Na manhã de 17 de janeiro de 1991, após a primeira noite da Operação Tempestade no Deserto, a Marinha dos EUA sofreu sua primeira baixa no conflito, quando o F/A-18C Hornet (número de cauda 163484) pilotado pelo Tenente-Comandante Scott Speicher foi derrubado a cerca de 160 km a oeste de Bagdá.

Na confusão da batalha, inicialmente a Marinha afirmou que Speicher fora abatido por um míssil superfície-ar (SAM), apesar dos relatos dos vários pilotos envolvidos na mesma missão do avistamento de um interceptor MiG-25 da Força Aérea iraquiana no mesmo período de tempo da queda de Speicher e dos jornais iraquianos publicarem a vitória do MiG.

Em 2001, a CIA divulgou um relatório atribuindo a perda do Hornet a um míssil ar-ar disparado por uma aeronave iraquiana.

Um contra-interrogatório com pilotos iraquianos de MiG-25 após a capitulação do Iraque, revelou que a Marinha dos EUA facilmente poderia ter perdido três aviões naquela manhã. Isso só não aconteceu por causa da disciplina do piloto iraquiano em obedecer ao controle de solo.

A primeira formação consistia em dez caças F/A-18C Hornet dos esquadrões VFA-81 e VFA-83. Eles voavam em uma formação ampla, conhecida como “parede” (essencialmente uma longa linha de aeronaves que voam de frente, espaçadas entre 1,6 e 8 km. Cinco aeronaves no lado esquerdo eram do VFA-83 e os demais, no lado direito, do VFA-81. Sua tarefa era varrer os céus a frente antes dos bombardeiros e suprimir as defesas aéreas inimigas.

Atrás dos Hornets estavam oito A-6E Intruder dos esquadrões VA-35 e VA-75, encarregados de bombardear Tammuz. Três EA-6B Prowler do VAQ-130 e quatro caças F-14A do esquadrão VF-32, com a missão de apoiarem os Hornets e Intruders. Os Tomcats não tinham as últimas capacidades de identificação eletrônica dos Hornets, por isso voavam atrás da formação e acima, como escoltas.

Voando em alta altitude, a formação americana não foi difícil de detectar pelo controle iraquiano. Um dos quatro MiG-25PD do Esquadrão Nº 96, em alerta permanente na base aérea de Qadessiya foi enviado para interceptar.

O MiG-25 decolou tendo aos controles o Tenente Zuhair Dawoud. O grande jato apontou para o sul enquanto ganhava altitude com os pós-queimadores acessos e acelerando para o Mach 1.4. O Foxbat iraquiano voou quase diretamente para o centro da falange do VFA-83. Sem surpresa, o líder do esquadrão, Comandante Michael Anderson, detectou o MiG-25 quase assim que este decolou.

Advertido por seu sistema de alerta de radar, mas sem permissão para abrir fogo, Dawoud virou para oeste, manobrando ao redor do Hornet de Anderson no sentido anti-horário e ainda a cerca de 72 km de distância.

Embora o sistema de defesa do Hornet tenha identificado a aeronave iraquiana à frente como hostil, Anderson não abriu fogo, aguardando confirmação de um avião de alerta antecipado E-3A Sentry da Força Aérea dos EUA. No entanto, o MiG-25 estava com o radar desligado e na extremidade da faixa de detecção do Sentry, portanto, a equipe do E-3 não tinha os dados necessários para completar o processo de identificação.

Enquanto isso, Anderson seguiu Dawoud em uma volta até que eles se passaram e o iraquiano desligou a pós-combustão, fazendo com que o piloto americano o perdesse de vista. Dawoud relatou o que aconteceu ao seu controle de solo (Groundcontrolled interception – GCI). Em resposta, o GCI aconselhou-o a virar para o leste e abrir fogo contra outro alvo a cerca de 32 km de distância.

Seguindo esta instrução, Dawoud ligou seu radar e estabeleceu um lock-on no novo alvo a 25 km e apertou o gatilho, lançando um único míssil R-40RD. Ele manteve o alvo na mira até que testemunhou uma enorme explosão a sua frente e então viu o avião inimigo numa espiral descendente, envolto em chamas.

