A criação do Estado de Israel em região palestina (1948) está na raiz da Guerra dos Seis Dias, mas não é sua causa única.

Cercado desde a sua fundação, em 1948, por hostis vizinhos árabes, Israel praticamente nasceu com um ótimo serviço de informações. Mesmo antes de 1948, os líderes judaicos na Palestina já reconheciam a importância desse trabalho. Em 1930, a Haganah — força de defesa da comunidade judaica na Palestina — montou um aparelho de inteligência extra oficial para conseguir informações sobre os planos do governo mandatário britânico, bem como sobre os árabes, que recrudesciam em suas atividades contra os colonos judeus. A par disso, funcionários judeus empregados pela administração inglesa aprendiam muito a respeito de espionagem e serviço secreto com autoridades policiais e militares britânicas.

Após a Segunda Guerra Mundial, os sionistas estavam prontos para novamente empenhar-se na expulsão dos britânicos da Palestina e na fundação de seu Estado independente. Além de operar dentro do próprio governo, a Haganah construíra uma organização para trazer ilegalmente à Palestina os judeus desterrados da Europa e do Norte da África. Enquanto isso, na Europa e nos Estados Unidos, agentes israelenses ocupavam-se da compra e envio secreto de armas à Palestina.

Após a formação do Estado de Israel, seu serviço de informações foi reestruturado, ficando constituído por três segmentos principais. O primeiro, o Diretório de Inteligência Militar, conhecido por Aman (de Agaf Modlin, ou Bureau de Informações), responsabilizava-se pela coleta de informações militares no exterior. Ao segundo, o Shin Beth (abreviatura de Shereth Bitakhon, ou Serviço de Segurança), couberam as missões de contra-espionagem e a supervisão geral de todas as atividades da inteligência. O terceiro segmento era o Mossad, ou Mossad Le Aliyah Beth (Instituto de Inteligência e Serviços Especiais), a mais antiga das organizações israelenses desse gênero e responsável por operações no mundo inteiro.

As atividades dos três segmentos são coordenadas pelo diretor do serviço, denominado Memuneh, que responde apenas ao primeiro-ministro e ao Knesset (Parlamento).

Isser Harel, o primeiro chefe da inteligência israelense, respondia apenas ao primeiro-ministro e ao Knesset. Sob seu comando, o serviço secreto de Israel tornou-se uma força poderosa e definida.

Uma das primeiras operações de vulto do Mossad sucedeu na esteira dos crescentes conflitos locais entre Israel e seu vizinho Egito. No entanto, o “caso Lavon” — como ficou conhecido o episódio após a renúncia forçada do ministro da Defesa israelense Pinchas Lavon, em 1955 — revelou-se um completo desastre para Israel. A chamada Operação Suzanne se baseava na suspeita de que, com a saída dos britânicos do Egito, programada para 1956, os americanos dariam apoio a Nasser, visto como um “baluarte contra o comunismo”. A operação, concebida em 1954, pretendia demonstrar aos EUA e à Grã-Bretanha o grau de hostilidade que movia os revolucionários egípcios.

Era um plano cruel: agentes israelenses organizariam ataques às propriedades britânicas e americanas no Egito, mas a responsabilidade seria atribuída aos comunistas egípcios ou aos radicais de direita da Irmandade Islamita. Isso desencadearia uma desordem civil, o governo cairia em descrédito, o Ocidente retiraria seu apoio e, finalmente, os britânicos permaneceriam no Egito.

Tal missão seria entregue a uma seção de serviço especial cognominada Unidade 131.

Lavon, que ascendera recentemente ao cargo de ministro da Defesa e tinha pouca experiência em assuntos militares, apoiou com entusiasmo a conspiração. O plano redundou em fracasso total e a rede de espionagem israelense no Cairo e em Alexandria, que levara anos para ser montada, foi destruída.

Lotz e Cohen

Mas, para compensar o caso Lavon, lances brilhantes são creditados ao Mossad; dois deles, inclusive, fruto significativo do trabalho de talentos individuais: Wolfgang Lotz e Elie Cohen.

Lotz era um alemão que ainda garoto emigrara para a Palestina. Junto ao Mossad, tornou-se o homem ideal para infiltrar-se na alta sociedade egípcia e ganhar a confiança dos principais líderes militares do país.

