AF#Em dezembro de 1979, as tropas soviéticas invadiram o Afeganistão numa tentativa de reforçar o governo comunista e pró-soviético, ameaçado por uma rebelião interna.

No dia 29 de novembro de 1979, o general soviético Viktor Paputin voou para Cabul, presumivelmente com a espinhosa tarefa de convencer o primeiro-ministro Hafizullah AMin a entregar o governo ao “traidor” Babrak Karmal, exilado desde 1978.

A autorização para a entrada de tropas da União Soviética no Afeganistão, nos termos do tratado de amizade firmado em dezembro de 1978, também deve ter constado das discussões de Paputin e Amin. Como era de esperar, Amin resistiu às pressões — e a recusa selou seu destino.

Blindado soviético patrulha o centro de Cabul.
Leonid Brejnev ao lado de seu protegido afegão Babrak Karrnal. Moscou esperava superar a crise no Afeganistão instalando no poder o moderado Karmal em lugar do radical Amin.

Nas semanas seguintes, mais de 100.000 homens de unidades motorizadas soviéticas, apoiados por blindados e artilharia, ocuparam posições junto à fronteira afegã. Em 20 de dezembro, os blindados da 105ª Divisão Aerotransportada de Guardas, sediados na localidade uzbeque de Ferghana, deslocaram-se para o sul, dominando o estratégico túnel Salang, de 5 km de comprimento. Por ele costumavam seguir os suprimentos soviéticos para o regime de Amin; por ele avançaria boa parte das tropas encarregadas de derrubá-lo.

Às 23h do dia 24 de dezembro, unidades da 105ª Divisão começaram a aterrissar no aeroporto de Cabul, estabelecendo uma cabeça-de-ponte. Outras unidades seguiram para a base aérea de Bagram, na periferia da capital, e para as demais bases do país. Durante dois dias, uma ponte aérea realizada por aviões militares e civis, estes da Aeroflot, elevou a quase 5.000 o número de soldados soviéticos presentes em Cabul.

Paralelamente, os 1.500 conselheiros militares da URSS na capital afegã tentaram persuadir seus comandados de que tudo não passava de um exercício em larga escala. Alguns destacamentos sob controle soviético receberam munição de festim, “para as manobras”; os blindados de outras unidades foram imobilizados para reparos ou tiveram suas baterias removidas. Tais precauções mostram que os soviéticos estavam conscientes dos sentimentos anti-russos no Afeganistão — e indicam seu elevado grau de controle das Forças Armadas do país. As 19 hs do dia 27, as tropas soviéticas na capital prosseguiram em sua ofensiva. Foram capturados vários pontos-chave, entre os quais o Ministério do Interior — sede da temida polícia secreta de Amin — e a central telefônica. Uma coluna de VBTT (veículos blindados de transporte de tropas) deslocou-se de Bagram com o apoio de peças de artilharia ASU-85 e cercou o palácio Darulaman, protegido por um regimento de carros de combate. Em seu interior estava o primeiro-ministro.

Os soviéticos fizeram intenso uso de helicópteros no Afeganistão…
…pagando um alto preço.

Os acontecimentos subsequentes permanecem controvertidos. Aparentemente, o general Paputin discutiu com Amin e foi baleado por um de seus guarda-costas. Na defesa do palácio, tomado de assalto por paraquedistas, o primeiro-ministro morreu e com ele desapareceram as justificativas de Moscou, que alegava agir em apoio ao governo do Afeganistão. Por volta das 23h do dia 28 de dezembro de 1979, o centro de Cabul estava sob controle soviético. Anunciou-se que Babrak Karmal fora “eleito” secretário-geral do PDPA, enquanto Amin era oficialmente “desmascarado” como agente da CIA. O novo governo solicitou o imediato amparo soviético nos campos moral, político, militar e econômico, declarou respeitar a religião muçulmana e comprometeu-se a levar a julgamento os “carrascos” da polícia secreta de Amin, acusado do assassinato de cerca de 25.000 afegãos.

