Conhecida pelos nomes de “Quarta Guerra Árabe-Israelense”, “Guerra do Ramadã”, “Guerra de Outubro” e “Guerra Árabe-Israelense de 1973”, a Guerra do Yom Kippur ocorreu entre Israel e um grupo de nações sob a liderança da Síria e do Egito. O combate deu-se entre os dias 6 e 26 do mês de outubro de 1973.

Repercussões da Guerra do Yom Kippur

A Guerra do Yom Kippur teve imensa repercussão e se refletiu no jogo político internacional. A própria ofensiva egípcia talvez tenha sido concebida como um meio de forçar as superpotências — Estados Unidos e União Soviética — a assumir medidas práticas a fim de assegurar um acordo satisfatório para a região.

Desde a Guerra Árabe-Israelense de 1967, EUA e URSS haviam chegado a uma série de entendimentos sobre a questão do Oriente Médio, firmando suas resoluções no âmbito da ONU. Mas as tensões ao longo do canal de Suez continuaram gerando batalhas locais — numa guerra de atrito — e as superpotências procuraram equilibrar as forças que apoiavam. Em 1970, os americanos estavam fornecendo a Israel os modelos mais aperfeiçoados de seus caças Phantom e os soviéticos, na mesma época, já tinham enviado mais de 20.000 assessores militares ao Egito.

O afastamento da influência soviética no Egito passou a ser o principal objetivo da política americana. Jogando com isso, o presidente egípcio Anuar Sadat chegou a ousar um pedido de ajuda americana, após solicitar, em julho de 1972, que os assessores militares soviéticos deixassem o país. No entanto, em vez de recompensar Sadat pressionando os israelenses a fazer concessões, os EUA intensificaram seu apoio a Israel, acreditando que assim empurrariam os egípcios ainda mais para o bloco ocidental.

Esses cálculos estavam errados: a URSS aceitou tranquilamente a recusa de Sadat e, no final de 1972, quando o Egito voltou a pedir auxílio, os soviéticos passaram a fornecer mais equipamentos modernos do que haviam feito antes. Enquanto oficiais e técnicos soviéticos permaneceram no Egito, Moscou pressionou Sadat para manter a paz; depois que eles não estavam mais lá, limitou-se a recomendar cautela, sentindo-se livre de responsabilidade pela situação.

Nesse período, o processo de détente (distensão na política entre os blocos comunista e capitalista) apresentava grandes progressos, pondo fim à Guerra Fria entre as superpotências. Em 1972, os EUA e a URSS elaboraram um documento com os Princípios básicos do comportamento das grandes potências — um dos quais previa que uma potência deveria alertar a outra se tivesse conhecimento de qualquer ameaça iminente à paz mundial.

Os americanos acusariam mais tarde os soviéticos de terem quebrado esse acordo, pois sabiam da planejada ofensiva árabe e não informaram os EUA. Entretanto, no curso do conflito, os mecanismos da distensão funcionaram eficazmente, com as duas superpotências cooperando para a obtenção do cessar-fogo. Em particular, ambas aceitaram o princípio de que nem aos árabes nem aos israelenses seria permitido infligir uma derrota esmagadora ao outro lado. Só quando os israelenses tentaram romper esse princípio é que surgiu um sério risco de confronto entre as superpotências.

No início da guerra, foi pequeno o empenho por uma iniciativa diplomática. Os EUA prometeram preservar a independência de Israel, mas esta nunca esteve seriamente ameaçada. Quando os israelenses passaram à ofensiva, a URSS foi forçada a realizar maciços reabastecimentos à Síria e ao Egito, para repor o material bélico perdido na luta. Os EUA também garantiram igual apoio de suprimentos essenciais aos israelenses. Quando Israel adquiriu posição forte, o governo americano sentiu que era hora de envidar esforços para pôr fim à luta. Em 20 de setembro de 1973, o secretário de Estado Henry Kissinger viajou para Moscou e redigiu com os soviéticos um documento de cessar-fogo que foi adotado pelo Conselho de Segurança da ONU em 22 de outubro como Resolução 338. Esta exigia um cessar-fogo imediato e negociações entre as partes do Oriente Médio, com a supervisão das potências.

Em 17 de outubro de 1973, a decisão dos Estados produtores de petróleo do Oriente Médio de cortar a exportação e os subseqüentes aumentos nos preços do óleo alteraram a atitude mundial diante do conflito árabe-israelense —exatamente como os árabes previam.
Um dos mais importantes resultados da Guerra do Yom Kippur foi o crescimento da influência dos EUA na política do Oriente Médio. Acima, o presidente soviético, Podgorny, ao centro, encontra-se com Anuar Sadat após a guerra.