Foi extraordinário o êxito de Lotz. Rapidamente se transformou em figura popular, espécie de playboy na sociedade do Cairo. Graças às festas que oferecia, aos generosos presentes que distribuía e à escola de equitação que fundara, construiu sólida convivência com os oficiais egípcios da inteligência, do Exército, da polícia e do governo. Assim, transmitia todos os dias a Tel Aviv uma torrente de informações sobre o programa armamentista do Egito, valendo-se de um rádio oculto em seu apartamento.

Elie Cohen (ou Kamal Amin Tabet), espião do Mossad, pende exposto, depois de enforcado, na praça principal de Damasco.

Um dia, em fevereiro de 1965, ao retornar a sua residência, Lotz foi surpreendido por oficiais de segurança egípcios que o aguardavam. Fim de jogo: estava preso o “espião do champanha”. Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Lotz e a equipe de Lavon foram libertados em troca de quinhentos prisioneiros de guerra egípcios, entre os quais nove generais.

Tarefa mais difícil que a de Lotz coube a Elie Cohen, outra celebridade do serviço de informações israelense. Cohen nascera no Egito, filho de judeus sírios que para lá emigraram antes da Segunda Guerra Mundial. Permaneceu naquele país até pouco tempo depois da campanha de Suez, em 1956, quando se mudou para Israel. Para o Mossad. Cohen tinha a vantagem de passar facilmente por árabe.

Assim, Elie Cohen transformou-se em Kamal Amin Tabet, filho de sírios, nascido em Beirute, que emigrara com os pais em 1933 para o Egito e, posteriormente, em 1947, para a Argentina, onde como comerciante, teria enriquecido. No final de 1960, Cohen já estava pronto para a ação. No ano seguinte, desembarcava em Buenos Aires e logo formava um círculo de amizades entre os muitos comerciantes sírios da cidade. Finalmente, em 1962, partiu para a Síria. Bastou-lhe pouco tempo para ser aceito nos altos escalões da sociedade de Damasco e fazer amigos entre os militares e políticos sírios. Bem relacionado, tornou-se anfitrião conhecido, locutor da rádio síria e militante ativo do partido dominante, o Baath.

A destruição da Força Aérea egípcia foi uma clara demonstração do poder de informações do Mossad.

Durante três anos Cohen transitou livremente nos círculos governamentais sírios, obtendo a maior quantidade de informações possível. Nesse período, forneceu às autoridades israelenses um quadro completo das fortificações da Síria nas colinas de Golan, os pormenores do plano de desviar para longe de Israel as águas do rio Jordão, especificações dos armamentos soviéticos vendidos à Síria e todo o programa militar sírio.

Contudo, tal como acontecera a Lotz, Cohen foi apanhado. Em 1965, viu-se flagrado e preso em seu apartamento por agentes da contra-espionagem síria no momento em que fazia uma de suas transmissões. Foi condenado à morte, de nada valendo a oferta israelense de US$ 1 milhão por sua libertação (um valor astronômico para a época).

Embora notáveis, os feitos de Lotz e Cohen representam apenas uma parcela da imensa contribuição do serviço secreto israelense à rápida vitória na Guerra dos Seis Dias. Mais que isso, essa vitória resultou diretamente do engenhoso trabalho do serviço de informações. Em junho de 1967, quando a guerra começou, nenhum detalhe importante sobre as Forças Armadas árabes era desconhecido pelo Alto-Comando de Israel. O serviço de informações israelense estava então no melhor de sua forma, graças principalmente ao empenho particular de três homens: o general Aharon (“Ahrele”) Yariv, chefe da inteligência militar; o general Meir Ama, chefe do Mossad; e Yuval Neeman, ao mesmo tempo um renomado cientista e soldado experiente.

Pinchas Lavon, o ministro da Defesa israelense encarregado da Operação Suzanne, o malogrado plano do Mossad contra o Egito em 1955.

