A criação do Estado de Israel em região palestina (1948) está na raiz da Guerra dos Seis Dias, mas não é sua causa única.

Apesar de ter desempenhado papel essencial no desencadeamento do conflito no Oriente Médio, a Síria pouco contribuiu do ponto de vista militar para apoiar seus aliados na Guerra dos Seis Dias. Na manhã de 5 de junho de 1967, sua Força Aérea realizou um ataque às refinarias de petróleo de Israel em Haifa, mas foi posta fora de combate, na mesma tarde, por um contra-ataque da Força Aérea Israelense. As atividades sírias limitaram-se então ao bombardeio de colônias judaicas na Galileia e a ataques (rechaçados) contra kibutzim isolados.

E possível que Damasco tencionasse atacar enquanto a Força de Defesa Israelense estivesse ocupada com o Egito e a Jordânia. Mas, depois dos desastres no Sinai e na margem oeste do Jordão, essa estratégia mudou para uma defesa passiva. O Exército sírio provavelmente não obteria sucesso onde seus aliados haviam fracassado e, talvez, por isso seu Alto-Comando tenha desistido de enviar os reforços prometidos ao rei Hussein: tal medida poderia constituir a provocação final, capaz de dar pretexto a um ataque geral de Israel à própria Síria.

A fronteira sírio-israelense, com apenas 80 km de extensão, tinha quase um terço do total coberto pelo mar da Galiléia. Ao norte ficam as colinas de Golan, que culminam no maciço do monte Hermon, com 2.750 m de altura. A Síria tanto fortificara as colinas, de onde se pode ver o território judaico, que suas casamatas eram à prova de artilharia ou ataques aéreos, e só vulneráveis a forças terrestres.

A área defensiva dê Golan estava a cargo de três brigadas israelenses de infantaria e dezenas de carros de combate, enquanto os sírios reuniam 450 tanques, mantinham duzentos na reserva e sua poderosa artilharia tinha ao alcance da mira qualquer alvo potencial nas proximidades.

Israel relutara de início em lançar um ataque à Síria, pois isso poderia trazer a União Soviética para dentro do conflito. No entanto, com a derrota do Egito e da Jordânia, esse perigo deixara de existir. Decidiu-se então capturar as colinas de Golan, que serviriam como fronteira natural.

Canhões israelenses voltados contra posições sírias
Tanque sírio jaz sobre a montanha

A ofensiva israelense realizou-se sob a direção do Comando Norte, do general David Elazar. Para apoiar as tropas já na região, formações com grande experiência de combate foram remanejadas do Sinai e dá margem oeste. O processo continuou durante toda a batalha, até que Elazar teve sob seu comando numerosos e bem adestrados contingentes.

A mais meridional das três estradas que cruzavam as colinas de Golan estendia-se ao longo do estreito corredor de terra entre o mar da Galiléia e as posições ultrafortificadas da fronteira jordaniana; a segunda seguia em linha reta através das colinas, vindo da ponte de Bnot Yaaqov, mas era coberta por duas sólidas posições sírias; a via ao norte cruzava as escarpas mais baixas do monte Hermon. Ali, Elazar decidiu lançar seu principal ataque, pois, embora a área tivesse a cobertura da cidadela de Tel Azzaziat, as defesas antitanque sírias eram menos intensas. O objetivo era abrir a rodovia, passando por Baniyas e Zaura, até Masada, e em seguida desarticular toda a frente síria. O ataque seria feito pela Brigada Golani, com a brigada blindada de Mandler a sua direita; a missão de Mandler era bombardear o complexo fortificado de Qala. No comando geral da operação ficou o General-de-Brigada Dan Laner, chefe do Comando Norte.

