Conhecida pelos nomes de “Quarta Guerra Árabe-Israelense”, “Guerra do Ramadã”, “Guerra de Outubro” e “Guerra Árabe-Israelense de 1973”, a Guerra do Yom Kippur ocorreu entre Israel e um grupo de nações sob a liderança da Síria e do Egito. O combate deu-se entre os dias 6 e 26 do mês de outubro de 1973.

Antecedentes do conflito de 1973

No começo de 1973, Israel caminhava para um crescente isolamento diplomático. A obstinação do país em manter ocupadas as terras conquistadas na Guerra dos Seis Dias, de 1967, não encontrava amparo junto à opinião pública mundial. Mesmo a alegação de que os árabes nunca haviam reconhecido a existência legal do Estado de Israel era insuficiente como justificativa para manter os territórios ocupados.

As duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, estavam convencidas de que seus interesses na região não requeriam o emprego de força militar. Os EUA, em especial, não podiam perfilar-se de maneira incondicional ao lado de Israel, porque isso (embora viesse ao encontro de suas simpatias políticas) os afastaria de seus aliados árabes — os principados ricos em petróleo, cujos povos viviam em estágio quase feudal.

Bateria de mísseis terra-ar SA-6 nas proximidades do Cairo em direção às posições defensivas a oeste do canal de Suez. Por ocasião da Guerra do Yom Kippur, o potencial do SA-6 não fora totalmente percebido. Os pilotos israelenses. acostumados com os menos sofisticados SA-2 e SA-3, foram apanhados de surpresa. Os limitados recursos eletrônicos de Israel surtiram pouco efeito sobre o radar direcionador de tiro do SA-6, simples, mas de efeito devastador.

Já em 1967, Israel se recusara a cumprir a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, que recomendava a devolução dos territórios árabes ocupados. Em 1970, os EUA apresentaram uma proposta de paz, o Plano Rogers, que não prosperou devido à oposição sistemática e incondicional do Estado de Israel, apesar de a iniciativa americana contar com o apoio da URSS.

Também internamente a situação de Israel não era das melhores. Manter os territórios ocupados e a população em pé de guerra onerava muito as finanças do país. A busca do elemento surpresa, tão vital em qualquer guerra, levara o Egito a promover mais de vinte grandes movimentações de tropas, entre dezembro de 1972 e setembro de 1973. No início, essa tática de dissimulação custou caro a Israel, cujo governo era forçado a mobilizar a totalidade de seus efetivos, desorganizando as atividades produtivas.

Por isso, o Alto-Comando das Forças de Defesa de Israel (Israel Defense Forces – IDF) decidiu não responder de imediato às movimentações de tropas egípcias, confiando em que seu serviço secreto seria eficiente a ponto de informar, com 48 horas de antecedência, em que momento ocorreria o ataque real dos árabes. No entanto, quando estes efetivamente se lançaram ao ataque, em 6 de outubro de 1973, dando início à Guerra do Yom Kippur (o Dia do Perdão), a confiança dos israelenses em sua rede de espionagem revelou-se exagerada, o que explica em parte a primeira derrota por eles amargada desde a fundação de seu Estado em 1948.

Defesas israelenses

Na realidade, as autoridades de Tel Aviv pareciam não dar muita importância às adversidades na política externa e interna, certas de que seu poderio militar bastava como fundamento da segurança do país. A enorme disparidade entre a reduzida população de Israel e a numerosa população árabe era compensada pela capacidade israelense de mobilizar, proporcionalmente; mais soldados que os países inimigos. De qualquer maneira, pressupunha-se que a eficiência das forças israelenses, em especial da Aviação, fosse suficiente para compensar a inferioridade numérica.

Em 1973, cerca de 75.000 pessoas compunham as Forças Armadas permanentes de Israel. Desse total, 11.500 eram soldados profissionais do Exército, outro tanto pertencia à Força Aérea e 2.000 à Marinha. Mantinham-se cerca de 50.000 recrutas e um número igual de reservistas em treinamento constante. Em estado de mobilização total, a IDF atingia um efetivo de 350.000 soldados. Esses homens eram equipados com excepcional variedade de armamento, o que contraria princípios militares que preconizam equipamento homogêneo. A frota de carros de combate, por exemplo, compunha-se de cerca de 1 000 Centurion britânicos, seiscentos M60 e M48 americanos, outros 250 Sherman americanos da Segunda Guerra Mundial, além de 250 T54 e T55 soviéticos apreendidos na guerra de 1967.

