O Falcon foi o primeiro míssil ar-ar guiado operacional da Força Aérea dos EUA.

O desenvolvimento da família de mísseis Falcon começou em 1946, quando a Hughes recebeu um contrato para construir um míssil ar-ar de curto alcance e subsônico. Em 1947 a exigência foi mudada para um míssil supersônico e para ser lançado a partir de bombardeiros como arma de autodefesa. Os primeiros mísseis experimentais foram testados em 1949. No anos seguinte, a plataforma do míssil foi mudada de bombardeiro para caça. Chamado de Falcon, o AAM-A-2 deveria se tornar um míssil para uso por interceptadores do tipo F-89 e F-102 contra bombardeiros (soviéticos) voando alto e relativamente lentos.

Encantados com as maravilhas tecnológicas, os planejadores militares se deixaram levar pelo mundo novo que se abria ante eles, mas a história provou que nem tudo que reluz é ouro. Enviado para uso no Vietnã, logo os pilotos, em seus maravilhosos caças de milhões de dólares, descobriram que a falta de um simples canhão de algumas centenas de dólares faria toda a diferença.

O AIM-4D era odiado pelos pilotos. Inicialmente Para que o Falcon fosse verdadeiramente testado em combate, seria necessária uma boa quantidade de tempo envolvendo combate ar-ar contra os aviões da NVAF (North Vietnamese Air Force).

Em maio de 1967, chega ao teatro de operações o McDonnell Douglas F-4D Phantom II. O modelo F-4D contava com o AIM-4D como seu AAM de curto alcance e o AIM-7 Sparrow como seu principal armamento BVR. Os primeiros F-4D operaram a partir da Tailândia.

O primeiro emprego em combate do AIM-4D com o F-4D ocorreu no dia 2 de junho de 1967. Quatro Phantoms (dois F-4C armados com AIM-9 e dois F-4D armados com o AIM-4D) faziam a escolta de caças-bombardeiro F-105. Quando voavam a 2.400 m, caças MiG-17 foram localizados passando por baixo da formação de Thunderchiefs. Os Phantoms se dividiram em dois elementos de um F-4C e um F-4D para engajar os MiG-17.

O líder F-4D do primeiro elemento disparou um AIM-4D num ângulo de perseguição de 50 a 60 graus, mantendo uma velocidade de 1.100 km/h e a pouco mais de 300 metros de altitude, com o alvo curvando à esquerda. O F-4D teve que manobrar forte para escapar ao fogo AAA do solo e mais quatro MiGs em um curso de interceptação frontal, mas o piloto observou uma bola de fogo a cerca de 1.800 metros de distância. O líder F-4D disparou um segundo AIM-4D num MiG-17 pouco tempo depois. Este AIM-4D, disparado em um ângulo frontal, passou a 5 metros abaixo do MiG-17 sem detonar.

O primeiro combate do Falcon com o F-4D não resultou num abate oficial, embora o primeiro míssil lançado tenha possivelmente destruído um MiG-17. Quatro AIM-7 Sparrow e três AIM-9 Sidewinder foram disparados pela formação contra os norte-veitnamitas, mas não resultaram em abates. O dogfight mostrou um dos problemas que se tornaria recorrente as as tripulações de F-4D. Dois AIM-4D ficaram sem refrigeração enquanto estavam em seus trilhos de lançamento, tornando os mísseis inúteis.

No dia de 3 de junho, caças F-4D armados com o AIM-4D novamente partiram para o combate, em uma segunda missão de escolta similar ao evento do dia 2 de junho. A formação de F-4C e F-4D encontrou os MiG-17 novamente, mas não lançou nenhum AIM-4D durante o engajamento. Os pilotos optaram por usar o Sparrow e o Sidewinder, lançando três AIM-7 e um AIM-9, mas não lograram nenhuma vitória.

Duas missões no dia 5 de junho foram as próximas tentativas do F-4D em usar o Falcon em combate. A primeira missão envolveu uma formação mista de dois F-4C e dois F-4D, fornecendo MiGCAP para uma missão IRON HAND SEAD [operação conjunta da USAF e da USN entre 1965 e 1973 destinada principalmente a suprimir os sistemas de mísseis superfície-ar fornecidos pela União Soviética ao Vietnã do Norte – NT] perto de Thud Ridge. Caças MiG-17 engajaram um F-4C e um F-4D. Durante o dogfight, o F-4D disparou um AIM-4D e um AIM-7, com o F-4C empregando um AIM-7. Nenhum dos mísseis marcou seus alvos.

