Conhecida pelos nomes de “Quarta Guerra Árabe-Israelense”, “Guerra do Ramadã”, “Guerra de Outubro” e “Guerra Árabe-Israelense de 1973”, a Guerra do Yom Kippur ocorreu entre Israel e um grupo de nações sob a liderança da Síria e do Egito. O combate deu-se entre os dias 6 e 26 do mês de outubro de 1973.

Outubro, 1973: revide israelense contido no Sinai

Os árabes podem suportar cem derrotas graves e ainda assim sobreviver, mas Israel não sobreviveria a uma derrota sequer.” Esse conceito era corrente entre os comandantes israelenses responsáveis pela condução da Guerra do Yom Kippur. Formados nas batalhas pela independência de 1948-49, acostumados a ver o sucesso surgir diretamente de sua iniciativa, eles não eram homens de trato fácil num conflito em que as coisas não andassem bem. Daí as dissensões surgidas entre os oficiais superiores de Israel, pouco depois do ataque egípcio de 6 de outubro de 1973.

Na noite de 7 de outubro houve uma conferência de oficiais de alto escalão no Quartel-General do Comando Sul israelense. Tinha o objetivo de desenvolver planos para um contra-ataque às posições egípcias no dia seguinte. Estavam presentes o general David Elazar, chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (Israel Defense Forces – IDF), o major-general Shmuel Gonen, do Comando de Operações do grupo, e o major-general Avraham Adan, comandante da primeira divisão blindada da reserva a chegar ao Sinai. Também compareceu o major-general Avraham Mandler, cuja divisão blindada regular estivera em ação contínua nas 36 horas anteriores, desde que os egípcios atacaram, na tarde do dia 6. Mandler perdera metade de seus carros de combate.

A atmosfera estava carregada e o rosto dos comandantes israelenses revelava tensão e fadiga. Além disso, Elazar sentia o peso da batalha desesperada que se travava em Golan: Gonen e Mandler haviam passado os dois dias precedentes tentando dar combate à inesperada quantidade de egípcios que atravessavam o canal de Suez. Adan estivera na linha de frente e vira as condições caóticas em que a luta se desenrolava. Deveria participar da reunião, ainda, o major-general Ariel Sharon, cuja divisão blindada de reserva também se deslocava para o Sinai. Mesmo com essa ausência Elazar decidiu iniciar os trabalhos.

Gonen pôde apresentar apenas um quadro geral da situação. Sugeriu que, tão logo chegassem as divisões blindadas de reserva, as pontes lançadas pelos próprios egípcios deveriam ser tomadas e usadas numa travessia para a margem esquerda do canal. Essa reação, que se enquadrava bem no estilo tradicional da IDF, foi aprovada por Adan e Mandler, mas não para aquele momento.

MiG-21 do Egito abatido, mergulha em direção ao solo.
Bateria SAM silenciada por ataque aéreo israelense.

Elazar, por sua vez, defendia a necessidade de ação imediata e propôs um contra-ataque, a ser realizado pela divisão de Adan, ao longo de um eixo norte — sul, de El Qantara para o Grande Lago Amargo, paralelo ao canal pelo lado direito. Isso levaria os israelenses a irromper no flanco do 2° Exército egípcio.

Com base na experiência dos dois dias anteriores, concluiu-se que se deveria manter um espaço de 3 km entre o flanco direito do avanço e a defesa antitanque egípcia que margeava o canal. Enquanto o ataque de Adan estivesse em andamento, a divisão de Sharon permaneceria alerta nas proximidades do Grande Lago Amargo. Caso Adan encontrasse dificuldades, Sharon o reforçaria; mas, se tivesse êxito, a divisão efetuaria uma incursão similar contra o flanco do 3° Exército egípcio. Enfatizou-se que a ativação da tropa de Sharon para outra tarefa teria de receber a aprovação pessoal de Elazar. A divisão de Mandler se manteria na defensiva no setor sul.

Era esse o esquema aprovado quando Sharon chegou à conferência. Impaciente e ruidoso, anunciou seu próprio plano, que não apenas incluía a travessia do canal como também o reforço às posições da Linha Bar-Lev que ainda se mantinham firmes. Elazar disse-lhe que a decisão já tinha sido tomada e instruiu-o para que discutisse os detalhes práticos com Gonen, partindo em seguida para seu próprio quartel. Foi um ato infeliz, pois Gonen, mais novo que Adan e Sharon, sentiu-se constrangido em impor sua autoridade. Como resultado, ambos os comandantes de divisões da reserva acreditaram ter mais autonomia operacional do que na verdade tinham.

