Conhecida pelos nomes de “Quarta Guerra Árabe-Israelense”, “Guerra do Ramadã”, “Guerra de Outubro” e “Guerra Árabe-Israelense de 1973”, a Guerra do Yom Kippur ocorreu entre Israel e um grupo de nações sob a liderança da Síria e do Egito. O combate deu-se entre os dias 6 e 26 do mês de outubro de 1973.

No dia 6 de outubro de 1973, Egito e Síria, apoiados por outros países árabes, desencadearam uma ação militar visando a retomar territórios ocupados por Israel em 1967.

Os egípcios iniciaram seu ataque às 14hs, abrindo fogo contra fortificações israelenses das margens do canal de Suez. No primeiro minuto, 10.500 granadas caíram sobre as posições inimigas ou próximo delas. Ambicionando restaurar a honra nacional, que se acreditava perdida desde a Guerra dos Seis Dias, o Exército egípcio preparara-se para sofrer muitas baixas — até 30.000 homens nas ofensivas iniciais. A maior parte de suas tropas, porém, atingiu a outra margem de Suez apenas seis minutos depois de os canhões terem aberto fogo, e com poucas baixas. Unidades da infantaria, acompanhadas por equipes antitanque e grupos de observação de artilharia, avançaram para o interior de Israel com o objetivo de estabelecer uma frente defensiva a 3 km do canal, enquanto unidades de comando especialmente treinadas isolaram e neutralizaram as posições armadas componentes da Linha Bar-Lev.

Aos doze minutos da ofensiva, as companhias do segundo escalão dos batalhões de ataque deixaram a margem egípcia e, cerca de uma hora depois os demais batalhões de brigadas de ataque iniciaram a travessia, seguidos pelos elementos principais da 2ª Brigada. Após quatro horas, cada divisão de infantaria estabelecera uma cabeça-de-ponte de até 7 km de largura, abrindo passagem para os veículos das formações mecanizadas e blindadas.

O Exército egípcio dispunha de grande número de veículos anfíbios e equipamentos para construção de pontes fornecida pelos soviéticos. Entre eles, balsas motorizadas de 50 toneladas, capazes de transportar, cada uma, quatro carros de combate ou dezesseis jipes; e balsas motorizadas de 96 toneladas, com o dobro dessa capacidade. Tinha ainda equipamentos que lhe possibilitavam montar pontes de campanha em apenas trinta minutos. Construídas em seções, podiam ser reparadas rapidamente quando danificadas.

Tropas egípcias completam a montagem de uma ponte de campanha, antes que as forças blindadas comecem a movimentar-se em direção ao Sinai.

O planejamento egípcio fora tão completo que incluíra até uma ponte simulada para absorver o contra-ataque dos aviões e da artilharia israelenses. Como resultado desses cuidadosos preparativos, entre sete e dez horas depois do primeiro ataque os batalhões de carros de combate das divisões de infantaria cruzavam o canal para reunir-se às formações principais. Seguiam-nos, uma hora depois, a artilharia divisionária e os elementos de suporte.

Na frente meridional — do Grande Lago Amargo ao golfo de Suez —, o ataque foi realizado pelo 3° Exército, do General-de-divisão Abd al Muneim Wassel. Para as operações na frente norte — do Grande Lago Amargo até El Cap — destacou-se o 2° Exército, liderado pelo General-de-divisão Saad Mamoun.

Operações subsidiárias, coincidindo com a ofensiva principal, incluíram um avanço na direção leste ao longo da estrada litorânea, a partir de Port Fuad, com o objetivo de atacar o ponto de defesa israelense conhecido como Budapeste. Planejou-se também a travessia do lago em tanques anfíbios PT76, para estabelecer a ligação com os comandos egípcios aerotransportados para a área dos passos de Mitla e Giddi. Mas catorze helicópteros dos comandos foram abatidos pela Força Aérea Israelense (Israeli Air Force – IAF) e as unidades que conseguiram aterrissar intactas viram-se rapidamente cercadas ou então neutralizadas.