24/10/1973: MiG-21 egípcio atingido por um F-4 Phantom
Tanque israelense atingido

A espinha dorsal da artilharia era formada pelos M109 americanos ou os Soltam de fabricação local, ambos de 155 mm e autopropulsados. A Força Aérea Israelense tinha 550 aviões de combate: 130 McDonnell Douglas F-4 Phantom, 170 Douglas A-4 Skyhawk e jatos Dassault Mirage III mais antigos. A Marinha era formada por cinco submarinos, 21 navios de patrulha, nove torpedeiros e dez navios para desembarque de tanques.

O sistema de defesa fronteiriça em território ocupado variava de acordo com a topografia de cada região. No planalto de Golan, na divisa com a Síria, o sistema consistia em um fosso antitanque de 5 m de profundidade, além de campos minados por toda a extensão da fronteira. Nessa área, no início da guerra, estavam sediadas apenas duas brigadas blindadas e uma de infantaria. Já nas fronteiras com o Egito, na época afastada até o limite do canal de Suez, a primeira linha de defesa era o próprio canal, obstáculo que os israelenses tornaram mais eficaz aumentando a altura da margem sob seu domínio. A elevação foi feita com o depósito de camadas de areia sobrepostas. Para derrubar essa barreira, os egípcios tiveram a idéia original de empregar mangueiras de água de alta pressão, ao invés de tentar ultrapassá-la com o uso de viaturas-lagartas, solução que surpreendeu os israelenses.

Ao longo de todo o canal de Suez, Israel manteve uma série de posições fortificadas, que se comunicavam entre si por meio de um eficiente sistema estradas. No início da guerra, essas posições estavam defendidas por uma brigada de reservistas, além de uma divisão blindada suplementar.

A força árabe

O presidente egípcio Anuar Sadat.

A preparação das forças egípcias baseava-se no pressuposto de que os israelenses, tão logo atacados, responderiam tentando levar a guerra em profundidade ao território adversário. Para evitar esse contra-ataque, o Estado-Maior egípcio estabeleceu como fundamental surpreender o inimigo quando este estivesse com suas guarnições reduzidas e, além disso, efetuar um ataque que neutralizasse a superioridade de Israel em aviação e em tanques. Os aviões e carros de combate foram enfrentados pelos árabes com armas leves, que passaram a equipar suas tropas de infantaria.

O objetivo árabe era sustentar as cabeças-de-ponte no lado ocupado de Suez, antes mesmo que suas forças blindadas passassem ao combate. Assim, a infantaria foi equipada com mísseis antiaéreos disparados por meio de tubos de fácil manejo e transporte, semelhantes à bazuca. Na retaguarda, o sistema antiaéreo contava com os sofisticados mísseis soviéticos SA-2, SA-4 e SA-6.

O chefe do Estado-Maior egípcio, general Saad el Din Shazli. Algumas de suas propostas militares para a guerra de 1973 foram refutadas pelo governo, mas seus planos de cruzar o canal de Suez tiveram êxito.

Para os egípcios, a lição principal da Guerra dos Seis Dias era que não bastava o número maior de combatentes, nem tampouco o moral elevado de suas tropas. Tornava-se fundamental profissionalizá-las, treiná-las e adestrá-las tal como o Exército israelense. Para isso, foi decisiva a cooperação soviética, com seus assessores militares e com o fornecimento de armas. As tropas egípcias receberam exaustivo treinamento, nos mínimos detalhes, envolvendo a ocupação e a sustentação das cabeças-de-ponte no lado israelense do canal de Suez. Empregaram-se, também, vários estratagemas de dissimulação. Na véspera do ataque encenou-se a liberação de soldados e de oficiais para passar o fim de semana com os familiares. Os soldados foram avisados do ataque só na véspera e, assim mesmo, aconselhados a ter um dia normal e praticar esportes nas areias do canal.

A frente síria

Desde a criação de Israel, os países árabes sempre falaram da necessidade de empreender uma “guerra santa” para libertar a Palestina. Esse objetivo do inimigo definiu a estratégia de guerra israelense. Tel Aviv alertava que o país devia estar sempre preparado para uma guerra de extermínio. Em outros termos, uma guerra que, se perdida, ameaçaria a própria existência de Israel.

MiG-21MF sírio

No entanto — e essa foi uma das surpresas preparadas pelos egípcios —, na Guerra do Yom Kippur os árabes se propuseram objetivos limitados, associados a táticas de defesa concentradas e localizadas previamente. A par disso, consideraram fundamental que os israelenses fossem forçados a uma guerra em duas frentes. Para tanto, era essencial a participação da Síria na guerra. Os estrategistas árabes previam — e de fato aconteceu — que, em face do ataque sírio, que levaria de imediato a guerra a seu território, Israel reagiria concentrando nessa frente a maior parte de seus efetivos e equipamentos bélicos.