A ofensiva foi desencadeada na manhã de 9 de junho. Ataques maciços da IAF fustigaram as defesas sírias, que pareciam manter sua capacidade de resistência. Dois batalhões da Brigada Golani, com o apoio de carros Sherman, avançaram para o norte do kibutz de Kfar Szold e escalaram as escarpas, deixando Tel Azzaziat a sua esquerda. Um ataque frontal a essa fortaleza era temerário, mas descobrira-se que Tel Azzaziat poderia cair com uma ofensiva pela retaguarda. Tal operação, no entanto, seria alvo fácil de outra posição fortificada em Tel Faher. Os israelenses decidiram avançar sobre a posição.

As tropas atacantes foram imediatamente alvejadas pela artilharia síria, enquanto os Sherman eram atingidos pelo fogo de carros de combate e canhões antitanque. Além disso, minas destruíram parte do apoio blindado israelense, mas alguns veículos conseguiram atingir o platô. Ali, o aspecto das defesas sírias revelou-se apenas aparente. Tel Faher era um viveiro de casamatas, trincheiras, ninhos de metralhadoras e posições antitanque circundadas por campos minados e três cercas duplas de arame farpado. Comandantes de batalhão, companhia e pelotão de Israel foram mortos, mas logo substituídos. A batalha estendeu-se por todo o dia e às 18h Tel Faher estava nas mãos dos israelenses. Ao mesmo tempo, o terceiro batalhão Golani abrira caminho para o norte pelo topo das colinas. Ao entardecer, lançou um ataque com apoio de carros de combate sobre as defesas de retaguarda de Tel Azzaziat, subjugando por completo a fortaleza.

Temendo um ataque em grande escala ao seu território, principalmente a Damasco, a Força Aérea Síria manteve-se dentro das fronteiras, o que facilitou enormemente o trabalho da Força Aérea Israelense. A pouca oposição aérea dos sírios logo foi neutralizada pelos bravos e experientes pilotos israelenses.

No Sul, a brigada blindada de Mandler envolvera-se numa batalha igualmente obstinada. Sua linha de frente estava próxima à da Brigada Golani. Escalaram a montanha em fila indiana, castigados pela artilharia síria. Vários carros de combate foram atingidos e postos fora de ação, mas seus tripulantes se juntaram ao batalhão de infantaria mecanizada que também perdera alguns veículos meia-lagarta.

Atingindo o topo, o batalhão de carros de combate na vanguarda, comandado pelo tenente-coronel Biro, seguiu através do platô na direção sudeste, rumo a Qala. Os planos de Mandler levaram em conta que as defesas do oeste de Qala eram das mais aguerridas e só permitiam aproximação indireta, pelo norte, através de Zaura. Devido à poeira e à fumaça levantadas pelo fogo de artilharia de ambos os lados, o batalhão de Biro não observou um vital entroncamento de trilhas e rumou direto para Qala, ficando frente a frente com as defesas sírias. Na feroz troca de fogo que se seguiu, Biro foi seriamente ferido e o comando do batalhão passou ao tenente Natti, do esquadrão de vanguarda, que continuou a atacar acreditando que o resto da brigada chegaria em breve.

Apesar de saber que cometera um erro, Mandler decidiu prosseguir no plano original com o restante da brigada. Natti continuou a atacar, mesmo sem chance de vencer. Ao cair da noite, pediu um ataque aéreo para aliviar a pressão sobre os dois carros de combate que lhe restavam. Minutos depois, Mandler lhe comunicou que a brigada estava passando por Zaura e se aproximava pelo norte. Preocupados com a perspectiva de cerco, os sírio retiraram-se de Qala nas primeiras horas da noite.

Peça de artilharia síria, vendo-se ao fundo colônias israelenses, no vale abaixo das colinas
Paraquedistas israelenses

Mais ao sul, um ataque de infantaria através do rio Jordão conseguira tomar as elevações ao norte de Bnot Yanov, e a brigada de Ram, escalando montanhas pela segunda vez numa semana, passou adiante para capturar a vila de Rawiye. A estrada central das colinas de Golan, ligando Quneitra a Bnot Yaaqov, foi então cortada por um ataque blindado israelense pelo sudeste, isolando as unidades sírias posicionadas a oeste.