Amit já havia dirigido a inteligência militar (Aman) e sua missão prioritária era acabar com a rivalidade entre o Mossad e a Aman. Yariv, que havia sido assessor de Amit na Aman, foi indicado para sucedê-lo e, com base no conhecimento e respeito recíproco dos dois homens, abriu-se o caminho para uma produtiva colaboração dos dois serviços. Mas seus esforços conjuntos não teriam levado a inteligência israelense a voos mais altos, não fosse a presença do previdente e empreendedor Yuval Neeman.

Emprestando seus conhecimentos científicos à inteligência militar, a maior contribuição de Neeman foi antever, no começo dos anos 50, o papel-chave que desempenhariam os computadores na coleta e análise das informações.

Durante a Guerra dos Seis Dias ficou patente a eficiência da reforma de Neerhan quando a Força Aérea Israelense eliminou toda a aviação do Egito, Síria e Jordânia em questão de horas. Isso só foi possível com as informações detalhadas que a inteligência de Israel forneceu sobre as posições de todas as bases e aeronaves egípcias. Também o horário de ataque foi rigorosamente estudado pelo serviço secreto, que constatou ser maior a vulnerabilidade egípcia entre 7h30 e 8h da manhã (pelo horário de Israel).

Com efeito, a essa hora os operadores de radar estariam cansados, no final do turno da noite; as tripulações estariam deixando displicentemente o refeitório após o café da manhã para vestir o uniforme de voo; o pessoal de terra estaria começando a retirar os aviões dos hangares para os serviços de rotina; e, no Cairo, os oficiais, em sua maioria, ainda estariam enfrentando os congestionamentos de trânsito a caminho de seus postos. Yariv tinha razão ao escolher o horário de 7h45 (8h45 no Egito) para a primeira série de ataques.

Nas décadas de 70 e 80, os serviços de informação de Israel expandiram-se para enfrentar a ação da OLP e a ameaça dos avanços tecnológicos do mundo árabe — particularmente a possibilidade de uma bomba atômica árabe. Foi a suspeita de concretização dessa possibilidade que levou Israel a atacar na primeira oportunidade, em 7 de junho de 1981 o centro nuclear de Tamuz, no Iraque.


Operação Arca de Noé

Uma das mais audaciosas operações do serviço secreto israelense foi o resgate, em dezembro de 1969, de cinco poderosas canhoneiras que estavam em poder dos franceses. Agiram conjuntamente o Mossad e a Marinha israelense, que precisava das embarcações para compor uma força naval efetiva no Mediterrâneo.

Israel havia encomendado a uma companhia francesa a construção, nos estaleiros de Cherburgo, de doze canhoneiras. Em 1968, cinco delas já tinham sido entregues. No início do ano seguinte, contudo, em represália a um ataque israelense ao aeroporto de Beirute, o general De Gaulle resolveu embargar todas as vendas de armamentos ao Estado judaico.

Israel agiu rápido. Mal era anunciado o embargo e a sexta canhoneira deixava às pressas o porto de Cherburgo. Três dias depois, era a vez da sétima canhoneira Restavam, ainda, cinco embarcações inacabadas, retidas no estaleiro sob a vigilância da Marinha francesa. Segundo as ordens de De. Gaulle, essas canhoneiras jamais deveriam chegar a Israel.

Mas os franceses não contavam com a astúcia e determinação do general Yariv, chefe do serviço de inteligência militar de Israel, e do almirante Mordechai Limon, comandante da operação que retiraria os barcos do estaleiro francês. Começava a Operação Arca de Noé, cuja finalidade era resgatar as canhoneiras de Cherburgo. O plano teria toda a aparência de transação comercial. Os israelenses dariam a impressão de conformar-se com a perda das embarcações e, preocupados apenas em compensar o prejuízo, arranjariam a venda delas para uma companhia norueguesa, secretamente controlada por Israel. Era um frágil disfarce, “mas revelou-se suficiente para que os franceses liberassem as canhoneiras.

Foi uma operação complexa. Os israelenses, para o êxito da missão, precisariam percorrer a Europa em busca do equipamento adicional necessário para uma viagem de mais de 4.800 km; os suprimentos da tripulação deveriam ser armazenados e embarcados em segredo; tripulantes extras teriam de vir disfarçadamente de Israel a Cherburgo, e, além de desviar a atenção das autoridades francesas, seria preciso contar com bom tempo.

