Conhecida pelos nomes de “Quarta Guerra Árabe-Israelense”, “Guerra do Ramadã”, “Guerra de Outubro” e “Guerra Árabe-Israelense de 1973”, a Guerra do Yom Kippur ocorreu entre Israel e um grupo de nações sob a liderança da Síria e do Egito. O combate deu-se entre os dias 6 e 26 do mês de outubro de 1973.

Quem teve supremacia na Guerra do Yom Kippur?

A Força Aérea Israelense (Israeli Air Force – IAF) estava mais fortalecida às vésperas da Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, do que em 1967. As conquistas territoriais da Guerra dos Seis Dias, particularmente no Sinai, haviam criado uma estratégica área de separação entre Israel e as bases aéreas de seus principais inimigos, facilitando a questão da defesa dos ares. Além disso, o fornecimento de modernos aviões militares americanos — em especial o McDonnell Douglas F-4E Phantom e o Douglas A-4 Skyhawk — permitiu manter-se a vantagem qualitativa do equipamento da IAF sobre as esquadrilhas árabes. Os Estados Unidos se mostrariam um aliado mais firme dos israelenses do que tinha sido a França em 1967 — e a IAF contou com o envio constante de peças e aeronaves de reposição em 1973.

SAM SA-2
Phantom atingido por um SAM cai em chamas em direção ao solo.

A pequena, mas crescente indústria aeronáutica israelense também deu grande contribuição à capacidade de combate da FAI na Guerra do Yom Kippur. Um reforço importante foi a aquisição de 72 caças Dassault Mirage IIICJ. Movido por um único turbojato Atar 9C, o Mirage IIICJ conseguia atingir velocidades de mais de 2.200 km/h, com autonomia de 300 km (sem carregar tanques adicionais).

No outro lado, as forças aéreas árabes haviam aprendido alguma coisa com as duras lições da guerra de 1967. Além de as perdas do Egito e da Síria terem sido compensadas com material dos estoques soviéticos, esses países se reforçaram com o fornecimento de grande quantidade de aviões mais modernos. O poder de fogo da Força Aérea síria cresceu de 142 aviões de combate em meados de 1967 para 265 em outubro de 1973. A Força Aérea egípcia teve aumento menos significativo (de 450 para 480 aviões de combate), mas grande número de caças-bombardeiros Sukhoi Su-7 foi acrescentado aos velhos MiG-17 para a tarefa de ataque ao solo e os veteranos MiG-21F deram lugar a versões mais poderosas e mais bem armadas desse mesmo modelo.

Assim como o F-4, o A-4 também sofreu pesadas baixas para os SAMs soviéticos.

Esses caças soviéticos eram menos eficazes no combate individual que os F-4 Phantom e os Mirage III da IAF, mas no conjunto a força de caças árabes excedia a de Israel em cerca de 130 aviões. Os caças árabes não seriam novamente destruídos num ataque aéreo de surpresa, como acontecera em 1967, pois agora estavam protegidos em abrigos fortificados e seus aeroportos passaram a ser guarnecidos por mísseis terra-ar (SAM) e canhões antiaéreos (AA). A União Soviética não apenas forneceu equipamentos às forças aéreas árabes como também lhes enviou técnicos e conselheiros de combate. Em 1970-71, a defesa aérea do Egito esteve nas mãos de assessores soviéticos, operando sob o comando de um general da URSS.

Os soviéticos foram retirados do Egito no verão de 1972, mas suas doutrinas táticas influenciaram fortemente a maneira de lutar dos árabes na Guerra do Yom Kippur. Os exércitos egípcio e sírio adotaram um esquema tático baseado em sistemas de defesa aérea localizados no solo (SAM e artilharia AA) para se protegerem dos ataques por avião.

Soldados egípcios mostram orgulhosamente o pedaço de um Phantom israelense derrubado próximo a linha de frente.
De olhos vendado, piloto sírio é levado preso.

Para Israel, o poder aéreo significou uma primeira linha de defesa. Seus exércitos de reserva precisavam de tempo para mobilizar-se e deslocar-se — e isso seria providenciado pelo guarda-chuva protetor da IAF, que também se encarregava de desmantelar os preparativos do inimigo. O mais moderno caça de Israel em 1973, o F-4E Phantom, servia bem a essa filosofia operacional, devido a sua dupla função no combate ar-ar e no ataque ao solo, enquanto os Mirage israelenses e os MiG-21 árabes lutavam em igualdade de condições técnicas. Os fatores decisivos foram a tática e a destreza dos pilotos.

Do ponto de vista árabe, o sucesso da guerra aérea estava garantido pela tática de armar um escudo de defesa formado pelos SAM e canhões AA, que asseguraram uma cobertura efetiva sobre seus exércitos em avanço nos primeiros dias da guerra. Isso não apenas deu aos exércitos sírio e egípcio a surpresa tática, permitindo assaltos coordenados através do canal de Suez e às colinas de Golan, como anulou os contragolpes iniciais da IAF, impedindo que o Exército israelense recebesse o apoio aéreo adequado.