Nos dias seguintes, outras quatro divisões soviéticas chegaram ao Afeganistão. A 66ª e a 357ª Divisões Motorizadas de Rifles seguiram para as capitais provinciais de Herat e Kandahar, a noroeste e ao sul do país. A 201ª e a 360ª divisões cruzaram numa ponte flutuante o rio Amu Darya, de 1 km de largura, e procuraram estabelecer ligação com as unidades da 105ª Divisão, que rumavam para o túnel Salang a partir de Bagram. As duas colunas dispunham de VBTT, carros de combate T54 e T62 e artilharia. A proteção aérea ao avanço era assegurada por várias esquadrilhas de caças-bombardeiros MiG-23.

A oposição às forças soviéticas foi insignificante. Surgiram relatos de que a 8ª Divisão afegã desenvolveu forte resistência aos invasores, mas são exageradas as estimativas da ocorrência de 2.000 baixas durante a intervenção. Nos meses seguintes, porém, cerca de metade dos 40.000 homens do Exército afegão desertou. A maioria voltou para suas aldeias, mas muitos se juntaram aos mujahidin, os “santos guerreiros” — resolutos combatentes das guerrilhas muçulmanas.

Seguiu-se um período de relativa calma, com a construção de campos fortificados e o envio de novas unidades de intervenção. A presença da 16ª e da 54ª Divisões Motorizadas de Rifles elevou a 80.000 os efetivos soviéticos no Afeganistão. Sem tropas suficientes para dominar todo o país, os soviéticos deram prioridade ao controle das áreas urbanas e à proteção de suas linhas de comunicação. Os quartéis-generais das divisões foram estabelecidos ao longo das estradas que interligam Cabul, Herat e Kandahar. Construíram-se grandes bases em torno dos principais aeroportos militares afegãos — em Shindand, Bagram, Cabul, Herat, Kandahar, Farah e Jalalabad —, enquanto batalhões ou mesmo companhias protegiam os pontos estratégicos. Os soviéticos concentraram seus esforços na defesa do túnel Salang, particularmente vulnerável às incursões guerrilheiras. Um trecho da estrada entre o túnel e Cabul era tão perigoso que se tornou conhecido como “a milha da morte”.

Um novo Vietnã?

Nas primeiras semanas após a invasão, o comando soviético procurou manter presença discreta, enviando o Exército afegão contra os guerrilheiros. Em fevereiro de 1980, as deserções e a desmoralização das tropas governamentais obrigaram à adoção de uma nova política. Os afegãos de mais de 21 anos poderiam ser mobilizados para o desempenho de serviços militares de rotina, enquanto o Exército afegão e os soviéticos preparariam conjuntamente o ataque aos rebeldes. A chegada ao Afeganistão de lançadores de foguete BM-21 e de helicópteros artilhados Hind Mi-24 fez crescer o impacto da operação projetada.

Por volta de março, unidades dos dois exércitos investiam contra os guerrilheiros em três áreas montanhosas: em torno de Herat, isto é, a oeste, na região fronteiriça ao Irã; nas províncias orientais, adjacentes ao Paquistão; e na região central de Hazarajat.

A ofensiva tinha dois objetivos básicos. Em primeiro lugar, os guerrilheiros deveriam ser desalojados do vale de Panjshir, a noroeste de Cabul, e de outros “santuários”. Em seguida, as fronteiras afegãs deveriam ser patrulhadas e minadas, para impedir o afluxo de suprimentos.

Os resultados da primeira arrancada podem ser avaliados pelo desenvolvimento da luta no vale de Panjshir. Até janeiro de 1984 esse vale estreito, de 110 km de comprimento e 100.000 habitantes, havia resistido a seis ataques em larga escala. Ahmad Shah Massoud, comandante das forças guerrilheiras locais, estabeleceu, entre uma campanha e outra, um cessar-fogo com os soviéticos.

A resistência no vale de Panjshir não foi episódio isolado. Embora os soviéticos tivessem recorrido a assaltos de helicópteros e bombardeios com napalm, não conseguiram impedir que os guerrilheiros utilizassem sua tradicional tática de ataque e fuga. Com isso, as baixas se avolumaram, sobretudo entre a população civil. De 1979 ao final de 1984, os combates e bombardeios causaram mais de 1 milhão de mortes.