Apesar da Força Aérea egípcia ter lutado com maestria, ela foi mais uma vez derrotada.

O plano em si baseou-se numa premissa falsa, embora nenhum dos presentes à conferência o percebesse naquele momento. Os egípcios, apesar de terem posicionado mais de seiscentos carros de combate na margem direita do canal, não pretendiam avançar para o Sinai. Sabiam que esse tipo de guerra de movimento favoreceria a tática israelense. Contentaram-se, portanto, em permanecer nos objetivos limitados, mas facilmente defensáveis que já haviam conquistado, levando a IDF a se despedaçar contra suas defesas antitanque.

Adan voltou a assumir o comando de sua divisão às 3h da madrugada de 8 de outubro de 1973. Embora se mostrasse otimista, sabia que a situação da tropa estava longe de ser satisfatória. Apenas duas de suas brigadas blindadas estavam prontas para a atividade imediata: a 460ª do coronel Gabi Amir (que estivera em ação no dia anterior e agora contava apenas com cinqüenta tanques), e a 600ª, do coronel Natke Nir, com 70 tanques, que naquele momento já se deslocava para a linha de frente. A terceira brigada blindada (a 217ª, comandada pelo coronel Arieh Keren) avançava ao longo da estrada costeira, vinda de El Arish, mas a brigada de infantaria mecanizada da divisão, que incluía um batalhão de carros de combate Sherman, ainda permanecia em Israel.

O pior de tudo foi a unidade de reconhecimento de Adan estar distante, dando caça aos comandos egípcios que se haviam infiltrado por trás das linhas israelenses já nas primeiras horas da guerra. Sem os serviços dessa unidade, Adan teria de avançar ignorando onde estava o inimigo.

Apesar da confusão reinante, que comprometia aspectos fundamentais do plano operacional, Adan finalizou às 6h sua preparação para o ataque. A brigada de Amir tinha como objetivo a área em frente a El Firdan, enquanto Nir avançaria mais para o sul, em direção à área em frente a Ismaília. A brigada de Keren, recém-chegada, seguiria para a frente de batalha, rumo à área da fortaleza de Matzmed. Um batalhão de tanques manteve-se na reserva, a fim de proteger a retaguarda da divisão.

O ataque começou às 8h, em meio a erros e contradições. Uma investida de apoio feita pela Força Aérea Israelense atingiu alguns carros da brigada do coronel Nir e, em conseqüência, toda a ação aérea passou a ser coordenada por um comando superior. A interferência egípcia afetou as comunicações a tal ponto que, em certo momento, Adan perdeu contato com suas brigadas. O eixo real do avanço ficava a leste dos egípcios, com a divisão passando fora do alcance da artilharia inimiga. Isso levou o Comando Sul a um otimismo infundado e, às 13h, Gonen, com aprovação de Elazar, ordenou que a divisão de Sharon começasse a avançar para o sul.

Mas Sharon relutou em obedecer, pois estava mais próximo da linha de frente e conhecia as falhas da concepção operacional. Adan, ido que a linha de avanço ficava muito a leste, desviou suas brigadas mais para sua direita, de modo a aproximá-las dos objetivos não obliquamente, como se pretendia, mas de frente. Um após outro, os batalhões israelenses mergulharam num inferno. Fogos de artilharia, de carros de combate e de armas teleguiadas antitanque partiam de ambos os lados do canal. O plano previa o apoio de Sharon a Adan, caso este encontrasse dificuldade, mas as objeções de Sharon à ordem de avançar para o sul foram ignoradas. Assim, às 11h, ele começou a se deslocar para o setor sul. Adan teve motivos para lamentar amargamente a decisão, que descobriu seu flanco esquerdo.

Durante o resto do dia, as brigadas blindadas de Adan, sem a infantaria mecanizada ou o apoio aéreo que poderia livrá-las das mortíferas armas antitanque, viram-se envolvidas numa batalha contra forças egípcias bem superiores. Um dos batalhões de Amir teve dezenove de seus 26 tanques destruídos em minutos, e um dos batalhões de Nir perdeu dezoito tanques no mesmo tempo.

