A criação do Estado de Israel em região palestina (1948) está na raiz da Guerra dos Seis Dias, mas não é sua causa única.

O conflito amadureceu entre vários problemas de longa duração — muitos deles ligados apenas a questões internas dos Estados beligerantes. Tudo isso levou as nações à crise de maio de 1967. Envolvidos nessa situação, os governos nada puderam fazer para apaziguar os ânimos. Todos os esforços logo se enfraqueciam.

Duas correntes dominavam o mundo árabe. A ala conservadora, encabeçada pelo rei Faiçal, da Arábia Saudita, abrigava também a Jordânia, a Tunísia e pequenos países do golfo Pérsico. Entre os Estados revolucionários estavam o Egito, a Síria, o Iraque e a Argélia, quase todos de orientação socialista. O presidente Nasser, do Egito, liderava a maioria dos avanços do grupo revolucionário na década de 50. A humilhação que impusera, em 1956, aos governos da França e da Grã-Bretanha na questão do canal de Suez, e sua participação ativa, em nível mundial, como um dos líderes dos países não alinhados contribuíram para aumentar seu prestígio. Mas os anos 60 lhe trariam desafios vindos de muitas direções. A República Árabe Unida (RAU), federação dos Estados sírio e egípcio, desfez-se em 1961, e o novo governo militar da Síria passou a denunciar a ineficácia de Nasser no combate a Israel. Além disso, a tentativa do presidente egípcio de sustentar o regime revolucionário do Iêmen acabaria por envolvê-lo numa longa campanha contra os monarquistas apoiados pela Arábia. Para completar, malogravam no Egito todas as promessas de progresso econômico; ao contrário, o país se via atolado em crescente endividamento externo.

À esquerda: Após assinarem um pacto de defesa mútua, que punha as forças da Jordânia à disposição do comando egípcio, o rei Hussein (esquerda) e o presidente Nasser (direita) deixam o palácio Kubbeh. À direita: O primeiro-ministro de Israel, Levi Eshkol, a quem coube a decisão de iniciar a guerra, atacando o Egito. Pesou em sua decisão a estratégia militar israelense, baseada em ações mais ofensivas que defensivas.

Desde 1956, quando forças de Israel invadiram o Egito a leste de Suez, ocupando por algum tempo a península do Sinai e a faixa de Gaza, Nasser contentava-se em protelar a questão israelense. Entre 1964 e 1965, encabeçou uma série de conferências com a cúpula dos países árabes, que em geral eram favoráveis a soluções a longo prazo para o problema. Criou-se o Alto Comando Unificado Árabe, sob a direção de um general egípcio que declarou não haver nenhuma perspectiva de ação militar imediata.

Graças a Faiçal e ao petróleo da Arábia Saudita, os Estados conservadores começavam a ganhar influência. Mas não tinham muito tempo para Nasser, suspeito de apoiar grupos de oposição. Desses Estados, o mais vulnerável era a Jordânia, dividida entre os palestinos do oeste e os beduínos do restante do país. O rei Hussein podia contar apenas com a lealdade dos beduínos e teve de enfrentar várias tentativas de golpe.

Guerrilhas e ataques preventivos

Outra corrente árabe surgiu de uma entidade palestina no alto escalão do Cairo, em janeiro de 1964: a futura Organização pela Libertação da Palestina (OLP). A OLP montou um exército de libertação baseado em Gaza, no Egito, e armado pelos egípcios. Mas recebeu pouco apoio dos outros Estados árabes. A Síria, desconfiando da influência egípcia na OLP, criou a Al Fatah, que iniciou uma série de investidas guerrilheiras contra Israel.

Comandos da AI Fatah no topo de uma colina, num intervalo do treinamento em território jordaniano. Ataques da AI Fatah a Israel contribuíram para aumentar a tensão no Oriente Médio, pois os israelenses combatiam os guerrilheiros em suas bases, em outros países.
Lanchas torpedeiras israelenses patrulham o estreito de Tiran no começo de 1967. Apesar da disposição israelense de ir à guerra para defender a passagem pelo estreito, pressões políticas levaram Nasser a bloquear o trânsito de navios de Israel nessa área, decisão tomada em 22 de maio de 1967.

