Nova Zelândia e Austrália ajudam EUA no Vietnã.

A Guerra do Vietnã envolveu 19 milhões de vietnamitas que viviam ao sul do paralelo 17. Levou ao campo de batalha forças do próprio Vietnã do Sul —as oficiais e as dos comunistas vietcongues —, do Vietnã do Norte e dos Estados Unidos. Mas essas não foram as únicas a entrar em combate.

Os EUA empenharam-se em recrutar para a luta todos os aliados possíveis, recorrendo a duas diferentes fontes de recursos humanos: os países comprometidos com sua política no Pacífico e na Ásia e os habitantes das montanhas indochinesas, os chamados montagnards. Também soldados da Tailândia, Filipinas, Coréia do Sul, Austrália e Nova Zelândia acabaram sendo arrastados para o longo conflito.

Novas bandeiras

Até os primeiros anos 60, o presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, era contrário à ampliação da ajuda externa que seu país vinha recebendo. Mas em 1964, com o recrudescimento da insurreição comunista, o presidente dos EUA, Lyndon Johnson, convocou “novas bandeiras” para prestar apoio ao aliado em perigo. A fonte mais óbvia para tal auxílio seria a Organização do Tratado do Sudeste Asiático (Southeast Asia Treaty Organization – SEATO), da qual o Vietnã fazia parte. Mas alguns de seus membros, entre eles a França, opuseram-se ao comprometimento das forças da SEATO e, após abril de 1964, essa alternativa era considerada inviável.

Tropas australianas desembarcam no Vietnã do Sul

Os EUA mantiveram-se decididos a envolver outras nações na guerra. Essa seria a melhor forma de demonstrar que a intervenção no Vietnã obedecia a ditames de uma aliança regional e não apenas a interesses próprios. Além disso, seria um meio de obter tropas de combate extras. O governo sul-vietnamita, satisfeito com a ajuda americana, teve pouca participação na busca de aliados, considerando-os, inicialmente, dispensáveis.

O apoio de outros países tornou-se mais urgente para os EUA quando suas forças terrestres foram enviadas no primeiro semestre de 1965 para o Vietnã, pela primeira vez em grande número. No dia 6 de abril desse ano, um memorando da National Security Action solicitava ao Departamento de Estado que explorasse a possibilidade de forças da Coréia do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia lutarem no Vietnã. Essa solicitação foi aprovada no mesmo mês, na Conferência de Honolulu.

O preço da aliança

Pressões internas diversas condicionaram a maior ou menor disposição dos aliados em participar da guerra. Todos, porém, contaram com o apoio logístico dos EUA para o envio de suas tropas. E, como ocorreu com as forças americanas, algumas unidades estrangeiras tiveram bom desempenho, enquanto outras se mostraram ineficientes.

Artilheiro neozelandês, ferido por um tiro no maxilar, é tratado por médico americano. Pertencia à bateria de canhões de 105 mm, a primeira força enviada pela Nova Zelândia ao Vietnã, em julho de 1965. Nesse ano, as tropas americanas, australianas e neozelandesas uniram-se para atacar os arredores de Bien Hoa, cidade ao norte de Saigon. Mas a forte influência comunista na região só foi abalada em setembro de 1967 com as operações Cedar Falis e Junction City
A RAAF foi a força aérea aliada mais ativa depois da USAF e da força aérea do Vietnã do Sul

O mais importante contingente aliado foi o da Coréia do Sul, país que sempre esteve propenso a apoiar qualquer governo anticomunista na Ásia. Já em 1954, os coreanos haviam oferecido tropas de auxílio aos franceses na Indochina. Em 1964, enviaram uma unidade hospitalar ao Vietnã do Sul e, no início de 1965, um contingente de 2.500 homens, que constituíam a forte Unidade Dove (oficialmente composta de não-combatentes).

Na primavera de 1965 houve longas discussões entre os EUA e a Coréia do Sul sobre as condições para a participação de forças de combate coreanas na Guerra do Vietnã. O governo de Seul exigia dos americanos, entre outras coisas, que patrocinassem a modernização total de suas Forças Armadas, em troca do envio de tropas. Logo após a conclusão das negociações, em agosto, a Assembléia Nacional da Coréia examinava o documento de autorização das operações militares em território estrangeiro. Em novembro, a Divisão da Capital e uma brigada da Marinha estavam em posição, a primeira próximo a Qui Nhon e a segunda perto de Tuy Hoa.

