A criação do Estado de Israel em região palestina (1948) está na raiz da Guerra dos Seis Dias, mas não é sua causa única.

Dos três principais exércitos árabes que participaram da Guerra dos Seis Dias, o Real Exército jordaniano era o mais poderoso, disciplinado e adestrado. Em 4 de junho de 1967, o grosso de seus homens estava distribuído na margem oeste do rio Jordão controlada pelos jordanianos. Dois comandos egípcios uniram-se ao Exército jordaniano às vésperas da guerra, junto com o general Abdel Muneim Riadh.

O rei Hussein, da Jordânia, tinha planos em relação ao território israelense e sabia que seu país não poderia, sozinho, enfrentar Israel. Mesmo assim, relutou muito em apoiar os outros líderes árabes para fazer a guerra. Se não apoiasse, porém, seria acusado de traidor da causa árabe, tal era a radicalização política no Oriente Médio. O primeiro-ministro israelense Levi Eshkol estava ciente do dilema do rei. Assim, em 5 de junho, enquanto a Força Aérea Israelense destruía a Força Aérea egípcia no solo, ele informou a Hussein, através do general Odd Bull, comandante das forças da ONU em Jerusalém, que se a Jordânia cessasse as hostilidades Israel também o faria. No entanto, durante uma conversação telefônica com o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, Hussein foi informado de que Israel sofrera importantes perdas aéreas e que divisões do Egito haviam cruzado a fronteira, entrando no deserto de Negev. Ao mesmo tempo, o marechal-de-campo Amer, comandante-chefe do Exército egípcio, fornecia ao general Riadh uma versão similar dos fatos. Sem meios de verificar o que realmente ocorria, o rei ordenou às 11h que sua aviação atacasse alvos além da fronteira e que a artilharia abrisse fogo ao longo da linha de frente, com baterias pesadas procurando atingir a própria Tel Aviv.

Refugiados árabes cruzam o Jordão através dos destroços da ponte Allenby.

As forças israelenses em torno da margem oeste eram controladas pelos comandos Central e Norte, dirigidos pelos generais Uzi Narkis e David Elazar. Os israelenses alinhavam duzentos tanques contra os jordanianos, que dispunham de 250, sem contar o substancial contingente iraquiano em Mafraq.

A Jordânia tinha duas opções ofensivas. A primeira era cortar o corredor de Jerusalém, sitiando imediatamente a comunidade israelense na parte mais nova da cidade. A segunda, rumar para o Mediterrâneo, cruzando o setor norte da faixa mais estreita de Israel; tal ação isolaria a Galiléia do resto do país e a tornaria extremamente vulnerável a um ataque da Síria. No decorrer do dia, porém, a IAF não apenas eliminou a Real Força Aérea jordaniana como também bombardeou posições da Legião Árabe, com tal sucesso que uma ofensiva jordaniana se tornou cada vez mais improvável.

Além disso, a 55ª Brigada de Paraquedistas, do general Mordechai Gur (que tivera sua descida em El Arish cancelada em decorrência da rápida conquista da cidade pelo general Israel Tal), foi liberada para operações na frente jordaniana. Vendo a balança da situação pender a seu favor, o comando geral israelense decidiu tomar a iniciativa.

A partir da planície litorânea, o terreno se eleva até as colinas da Judéia e Samaria e depois cai bruscamente para o vale do Jordão. Os terrenos altos, muito importantes do ponto de vista tático, estavam todos nas mãos dos jordanianos. Contudo, o Estado-Maior israelense planejou lançar duas ofensivas simultâneas sobre a margem ocidental. No centro, Jerusalém seria isolada e Jericó capturada, liquidando as tropas jordanianas de Hebron, que seriam colocadas na impossível posição de ter de lutar com as costas voltadas para o mar Morto. No Norte, uma investida a partir do vale do Jezreel sobre á margem oeste culminaria com a captura primeiro de Jenin e depois de Nablus, ambas com importantes entroncamentos rodoviários, e por fim com o ataque às posições jordanianas restantes em Samaria. Algumas lutas já se haviam travado no setor do Comando Central. Em Jerusalém, os jordanianos ocuparam o enclave que circunda o Palácio do Governo (antiga residência do alto-comissário britânico na Palestina e então sede da equipe de observação da ONU), mas após intenso fogo eles foram rechaçados pela 16ª Brigada israelense. A oeste, a brigada de infantaria do coronel Moshe Yotvat vencera os comandos egípcios (cuja missão seria atacar aeroportos e outras instalações em Israel) e capturara Latrun.

O Rei Hussein era um verdadeiro estadista do mundo árabe. Enganado por Nasser, ele acabou indo, contra a sua vontade, a guerra.
A Real Força Aérea Jordaniana perdeu todos os seus 21 jatos Hawker Hunter. A maioria foi destruída no solo. Apesar de extremamente manobráveis, muito mais que o Mirage, os poucos que conseguiram decolar foram abatidos a tiros de canhão pelo delta francês.