Essa seqüência de ataques acarretou inúmeros problemas políticos e de segurança ao governo israelense de Levi Eshkol. Os partidos de oposição criticavam o primeiro-ministro por sua inatividade ante os ataques da Al Fatah e da artilharia síria contra as possessões do norte. Eshkol temia uma retaliação que comprometesse o apoio dos Estados Unidos ou despertasse decisiva assistência soviética aos países árabes. Mas não pôde resistir às pressões por um confronto bélico. Pior ainda, o credo militar israelense não ensejava meras ações defensivas. Diante da vulnerabilidade de seu pequeno país, os israelenses acreditavam apenas na luta em campo inimigo, por meio de “ataques preventivos”. Desde as primeiras incursões a seu território, Israel reagira enfrentando a guerrilha em suas próprias bases nos países vizinhos. Em 1956, essa política já resultara na invasão do Sinai a pretexto de “limpar” a faixa de Gaza. Agora a situação se repetia, levando a lutas cada vez mais graves. Em 1965, Israel atacou povoados jordanianos e libaneses suspeitos de abrigar integrantes da Al Fatah. Em novembro de 1966, um batalhão israelense cruzou a fronteira da Jordânia e invadiu o povoado de Es Samu, próximo a Hebron, causando a morte de catorze jordanianos. No dia 7 de abril de 1967, um confronto de artilharia na fronteira síria culminou na intervenção da Força Aérea israelense. Seis jatos MiG sírios foram derrubados sem qualquer perda para Israel. A esses acontecimentos seguiram-se fortes pronunciamentos do governo de Eshkol, que, em 13 de maio, declarou que seu país responderia “no lugar, na hora e da maneira que bem entendesse” às violações de fronteiras.

Essa ameaça teria passado por simples retórica se não viesse acompanhada de boatos acerca de uma concentração de tropas israelenses. Os soviéticos teriam informado aos sírios que Israel concentrara mais de dez grupos de brigada contra eles. Alarmada, a Síria procurou ajuda. Nasser caíra na descrença de sírios e jordanianos por sua omissão no episódio de Es Samu e na batalha aérea de abril. Se falhasse agora, veria esvaziada sua liderança no mundo árabe. Ao que tudo indica, o presidente egípcio acreditava em sua propaganda: a Rádio do Cairo insistia em transmitir que as Forças de Defesa israelenses eram pouco maiores que uma guarda doméstica e que “não podiam tomar parte em batalhas entre exércitos regulares“.

Nasser e pilotos da Força Aérea egípcia

O primeiro passo de Nasser foi enviar forças egípcias para o Sinai, em 16 de maio de 1967; um movimento óbvio, mas insuficiente para satisfazer as expectativas do mundo árabe. Ao mesmo tempo, o presidente egípcio pediu a retirada da Força de Emergência das Nações Unidas (FENU) de suas posições no Sinai: A FENU mantinha postos de observação ao longo de toda a fronteira entre Egito e Israel desde 1956, o que acarretava para Nasser a acusação, feita por seus críticos árabes, de esconder-se de Israel por trás dessa tropa supranacional. Seu pedido à Secretaria Geral da ONU visava, sobretudo, a silenciar esses críticos. Para Israel, no entanto, a atitude de Nasser pareceu uma evidência de que o Egito pretendia atacar o Sinai.

O fechamento do estreito

A retirada da FENU pôs o Egito em confronto direto com Israel, mas não impressionou os árabes. Em 21 de maio, a Rádio de Amã perguntava se Nasser planejava ou não fechar para Israel o estreito de Tiran, que leva ao mar Vermelho. Os israelenses haviam deixado clara sua disposição de ir à guerra para evitar esse fechamento. Tropas egípcias substituíram observadores da ONU em Sharm-el-Sheikh, dominando o estreito.

No dia 22 de maio, Nasser anunciou a proibição do tráfego de navios israelenses pelo estreito. O risco de guerra implícito em tal decisão era óbvio, mas, se ele não impusesse o bloqueio, todos os seus passos anteriores seriam encarados como mera bravata.