Soldados egípcios saúdam a chegada de oficiais. As enormes barreiras construídas ao longo do canal pelos israelenses foram rompidas com mangueiras de água de alta pressão.
Um BTR-50 (esquerda) e um transportador anfíbio conduzem soldados e suprimentos egípcios para o outro lado do canal.

No contexto global, o ministro da Guerra egípcio, General Ahmed Ismail Ali, e seu chefe do Estado-Maior, General-de-divisão Saad el Din Shaz-li, puderam comemorar uma operação meticulosamente planejada e muito bem executada. Obtiveram sucesso absoluto na travessia do canal, com reduzido número de baixas — 208 soldados egípcios mortos — no ataque inicial.

Atuação israelense

O ataque egípcio tomou os israelenses de surpresa, mas não completamente. Nas primeiras horas do dia 6 de outubro de 1973, tudo indicava a iminência de um sério conflito. Às 4h40, as Forças de Defesa Israelenses (Israel Defense Forces – IDF) foram postas em alerta total. Às 9h20, ativava-se o plano para a defesa do Sinai, que recebeu o codinome de Shovach Yonim (Pombal).

O encarregado do Comando Meridional Israelense, General-de-divisão Shmuel Gonen, tinha como principal força de reação a 252ª Divisão Blindada, comandada pelo General-de-divisão Avraham Mandler. As tropas de Mandler, porém, estavam dispersas e baseadas a uma distância do canal que impossibilitava rápida intervenção.

Tanques Centurion da IDF em ação em Golan. Com suas forças blindadas, os israelenses detiveram o avanço das pontas-de-lança sírias.

Outras unidades israelenses no Sinai eram formadas por reservistas que completavam seu treinamento anual, sem experiência militar. Duas divisões blindadas de reserva, respectivamente sob o comando do General-de-divisão Ariel Sharon e do General Avraham (“Bren”) Adan, deveriam somar-se às forças de Gonen, mas não puderam ser integradas em um plano maior de contra-ataque até 8 de outubro.

A IAF, por sua vez, ainda que oferecesse suporte direto às operações terrestres, não seria capaz de retardar a rápida escalada do inimigo.

Como se não bastassem essas fragilidades, as IDF tornaram-se, desde o princípio, prisioneiras de sua própria tradição. Jamais seus membros, sobretudo os feridos, haviam caído em mãos inimigas, a menos que o salvamento fosse humanamente impossível. Assim, quando os pontos fortificados da Linha Bar-Lev sofreram ataque, os repetidos apelos de suas guarnições por ajuda e evacuação dos feridos exerceram enorme pressão sobre os oficiais para que se concentrassem em seu auxílio.

Em conseqüência de todos esses fatores, a história dos dois primeiros dias de combate no Sinai resumiu-se, do ponto de vista israelense, a grandes perdas e quase nenhum êxito. Na noite de 7 de outubro de 1973, tanto Ismail quanto Shazli manifestaram-se satisfeitos com os resultados obtidos pelo Egito. Ambos sabiam, no entanto, que as forças israelenses se ‘haviam recuperado do choque inicial e que, certamente, desfechariam um contra-ataque completo e coordenado no dia seguinte. As ordens transmitidas ao 2° e ao 3° exércitos foram, portanto, de que permanecessem na defensiva e consolidassem sua posição, na expectativa do contragolpe.

Ataque sírio

O General-de-divisão Yitzhak Hofi, oficial-General à frente do Comando Setentrional de Israel, comunicou no início de outubro de 1973 ao ministro da Defesa, General Moshe Dayan, sua preocupação com a movimentação de tropas no lado sírio da linha de cessar-fogo de 1967, nas colinas de Golan. Hofi acreditava que a escalada dos visíveis preparativos sírios tornaria irrelevantes as medidas defensivas oferecidas por uma única brigada — a 188ª Brigada Blindada Barak, do coronel Yitzhak Ben-Shoham — ao longo dos 70 km de frente. Dayan concordou com o General e, no dia 4 de outubro, enviou para o norte a 7ª Brigada Blindada, comandada pelo coronel Aviador Ben-Gal. As duas brigadas foram entregues ao General-de-divisão Rafael Eitan.

