A criação do Estado de Israel em região palestina (1948) está na raiz da Guerra dos Seis Dias, mas não é sua causa única.

A surpresa sempre foi um elemento fundamental na guerra. Da destruição da armada persa em Salamina (480 a.C.) ao ataque alemão nas Ardenas, em 1940, são numerosos os exemplos de campanhas militares decididas por lances inesperados.

No mundo contemporâneo, a surpresa desempenha papel ainda mais central, sobretudo porque o alto poder destrutivo das armas modernas significa que a capacidade de retaliação de um inimigo pode ser desmantelada com um só golpe. A solução para isso tem sido o desenvolvimento de formas cada vez mais sofisticadas de vigilância.

Em alguns exemplos a surpresa pode resultar de falha flagrante da vigilância e dos serviços de informação. Antes do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, a coordenação do serviço secreto americano era feita de maneira inadequada, o que não lhe permitia interpretar com precisão as intenções japonesas. Do mesmo modo, a surpresa da OTAN com a invasão da Tchecoslováquia pelos soviéticos, em agosto de 1968, deve ser atribuída, em boa parte, ao colapso dos sistemas de comunicação em todos os níveis. O presidente dos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson, foi informado da ação soviética não pelos seus próprios serviços de informação, mas pelo embaixador soviético, enquanto comandantes da OTAN souberam do fato pelos jornais e televisão.

Três navios de guerra dos EUA em chamas após o ataque japonês a Pear! Harbor, em 7 de dezembro de 1941, o mais célebre exemplo de ataque inesperado nos tempos modernos.
1968: Depois de manobras diversionistas que enganaram completamente a Inteligência da OTAN, tropas soviéticas invadiram a Tchecoslováquia e puseram fim a proposta de um “socialismo mais humano”…

Informações sobre o que pretende um adversário são recebidas com regularidade, mas não avaliadas da forma devida. Assim, durante os preparativos dos árabes para atacar Israel na Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, muitos indicadores das intenções árabes foram mal interpretados pelo serviço secreto israelense. Atribuíram-se as concentrações de tropas sírias a planos defensivos e os movimentos egípcios a manobras de rotina — e nenhuma correlação se fez entre os dois. Tampouco se deu importância à retirada das famílias de técnicos soviéticos do Egito dois dias antes do ataque. Alguns oficiais do serviço secreto levantaram a questão, mas não convenceram seus superiores.

À falha dos serviços secretos israelenses, que não previram o ataque juntou-se um erro dos americanos. Quando, nos EUA, um grupo de acompanhamento da crise foi montado no primeiro dia da guerra, vários membros, entre os quais o secretário da Defesa, o presidente da Junta de Chefes do Estado-Maior e o diretor da Agência Central de Informações (CIA), ficaram sabendo que Israel é que atacara os árabes.

No entanto, a falha provém com mais freqüência da capacidade que militares e líderes políticos têm de auto-iludir-se. Na Guerra da Coréia, em outubro de 1950, as diversas advertências dos chineses sobre uma intervenção iminente foram interpretadas como blefe. Quando se detectaram provas de uma gradual concentração militar chinesa na Coréia do Norte. ,imaginou-se que os chineses tinham objetivos limitados e esses não se estenderiam a uma ofensiva contra as forças da ONU. Em 1973, os israelenses estavam convencidos de que os egípcios não se arriscariam em outra guerra até pelo menos 1975.

Logicamente, o esquema de contra-informação empregado pelo inimigo também pode contribuir para a surpresa decorrente de erros de informação ou avaliação. No nível estratégico, a preparação norte-coreana para a invasão da Coréia do Sul em junho de 1950 não foi detectada, em parte porque haviam ocorrido constantes violações de fronteira no passado. Em outubro de 1956. Os israelenses levaram os egípcios a sentir-se seguros, fingindo dirigir ações contra a Jordânia e não contra o Sinai. E em junho de 1967, pouco antes do ataque israelense, Moshe Dayan afirmou que era tarde demais para Israel reagir militarmente ao fechamento do estreito de Tiran, recomendando uma ação diplomática.

Por sua vez, os egípcios confundiram os israelenses, fingindo mobilizar-se total ou parcialmente em cerca de vinte ocasiões diferentes, entre dezembro de 1972 e outubro do ano seguinte. Uma grande mobilização egípcia, em maio de 1973, custou aos israelenses cerca de 6 milhões de dólares para também se mobilizarem, mesmo contra a opinião do chefe de seu serviço de informações, general Eliahu Zeira. Diante de idêntica situação em outubro, Zeira declarou: “Da outra vez eu lhes disse que nada aconteceria, mas vocês não acreditaram. Digo-lhes de novo: nada acontecerá“. Em defesa de Zeira, deve-se lembrar que crises são mais comuns do que guerras e que os erros de interpretação constituem um risco funcional dos serviços secretos. A invasão da Tchecoslováquia pelos soviéticos, em agosto de 1968, também foi marcada por tentativas de simular intenções não militares. Na época da invasão, a União Soviética havia encerrado uma série de manobras na fronteira tcheca e as tropas aparentemente haviam começado a dispersar-se, enquanto o presidente Johnson se recolhia a sua fazenda para férias de verão.

O ataque israelense surpreende porque todas as partes beligerantes estavam prontas para o combate havia 4 dias. A Força Aérea egípcia foi pega no seu momento de maior vulnerabilidade, mais precisamente às 8h45min, hora do Cairo.