Israel apelou de imediato para a ajuda externa. Em 1957, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França haviam assegurado o livre tráfego das embarcações israelenses pelo estreito de Tiran. Desta vez, contudo, as potências ocidentais adiaram seu envolvimento, tentando achar saídas diplomáticas para a crise. Os EUA encontravam-se focado no sudeste asiático, o que em pouco tempo culminaria na Guerra do Vietnã, enquanto a França e a Grã-Bretanha temiam piorar suas relações com o mundo árabe.

Quando começou a ficar claro que nenhum apoio internacional efetivo seria acionado, cresceram as pressões internas em Israel por uma ação unilateral. No dia 1° de julho, Eshkol fez de Moshe Dayan seu ministro da Defesa e trouxe dois líderes da oposição, Menachem Begin e Joseph Saphir, para um governo de unidade nacional. Os recém-chegados reforçaram no gabinete a posição de que a única saída para Israel era desencadear a guerra.

No mundo árabe, a popularidade de Nasser ganhou nova vitalidade com o fechamento do estreito. Entusiásticas manifestações anti-israel espalharam-se por todos os países árabes. Mas essa aparência de unidade não durada muito tempo. Em 23 de maio, após o bombardeio terrorista de uma cidade de seu território, a Jordânia rompeu relações com a Síria. No entanto, diante da precariedade crescente de sua posição, o rei Hussein, da Jordânia, viu-se obrigado a recorrer ao Egito. Em 30 de maio ele voou para o Cairo a fim de assinar um pacto de defesa mútua, que previa ações militares conjuntas sob o comando de um general egípcio e com participação síria. Em poucos dias o Iraque juntava-se às operações e suas forças marchavam para a Jordânia. A Arábia Saudita posicionou brigadas blindadas junto a sua fronteira com a Jordânia, no intuito de aproximá-las ao máximo de Israel. A Argélia anunciou que enviaria uma brigada ao Egito. A força egípcia no Sinai chegou a atingir um contingente de sete divisões — 10.000 homens.

Solenes pronunciamentos de intimidação seguiram-se a todos esses movimentos diplomáticos e militares. No dia 28 de maio, o líder da OLP Ahmad Chukeiry declarou: “Chegamos à hora H… O Exército da RAU sozinho está apto a aniquilar o agressor israelense em poucas horas“.

Em 29 de maio, era Nasser quem anunciava o término dos preparativos. “Agora estamos prontos para enfrentar os israelenses“, afirmou ele, acrescentando que o motivo não era apenas o estreito de Tiran, mas “a questão palestina como um todo“. As rádios árabes faziam ameaças sistemáticas a Israel. Nasser pretendia atacar, mas parecia tão confiante na inferioridade dos israelenses que estava disposto a permitir que eles começassem a guerra e arcassem com a condenação internacional. Além disso, supunha que os egípcios estavam preparados para derrotar Israel.

Os israelenses não pretendiam nem podiam dar a Nasser o benefício da dúvida. Viram crescer o coro da animosidade e os contingentes árabes junto a suas fronteiras. As Forças Armadas de Israel foram completamente mobilizadas a partir do final de maio, mas não podiam manter-se reunidas sem prejuízo da economia. Em 4 de junho, o Alto-Comando estava pronto a convencer o gabinete de que a guerra viria e, do ponto de vista de Israel, era melhor que viesse o mais rápido possível.


FONTE: Guerra na Paz


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4 COMENTÁRIOS

  1. Arabes organizados como baratas e ainda apoiados por um imperio que se agigantava no orgulho e soberba , so poderia dar nisso , fracasso , fracasso crônico e total , sao bons apenas com armas demograficas ,kkkkkk

  2. O orgulho nao pode ser maior doque a competencia ! Ai esta o calcanhar dos muslins !

  3. Como eu sempre digo "não existe este papo de impossível o que existe é eu não consigo pois o impossível é somente algo simples que ainda não foi possível" e Israel é um bom exemplo disso, determinados, focados, necessitados e com um bom planejamento tudo é possível.

  4. Acredito que o Brigadeiro Rossatto adotaria igual estratégia se estivessemos em perigo de ser atacados pela ditadura Bolivariana. Destruir aeronaves no solo antes de ser atacado. Não raro é o que a FAB treina intensivamente com o valente AMX!

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