As armas antiaéreas dos árabes eram os SA-2, usados em altitudes médias, os SA-6, nas baixas e médias, os SA-7 portáteis e o canhão quádruplo ZSU-23-4 (dirigido por radar), nas baixas. O armamento mais eficaz era o SA-6, peça central de um sistema totalmente móvel de três mísseis sobre um veículo lançador com lagartas, comandado por radar. Contudo, a eficácia das defesas aéreas árabes não dependia tanto do poder individual dessas armas, mas da entrada em ação de numerosos e variados sistemas AA, com diferentes tipos de mísseis e canhões.

A princípio, a IAF teve dificuldade em improvisar medidas contra esses sistemas. Na primeira semana de guerra, os israelenses perderam oitenta aviões — e seus alvos vitais, como as pontes egípcias sobre o canal, permaneceram incólumes. Os métodos da IAF para combater defesas antiaéreas incluíam dissimulação de rota, manobras de despistamento, com a utilização de dispositivos chaff (dispersor de partículas metálicas para perturbar as sondagens feitas por radar inimigo), e, finalmente, contramedidas eletrônicas (ECM) mais sofisticadas, como interferência ou técnicas para criar falsas informações nos radares. Um dos maiores problemas enfrentados pelos israelenses foi sua falta de familiaridade com os SA-6. O equipamento de ECM usado pela IAF, feito para combater ameaças do SA-2 e do SA-3, mostrou-se ineficaz contra o radar de controle de fogo do SA-6.

Equipamentos avançados

Nos primeiros dias da guerra, a IAF concentrou seus esforços contra as forças sírias que ameaçavam romper a resistência nas colinas de Golan. Só quando equipamentos de ECM avançados foram fornecidos pelos americanos é que a Aviação israelense ficou em condições de enfrentar os SA-6 com eficiência. Para se ter ideia de quantidade, basta citar o fato de que mais de 50.000 dispositivos chaff foram entregues a Israel pelos EUA durante a guerra. O fornecimento desses e outros equipamentos de interferência, ao lado do treinamento de pilotos israelenses para neutralizar os sistemas de defesa aérea inimiga, reduziram consideravelmente as perdas da IAF na fase final do conflito.

Sem a segurança do guarda-chuva de SAM, os pilotos árabes tinham de encarar os hábeis e letais pilotos israelenses.

Os mísseis americanos AGM-45 Shrike anti-radiação, que eram capazes de guiar-se pela emissão dos radares direcionadores dos SAM, também tiveram importante papel na diminuição das perdas, enquanto, nos últimos momentos da guerra, a arremetida dos blindados israelenses sobre o canal conseguiu eliminar numerosas estações de mísseis, abrindo um corredor pelo qual os aviões da IAF puderam penetrar com segurança nas áreas da retaguarda egípcia.

A dura batalha entre os caças-bombardeiros israelenses e os SAM árabes acabou ofuscando outros aspectos da guerra aérea. Diferentemente da Guerra dos Seis Dias, houve poucas vitórias contra os árabes no solo.

“Corpo a corpo” aéreo

A grande maioria das perdas de aviões da IAF (cerca de cem) deveu-se ao fogo antiaéreo ou aos SAM. O arsenal israelense de SAM era modesto em comparação com o de seus inimigos: compreendia apenas cerca de cinqüenta baterias de mísseis Hawk, inicialmente usados para a defesa de Tel Aviv e da usina nuclear de Dimona.

Mil Mi-8 em ação

Mas o míssil ar-ar foi a arma israelense mais eficaz na guerra aérea, com um total de duzentas baixas infligidas aos caças árabes, derrubados por mísseis AIM-9 Sidewinder e Shafrir. Segundo fontes egípcias, sete grandes batalhas aéreas ocorreram no Sinai nos seis primeiros dias da guerra. Uma delas envolveu nada menos que setenta aparelhos egípcios. No final do conflito, ocorreram intensos combates aéreos nas regiões a oeste do canal de Suez invadidas pelas forças israelenses. Sem a cobertura dos SAM, a Força Aérea egípcia tentou proteger seus caças-bombardeiros com patrulhas aéreas de combate, formadas por MiG-21. Em sete dias de luta, a Força Aérea de Israel e a do Egito defrontaram-se em dezoito grandes batalhas, com os egípcios realizando um total de 2.500 investidas de combate. As perdas foram muitas: segundo a IAF foram derrubados 25 aviões egípcios no dia 19 de outubro, sendo onze numa única batalha.

Na frente síria, o esforço de apoio aéreo a curta distância da IAF abrandou-se depois de 13 de outubro, quando já havia passado o perigo de o inimigo romper a linha de frente. Os ataques israelenses visavam alvos estratégicos dentro da Síria, tais corno reservatórios de petróleo, usinas elétricas e portos. A ação da IAF foi também uma represália ao lançamento, pelos sírios, dos foguetes Frog contra centros urbanos de Israel. Como se trata de foguetes para bombardeios a longa distância, as baixas civis foram grandes. Assim, enquanto as incursões aéreas ao Egito só tinham atacado alvos militares, mais de cem civis morreram ou ficaram feridos nos bombardeios israelenses a Damasco, capital síria, e outras grandes cidades também sofreram ataques.