A pequena força aérea do Afeganistão contava com um punhado de velhos MiG-17.
Ao contrário dos EUA no Vietnã, os soviéticos nunca enfrentaram oposição aérea, mas mesmo assim, patrulhas CAP eram mantidas. O Kremlin temia que aviões de transporte dos EUA estivessem municiando os rebeldes.

O emprego de tropas soviéticas em operações de combate no Afeganistão trouxe à luz algumas debilidades em seu treinamento. A guerra nas montanhas contra um inimigo ardiloso exigia apoio aéreo eficaz, operações contínuas de reconhecimento e enorme resistência física, e isso ultrapassava o nível de desempenho que era possível esperar das diversas unidades. Nas rudes condições do inverno afegão, os carros de combate e VBTT sofriam constantes avarias; ainda mais importante, a necessidade de ação independente e de decisões rápidas pressionava com intensidade a oficialidade jovem e os sargentos, preparados para atuar “conforme o manual”. Em resumo, pode-se dizer que a estrutura de comando e os equipamentos soviéticos, concebidos para guerras convencionais, mostraram-se inadequados a urna campanha anti-guerrilha.

Todavia, o Afeganistão jamais veio a constituir um “Vietnã soviético”. Isso porque — no início de 1985 — havia somente 110.000 soldados da URSS no país e menos de 20% participavam de operações de combate; e também porque as divergências entre as várias dezenas de grupos guerrilheiros — sunitas, xiitas, monarquistas etc. — dispersavam seu potencial ofensivo contra o invasor. Por fim, os soviéticos logo conseguiram redefinir sua estratégia na região.

Muitos analistas ocidentais se convenceram de que a URSS estava no Afeganistão para ficar — e, por isso, pretendia modificar lenta, mas irreversivelmente, a estrutura social do país. Daí a prioridade dada a operações defensivas ou de represália e a “coexistência pacífica” com a guerrilha, como ocorreu no vale de Panjshir —, enquanto a urbanização e a industrialização corroíam as bases da economia tribal e os costumes dos mujahidin. Estes poderiam continuar fustigando os comboios soviéticos: seus avós fizeram exatamente o mesmo, sem resultados decisivos, contra a Grã-Bretanha — parceira da Rússia czarista naquilo que o escritor inglês Rudyard Kipling denominava “o grande jogo”, isto é, o controle europeu sobre as vastidões da Ásia central.

No dia 15 de maio de 1988, mais de oito anos depois que eles intervieram no Afeganistão para apoiar o governo procomunista, as tropas soviéticas começam a sua retirada. O evento marcou o começo do fim a uma ocupação soviética longa, sangrenta e infrutífera.

Para a União Soviética, a intervenção provou ser extraordinariamente onerosa de várias maneiras. Enquanto os soviéticos nunca divulgaram números oficiais de baixas para a guerra no Afeganistão, fontes de inteligência dos EUA estimaram que cerca de 15 mil soldados russos morreram no Afeganistão e o custo econômico para a já em dificuldade economia soviética foi de bilhões de dólares. A intervenção também forçou as relações entre a União Soviética e os Estados Unidos quase ao ponto de ruptura. O presidente Jimmy Carter criticou duramente a ação russa, interrompeu as negociações sobre limitações de armas, emitiu sanções econômicas e até ordenou um boicote aos Jogos Olímpicos de 1980, realizados em Moscou.

Para o Afeganistão, a retirada soviética não significou o fim da guerra. Os rebeldes muçulmanos eventualmente conseguiram estabelecer o controle sobre o Afeganistão em 1992.