O prestígio soviético já estava minado pelas derrotas infligidas a seus aliados e quase se extinguiu em 23 de outubro, quando Israel, que aceitara a Resolução 338 no dia anterior, quebrou o cessar-fogo e atingiu o golfo de Suez, cercando o 3° Exército egípcio. A URSS reagiu prontamente, acusando os israelenses de pretenderem esmagar todo o Egito. Os soviéticos haviam persuadido os sírios e egípcios a aceitar o cessar-fogo. Parecia que os EUA não eram capazes de controlar Israel e, se a URSS não agisse de forma decidida para proteger a Síria e o Egito, toda a sua influência no Oriente Médio cairia por terra. Quando os israelenses rejeitaram uma segunda resolução da ONU concitando-os a retornar a suas posições de 22 de outubro, Moscou preveniu Washington da iminência de uma intervenção soviética do lado do Egito — e tropas aerotransportadas da URSS e sua grande frota do Mediterrâneo foram postas de prontidão com esse objetivo. Diante disso, os EUA declararam que suas forças armadas no mundo inteiro estavam em alerta nuclear desde 24-25 de outubro.

Evitando o confronto

O perigo de uma dramática confrontação das duas superpotências não era tão sério como pareceu na época. A decisão americana de fato preveniu Moscou de que os EUA não tolerariam uma intervenção unilateral soviética no Oriente Médio. Mas Kissinger já agira para conter Israel, anunciando que, se os israelenses não abrissem um corredor para a passagem de suprimentos aos egípcios, os EUA seriam forçados a abastecê-los por via aérea.

Essa ameaça pretendia evitar uma iniciativa soviética em socorro às tropas egípcias. Aviões americanos foram deslocados da rota de Israel para bases aéreas europeias, preparando-se para a projetada ação de suprimento aos egípcios. Isso resultou num corte temporário dos fornecimentos militares a Israel e enfatizou sua dependência em relação aos EUA. Israel então recuou suas tropas do canal e abriu uma rota para suprimento do 3° Exército egípcio.

Mas a ansiedade dos americanos em pôr fim ao conflito não se devia somente a seu desejo de limitar a influência soviética no Oriente Médio. A ação dos Estados árabes produtores de petróleo não envolvidos no conflito teve importante influência sobre a política dos EUA durante a guerra. Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, esses países foram capazes de agir conjuntamente para restringir a liberdade de ação do Ocidente no Oriente Médio. Tanto a Europa ocidental como o Japão dependiam do óleo fornecido pelas nações árabes e norte-africanas. Os EUA também haviam começado a importar consideráveis quantidades de petróleo desses Estados nos anos 70 e certamente precisaria de mais no futuro, mas sobreviveria sem o petróleo do Oriente Médio, porém, a Europa, não. Os produtores de petróleo argumentaram que as restrições no fornecimento aos aliados dos americanos teriam efeito devastador em sua economia e a ameaça de novas restrições no futuro os levaria a exercer forte pressão sobre os EUA para garantir um acordo no Oriente Médio contra a intransigência de Israel. Em grande medida, eles atingiram o objetivo e uma séria divergência sobre o Oriente Médio abriu-se entre os EUA, de um lado, e seus aliados da OTAN, juntamente com o Japão, de outro.

O preço da crise

Em 17 de outubro de 1973, os Estados árabes produtores de petróleo, liderados pelo maior produtor, a Arábia Saudita (que se tornara impaciente com a política dos EUA), anunciaram que pretendiam cortar a produção do óleo “no mínimo em 5% imediatamente e depois numa porcentagem similar a cada mês (…) até a total evacuação das forças israelenses de todos os territórios árabes ocupados na guerra de junho de 1967 e a restauração dos legítimos direitos do povo palestino“. Ao mesmo tempo, um embargo nas exportações foi imposto no comércio com os EUA e com a Holanda (pró-Israel). Outros países viram-se ameaçados de sofrer o embargo, caso apoiassem a causa israelense. Além disso, os preços do petróleo quadruplicaram durante a Guerra do Yom Kippur. O impacto imediato da alta de preços e a redução da produção levaram pânico à Europa ocidental e ao Japão, a ponto de os EUA elaborarem um plano para possível intervenção armada nos países fornecedores.

Os europeus ocidentais e o Japão apressaram-se a apresentar aos Estados árabes suas credenciais pró-árabes e pressionaram os EUA para forçar Israel a aceitar a paz. Demonstraram também sua posição anti-Israel ao não permitir que os americanos fizessem escala em portos e aeroportos europeus, quando se tratasse de rotas de suprimento a Israel. No período entre as guerras de 1967 e 1973, grandes diferenças já haviam surgido entre os aliados ocidentais com relação a Israel. Agora a arma do petróleo aprofundava essas divisões.

Óleo sobre águas revoltas

Na verdade, a Arábia Saudita e outros países árabes eram conservadores e mantinham-se alinhados com o Ocidente, permanecendo hostis à influência soviética. Eles logo aceitaram o fato de que Kissinger estava realmente tentando chegar a um acordo de paz duradouro para o Oriente Médio. Em conseqüência, crescentes fornecimentos de óleo ao Ocidente foram autorizados pelos produtores a partir de fevereiro de 1974, com a advertência de que haveria novo corte se necessário. Em março, suspendeu-se o embargo aos EUA; em maio, à Holanda.