Helicópteros em ação

Os dois lados do conflito fizeram considerável uso de helicópteros em surtidas por trás das linhas inimigas. Os sírios começaram as hostilidades em 6 de outubro, com um assalto ao monte Hermon, valendo-se do Mil Mi-8, o mais comum helicóptero soviético de transporte, para ser utilizado em operações de assalto, capaz de carregar até 28 soldados completamente equipados; era armado com metralhadora de 12,7 mm, montada no nariz, e quatro casulos, cada um com dezesseis foguetes de 57 mm. O Mil Mi-8 era ainda capaz de dar fogo de apoio na área de aterrissagem.

O Egito, com força total de cerca de 120 Mi-8 e doze helicópteros de transporte pesado, tinha condições de usar essas aeronaves numa escala mais ambiciosa. Cerca de cem Mi-8 transportaram co-mandos, atravessando o canal de Suez na noite de 6 de outubro, para entrar em ação contra linhas de comunicação israelenses e os vulneráveis campos petrolíferos do Sinai. Depois de descer os soldados, os helicópteros atuavam como aeronaves de apoio a curta distância. Consta que alguns aparelhos atacaram com napalm pontos fortificados da Linha Bar-Lev. Embora esses ataques obtivessem algum sucesso, as perdas de helicópteros diante do fogo inimigo foram pesadas, tendo sido abatidos cerca de cinqüenta Mi-8.

Os helicópteros de assalto da IAF eram os Sud Super Frelon, com espaço para trinta soldados, oito dos quais tripulantes, e o Sikorsky CH-53D, capaz de carregar 38 homens. Ao contrário do Mi-8, nenhum dos dois era equipado com armamento. Israel realizou contra a Síria uma série de operações com comandos helitransportados, atacando linhas de comunicação e comboios de tropas e suprimentos. A maior operação israelense desse tipo em toda a Guerra do Yom Kippur foi um contra-ataque no monte Hermon, ocorrido em 21 de outubro. Quatro helicópteros de assalto serviram de ponta-de-lança, para desembarcar tropas no solo, e foram seguidos por mais dez helicópteros. A encarniçada luta para recuperar o topo daquele monte estratégico durou até o cessar-fogo oficial, em 22 de outubro.

Não houve vitórias fáceis para a IAF na guerra de 1973. A superioridade aérea teve de ser conquistada por métodos clássicos de combate entre caças. A IAF superou a vantagem numérica das forças aéreas síria e egípcia com a maior destreza de seus pilotos e o alto desempenho de seus aparelhos. Mas a assistência técnica dos EUA foi crucial para neutralizar o sistema de defesa aérea do inimigo.


FONTE: Guerra na Paz, Editora Rio Gráfica, 1984, pág. 876


Próximo: Choque de Titãs

10 COMENTÁRIOS

  1. Giordani, vc escreve muito bem ! Seus textos são leves e prazerosos de se ler ! Parabéns!

  2. Minha nossa nunca esperei com tanta ansiedade por uma reportagem como esta série de reportagens como é esclarecedora e ensina muito em matéria de estratégia, meus parabéns aos editores e não tenho um elogio que expresse minha admiração pelo belo trabalho de reportagem, de 0 à 10 dou nota 100.

  3. Cara, não há mais o que dizer. Está simplesmente MARAVILHOSO!! Meus parabéns Gio!!!! ???

  4. As baterias árabes-soviéticas derrubaram mais de 80 aeronaves israelenses nos primeiros dias da luta ? Jesus ?

  5. Mais engraçado é que no final dos anos 70, o Egito deu um jeito de colocar as mãozinhas em alguns Phamtons. Em minha opinião, o comando egípcio terceirizou a culpa por seus fracassos militares, transmitindo a seus equipamentos.

    Ps: a distribuição das bases aéreas pós acordos com Israel, fica clara a desmilitarização da Península do Sinai: https://qph.ec.quoracdn.net/main-qimg-5b5b490a425

    • O Phantom, além de guerreiro, foi um 'diplomata', servindo como item para a reaproximação entre os EUA e o Egito.

      Curiosidade: Quando o Anuar Saddat soube que os EUA havia barrado o F-4 (sim, de início os EUA negaram o Phantom) e oferecido um pacotão com o F-5, o 'véio' teve um piti, chamou o F-5 de porcaria e só não mandou o acordo para a ponte de Paris por detalhe! Só então, após liberar um mega pacotão de ajuda à Israel, é que o Phantom foi liberado para o Egito…

  6. E eu achei que era o único detentor da Coleção Guerra Na Paz além daquela disponível na biblioteca da AMAN hehehehehe. Fico feliz que ainda existam mais exemplares por aí. Era uma coleção muito boa

Comments are closed.