Destroços do F/A-18C Hornet fotografados em 1995

Em 1995, a Marinha dos EUA recuperou os dados do Hornet de Speicher e os investigadores concluíram que o R-40 explodiu por proximidade no lado esquerdo e abaixo do cockpit. A explosão da ogiva da fragmentação de 70 kg deslocou instantaneamente o Hornet entre 50 a 60 graus para a direita, causando uma força lateral de 6 g que cortou os tanques de combustível externos e arrancou os cabides subalares. Speicher conseguiu se ejetar, mas foi dado como morto mais tarde. O Hornet 163484 caiu a 77 km ao sul de Qadessiya.

Após presenciar a explosão, Dawoud procurou outro alvo, já que o GCI o alertou de uma segunda onda de aviões que se aproximava a cerca de 77 km.

E-3A Sentry

O Comandante Robert Besal e seu oficial de sistemas Tenente-Comandante Mike Steinmetz lideravam uma formação de três A-6E do esquadrão VA-75. Desta vez, o Sentry detectou o Foxbat a tempo e dois minutos depois da perda do Hornet emitiu um aviso sobre um “possível Foxbat indo para o sul“. Quando o aviso chegou, o MiG-25 já enquadrava o A-6. O piloto americano relembra: “eu podia ver as duas grandes chamas do pós-queimador do avião iraquiano, claramente visíveis no céu ainda escuro daquela manhã”.

O A-6 puxou forte para a direita, forçando o iraquiano a passar para a esquerda. Dawoud voltou-se para o Intruder e pôs às 6 horas do jato americano. O radar do MiG-25 deu lock-on. Dawoud energizou a cabeça de busca do R-40. No entanto, ao solicitar permissão para o tiro, o controle de terra rejeitou seu pedido. Em vez disso, o controlador pediu-lhe para confirmar o alvo visualmente. Aproximando-se o suficiente para ver as luzes dentro do cockpit do A-6E de Besal, Dawoud repetiu a identificação de seu alvo lento e novamente pediu permissão para disparar. Ainda assim, por motivo desconhecido, o controlador de terra ordenou que ele desengajasse e retornasse a base.

Obedecendo as ordens, Dawoud manobrou para “casa” enquanto esperava que os americanos contra-atacassem a qualquer momento. Ele manteve os olhos colados no seu sistema de alerta de radar.

Quando ele chegou a base aérea de Qadessiya, tudo estava uma grande bagunça. Três caças-bombardeiros Tornado da RAF tinham atacado a pista principal com o dispensador de munições JP233 que danificaram um MiG-25 que tentava decolar para ir de encontro a Dawoud.

R-40 “Acrid”

Dawoud foi forçado a pousar na pista secundária antes de voltar para a segurança de seu abrigo reforçado.

Os pilotos do esquadrão 96 se reuniram para discutir os acontecimentos daquela tensa manhã. O líder do esquadrão de Dawoud concluiu corretamente que o piloto norte-americano – ou tripulação – provavelmente não teria sobrevivido por causa da gigantesca ogiva do R-40. Infelizmente o alto comando não reconheceu a vitória ar-ar do MiG-25.

No entanto – e apesar de toda a publicidade que o caso de Speicher atraiu nos Estados Unidos – os serviços de inteligência iraquianos precisaram de quase dois anos para confirmar definitivamente a identidade do piloto da Marinha dos EUA desaparecido e, mais dois anos para concluir que sua perda coincidiu com a reivindicação de Dawoud.

Entre os pilotos iraquianos ele recebeu reconhecimento, mas o alto comando não emitiu uma confirmação oficial, nem recomendaram que Dawoud recebesse uma condecoração ou promoção, como normalmente seria o caso.

Dias depois os iraquianos capturaram o Tenente da Marinha dos Estados Unidos, Larry Slade, oficial de interceptação de radar (Radar Intercept Officer – RIO) de um F-14 Tomcat derrubado por um SAM e, então, eles ficaram sabendo que um Hornet do porta-aviões USS Saratoga estava desaparecido, junto com seu piloto.