Ao todo, a Coréia do Sul despachou 48.872 soldados para o Vietnã, incluindo a Unidade Dove de 1965, a Divisão da Capital, a 2.ª Brigada da Marinha, a 9.ª Divisão, que chegou em 1966 e foi estacionada perto de Ninh Hoa, um batalhão da Marinha enviado em 1967 e uma tripulação aérea, em 1969. O enquadramento operacional desses contingentes foi inicialmente problemático para os americanos, já que os coreanos pretendiam ser reconhecidos no exercício de um papel independente e não como “mercenários” dos EUA.

Forças australianas transportadas por aviões americanos. Os EUA forneceram aos aliados quase todo o apoio logístico

Apesar disso, foram parar sob o controle direto do general americano William Westmoreland, com apoio logístico sempre fornecido pelos EUA. Voluntários constituíam todas, as tropas selecionadas pela Coréia do Sul. A Divisão da Capital, conhecida como Divisão Tigre, era considerada uma das melhores formações de seu Exército. A atuação dos coreanos foi, por isso, muito efetiva. Um estudo do Departamento do Exército dos EUA concluiu que “as forças coreanas no Vietnã tiveram desempenho comprovadamente eficiente, tanto nas operações táticas quanto nas de apoio tático”. Sua agressividade nas batalhas também foi observada. Em muitos círculos, os soldados da Coréia do Sul ficaram conhecidos como os melhores combatentes das forças aliadas no Vietnã.

Sua atuação, porém, falhou num aspecto importante da guerra contra-revolucionária: a conquista de “corações e mentes” da população local, ou seja, o engajamento dos vietnamitas na causa anticomunista. Os coreanos mostraram-se pouco dispostos a participar de programas de melhoramento social e muitos de seus oficiais estiveram envolvidos em denúncias de corrupção. Em suas ações, não levavam em conta as posses ou a segurança da população local. E, o que é mais grave, não foi sem razão que adquiriram a reputação de torturadores. E a tortura foi um dos elementos que mais pesaram na opinião pública mundial, contrária ao envolvimento dos EUA e de seus aliados na Guerra do Vietnã.

Participação impopular

Amplos setores da opinião pública da Austrália condenavam a Guerra do Vietnã e se opunham ao envio de forças àquele país. Isso não impediu que, em junho de 1965, as primeiras tropas de combate australianas chegassem à província de Phuoc Tuy e que, no início do ano seguinte, estivessem envolvidas em operações ofensivas, como a desfechada contra o Triângulo de Ferro, nas proximidades de Saigon. Mas 1966 era ano eleitoral e, temendo uma demonstração de impopularidade, o governo adiou por algum tempo o pretendido aumento dos efetivos australianos no Vietnã.

Em outubro de 1967, eram mais de 8.000 os soldados envolvidos na guerra, o contratorpedeiro HMAS Hobart havia se integrado às operações da Marinha americana e os bombardeiros Canberra estavam em ação. As forças australianas foram bem-sucedidas: eram formadas de voluntários, todos altamente treinados e, em geral, interessados em manter boas relações com a população local. Suas unidades especializadas, como o SAS (força da Comunidade Britânica, da qual fazem parte a Austrália e a Nova Zelândia), tinham longa experiência de operações antiguerrilheiras na Malásia e em Bornéu. Estiveram envolvidas na guerra até 1971.

As tropas da Nova Zelândia serviram no Vietnã junto às australianas, de 1965 a 1971. Menos numerosas, reuniram 517 homens, em 1967, incluindo as forças SAS e duas companhias de infantaria.

Mais de 10.000 soldados tailandeses lutaram no Vietnã no período de 1967 a 1971. Sua atuação concentrou-se numa região a leste de Saigon, onde havia escassa atividade guerrilheira. Participaram de poucas operações de larga escala e, em geral, tiveram dificuldade para articular-se com a artilharia e o apoio aéreo dos EUA.

A participação das Filipinas não foi significativa. Em 1966, o presidente Ferdinando Marcos declarou-se contrário ao envio de forças de combate ao Vietnã. Dispôs-se, porém, a desenvolver projetos de ajuda médica e civil em quatro províncias ao norte e a oeste de Saigon, por meio de um Grupo de Ação Cívica. A oposição interna ao envolvimento do país na guerra era intensa e, em 1969, até o Grupo de Ação foi retirado.

Guerra nas montanhas

Filipinos, tailandeses, australianos, sul-coreanos e neozelandeses entraram e saíram da guerra vietnamita por decisão de seus governos — fossem quais fossem suas razões. Mas os EUA tiveram outros aliados no Vietnã que não podiam optar pela retirada: eram os montanheses (montagnards) do Planalto Central.