Os Phantoms conseguiram “enjaular” um MiG-17. O F-4D disparou um Falcon, com o míssil perdendo o alvo. Logo foi a vez de um AIM-7, que também não logou êxito. Um terceiro lançamento, usando um AIM-7, obteve sucesso derrubando o MiG-17.

A segunda missão no dia 5 de junho envolveu outra formação mista de dois F-4C e dois F-4D, desta vez executando uma MiGCAP. A formação encontrou quatro MiG-17.

O líder F-4D disparou dois AIM-4D, dos quais um perdeu o alvo e o segundo nem saiu do trilho. O piloto disparou quatro AIM-7 no MiG-17, sem que nenhum dos mísseis acertasse o alvo. O F-4C disparou dois AIM-9 no MiG-17, acertando a cauda do alvo e derrubando-o.

O líder F-4D do segundo elemento disparou quatro AIM-4D, mas um não saiu do trilho enquanto os demais perderam o rumo.

Neste ponto, o AIM-4D começou a construir uma má reputação entre os pilotos de F-4D. No final de agosto, as tripulações de Phantom D fizeram uso de 25 Falcons, com sete mísseis não deixando o trilho de lançamento. Dos dezoito mísseis lançados, nenhum acertou o alvo. Para ser justo, nas missões descritas acima, seis AIM-9 e quinze AIM-7 foram disparados, com somente um Sidewinder e um Sparrow conseguindo acertar os seus respectivos alvos.

Boa parte do sentimento anti-Falcon veio de um piloto, o coronel Robin Olds, comandante do 8º TFW. O Coronel Olds foi o principal piloto de F-4D na missão do dia 2 de junho e na segunda missão do dia 5 de junho, tendo disparado três AIM-4D com um quarto que não saiu do trilho. O Coronel Olds ficou tão furioso com o desempenho do AIM-4D que ordenou a sua equipe de solo da 8ª TFW a instalação da fiação necessária para o uso do AIM-9 Sidewinder, algo que não seria “oficialmente” incluído como armamento do F-4D até 1969. Esses esforços terminaram no final de 1967; O coronel Olds deixou o Vietnã em setembro e a 7.ª Força Aérea ordenou que a unidade interrompesse as modificações no F-4D para o uso do AIM-9.

O Falcon finalmente conseguiu uma morte confirmada no final de 1967. No dia 26 de outubro, quatro F-4D (codinome Ford) formavam a escolta para dois RF-4C em uma missão de reconhecimento quando encontraram seis MiG-17. Ford 03 disparou um AIM-4D, mas não conseguiu observar o desempenho do míssil quando o piloto teve de manobrar forte para evitar colidir contra um MiG-17. A tripulação observou então um paraquedas na área, mas não pôde confirmar se a morte foi por ação direta do Falcon.

Ford 04, atuando como ala do Ford 03 durante o combate, disparou um AIM-4D contra a cauda de um MiG-17 a 1.800 m de distância. Desta vez a equipe assistiu o MiG explodir quando o Falcon entrou pela tubeira do jato e detonou. Foi a primeira morte confirmada do AIM-4D.

Robin Olds

O Falcon conseguiu mais três abates confirmados no início de 1968, destruindo um MiG-21 e dois MiG-17. Com a interrupção da Operação ROLLING THUNDER, o AIM-4D perdeu qualquer chance de melhorar sua reputação.

A 8º TFW recebeu 274 mísseis AIM-4D. No momento em que a guerra aérea recomeçou em 1972, o F-4D possuía no AIM-9 seu principal míssil ar-ar. O AIM-4D permaneceu com as unidades F-4D até o início de 1972, no entanto foi cada vez mais deixado de lado, sendo formalmente retirado do teatro em 22 de abril.

Devido à sua falta de sucesso, a USAF reconheceu o fracasso do AIM-4D Falcon no Vietnã. Considerando as tripulações de F-4D e F-102A, 51 Falcons foram disparados contra os MiGs. Sete desses mísseis não conseguiram sair do trilho de lançamento, com apenas cinco mortes confirmadas, totalizando uma taxa de sucesso de apenas 9,8%. A taxa de mortalidade sobre para 13,7% se dois abates não confirmados contarem como sucessos.