Luta até o pôr-do-sol

Por volta das 14h, Gonen percebeu a gravidade do erro e reconvocou Sharon. O caminho era longo e a vanguarda de suas unidades só chegou ao front — aliviando a pressão que sofria a brigada de Keren — depois das 17h. Uma nova crise se desenvolvera. A 2ª Divisão de Infantaria egípcia lançou um contra-ataque com a 24ª Brigada Blindada e a 117ª Brigada Mecanizada. A seu lado estava a 16ª Divisão de Infantaria, com a 14ª Brigada Blindada e a 3ª Mecanizada. A intenção era apenas estender a cabeça-de-ponte egípcia, que se tornara inadequadamente congestionada, enquanto a 21ª Divisão Blindada e a 23ª Mecanizada, vindas do lado oeste, continuavam a atravessar o canal. Para os israelenses, no entanto, tratava-se de uma ameaça estratégica, e as unidades de Adan, batidas, encontravam grande dificuldade em manter sua posição. As últimas horas claras do dia tornaram-se um pesadelo para os soldados israelenses, que lutaram com o brilho do sol poente ofuscando seus olhos.

À noite, Adan recuou. Sua divisão perdera setenta dos 170 tanques, mas vinte deles foram recuperados. O ataque, planejado às pressas sem as informações adequadas, falhara. Também os recursos disponíveis não garantiam um equilíbrio satisfatório de armas. Os egípcios, por sua vez, realizaram uma brilhante defesa durante o dia e foram ainda capazes de desenvolver planos próprios mais tarde, apesar das perdas sofridas.

No final do dia 8 de outubro de 1973, os egípcios controlavam uma área de penetração de até 8 km a leste do canal, incluindo seções da Estrada da Artilharia. Assim, completaram a primeira etapa de sua ofensiva, embora não tivessem atingido a profundidade planejada de 11 km. Por outro lado, o contra-ataque israelense, embora falho, contribuiu para conter o inimigo. Ganhara-se algum tempo, durante o qual os comandantes da IDF puderam aplainar suas discordâncias e corrigir erros estratégicos.

As divergências entre os generais israelenses prosseguiram até a bem sucedida ofensiva de 15-16 de outubro de 1973. E o temperamental Sharon — encarregado do apoio à ofensiva através do canal — emergiu desse confronto com o prestígio aumentado e a carreira política em ascensão.


FONTE: Guerra na Paz, Editora Rio Gráfica, 1984, pág. 873


Próximo: SAM x Phantom

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5 COMENTÁRIOS

  1. Aos editores:

    Tal qual acontece com as Malvinas/Falklands, a Guerra do Yom Kippur é um tema que rende muitas matérias e desperta a curiosidade de muitos leitores (inclusive a minha rsrsrs). Que tal se houvesse também uma página que abrigasse todos os outros links, constantemente atualizada, tal como a Guerra das Falklands possui?? http://www.cavok.com.br/blog/falklandsmalvinas-tu

    Grato pela atenção, bela matéria e boas festas a todos!! 🙂

  2. Sobre o papel de Sharon na Guerra do Yom Kippur, é preciso lembrar que foi fundamental para o sucesso israelense visto que a sua corajosa iniciativa de cruzar o Canal de Suez teve impacto decisivo. Além de cercar dois exércitos egípcios, levou os blindados israelenses para a retaguarda egípcia e colocou os sistemas SAMs do inimigo ao alcance da artilharia. Aliás, a grande medida SEAD dos israelenses foi justamente a artilharia. Apenas após isso a aviação pôde desfrutar de alguma liberdade de ação.

    • Destruíram sítios de SAM e radares a tiros de canhão! Em alguns casos, a menos de 150 metros!

      • Interessante é que nesse período e após os israelenses desenvolveram uma interessante doutrina SEAD a partir do solo. Primeiro tiveram o Kilshon ( AGM-45 Shrike dotado de booster e lançado de um chassis de tanque Sherman) e depois o Keres (AGM-78 Standard lançado de um caminhão de 5 tons, e usado com muito sucesso em 1982). Hoje em dia os israelenses usam os drones suicidas Harpy e Harops

  3. Na batalha mencionada nesse ótimo artigo, foi relatado que os egípcios usaram tantos mísseis anti-tanques, que o solo do campo de batalha estava emaranhado de fios dos mísseis lançados. Aliás, esse foi o maior trunfo dos árabe nessa guerra, pois suas forças blindadas decepcionaram.

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