Acima: Fuzileiros navais sul-coreanos invadem aldeia vietnamita, em 1967. Portam fuzis Ml, armamento padrão americano do fim da Segunda Guerra. Quadro menor: Soldados do 7.° Real Regimento Australiano entrando em ação, em 1968

Compostas de várias raças do Sul da Ásia, as tribos montanhesas eram tradicionalmente hostis aos vietnamitas, uma mistura das raças tai e chinesa que formam a maioria da população. Habitantes das férteis planícies costeiras e da região do delta do Mekong, os vietnamitas vinham aos poucos ocupando as áreas montanhosas do país, antes território exclusivo das tribos. Nos anos 30, a administração francesa no Vietnã tentou deter esse processo de invasão, introduzindo formas mais organizadas .de agricultura nas montanhas. Quando foi instituída a República do Vietnã do Sul, a invasão recomeçou, com a distribuição de terras do centro do país aos refugiados do Norte. Esse processo foi acompanhado de discriminações à cultura das tribos montanhesas, consolidando as hostilidades.

A enorme e selvagem extensão do Planalto Central permaneceu, porém, esparsamente povoada e os americanos consideraram importante estabelecer uma presença efetiva na região. De 1965 em diante, as Forças Especiais do Exército dos EUA, que já vinham atuando junto a algumas tribos desde 1962, desenvolveram intenso trabalho de mobilização dos montanheses, apesar do pouco estímulo recebido do governo sul-vietnamita.

Um desastre

Os montanheses mostraram-se bastante suscetíveis à persuasão americana. Foram seduzidos por argumentos quase irrefutáveis: provisão de armas, assistência técnica, ajuda econômica, possibilidade de receber antecipadamente quantias de dinheiro jamais vistas, para servir em unidades como os Grupos Civis Irregulares de Defesa (CIDG). Havia muitos elementos de atração e, além de tudo, eram poucas as alternativas de dispensar a ajuda americana, já que os montanheses se encontravam em região de crescentes hostilidades.

Soldados neo-zeolandeses

As conseqüências de terem sido arrastados para o centro da guerra foram, no entanto, desastrosas. Agrupados em acampamentos especialmente instalados, ou radicados nas velhas aldeias agora reorganizadas, os montanheses não puderam preservar aspectos fundamentais de seu estilo de vida. Com a alteração dos métodos tradicionais de agricultura, sua sobrevivência passou a depender cada vez mais de recursos vindos de fora. A situação tornou-se mais grave quando os EUA perderam o interesse pela área, supondo-a pacificada. O controle foi assumido pelas forças sul-vietnamitas, que fizeram emergir antipatias profundamente enraizadas. Registraram-se alguns levantes locais contra as tropas do governo. Com relação aos comunistas, a tensão era ainda maior. Muitos acampamentos isolados foram vítimas de ataques guerrilheiros.

Um regime em colapso

A população das montanhas diminuiu drasticamente nesse período: de quase 700.000 indivíduos para cerca de 500.000. A tribo brou, por exemplo, contava com 38.593 membros em 1959, habitando as províncias de Quang Tri e Thua Thien. Em setembro de 1972 não existia um só brou em Quang Tri e desconheciam-se os números relativos a Thua Thien.

Quando os americanos começaram a retirar-se do Vietnã, entre 1968 e 1972, as unidades de montanheses por eles organizadas passaram ao comando direto dos sul-vietnamitas. Os mois (selvagens) tornaram-se “convertidos”, conforme o jargão local. Nesse papel foram bem-sucedidos, com 14.534 dos 17.057 soldados dos CIDG unindo-se aos batalhões de rangers sul-vietnamitas. Mas já estavam todos condenados: o regime com o qual se identificaram corria o risco de entrar em colapso.


FONTE: Guerra Na Paz, Pág. 666

1 COMENTÁRIO

  1. Tem um pessoal que adora lembrar que a Coreia do Sul fez uma "revolução escolar" durante os Anos 1980. Ora meus amigos, pensem. Quando os EUA colocaram equipamento militar de ponta nesse país agrícola nos Anos 1970, qual foi a primeiríssima necessidade? Ter quem os operassem! E para isso é preciso o quê? Educação! Para se ter educação é preciso ESCOLAS! Para se ter escolas é preciso o quê? PROFESSORES! Tudo está interligado! A tal revolução escolar foi fruto da necessidade de guerrear!

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