A surpresa também pode ser preparada em nível tático. Em 1956, o ataque inicial dos paraquedistas de Israel no desfiladeiro de Mitla foi anunciado como uma “represália”, a fim de levar os egípcios a acreditar que se tratava de ato isolado. Em 5 de junho de 1967, ao procurar destruir a Força Aérea egípcia de um só golpe, os israelenses tiveram o cuidado de não atacar ao amanhecer nem no pôr-do-sol, quando uma investida desse tipo é esperada; marcaram o ataque para 8h45, hora egípcia, quando os egípcios já haviam relaxado do alerta matinal.

Os israelenses viram-se igualmente surpreendidos em outubro de 1973, com o emprego pelos egípcios de mangueiras de água de alta pressão para romper linhas inimigas nas margens de Suez; e também pelo uso intensivo, por parte dos árabes, de mísseis antitanque e antiaéreos. Em agosto de 1968, os artifícios táticos dos soviéticos incluíram o lançamento em Praga de paraquedistas por aviões civis.

A surpresa associa-se sobretudo ao início de guerras, quando é possível obter importantes vantagens nas primeiras e vitais horas de conflito. Na verdade, a surpresa não precisa ser total para resultar em sucesso espetacular. Os israelenses compreenderam tardiamente, em 1973, que um ataque era iminente e ordenaram a mobilização total às 10h de 6 de outubro. Mas quatro horas foram um tempo curto para reagir com eficácia à ameaça árabe. No decorrer da guerra é mais difícil surpreender, mas mesmo assim isso tem sido possível em diversas ocasiões. Na Segunda Guerra Mundial, os Aliados ocidentais conseguiram desinformar os alemães na invasão da Normandia, em junho de 1944, mesmo com estes cientes de que uma invasão estava próxima. Tanto os desembarques de Inchon, feitos pelas forças da ONU em 15 de setembro de 1950, na Guerra da Coréia, quanto a ofensiva norte-vietnamita do Tet, em janeiro de 1968, valeram-se da surpresa.

O sucesso dos israelenses em junho de 1967 é o caso mais impressionante, porque ambos os lados já estavam mobilizados havia quatro dias.

A possibilidade de jogar com o inesperado na guerra moderna tinha particular significado para a OTAN e também para o bloco soviético. Antes supunha-se que a OTAN receberia informações com no mínimo três semanas de antecedência sobre qualquer ofensiva na Europa central, mas o aumento do poderio do Pacto de Varsóvia permitia que os soviéticos lançassem um ataque a partir de uma “largada estática”, sem mobilização prévia. Um intervalo suficiente para pôr-se em alerta era considerado fundamental pela OTAN, como forma de ganhar tempo nos preparativos de defesa.

A OTAN dispunha de uma vasta gama de sistemas de alta tecnologia para sondar as intenções do Pacto de Varsóvia. Embora o constante fluxo de imagens via satélite para os centros de informações pudesse revelar movimentos estranhos, confiava-se mais na interceptação das comunicações do bloco soviético —tarefa freqüente para o então sofisticado equipamento da Europa ocidental, instalado em centros como Cheltenham, na Grã-Bretanha. Esse trabalho envolvia dois tipos de atividade: identificação e classificação de transmissores e outros aparelhos militares; e interceptação e decodificação de mensagens. Embora o inimigo, cuidadoso, em geral não ponha em risco seus segredos, transmitindo eletronicamente instruções sujeitas a ser captadas pelo outro lado, é muito difícil contornar a necessidade de enviar informações importantes dentro de um mesmo organismo militar ou entre organismos diferentes.

Mas, qualquer que seja a sofisticação da tecnologia óptica e eletrônica usada para observar o adversário, a possibilidade de surpresa e dissimulação permanece. Alguém sempre terá de tomar a crucial decisão: é um ataque ou uma farsa, uma mobilização ou simples manobra? A sorte ou o discernimento de líderes políticos e comandantes militares definirão, em última instância, as possibilidades de um ataque-surpresa bem-sucedido.


FONTE: Guerra na Paz


ANTERIOR: Preparativos para a guerra

PRÓXIMO: As margens do Jordão

Anúncios

1 COMENTÁRIO

  1. O fato de a "Inteligência" ter informações precisas do inimigo, mesmo sem erros de interpretação, não é garantia de vitória. Ter essa vantagem faz uma enorme diferença, mas no campo de batalha as coisas podem se inverter.
    Um exemplo desse caso é a Invasão de Creta pelos alemães em 1941, os ingleses tinham interceptado informações pela "enigma" acerca da invasão, tendo antevisto detalhes de dia, hora e locais da invasão. Tinham superioridade numérica em soldados, equipamentos pesados e naval. Mesmo assim, os paraquedistas alemães, com 25% de baixas e muita dificuldade no início, ganharam a batalha, com uma ótima cobertura aérea, impondo duras perdas aos ingleses.
    A "Inteligência" é extremamente importante no campo de batalha, mas sua vantagem pode ser anulada no decorrer da batalha. Das guerras árabes-israelenses, tiramos uma boa conclusão, a inteligência garantiu uma espetacular vitória aos israelenses em 1967, mas em 1973, não foi o suficiente para os egípcios e sírios, pois no campo de batalha, o treinamento e seriedade falaram mais alto.

Comments are closed.