O dia escolhido foi 24 de dezembro — Natal, quando a maioria das famílias francesas faz sua ceia e a vigilância é menos rígida. O almirante Limon veio de Paris a Cherburgo pela manhã e reservou mesa para festa num dos melhores restaurantes da cidade, com o intuito de afastar qualquer suspeita por parte dos franceses. Limon decidiu também que a flotilha deveria estar pronta para zarpar às 20h30. À hora marcada, porém, uma tempestade impediu a partida. Só às 2h da madrugada do dia de Natal as canhoneiras começaram a deixar Cherburgo.

Quando saíram do porto, as embarcações aproaram para oeste; depois seguiram para a baía de Biscaia, Gibraltar e, por fim, o Mediterrâneo, onde navios israelenses, esperando a intervalos regulares, garantiram-lhes combustível e provisões.

Na noite de 31 de dezembro de 1969, as canhoneiras aportavam a salvo em Naifa Terminava uma das mais formidáveis operações do serviço secreto de Israel.


FONTE: Guerra na Paz


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10 COMENTÁRIOS

  1. Fico pensando se existe este tipo de inteligência entre os tupiniquins, os macunaímas gordos que sugam nossos recursos a anos sem anda oferecer em troca.

    • E eu fico pensando como tem gente por aí achando que a Guerra dos Seis Dias se resume ao Mirage III. Será que essa gente acha que a guerra foi da noite para o dia? Que o piloto de Mirage estava sorvendo calmamente um áraque e plim, saiu correndo para o cockpit?

    • O Brasil não tem e nem precisa de um serviço de inteligencia do nível de Israel.
      Felizmente temos boas relações com nossa vizinhança e fronteiras sem problemas, definidas a muitas décadas.
      .
      O Mossad é suspeito de vários assassinatos e atentados terroristas, melhor nem ter algo do gênero.
      . https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Lista_de_assassin

      • O brasil nao precisa de um serviço de inteligencia do nivel de Israel , afinal nossos maiores inimigos sao os sociopatas que estenderam seus tentaculos nas faculdades , nas escolos tecnicas e primeroas , nos sindicatus , nos movimentos sociais , no judiciario , sim realmente nao precisamos de uma se4viço de inteligencia que previna e que ataque as ameaças externas , a metastase do carcinoma socialista ja ocorreu , o brasil eh um doente terminal , vitima de um cancer sociopata , VIDA LONGA ao MOSSAD , filhos do patriotismo legitimo !

      • Mostrando meias verdades para contar uma GRANDE MENTIRA , tatica muito utilizada pelos bolchevistas nos anos 20 ,30 ,40 , desinformar informando !

    • No sentido de armar sistemas fraudulentos para roubar dinheiro público, estamos décadas na frente.

  2. Penso bem ao contrário do você WRStrobel pois precisamos sim deste tipo de inteligência pois não serve somente para proteger de ameaças externas mas também de ameaças internas destas que mandam dinheiro pra fora do Brasil aos sacos e ainda promovem bandalheiras e prejuízos milionários ao povo tudo em prol de uma meia dúzia de pessoas, se tivéssemos uma inteligência assim não teríamos embarcado neste barco furado que embarcamos e muitos ainda acham que embarcaram num navio de cruzeiro tudo de graça pois dinheiro chove aos montes do céu.

    • Se tivessemos um serviço de inteligência forte do governo, ele estaria ajudando para que as remessas de malas de dinheiro não fossem ameaçadas.
      Não permitiria que as investigações fossem tão a fundo, até nisso o PT foi falho.
      Uma das coisas que o quatro dedos deve ter se arrependido muito, foi de não ter um serviço de inteligencia forte e ativo.

  3. Quando a primeira-ministra Golda Meir visitou o presidente Nixon, a conversa girava, em dado momento, em torno da maravilha que eram os generais israelenses. A guerra do Vietnã ainda não havia terminado, e Nixon declarou:

    – Eu adoraria se pudéssemos intercambiar generais.

    – Quem é que você desejaria? – perguntou Golda Meir?

    – Dayan e Rabin – respondeu Nixon.

    – E quais de nossos generais você gostaria?

    – General Motors e General Electric – respondeu Golda.

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