FONTE: Guerra na Paz; History


Quer saber mais como foi a vida soviética no Afeganistão? Clique no link abaixo:

Aviões e helicópteros soviéticos operando no Afeganistão – parte I


Dica de filme: Pelotão 9

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8 COMENTÁRIOS

  1. Na minha adolescência, eu e muitos amigos meus tínhamos uma profunda admiração pelos mujahidin. Todos nós filhos de militares, com fragmentos da Military Review e reportagens da Globo, víamos eles como os caçadores de leões africanos. Quem foi jovem nos anos 80 conhece o temor e o respeito que a União Soviética provocava dentro de nós. Cada equipamento militar era envolto em mistério! Eficiência, aptidão, prontidão…Números e informações exageradas. Parecia que eles poderiam destruir o mundo dez vezes com o simples toque de um botão. Botar os russos pra correr inspirava! Nós até usamos as nossas camisetas dobradas ao redor da cabeça na tentativa de imitá-los. Funcionou até a brigada nos parar e distribuir algumas coturnadas nas canelas. Foi o fim do levante mujahidin no sul do Rio Grande do Sul…

  2. Soube de um "causo" nessa guerra, em que o controlador aéreo designou um alvo a um Mig-23 que estava em patrulha, porém esse já estava com sua munição esgotada. Mas o alvo era uma cafila (coletivo de camelos) de carga para os guerrilheiros. Para não perder a oportunidade, o Mig deu um rasante, rompendo a barreira do som acima da manada, que partio em uma descontrolada disparada.

  3. Bela Matéria!
    O filme 9° Pelotão conta um pouco dessa história. História verídica da década de 1980, na guerra do Afeganistão, um grupo de jovens recrutas russos integra o 9º Batalhão, e idealisticamente lutam e alguns morrem violentamente na defesa da colina 3234.
    . https://www.youtube.com/watch?v=I5bHsAn8X3E

  4. A experiência soviética no Afeganistão teve, em verdade, muito menos semelhança com o Vietnam do que a recente campanha que os americanos tiveram nesse mesmo país.

    No caso específico do Vietnam, os americanos estavam, por assim dizer, com a faca e o queijo na mão para resolver a situação na hora em que quisessem. Não foi essa a situação que os russos encontraram… Pra começo, não havia uma infraestrutura que pudesse ser ataca, exceto por um punhado de depósitos em vilarejos remotos ( a principal infraestrutura de apoio estava fora do Afeganistão ), ao passo que o Vietnam apresentava toda uma série de cidades que eram centros produtores e de concentração de recursos ( como Hanói ), além de portos, aeroportos, usinas elétricas, muitas pontes, estradas, etc… Politicamente, a situação também era muito mais complexa, com a URSS praticamente isolada nessa questão, enfrentando praticamente tudo e todos sozinha ( o governo afegão era uma bagunça )…

    As maiores semelhanças, por assim dizer, estão nas táticas utilizadas pelas tropas em solo e pela aviação de helitransporte, devido ao enfrentamento com forças que usavam essencialmente as mesmas táticas de guerra de terceira geração.

    • A verdade que no Vietnã existia tres guerras dentro de uma: Uma contra o Vietcong, uma guerra de guerrilha classica, a guerra contra o suporte do Vietnã do Norte(guerra classica pode-se dizer) a essa guerrilha e a guerra diplomatica do apoio Sovietico e Chines contra os EUA.

      Militarmente os EUA foram até que bem nessa guerra, mas o incapacidade politica e diplomatica em lidar ou até mesmo evitar um atrito maior que jogou os EUA na derrota. Mas era uma guerra que em nada iria infligir aos EUA se ele não entrasse e aí é a diferença ao Afeganistão.

      O Afeganistão para a URSS foi diferente. Ela sabia que ali era apenas o começo e que esse radicalismo islamico iria contaminar outros países da Asia ou suas proprias republicas. Talvez, digo talvez pois é quase um chute, o unico ponto "positivo" dessa guerra foi acelerar o fim da URSS (se isso dá para dizer que é positivo, a luz dos eventos de hj) pois aos EUA incentivarem o Islã a se defender, foi na realidade a abertura dos portões do inferno para o proprio Ocidente!

      Os efeitos do VIetnã foram na maioria concentrados pelo sudeste da Asia e internamente nos EUA, bem diferente do Afeganistão que reverberou pelo mundo tudo praticamente e até hj bate.

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