O significado e o peso da frente síria, contudo, não estimularam as autoridades de Damasco a uma preparação mais cuidadosa do país para a guerra. O plano sírio de ataque às colinas de Golan não era tão preciso e sofisticado quanto o egípcio em relação ao Sinai. Assim, por exemplo, os militares sírios não se sensibilizaram com o plano egípcio de equipar as forças de infantaria com armas leves antitanque e antiaéreas. Mas, tal como os egípcios, mostraram-se muito preocupados com a busca do elemento surpresa. Uma das medidas de dissimulação adotadas baseou-se nos vários confrontos aéreos com Israel que se verificaram em setembro de 1973. Assim, Damasco deslocou novas tropas para a região de Golan, distribuindo-as, porém, em posições defensivas, e confundindo os serviços de informação de Israel.

Tel Aviv não deu a devida importância a esses sinais. De fato, ante as estrondosas e fáceis vitórias alcançadas nos confrontos anteriores, seu governo subestimava a capacidade árabe de atacar, principalmente porque considerava decisiva na guerra a supremacia aérea. Era perceptível, também, junto aos círculos do Alto-Comando israelense, certo menosprezo pelo soldado árabe, que julgavam mal preparado para o uso de armas modernas. No entanto, o principal erro de Israel foi não prever que os árabes desencadeariam uma guerra com objetivos limitados, sem adotar uma estratégia de extermínio.


FONTE: Guerra na Paz, Editora Rio Gráfica, 1984, pág. 857


Próximo: A linha Bar-Lev

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7 COMENTÁRIOS

  1. Israel não pode errar nunca!! Realmente eu admiro muito esse povo ! Qualquer erro estratégico , já se foi o estado hebreu.

  2. …"aliados árabes – os principados ricos em petróleo, cujos povos viviam em estágio quase feudal"…

    O autor quebrou o galho dos árabes com o quase.

  3. Nessa guerra, os egípcios e sírios surpreenderam os israelenses em muitos aspectos, mas não foi um ataque surpresa. Golda Meir passou a madrugada toda antes do ataque reunida com seu alto comando, esperando um ataque.
    A infantaria egípcia teve uma ótima atuação, porém as táticas soviéticas que as tropas blindadas árabes utilizaram foi péssima, sendo a maior responsável pela derrota árabe.
    O que determinou o resultado em minha opinião foi:
    – O profissionalismo israelense;
    – A rápida mobilização de reservas israelenses;
    – Os equipamentos enviados pelos EUA, que ajudaram muito;
    – As táticas soviéticas ruins (ou mal executadas) das tropas blindadas, principalmente dos sírios;
    – Os sirios não terem adotado um avanço protegido pelos SAM's, do tipo quarda-chuva, com a mesma eficiência dos egípcios, para depois se colocarem em defensiva, pois o que mais fez efeito nessa guerra foram os mísseis anti-tanques.
    Teve mais coisas, mas prefiro não me alongar, além de ser uma interpretação pessoal.

  4. Eu me lembro que Israel fez um campanha mundial pedindo voluntários para lutar nessa guerra! Havia em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, consulados onde qualquer um que quisesse ajudar Israel nessa guerra podia se alistar e seria enviado para lá! Sei que alguns brasileiros, inclusive pilotos foram para lá e nem todos eram necessariamente judeus ou descendentes.

    • O idiota do meu dentista quando eu era criança foi para essa guerra lutar por Israel e não voltou mais, não sei se morreu, ficou aleijado ou resolveu morar por aquelas bandas abandonadas por Deus.
      Não sei se era judeu ou foi um iludido destes que hoje vão lutar pelo ISIS.

      • Não desmerecendo seu comentário, mas permita-me fazer uma pequena intromissão.
        O uso da palavra "idiota", infelizmente, é por a maioria de nós utilizada de maneira inadequada. Ela vem do grego "idiotas", análogo a indivíduo, individualidade, ou seja, era a expressão dada às pessoas que não participavam da política e das movimentações populares (nesse caso os "politicus"), os "idiotas" eram pessas que cuidavam de suas próprias vidas, sem se envolver no coletivo.
        Sendo assim, a maioria de nós somos "idiotas", mas não damos conta disso, pois nas correntes socialistas, das quais somos constantemente bombardeados de tais idéias, a individualidade é algo a ser combatido no favor do coletivismo, tornando tal termo algo pejorativo. Porém, nossa sociedade ocidental é baseada em torno da defesa da individualidade, liberdade e propriedade, da qual tenho muito apresso.
        Deveríamos rever o uso de tal palavra…
        Saudações.

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