Enquanto a taxa de abate oficial de 9,8% do AIM-4D parece horrível, não foi pior do que outros AAMs empregados durante a Guerra do Vietnã. Dos mais de seiscentos AIM-7 disparados no teatro de operações, apenas 56 lograram vitórias, perfazendo uma taxa de abate de 9,2%. O AIM-9 teve um desempenho melhor, com uma taxa de abate pouco abaixo de 20%.

O AIM-4D mostrou-se ineficaz em relação ao Vietnã por vários motivos. A razão mais óbvia estava no design do míssil. O AIM-4D era um AIM-4 modificado, destinado a combater alvos mais manobráveis, incluindo aeronaves de caça, com uma modificação relativamente básica, envolvendo principalmente o rastreador infra-vermelho, mas o míssil manteve numerosos recursos do Falcon original, impedindo-o de obter mais sucesso e uma melhor reputação sobre o Vietnã.

O mais importante entre esses recursos era a presença de um fusível de contato. Tanto o AIM-7 quanto o AIM-9 possuíam um fusível de proximidade, o que eliminava a necessidade de um golpe direto para iniciar a detonação da ogiva. A presença de um fusível de proximidade no AIM-4D poderia ter resultado em pelo menos mais dois abates.

Outra razão para o fracasso do AIM-4D estava relacionado diretamente ao treinamento das tripulações. Ao contrário do AIM-7 e do AIM-9, onde os pilotos recebiam instrução teórica e depois prática, as equipes só receberam uma apresentação em slides ilustrando como empregar o AIM-4D. Essa falta de treinamento sobre o novo sistema de armas provavelmente contribuiu para a constatação da USAF de que os pilotos lançaram mais da metade dos AIM-4D fora do envelope de desempenho da arma.

O buscador IR modificado foi outra dor de cabeça para os pilotos de F-4D desacostumados a empregar a arma. O buscador IR arrefecido do Falcon empregava nitrogênio líquido para atingir o nível necessário de sensibilidade, mas o F-4D continha apenas nitrogênio líquido suficiente para resfriar a cabeça do buscador por um total de dois minutos. Além disso, uma vez que a seqüência de resfriamento começava antes do lançamento, o míssil tornava-se inútil se não fosse disparado dentro desses dois minutos.

Independentemente da interpretação dos números de desempenho, o AIM-4D não apresentou um desempenho melhor ou pior do que outros AAMs no Vietnã. O culpado mais provável por trás da antipatia do AIM-4D, além dos complexos procedimentos de lançamento, deriva do fato de que a USAF pretendia que o míssil fosse sua nova arma de combate aéreo. Quando o AIM-4D chegou ao Vietnã e não correspondeu em superar outros AAMs já em uso, os pilotos não tinham outro curso de ação lógico a não ser evitarem o uso da arma.

 


FONTE: Australia Air Power

8 COMENTÁRIOS

  1. Boa! Vemos mútuas materias sobre os caças mas muito pouco sobre as armas. Que uma matéria sobre a evolução dos AIM pós Vietnã

  2. Os misseis só foram ter uma boa % de acerto a muito pouco tempo, BVR então, tendo destaque o Phoenix.

    Os iraquianos sofreram com os mísseis ceguetas dos franceses, principalmente a porqueira R530/S530, os franceses só começaram fazer algo que presta com o Magic e por fim o caríssimoooo e capaz Mica.

    E pensar que essa tralha francesa foi até pouco a primeira linha da fab, em conjunto e atualmente com outro deficiente, o Derby, ou seja esquece que a ultima coisa que a fab vai se se preocupar é em armar os Gripen, RBS15 talvez num outro universo paralelo. ahahah

    • A FAB já comprou o Iris-T para o Gripen. RBS-15 não tem nada a ver com a discussão…

    • O Derby veio para a FAB para uma criação de doutrina BVR – não faria sentido equipar os F-5 com AIM-120 para uma força que nunca havia equipada para BVR.

      • Sempre a doutrina, impressionante, será que esse termo surgiu nos fóruns criado pela pelagada?

        Daqui 300 anos se o Brasil existir e espero que não, mas se existir estarão falando em criar doutrina, o discurso não muda.

        A verdade é que a fab preferiu uma tela supérflua bilionária ao invés de um pacote de mísseis e bombas!

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