O objetivo fora cumprido — e não há dúvida de que, em muitas partes do mundo, as opiniões, até então simpáticas a Israel, voltaram-se contra esse país durante e após a guerra de outubro. A arma do petróleo foi um fator; outro, o sucesso militar dos árabes, que impressionou muitos observadores. A opinião mundial também condenou a recusa israelense em acatar a resolução de cessar-fogo e seu esforço de transformar partes do território ocupado em 1967 em áreas de colonização judia permanente. Tais hostilidades aumentaram o sentimento de isolamento de Israel e contribuíram para baixar seu moral, levando-o à mesa de conversações.

A linha de cessar-fogo dentro do Egito, vista do lado israelense. Em janeiro de 1974, foi assinado um acordo de desmobilização.

Apesar do embargo de petróleo e da conseqüente divergência entre os parceiros da OTAN, os EUA conseguiram explorar a Guerra do Yom Kippur para reforçar sua posição no Oriente Médio. A subseqüente “ponte diplomática” entre as capitais da Síria, Israel e Egito resultou num acordo egípcio-israelense em janeiro de 1974 e em outro similar entre a Síria e Israel em maio. A disposição síria e egípcia de negociar um fim das hostilidades a Israel, com supervisão americana, derivou parcialmente da recém-adquirida autoconfiança, baseada em suas vitórias iniciais na guerra: o mito da invencibilidade militar de Israel fora destruído. Eles entendiam que os EUA podiam controlar Israel e que Kissinger estava disposto a garantir um acordo imparcial. A abordagem cautelosa de Kissinger à solução da crise imediata levou a um segundo acordo no Sinai em 1975 e preparou o terreno para progressos posteriores. A concordância de Israel foi assegurada às vezes por ameaças feitas pelos EUA de cortar os suprimentos de armas, aliadas a promessas de apoio material para manter sua força militar à altura dos vizinhos árabes, se o país cooperasse.

Retrocesso soviético

Os americanos também se envolveram na supervisão do cessar-fogo, na redução de tropas e nos acordos de retirada, enviando duzentos funcionários civis para os primeiros sistemas de alerta no Sinai (depois da Guerra do Yom Kippur, uma força de emergência da ONU se estabeleceu na área). As relações entre os EUA e o Egito melhoraram então, com os americanos concedendo substancial ajuda aos egípcios para a inadiável reabertura do canal de Suez.

A URSS, ao contrário, sofreu um severo retrocesso em sua posição no Oriente Médio. Suas relações com o Egito deterioraram rapidamente desde 1973. O Egito queixou-se de atrasos na entrega de armas e peças de reposição soviéticas e em 1976 anulou o Tratado de Amizade e Cooperação com a URSS.

Henry Kissinger executou a “ponte diplomática” que elevou a influência dos EUA no Oriente Médio a uma escala nunca vista.

Por outro lado, mesmo enfraquecida, a détente entre a URSS e os EUA não deixou de existir; Kissinger admitiu mais tarde que a URSS em geral se comportara discretamente durante as negociações de paz. Mas talvez ela tenha saído de cena na esperança de que uma futura divisão entre os árabes ou novos conflitos na região lhe abrisse a perspectiva de recuperar a influência perdida.


FONTE: Guerra na Paz, Editora Rio Gráfica, 1984, pág. 885

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5 COMENTÁRIOS

  1. Hoje aparentemente a Russia está retoando sua influência no Egito.
    Na Síria tal posição é inegável.

    CM

  2. Giordani, obrigado por postar estas matérias históricas.
    Enriquece sobremaneira o conteúdo dos leitores.
    Lembrei de uma discussão há um bom tempo aqui, justamente sobre a postagem de matérias como esta, em que alguém se sentiu descontente por ler publicações e fatos antigos.
    Ora, para se entender o mundo atual, é preciso saber o que aconteceu no passado.
    Continue nos brindando com ótimas histórias.

  3. Engraçado que o Egito exigiu da URSS caças Mig-23 para poder atacar Israel em maior profundidade, sendo tal exigência feita antes da guerra. Porém, a URSS se recusou a fornecer, dando em troca o fornecimento de mísseis Scut, que os egípcios aceitaram. Os soviéticos não confiavam muito nos egípcios.
    O mais engraçado ainda é que os egípcios não usaram esses mísseis no início da guerra, lançaram apenas um, bem no fim da guerra, mas esse caio no Sinai sem causar danos algum. Como pode? Era uma exigência ter armas de maior alcance, mas nem usaram as mesmas.

  4. Hoje sabemos como foi feita a paz: o Egito recebia secretamente dos EUA 20 bi US$ anuais para Anuar Sadat tornar-se junto com Kadafi um dos homens mais ricos do mundo.. Está nos jornais

  5. O mais engraçado de tudo isso é que desde o inicio do Estado de Israel as hostilidades sempre foram dos países arabes, e na guerra do yonkipour nao foi diferente…os Países arabes sob a liderança do Egito atacoram covardemente israel e depois qdo começou a perder e se viu frente a aniquilação apelou um acordo de paz na ONU, da pra entender???..na minha opiniao Israel saiu deste conflito mais fortalecido do que nunca.. com o moral la em cima com seus agressores implorando por um acordo de paz…Arabes covardes.

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