Em 1995 Dawoud escreveu uma longa carta ao então presidente iraquiano Saddam Hussein, explicando todos os detalhes de sua missão e o que ele havia lido nas publicações americanas. Isso levou Bagdá a emitir uma confirmação oficial e condecorar o piloto por sua realização.

Em 2003, como centenas de outros ex-oficiais e pilotos da força aérea iraquiana, Dawoud foi perseguido pela Guarda Revolucionária iraquiana e forçado a sair do Iraque.


FONTE: War is Boring; F-16.net

 

16 COMENTÁRIOS

  1. Caraca velho, adoro essas histórias de abates e duelos reais. Guerra do golfo, Malvinas, Alto Cenepa, Israel, guerras na África, Índia….. <3 podem trazer mais dessas!! Hehehe

    A propósito, alguém sabe o que aconteceu com esse piloto?? Fugiu do Iraque, morreu, virou mercenario/instrutor em outro país….??

  2. não obedecer ao controle de terra devia significar pesadas consequências, mas o controle de terra pode ter visto que os F-14 ou outros F-18 estavam se aproximando dele.

    • Tambem acredito nisso , o operador em terra seguramente deve ter tido algum bom motivo para dar aquela ordem .

      • Jrdu, mas pense o seguinte; há um momento em que o piloto relata ter perfeita condição de disparo. Estava tudo certo, só faltava a ordem do CGI para que ele pudesse apertar o botão de disparo… mesmo que o Foxbat tivesse com alguém na cola, o que custava lançar o míssil??

        P.S.: Adoro esses relatos de guerra!! *—* fiquei até curioso pra saber que fim levou o piloto iraquiano… será que está vivo ainda?

        • Como os mísseis são guiados por radar passivo, o Mig-25 teria que ficar iluminando o alvo até que o míssil atingisse o alvo, ficando vulnerável. A não ser que lançasse uma versão guiada à IR mas não sei se estava levando um desses.

  3. E apesar de todo o apoio de AWACS, escoltas e tecnologia embarcada nas aeronaves americanas, o Foxbat lata velha, já naquela época, conseguiu a vitória graças também ao seu GCI.

  4. 1991 faz muito tempo eim? E que caos o Iraque se transformou desde então, um país desintegrado, sem presente ou futuro. O Mig25 na época ainda dava um caldo, principalmente pela dinâmica e potência muito elevadas. Basta lembrar que os Mig31 ainda permanecem em operação nas Forças Russas. Dai a importância que os americanos deram desde então as tecnologias stealth. Parabéns ao Gio por esta excelente história.

  5. Off-topic: estou vendo a reprise do Globo News Painel que discute a crise norte coreana. Meu Deus, como Godoy, Gunter posdem quase se aposentar sendo tão limitados como são. Estas duas figuras são o retrato do país. Amadores, bem limitados.

    • Também vi. Parece que eles tem vergonha de dizer o que realmente pensam, que tentam ser "polidos"…mas o Godoy é o cara que foi para a TV dizer que o F-5M ficou tão bom que rivaliza com os melhores aviões norte-americanos…esperar o quê dele…

      • Verdade! O Gordito do Gunter da aula na pós-graduação de alguma universidade da aeronautica. My God :O. Estamos cercados meus amigos, com esse potencial intelectual ai vamos mesmo ficar na idade da pedra.
        Off-topic teh double 🙂 https://vimeo.com/137154196
        Ah se todas as forças fossem iguais ao Exército! Porque o Iveco LMV foi o escolhido meus caros.

  6. Um ano e meio depois da 1ª guerra do golfo, comprei um livro q mencionava esse abate do mig-25. Desde entao sempre fui muito curioso por esse momento da historia.

    Grande Gio com seus impressionantes relatos e historias de guerra. Parabens.

      • É sério e acho que o Brasil devia entrar junto neste projeto…

        Dois esquadrões dele na FAB, o Sea Mig41 para a MB, o Land Mig41 para o EB e Police Mig41 para as polícias.

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