Na tarde de 5 de junho, a brigada blindada do coronel Ben-Ari avançou sobre o corredor de Jerusalém e em três pontos afastou-se da estrada para escalar as elevações ao norte. A Legião Árabe não economizara esforços para fortificar suas posições, mas estas foram bombardeadas a curta distância pelos tanques e tomadas pela infantaria. Tendo capturado a colina Radar, Ben-Ari deslocou-se para o leste ao longo da cordilheira, interceptando a estrada Jerusalém — Ramallah, isolando Jerusalém pelo norte, em posição para dominar a estrada de Jericó rumo ao leste. A disponibilidade da 55ª Brigada de Paraquedistas, do general Gur, significava que o plano israelense poderia incluir agora a tomada de Jerusalém. Durante a noite, seus três batalhões colocaram-se entre as posições do coronel Ben-Ari e os muros da Cidade Velha. Depois de completa preparação da artilharia, as formações israelenses cruzaram suas linhas de saída na madrugada de 6 de junho, com o batalhão de tanques Sherman da 16ª Brigada na posição de apoio iluminando os objetivos com holofotes.

No decorrer da noite e no dia seguinte, as forças de Israel travaram longa e difícil batalha com uma brigada jordaniana pela posse dos subúrbios do norte e do leste de Jerusalém. Combates particularmente selvagens ocorreram junto à Escola de Polícia e na colina da Munição, onde os defensores resistiram até o último homem. Ao cair da tarde, o comandante jordaniano, brigadeiro Ata Ali, dirigiu uma engenhosa retirada, de modo que, quando dois batalhões de paraquedistas israelenses lançaram um ataque sobre a colina Augusta Victoria e o monte das Oliveiras, às 8h30 de 7 de junho, não encontraram resistência. O terceiro batalhão de Gur abrira caminho ao longo dos muros próximos ao Museu Rockefeller e penetrou na Cidade Velha pela Porta de Santo Estêvão. Às 10h atingiu o muro ocidental (Muro das Lamentações) do monte do Templo.

Soldados israelenses protegem-se atrás de um muro na batalha por Jerusalém e socorrem um companheiro, aplicando ataduras num ferimento de granada.

Durante a batalha, a 16ª Brigada continuara a varrer os subúrbios do sul da cidade, de monte Sião até a Porta do Lixo. Depois avançou rapidamente para o sul, tomando Belém, Ezyon e Hebron. Enquanto isso, a infantaria de Yotvat avançou a partir de Latrun e substituiu a brigada blindada do coronel Ben-Ari, na elevação ao norte da cidade. Ben-Ari dirigiu-se para Ramallah e dali enviou dois batalhões para Jericó, onde a velocidade de seu ataque sufocou a limitada resistência jordaniana. Atravessando a cidade, seguiram até tomar as pontes sobre o rio Jordão, alguns quilômetros adiante.

A batalha pela tomada de Samaria foi igualmente árdua. A divisão blindada do general israelense Elad Peled começara a atacar Jenin às 17h de 5 de junho, tendo na vanguarda urna brigada sob o comando do coronel Moshe Bar-Kochva. No entanto, a Brigada Khaled el Walid (jordaniana), com seu batalhão de M47, ofereceu a mais obstinada resistência por toda a noite. Ao amanhecer, ainda era disputada a posse do entroncamento rodoviário de Qabatiya.

Para romper a resistência jordaniana, Peled enviou uma segunda brigada, comandada pelo coronel Uri Ram e composta sobretudo por carros de combate AMX13, deslocando-se para leste de Jenin. Na madrugada de 7 de junho, os tanques de ambos os lados reiniciaram os choques em Qabatiya, onde a IAF interveio de modo decisivo. A 40ª Brigada Blindada jordaniana, com sua força reduzida à metade, estava agora em sérias dificuldades, fustigada na retaguarda e com as linhas de comunicação bloqueadas pelo inimigo. O rei Hussein, abalado com a derrota das forças egípcias, ordenou uma retirada geral para a margem leste do Jordão.

Israel e Jordânia aceitaram o apelo da ONU para um cessar-fogo e as hostilidades terminaram às 20h de 7 de junho. Numa guerra que durou apenas 57 horas, Israel eliminou completamente as ameaças à margem oeste e expandiu suas fronteiras até o rio Jordão. As baixas jordanianas superaram 6.000 mortos e desaparecidos, além de um número não revelado de feridos. Já a Legião Árabe em nenhum momento se deixou abater e infligiu aos israelenses suas mais pesadas baixas sofridas durante a Guerra dos Seis Dias: 550 mortos e 2.500 feridos.

Hussein jamais esqueceria as falsas informações dos egípcios que o levaram à guerra, nem a falta do prometido apoio sírio. No segundo dia do cessar-fogo, Israel se lançava sobre o território da Síria.


FONTE: Guerra na Paz


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