Nas colinas de Golan, os principais obstáculos militares israelenses a uma ofensiva eram proporcionados pelos campos minados de ambos os lados, um fosso antitanque de 5 m de profundidade e dezessete postos de observação fortificados.

Do lado sírio da linha, três divisões de infantaria, comandadas respectivamente pelo General-de-brigada Ornar Abrash, pelo coronel Hassan Tourmkmani e pelo General-de-brigada Ali Aslan guardavam o perímetro defensivo. Essas divisões seriam a ponta-de-lança do ataque sírio, enquanto duas divisões blindadas — a 1ª, sob o comando do coronel Tewfiq Jehani, e a 3ª, sob o comando do General-de-brigada Mustafa Sharba — avançariam em direção à Galiléia.

O ataque sírio foi planejado para coincidir exatamente com a travessia egípcia do canal de Suez e, às 14h do dia 6 de outubro de 1973, as posições israelenses foram abaladas por ataques aéreos e intenso bombardeio de artilharia, que duraram cinqüenta minutos.

Os sírios estavam tão motivados quanto os egípcios na frente do Sinai e igualmente preparados para absorver grande número de baixas. Tendo ultrapassado os campos minados, convergiram para o fosso antitanque, sabendo que os israelenses haviam transformado todos os prováveis pontos de travessia em armadilhas mortais. Um desses, situado entre Tel Hermonit e a colina Booster, foi palco de tamanha carnificina que recebeu o nome de “Vale de Lágrimas“.

Phantoms israelenses atacam um campo de SAM no Sinai.
“Vale de Lágrimas”

Sorte adversa

Os sírios, ainda assim, prosseguiram, sabendo que a cortina de carros de combate a sua frente era tudo o que os separava da vitória. Mas sabiam também que no dia seguinte a situação poderia mudar radicalmente. Correndo contra o tempo, conseguiram expressivos êxitos.

Na manhã de domingo, 7 de outubro de 1973, a 7ª Brigada israelense ainda controlava suas posições, mas a Brigada Barak fora destruída e 90% de seus oficiais estavam mortos ou feridos. Naquela noite, porém, em todas as colinas de Golan a sorte começou a voltar-se contra a Síria. As derrotas se acumularam e na manhã de quarta-feira, 10 de outubro, os sírios estavam arrasados. Os remanescentes de seu Exército dirigiram-se para o leste, por trás da velha linha de cessar-fogo. À noite, nenhuma de suas unidades permanecia no território antes defendido pelas IDF.

Os cinco dias de combate custaram ao Exército sírio 867 tanques, centenas de canhões, milhares de veículos de tipos variados e toneladas de equipamento abandonado. Sua ofensiva terminara numa esmagadora derrota, enquanto o Exército egípcio, que havia enfrentado a tarefa mais difícil, obteve simultaneamente notável sucesso. As razões não são difíceis de detectar.

Primeiro, os israelenses estavam preparados para enfrentar um ataque às colinas de Golan — só não contavam com o elemento surpresa. Segundo, os acontecimentos no Sinai não constituíam ameaça imediata a Israel, ao passo que a frente de Golan, por não ter profundidade, era considerada prioritária pelo Estado-Maior israelense. Finalmente, o comando de Israel em Golan permanecera nas mãos de oficiais mais experientes e decididos.


FONTE: Guerra na Paz, Editora Rio Gráfica, 1984, pág. 862


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1 COMENTÁRIO

  1. Nunca se ataca em dois lugares ao mesmo tempo, a não ser que vc tenha total superioridade sobre seu inimigo.
    Muito mais sábio é atacar em um lugar – de preferencia mais fraco – e quando do local mais forte começar a transferir unidades para cobrir o ataque inicial (onde mostrará que o outro lado não acredita ou não tem mais certeza do ataque naquele segundo local), bem como ja estar cansado e precisando de suprimentos – lança-se o segundo ataque.

    Particularmente, comparo a Guerra do Yom Kippur com a Operação Citadele em 1943. O timing de ambas foi completamente errado pelo atacante o que garantiu ao defensor a possibilidade de contra-atacar com tudo o que tinha.

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