Gun. O público em geral criou a expectativa de o F-14 ser a estrela principal.

Com o aumento da tensão, dois porta-aviões da Marinha dos EUA foram deslocados para a região: o USS Eisenhower (CV 69) transportando os esquadrões de F-14 VF-142 “Ghostriders” e VF-143 “Pukin Dogs” e o e o USS Independence (CV 62) com um único esquadrão de Tomcat, o VF-154 “Black Knights“.

Os comandantes da USN usaram seus elegantes Tomcats para proteger as rotas aéreas das forças da Coalizão na região do Golfo Pérsico e testar as defesas aéreas de Saddam Hussein. Mas tanto o Eisenhower quanto o Independence terminaram seu período de implantação no golfo antes do início das hostilidades.

Até o dia 17 de janeiro de 1991, o primeiro dia da Operação Tempestade no Deserto, seis porta-aviões dos EUA estavam na zona de guerra. Um deles, o USS Midway (CV 41), realizou testes de bordo com os Tomcats da frota, mas foi considerado pequeno demais para que o F-14 embarcasse operacionalmente. Os cinco navios de guerra equipados com o Tomcat foram:

  • O USS John F. Kennedy (CV 67) com os esquadrões VF-14 “Tophatters” e VF-32 “Swordsmen”;
  • O USS Saratoga (CV 60) com os esquadrões VF-74 “Be-Devilers” e VF-103 “Sluggers”;
  • O USS America (CV 66) com os esquadrões VF-33 “Tarsiers” e VF-102 “Diamondbacks”;
  • O USS Ranger (CV 61) com os esquadrões VF-1 “Wolfpack” e VF-2 “Bounty Hunters”;
  • O USS Theodore Roosevelt (CVN 71) com os esquadrões VF-41 “Black Aces” e VF-84 “Jolly Rogers”;

Os esquadrões de Tomcat tinham como missão principal realizar a escolta dos aviões de ataque, mas quando se tornou evidente que os esquadrões de F-14 não precisavam estar totalmente comprometidos com aquele tipo de missão, passaram a usar o pod TARPS (Tactical Airborne Reconnaissance) como plataforma de vigilância na procura por mísseis Scud lançados de baterias móveis a partir do solo iraquiano.

As expectativas da comunidade F-14 que suas aeronaves aumentariam seus louros no papel ar-ar foram frustradas pela falta de atividade aérea inimiga. Foram poucos alvos e os aviões da Força Aérea Iraquiana que se aventuravam, logo caiam nas garras dos F-15C Eagle da USAF, os quais foram designados para missões CAP (combat air patrol – patrulha de combate aéreo) dentro do Iraque e sobre as fronteiras.

Até o início da ofensiva terrestre, os F-14 realizavam missões CAP defensivas para a frota e arriscavam-se rotineiramente em território inimigo apenas quando escoltavam missões de ataque. Os esquadrões voaram um punhado de missões ofensivas, mas os iraquianos se recusavam a se envolver. No dia 17 de janeiro de 1991, por exemplo, o VF-14 e o VF-32 enviaram um par de Tomcats aos aeródromos H-2 e H-3, sem resultado.

Pilotos de Tomcat, oficiais de interceptação de radar (radar intercept officers – RIO) podem ser perdoados por esperarem muita ação ar-ar. Afinal, o Tomcat viu muita ação durante a década anterior. No dia 19 de agosto de 1981, dois F-14 do VF-41 a bordo do USS Nimitz (CVN 68) derrubaram dois Su-22 da Líbia sobre o Golfo de Sidra. No dia 4 de janeiro de 1989, Tomcats do VF-32 do Kennedy abateram dois MiG-23 Flogger na costa líbia.

Mas enquanto o Tomcat se revelou inestimável, durante a operação Tempestade no Deserto. Ele não pode cumprir seu potencial ar-ar. A missão ar-ar foi atribuída à Força Aérea dos EUA e seu poderoso F-15 Eagle, enquanto o Tomcat foi encarregado de proteger células de aviões de ataque que partiam dos porta-aviões.

O F-14 marcou apenas uma única vitória ar-ar durante a guerra, quando o Tenente Stuart Broce do esquadrão VF-1 e seu RIO, Comandante Ron McElraft, derrubaram um helicóptero Mil Mi-8 “Hip” no dia 6 de fevereiro de 1991, usando um AIM-9 Sidewinder. O abate “equilibrou” a perda de um F-14 derrubado por um SAM no dia 21 de janeiro. O Tenente Devon Jones, piloto do Tomcat número de cauda 161430, foi resgatado, enquanto o RIO, Tenente Lawrence Slade, tornou-se prisioneiro de guerra.

O armamento padrão do F-14 durante o conflito geralmente consistia em dois mísseis AIM-54C Phoenix e dois mísseis AIM-7F Sparrow sob a fuselagem, além de dois AIM-7F e dois AIM-9 Sidewinder nos pilones da luva da asa, e tanques de combustível externos sob as tomadas de ar.

A aeronave configurada com TARPS voova com o pod de reconhecimento substituindo os Sparrows e, geralmente, com um pod de interferência eletrônica AN/ALQ-167 no trilho direito. Todos os F-14 participantes foram equipados com o banco de dados ASW-27C, permitindo que a aeronave coopera-se estreitamente com o F-15 da USAF. O interceptador Tornado F.Mk3 da RAF não pode atuar no conflito justamente por não poder se comunicar com os F-15.

A inclusão de dois esquadrões dotados dos modelos F-14A Plus (depois redesignado F-14B) – VF-74 e VF-103 a bordo do Saratoga – deram uma oportunidade útil de comparar as versões em combate.

Em mais de uma ocasião, pilotos de F-14A equipados com motor turbofan TF30 experimentaram estol do compressor quando tentavam reabastecer em vôo quando o avião estava com sua carga máxima de armas em altitudes de mais de 7.000 m, obrigando-os a manter a pós-combustão ligada enquanto permaneciam “conectados” ao avião tanque, consumindo o precioso combustível. Já o modelo B, equipado com o turbofan F110, provou ser excepcionalmente confiável, e o incremento adicional no desempenho foi julgado inestimável.

Alguns oficiais navais sentem que perderam uma oportunidade ímpar ao não usar o Tomcat no papel de ataque, como fizeram mais tarde com a variante “Bombcat” durante o conflito no Kosovo em 1999 e no Iraque até 2005. Na operação Tempestade no Deserto, não houve escassez de aviões de ataque, mas a participação do F-14 poderia ter sido uma demonstração útil e de alta visibilidade de sua versatilidade. Em vez disso, o McDonnell Douglas F/A-18C Hornet conquistou na guerra a reputação de um verdadeiro multifuncional por suas capacidades de múltiplos papéis. Este foi, sem dúvida, um dos fatores que pesaram contra o Tomcat no final do século XX, quando a Marinha decidiu retirar o F-14 de serviço e optar pelo Boeing F/A-18E/F Super Hornet e não no F-14D.

F-14A do esquadrão VF-114 sobrevoa uma parte do Aeródromo Al Jaber. O aeródromo foi fortemente danificado durante a Operação Tempestade no Deserto. Alguns acreditam que se o Tomcat pudesse realizar missões de ataque durante a guerra do Golfo, ainda poderia estar em serviço.

Desenvolvido para proteger a frota contra as ameaças aéreas soviéticas e elevado a condição de popstar, o Tomcat cumpriu com maestria suas funções, muito embora tenha frustrado os entusiastas que pouco entendem de guerra…


FONTE: Robert F. Door

 

5 COMENTÁRIOS