Na manhã seguinte acelerou-se a ofensiva israelense. Nas colinas de Golan e na praia oriental do mar da Galiléia realizavam-se ações rápidas. Entre o mar e a fronteira jordaniana abria-se nova frente, controlada pela divisão do general Elad Peled, que ainda retinha parte de seus blindados, embora contasse agora sobretudo com formações de infantaria, inclusive a brigada de paraquedistas de Gur. Um ataque por partes, com apoio aéreo maciço, garantiu a captura de Taufiq, abrindo o corredor. Os paraquedistas foram lançados de helicóptero bem mais à frente, no vale de Yarmuk, chegando a Butmiye.

Grandes perdas

Os sírios haviam lutado com bravura no dia anterior, mas em 10 de junho de 1967 sofriam claros reveses, em parte porque a IAF dominou os céus e as tropas de solo israelenses pareciam fortalecer-se; mas também porque seu próprio Alto-Comando se revelara incapaz de responder ao avanço inimigo. Atravessando um cenário já familiar de veículos destruídos ou abandonados, Mandler entrou em Quneitra sem encontrar resistência, às 14h do mesmo dia. O regime sírio temia um avanço sobre Damasco e, por meio da URSS, apelou à ONU por um cessar-fogo, obtido naquela noite.

Soldado israelense em frente a uma propaganda árabe

Os combates pelas colinas de Golan custaram à Síria 2.500 mortos, 5.000 feridos e aproximadamente 100 carros de combate e 200 peças de artilharia. As baixas israelenses somaram 115 mortos e 306 feridos. As perdas materiais foram altas, mas restava a tarefa de transformar as defesas de Golan em posições seguras diante da contra-ofensiva síria que, dada a natureza das relações árabe-israelenses, mais cedo ou mais tarde deveria ocorrer.


O mistério do Liberty

O presidente Nasser e outros dirigentes árabes que tomaram parte na Guerra dos Seis Dias estavam convencidos de que os EUA colaboraram com Israel no planejamento ou na execução da ofensiva. Mas a indefinição das relações entre Israel e os EUA jamais fora tão patente como no ataque ao USS Liberty. O Liberty era um navio da US Elint (Electronics Intelligence), encarregado de missão de vigilância na costa do Sinai. Em 8 de junho de 1967 o navio se deslocava na direção noroeste, ao norte de El Arish, quando foi atacado por torpedeiros e aviões israelenses. Por uma combinação de sorte e boa marinhagem, o Liberty manteve-se flutuando e conseguiu atingir o porto de Malta em 14 de junho, mas 34 homens morreram e catorze foram feridos. Caças da Marinha americana, do porta-aviões USS America: socorreram o Liberty, mas não travaram combate com os caças israelenses.

Nenhuma explicação desse evento jamais foi dada nem pelo governo dos EUA nem pelo de Israel. O Liberty identificava-se, por bandeiras e sinais, como um navio americano. Mesmo que tivesse cometido um erro a princípio, os israelenses deviam ter percebido que estavam lidando com um navio americano antes do final do ataque. Entre as várias especulações em torno do caso, tem-se sugerido que o Liberty estava atuando em associação com um submarino Polaris, o Andrew Jackon, que teria instruções de atingir instalações de mísseis israelenses, caso viesse a ocorrer um ataque de mísseis de Israel ao Egito.

O governo dos EUA apresentou uma versão suavizada do ataque, que não afetou as relações com Israel. Oficialmente, os israelenses nunca pediram desculpas pelas perdas de vida que causaram, embora tenham oferecido compensações financeiras às vítimas.


FONTE: Guerra na Paz


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1 COMENTÁRIO

  1. O Bombardeiro Vautuor e um dos meus preferidos . Acho que poderia ter sido uma opção para a FAB no lugar dos velhos B-26 .

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